{"id":19325,"date":"2007-09-25T15:44:43","date_gmt":"2007-09-25T15:44:43","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19325"},"modified":"2007-09-25T15:44:43","modified_gmt":"2007-09-25T15:44:43","slug":"a-responsabilidade-social-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19325","title":{"rendered":"A responsabilidade social do jornalismo"},"content":{"rendered":"<p><span>O jornalista Eug&ecirc;nio Bucci deixou a presid&ecirc;ncia da Radiobr&aacute;s em abril &uacute;ltimo certo de haver cumprido o compromisso assumido com o presidente Lula, que o convidara para o cargo quando de sua elei&ccedil;&atilde;o para o primeiro mandato, em 2002. Com a experi&ecirc;ncia acumulada em reda&ccedil;&otilde;es e na universidade, e agora no servi&ccedil;o p&uacute;blico, Bucci reuniu massa cr&iacute;tica suficiente para produzir reflex&otilde;es t&atilde;o pertinentes quanto as que oferece na s&eacute;rie &quot;A imprensa e o dever da liberdade &ndash; A responsabilidade social do jornalismo em nossos dias&quot;, que o Observat&oacute;rio publica a partir desta edi&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>A tese central do texto &eacute; que o jornalista e o jornalismo t&ecirc;m o dever de ser livres de toda e qualquer amarra que comprometa sua independ&ecirc;ncia. De outra parte, Bucci tamb&eacute;m sustenta ser &quot;vital que a imprensa debata a imprensa&quot;, embora, no Brasil, ainda estejamos longe de &quot;tratar o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o no n&iacute;vel dos demais direitos, como a educa&ccedil;&atilde;o ou a sa&uacute;de&quot;. &quot;Onde esse direito n&atilde;o se faz respeitar integralmente, a liberdade necess&aacute;ria para bem informar a sociedade n&atilde;o pode ser exercida plenamente&quot;, afirma.<\/p>\n<p><\/span><span>O texto, como se ver&aacute;, n&atilde;o sugere f&oacute;rmulas prontas nem receitas universais, mas reafirma o papel da m&iacute;dia, da imprensa e de seu princ&iacute;pio ativo, o jornalismo, como fatores decisivos no processo de aperfei&ccedil;oamento da democracia. E reivindica mais qualidade ao jornalismo praticado nos meios de informa&ccedil;&atilde;o como condi&ccedil;&atilde;o essencial para a manuten&ccedil;&atilde;o de seu compromisso hist&oacute;rico com o interesse p&uacute;blico. Por isso mesmo a m&iacute;dia deve submeter-se ao exame continuado exercido pela sociedade: &quot;Quanto mais debatida publicamente, melhor &eacute; a imprensa&quot;, diz Bucci, que concedeu ao Observat&oacute;rio da Imprensa a entrevista a seguir.<\/p>\n<p><\/span><span>*** <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Por que deixou a presid&ecirc;ncia da Radiobr&aacute;s no in&iacute;cio do segundo mandato do presidente Lula? Continuar &agrave; frente da autarquia n&atilde;o seria importante para aprofundar as mudan&ccedil;as que promoveu nos quatro anos e tr&ecirc;s meses de sua gest&atilde;o?<br \/><\/strong><\/span><span>Eug&ecirc;nio Bucci &ndash; Eu j&aacute; havia anunciado, at&eacute; mesmo publicamente, desde 2005, que n&atilde;o continuaria no cargo ap&oacute;s o primeiro mandato. No final de 2002, ap&oacute;s as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais, eu enxergava uma grande abertura, uma oportunidade para imprimir mudan&ccedil;as de cultura na comunica&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. As portas de transforma&ccedil;&atilde;o me pareciam abertas. N&atilde;o sei se era uma vis&atilde;o sensata, mas o fato &eacute; que tive a sorte de contar com uma equipe de gente reconhecida, alguns com grande experi&ecirc;ncia e j&aacute; consagrados, como Celso Nucci, Carlos Knapp, Jos&eacute; Alberto da Fonseca, Henri Kobata, Pedro Fraz&atilde;o, Bruno Vichi, Roberto Gontijo, Gustavo Krieger e depois Jos&eacute; Roberto Garcez, que ficou na presid&ecirc;ncia da Radiobr&aacute;s ap&oacute;s a minha sa&iacute;da, Fl&aacute;vio Dieguez, Helenise Brant, al&eacute;m de jovens jornalistas como Rodrigo Savazoni, Andr&eacute; Deak, Alo&iacute;sio Milani, Spensy Pimentel e outros, que me ajudaram a mudar o que foi poss&iacute;vel mudar. <\/p>\n<p><\/span><span>Mudamos muito. Tentamos melhorar os servi&ccedil;os prestados aos cidad&atilde;os. Do come&ccedil;o ao fim, trabalhamos sob a convic&ccedil;&atilde;o de que o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o de que cada brasileiro &eacute; titular tinha de estar acima das causas partid&aacute;rias do governo. Em parte, conseguimos e o projeto foi reconhecido como sendo justo. Cumpri at&eacute; o fim meu compromisso com o presidente Lula e entreguei o cargo no dia 31 de outubro de 2006. A minha sa&iacute;da, por&eacute;m, tardou um pouco. Fiquei at&eacute; o momento em que o presidente designou um novo ministro para a &aacute;rea, que foi Franklin Martins, com quem me entendi bem. Levei a ele o projeto de fus&atilde;o da Radiobr&aacute;s com a TVE, que ele levou adiante. Claro que ainda h&aacute; mudan&ccedil;as necess&aacute;rias. H&aacute; desafios. Mas a minha parte est&aacute; feita.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Que balan&ccedil;o faz de sua passagem pelo governo e de ter trabalhado numa &aacute;rea t&atilde;o estrat&eacute;gica quanto a comunica&ccedil;&atilde;o? Qual sua maior alegria e a maior frustra&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; N&atilde;o me arrependo de ter ido para a Radiobr&aacute;s. N&atilde;o me arrependo de ter permanecido por quatro anos, tr&ecirc;s meses e vinte dias na fun&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o me arrependo de ter sa&iacute;do quando foi a hora. Aprendi muito, mas muito mesmo. Sou grato por isso. Acho que a minha maior alegria foi constatar que &eacute; poss&iacute;vel, numa empresa p&uacute;blica, informar o p&uacute;blico de modo objetivo, sem permitir que as press&otilde;es partid&aacute;rias contaminem o notici&aacute;rio. O governismo, no meu modo de ver, &eacute; um partidarismo ainda mais grave, &eacute; um partidarismo com agravante. Conseguimos varrer os piores v&iacute;cios do governismo na Radiobr&aacute;s. &Agrave;s vezes, escorregamos, e quando isso aconteceu tentamos reconhecer os erros e corrigi-los publicamente. <\/p>\n<p><\/span><span>A maior frustra&ccedil;&atilde;o foi n&atilde;o ter conseguido mudar o regime de obrigatoriedade de transmiss&atilde;o da Voz do Brasil, um tipo de comunica&ccedil;&atilde;o oficial que, al&eacute;m de anacr&ocirc;nico, &eacute; ridiculamente in&uacute;til. Cheguei a defender publicamente a flexibiliza&ccedil;&atilde;o do hor&aacute;rio obrigat&oacute;rio, ao lado do ent&atilde;o presidente da C&acirc;mara dos Deputados, Aldo Rebelo. N&atilde;o adiantou nada.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Voc&ecirc; se auto-imp&ocirc;s uma quarentena quando saiu da Radiobr&aacute;s. Por que o fez e para que lhe serviu o per&iacute;odo de recolhimento?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; S&oacute; agora estou saindo desse isolamento. Um per&iacute;odo de sil&ecirc;ncio que me fez bem. Embora a lei n&atilde;o exija quarentena para o cargo que ocupei, senti que incorreria em alguma ordem de conflito de interesses se assumisse alguma outra fun&ccedil;&atilde;o imediatamente. Eu me sentiria melhor se desse um tempo. E foi o que fiz. Depois, eu queria trabalhar em alguns textos que tinha deixado pendentes. Este, sobre o dever da liberdade, que o Observat&oacute;rio passa a publicar a partir de hoje, em quatro cap&iacute;tulos, &eacute; um desses trabalhos. Aproveitei o tempo para isso.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O tempo em que esteve na Radiobr&aacute;s coincidiu com o incremento da populariza&ccedil;&atilde;o, no Brasil, das tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o e com a maior relev&acirc;ncia do p&uacute;blico (leitor, ouvinte, telespectador, internauta) como personagem atuante &ndash; muitas vezes protagonista &ndash; no processo da comunica&ccedil;&atilde;o. Como, e com que resultados, as novas m&iacute;dias foram incorporadas pelo jornalismo praticado na Radiobr&aacute;s?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; Essa pergunta vem a calhar, porque nesse meu texto, &quot;A imprensa e o dever da liberdade&quot;, que &eacute; publicado agora pelo Observat&oacute;rio, n&atilde;o trato diretamente das novas tecnologias. Nele, eu me concentro no papel do jornalista, qualquer que seja o suporte, como dizem, se papel, internet, televis&atilde;o, r&aacute;dio. Tento frisar o dever de ser livre. Alguns afirmam que com as chamadas &quot;novas m&iacute;dias&quot; o lugar convencional do jornalista se dilui, e que surge uma esp&eacute;cie de parceria entre o profissional e o cidad&atilde;o leigo na condu&ccedil;&atilde;o da reportagem, pois todos podem atuar na rede de computadores, online, ao vivo, no calor da hora. Do ponto de vista das possibilidades t&eacute;cnicas que alargaram os alcances da intera&ccedil;&atilde;o entre os sujeitos &ndash; as redes independentes, as manifesta&ccedil;&otilde;es na internet, os blogs e assim por diante &ndash; isso &eacute; verdadeiro. Mas, do ponto de vista do zelo que o profissional da imprensa precisa ter em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; independ&ecirc;ncia, garantindo confiabilidade para os relatos que leva a p&uacute;blico, n&atilde;o houve altera&ccedil;&otilde;es, embora na superf&iacute;cie tudo se mostre meio embaralhado. Ao contr&aacute;rio, a independ&ecirc;ncia, nesse contexto, &eacute; mais crucial do que antes. <\/p>\n<p><\/span><span>No texto, procuro falar sobre a atualidade do tema da independ&ecirc;ncia. &Eacute; verdade que, em mat&eacute;ria de novas tecnologias, a nossa experi&ecirc;ncia na Radiobr&aacute;s avan&ccedil;ou consideravelmente, apesar da escassez de recursos. Por exemplo: a Ag&ecirc;ncia Brasil, sob a chefia de Rodrigo Savazoni, inaugurou, em junho de 2006, um novo projeto gr&aacute;fico e uma nova plataforma, inteiramente baseada em Creative Commons, um novo regime de compartilhamento de conte&uacute;dos, criado por Larry Lessig, de Stanford. A Ag&ecirc;ncia Brasil foi uma das primeiras a adotar esse protocolo no Brasil, em linha com as grandes modifica&ccedil;&otilde;es que o ambiente da comunica&ccedil;&atilde;o vem sofrendo. <\/p>\n<p><\/span><span>A prop&oacute;sito, h&aacute; um bom livro, The Wealth of Networks, de Yochai Benkler, de Yale, ainda n&atilde;o traduzido no Brasil, que reflete com precis&atilde;o e originalidade sobre esses novos cen&aacute;rios. O livro vem sendo debatido numa seq&uuml;&ecirc;ncia de semin&aacute;rios, no Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados da USP, que s&atilde;o coordenados pelo professor Imre Simon. A Ag&ecirc;ncia Brasil est&aacute; familiarizada e sintonizada com essas novas id&eacute;ias. Abrir os conte&uacute;dos, estabelecer links horizontais com outros portais, sites e blogs s&atilde;o desafios que contaram, no Brasil, com o pioneirismo de equipes da Radiobr&aacute;s. Rodrigo Savazoni e Andr&eacute; Deak, um outro jornalista da Ag&ecirc;ncia, j&aacute; trataram disso em artigos publicados no Observat&oacute;rio da Imprensa [ver &quot;Notas sobre a constru&ccedil;&atilde;o de um jornalismo livre&quot; , &quot;Nova prosa para novas m&iacute;dias&quot; e &quot;O bom e velho jornalismo est&aacute; morrendo&quot;]. O resultado do trabalho que eles realizaram n&atilde;o poderia ter sido mais animador. A Ag&ecirc;ncia conquistou alguns pr&ecirc;mios de jornalismo &ndash; como aconteceu com outros ve&iacute;culos da Radiobr&aacute;s &ndash; ao mesmo tempo em que abriu a sua produ&ccedil;&atilde;o para que outros a utilizassem com mais rapidez e flexibilidade, mas sem permitir que seu notici&aacute;rio fosse capturado por interesses engajados do governo ou dos movimentos sociais. Ela manteve sua autonomia. Aprofundou-a. Inovou tamb&eacute;m no plano da linguagem. Algumas coberturas contavam com infogr&aacute;ficos animados, com v&iacute;deos, com uma integra&ccedil;&atilde;o radical entre texto, som, imagem, design. Foi uma experi&ecirc;ncia bem satisfat&oacute;ria.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Como avalia a influ&ecirc;ncia que a crescente interatividade e a possibilidade ampliada de acesso a fontes alternativas de informa&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m exercido sobre a atividade jornal&iacute;stica? O jornalismo brasileiro, impresso e eletr&ocirc;nico, tem dado conta de acompanhar essa nova realidade?<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/span><span>E.B. &ndash; Com a internet, o cidad&atilde;o opina e interfere sobre o notici&aacute;rio a quente. Ele tem oportunidades para entrar no notici&aacute;rio. Com isso, claro, a rede de fontes potenciais tamb&eacute;m se amplia, o que nos traz uma raz&atilde;o a mais para se fugir daquele v&iacute;cio antigo de entrevistar sempre a mesma meia d&uacute;zia de fontes para os mesmos assuntos. Em nosso programa de qualidade editorial, liderado por Celso Nucci, procur&aacute;vamos exigir pluralidade e qualidade em mat&eacute;ria de fontes, para al&eacute;m do lugar-comum. Acho que vale mencionar que adotamos par&acirc;metros &eacute;ticos e editoriais, oficiais e p&uacute;blicos &ndash; n&oacute;s os publicamos na internet &ndash;, que proibiam o uso de informa&ccedil;&otilde;es em off. Fora isso, a Ag&ecirc;ncia Brasil inaugurou, no in&iacute;cio de 2007, a coluna do ouvidor, que &eacute; o jornalista Paulo Machado. Com base nas opini&otilde;es dos chamados internautas, ele escreve semanalmente uma cr&iacute;tica p&uacute;blica do trabalho da Ag&ecirc;ncia. Para suas avalia&ccedil;&otilde;es, ele pauta pelos par&acirc;metros do conjunto dos documentos oficiais da Radiobr&aacute;s, como os planos editoriais e os padr&otilde;es &eacute;ticos de objetividade e apartidarismo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Uma cr&iacute;tica corrente ao desempenho da m&iacute;dia no Brasil &eacute; a de que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo a dita &quot;grande m&iacute;dia&quot;, t&ecirc;m-se comportado mais como partidos pol&iacute;ticos do que como inst&acirc;ncias promotoras do interesse p&uacute;blico. &Eacute; percept&iacute;vel, ademais, certa compuls&atilde;o em desqualificar a m&iacute;dia como instrumento da democracia. Qual o sentido disso? O fato de a m&iacute;dia pouco discutir a si pr&oacute;pria contribui para distorcer as avalia&ccedil;&otilde;es correntes sobre seu papel na sociedade?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; De fato, a &quot;cr&iacute;tica de m&iacute;dia&quot; est&aacute; virando um esporte nacional entre n&oacute;s. O que &eacute; bom, apesar de alguns momentos quase humor&iacute;sticos. Fa&ccedil;o apenas um ou dois coment&aacute;rios. O primeiro, diz respeito ao m&eacute;todo. A express&atilde;o &quot;a m&iacute;dia&quot; talvez seja ampla demais e nos conduz a uma generaliza&ccedil;&atilde;o pouco eficaz. Mesmo a express&atilde;o &quot;a grande m&iacute;dia&quot; n&atilde;o &eacute; &uacute;til nesse sentido. O segundo diz respeito ao que h&aacute; de positivo quando a imprensa discute a imprensa. Eu diria que todo ve&iacute;culo jornal&iacute;stico tem a ganhar quando debate publicamente os seus procedimentos, da maneira que lhe for mais adequada. Nisso, &eacute; poss&iacute;vel que ainda tenhamos que avan&ccedil;ar um pouco mais no Brasil. Quanto ao resto, o primeiro dever do jornalismo &eacute; ser livre. Ser explicitamente livre. Para come&ccedil;ar, ele precisa ser livre do governo, qualquer governo. Nessa mat&eacute;ria, chamo aten&ccedil;&atilde;o para um ponto sobre o qual temos falado pouco: o grande volume de verbas p&uacute;blicas que v&atilde;o parar nos ve&iacute;culos comerciais como an&uacute;ncios publicit&aacute;rios &eacute; um fator preocupante. Nos &oacute;rg&atilde;os de imprensa mais vulner&aacute;veis, esse dinheiro &ndash; ou a sua aus&ecirc;ncia &ndash; pode ser uma press&atilde;o sobre a linha editorial. Esses recursos tendem a congregar um conjunto de ve&iacute;culos que se afinam em demasia com as causas dos governos &ndash; federal, estaduais ou municipais &ndash;, o que &eacute; algo tradicional no Brasil e n&atilde;o &eacute; nada saud&aacute;vel. <\/p>\n<p><\/span><span>De minha parte, eu me sinto mais tranq&uuml;ilo com uma imprensa que &agrave;s vezes pode at&eacute; cometer excessos, mas os comete com franca independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos governos, do que me sentiria com uma imprensa toda ajuizada que sempre apoiasse os governantes. Claro que a imprensa deve ser elegante, equilibrada, justa, objetiva etc., ao menos do meu ponto de vista, mas seu primeiro dever &eacute; ser independente. Financeira e editorialmente. Se alguns ve&iacute;culos querem bancar partidos pol&iacute;ticos, desde que n&atilde;o o fa&ccedil;am com dinheiro p&uacute;blico, e desde que n&atilde;o sejam objeto de concess&atilde;o p&uacute;blica, como &eacute; o caso das emissoras de r&aacute;dio e TV, est&atilde;o no seu direito. Se carregarem nas tintas, se distorcerem, cedo ou tarde perder&atilde;o credibilidade e pagar&atilde;o por isso. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>&Eacute; indiscut&iacute;vel que a m&iacute;dia exerce um papel central nas sociedades contempor&acirc;neas e, tamb&eacute;m por isso, tem o poder de pautar agenda p&uacute;blica. Esta constata&ccedil;&atilde;o implica a sugest&atilde;o de que a este poder deva corresponder um contrapoder, e que a atividade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o deveria ser submetida a algum tipo de regula&ccedil;&atilde;o. Como isso poderia se dar? Quem deve vigiar o poder exercido pela m&iacute;dia, e como?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; O p&uacute;blico deve vigiar a m&iacute;dia. As associa&ccedil;&otilde;es da sociedade civil devem faz&ecirc;-lo. Os partidos pol&iacute;ticos, os acad&ecirc;micos, os jornalistas, os sindicatos, os pr&oacute;prios meios de comunica&ccedil;&atilde;o devem vigiar a m&iacute;dia. Quanto mais debatida publicamente, melhor &eacute; a imprensa. O Estado e o governo t&ecirc;m que ficar fora disso. Eles precisam ficar longe de qualquer tenta&ccedil;&atilde;o de vigiar ou de regular o conte&uacute;do dos notici&aacute;rios. Se desobedecem esse protocolo t&aacute;cito que &eacute; um pressuposto da democracia, agem mal. As autoridades devem explicitamente afastar qualquer apar&ecirc;ncia de que querem vigiar a imprensa. A velha f&oacute;rmula continua v&aacute;lida: a imprensa vigia o poder; jamais o contr&aacute;rio. Claro que isso vale n&atilde;o apenas para o poder pol&iacute;tico, mas vale tamb&eacute;m para o poder econ&ocirc;mico e tamb&eacute;m para o poder concentrado nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o: a imprensa deve vigi&aacute;-los. Acima de tudo, por&eacute;m, a velha f&oacute;rmula vale para o poder pol&iacute;tico. &Eacute; em rela&ccedil;&atilde;o a ele que o dever da liberdade come&ccedil;a.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O desenvolvimento dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e o aprimoramento jornalismo deram-se em concomit&acirc;ncia com a consolida&ccedil;&atilde;o dos valores universais da democracia. Concorda que uma m&iacute;dia &ndash; e uma atividade jornal&iacute;stica &ndash; atuante e cr&iacute;tica &eacute; condi&ccedil;&atilde;o sine qua non para a sobreviv&ecirc;ncia de uma sociedade democr&aacute;tica? Como avalia as cr&iacute;ticas acerbas de importantes atores sociais &agrave; atua&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia que temos?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; Concordo integralmente com a assertiva da pergunta. Sobre as cr&iacute;ticas que s&atilde;o feitas por atores sociais &agrave; imprensa, s&atilde;o da normalidade. Devem ser debatidas em p&uacute;blico. Quanto mais, melhor.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>A decis&atilde;o do governo federal de construir uma rede de TV p&uacute;blica suscitou a convoca&ccedil;&atilde;o de um in&eacute;dito F&oacute;rum Nacional das TVs P&uacute;blicas, derivou para o processo de prepara&ccedil;&atilde;o de uma Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o e, de algum modo, ajudou a ampliar a discuss&atilde;o sobre a democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s. Qual o futuro da comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica no Brasil? Como uma TV p&uacute;blica pode contribuir para a dissemina&ccedil;&atilde;o do debate sobre o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o numa sociedade t&atilde;o desigual como a nossa?&nbsp;<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; Uma &uacute;nica palavra sintetiza o desafio desse momento: independ&ecirc;ncia. Trata-se de saber se as emissoras p&uacute;blicas ser&atilde;o mais independentes a partir de agora, ap&oacute;s o F&oacute;rum Nacional de TVs P&uacute;blicas &ndash; que, ali&aacute;s, fez da independ&ecirc;ncia a sua principal palavra de ordem &ndash; ou se permanecer&atilde;o no atual est&aacute;gio de governismo, que ainda &eacute; a regra, sem preju&iacute;zo das merit&oacute;rias exce&ccedil;&otilde;es. Depois, o outro desafio &eacute; a austeridade administrativa. Inefici&ecirc;ncia, cabides de emprego, essas coisas n&atilde;o podem mais acontecer. Remover as velhas pr&aacute;ticas &eacute; trabalhoso, mas &eacute; poss&iacute;vel. <\/span><span>&nbsp;<\/span><span>A sociedade precisa de emissoras de comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, n&atilde;o-comercial. Nas principais democracias &eacute; assim que se estrutura o espa&ccedil;o p&uacute;blico. H&aacute; um equil&iacute;brio entre a comunica&ccedil;&atilde;o comercial e a comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. A pauta, o repert&oacute;rio, a l&oacute;gica de uma e de outra n&atilde;o se confundem &ndash; ou, melhor, ambas n&atilde;o deveriam se confundir. Quando a r&aacute;dio ou a televis&atilde;o p&uacute;blica apenas copiam, e de modo rebaixado, o que as comerciais j&aacute; fizeram antes, tornam-se irrelevantes e descart&aacute;veis. No Brasil, ainda padecemos disso. A comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica s&oacute; ir&aacute; vingar entre n&oacute;s se for independente, tanto dos governos quanto dos mercados, se for gerida com austeridade, se for uma escola para novas linguagens, se encontrar sua especificidade insubstitu&iacute;vel. Isso &eacute; poss&iacute;vel, mas ainda falta muito ch&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Algo que n&atilde;o disse nesta entrevista e gostaria de ter dito?<br \/><\/strong><\/span><span>E.B. &ndash; Creio que tudo me foi perguntado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;Observat&oacute;rio da Imprensa.<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O jornalismo precisa ser livre do governo, qualquer governo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[434],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19325"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19325"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19325\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19325"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19325"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19325"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}