{"id":19313,"date":"2007-09-24T14:38:02","date_gmt":"2007-09-24T14:38:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19313"},"modified":"2007-09-24T14:38:02","modified_gmt":"2007-09-24T14:38:02","slug":"lan-houses-crescem-e-levam-internet-as-favelas-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19313","title":{"rendered":"Lan houses crescem e levam internet \u00e0s favelas brasileiras"},"content":{"rendered":"<p>A sala escura e abafada fica abarrotada de jovens. O espa&ccedil;o &#8211; um quartinho erguido na laje de um mini-mercado &#8211; &eacute; pequeno e o calor, insuport&aacute;vel. Mas quem se importa? A garotada que se espreme ali est&aacute; al&eacute;m das fronteiras estreitas demarcadas pelas paredes. <\/p>\n<p>Olhos vidrados nos computadores, os adolescentes passeiam pelo universo sem limites da internet. Na lan house do cearense Ant&ocirc;nio Rodrigues Filho, meninos e meninas da favela de Heli&oacute;polis, a maior de S&atilde;o Paulo, ganham o mundo por R$ 1 a hora. <\/p>\n<p>Aberto no fim do ano passado, o centro de acesso &agrave; internet tornou-se em poucos meses a principal fonte de renda docomerciante, tamb&eacute;m dono do mercado Girassol e de uma loja de artigos fotogr&aacute;ficos. &#39;Chamei para ser s&oacute;cio um amigo que conhecia essas coisas de internet, diminu&iacute; o estoque do mercadinho e coloquei l&aacute; uns computadores&#39;, afirma Rodrigues Filho, que &eacute; conhecido na vizinhan&ccedil;a como Sonrisal e pretende se candidatar a vereador em 2016. Embora nunca tenha aprendido a usar um PC e tampouco saiba ler e escrever, enxergou no anseio da comunidade em navegar pela web uma oportunidade de neg&oacute;cio. <\/p>\n<p>Hist&oacute;rias como a de Sonrisal s&atilde;o cada vez mais comuns. Num movimento silencioso que se intensificou desde o ano passado, as lan houses &#8211; outrora restritas aos bairros nobres das grandes cidades &#8211; est&atilde;o proliferando nas favelas brasileiras e tornando a web mais pr&oacute;xima de quem n&atilde;o tem acesso &agrave; internet. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; dados precisos sobre esse fen&ocirc;meno t&atilde;o recente quanto informal. Em Heli&oacute;polis, onde vivem 125 mil pessoas, calcula-se que o n&uacute;mero atual ultrapasse facilmente 30 lojas. Na Rocinha, maior favela do Rio e da Am&eacute;rica Latina, as estimativas v&atilde;o de 80 a mais de cem unidades. A tamb&eacute;m carioca Cidade de Deus tem pelo menos 50. <\/p>\n<p>O barateamento dos computadores e dos servi&ccedil;os de internet &eacute; crucial nesse processo. Com o d&oacute;lar em queda, o aumento da a oferta de cr&eacute;dito e a redu&ccedil;&atilde;o da carga fiscal incidente sobre os equipamentos, as vendas explodiram nos &uacute;ltimos anos. A previs&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira da Ind&uacute;stria El&eacute;tricae Eletr&ocirc;nica (Abinee) &eacute; de que sejam comercializados no Brasil cerca de 10,1 milh&otilde;es de m&aacute;quinas em 2007, volume 23% superior ao do ano passado. <\/p>\n<p>Ainda que de forma menos acentuada, o pre&ccedil;o das conex&otilde;es de banda larga tamb&eacute;m est&aacute; em decl&iacute;nio. O valor dos pacotes com velocidadeentre 512 quilobits por segundo (kbps) e 1 megabit por segundo (Mbps) diminuiu 27,2% no per&iacute;odo de 12 meses encerrado em junho, mostra levantamento feito pela empresa de pesquisas IDC. E n&atilde;o raramente s&atilde;o essas conex&otilde;es mais lentas (e baratas) que os donos das lan houses contratam e dividem entre diversos micros. <\/p>\n<p>&#39;As lan houses s&atilde;o um efeito colateral inesperado do programa Computador para Todos, do governo federal&#39;, avalia o professor Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de de Tecnologia e Sociedade da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas (FGV) no Rio. O grupo tem feito um trabalhode campo em favelas do Rio para estudar esse processo. <\/p>\n<p>Nas &uacute;ltimas semanas, o Valor percorreu as favelas da Rocinha, no Rio, e de Heli&oacute;polis e do Jaguar&eacute;, na capital paulista. Deparou-se com lan houses quase sempre cheias, lojas rec&eacute;m-inauguradas e outras tantas em fase de expans&atilde;o. <\/p>\n<p>Em breve, o dep&oacute;sito do mercadinho de Sonrisal vai perder mais alguns metros quadrados para o mundo da internet. &#39;Hoje tenho 14 computadores. Vou reformar aqui e colocar mais 24&#39;, afirma o comerciante, quase 30 anos depois de ter deixado o sert&atilde;o do Cear&aacute; com o &uacute;nico objetivo de juntar dinheiro para comprar uma c&acirc;mera fotogr&aacute;fica Rolleyflex. <\/p>\n<p>O cantor de forr&oacute; Miguel Silva e um primo de sua esposa, o estudante Luciano Santos, de apenas 17 anos, aproveitaram os fundos de uma papelaria da fam&iacute;lia e abriram neste ano uma lan house na favela do Jaguar&eacute;, Zona Oeste de S&atilde;o Paulo. Come&ccedil;aram com seis computadores, agora j&aacute; t&ecirc;m dez e s&oacute; n&atilde;o compram mais porque n&atilde;o t&ecirc;m onde coloc&aacute;-las. &#39;V&ecirc;m umas 70 pessoas por dia aqui. Tem gente que paga adiantado para o m&ecirc;s todo&#39;, diz Santos, que fez curso de inform&aacute;tica no Senai e vai prestar vestibular paraengenharia civil. <\/p>\n<p>Jovens como Santos est&atilde;o por tr&aacute;s de muitas dessas lan houses. &#39;Tiro entre R$ 950 e R$ 1,2 mil por m&ecirc;s, mais do que ganhava na f&aacute;brica&#39;, diz Marcos Marciel, de 21 anos, que trabalhava como prensista numa metal&uacute;rgica antes de abrir a Helipa, h&aacute; dois meses, numa ruazinha estreita de Heli&oacute;polis. <\/p>\n<p>Aos 20 anos, Bruno Borges, da Rocinha, tem uma lan house com 13 computadores, e est&aacute; instalando a segunda, que ter&aacute; oito m&aacute;quinas. O pai deu dinheiro para ele montar e administrar o neg&oacute;cio, que complementa a renda proveniente de seu trabalho como vendedor numa loja de artigos esportivos do Leblon. <\/p>\n<p>Trajet&oacute;ria n&atilde;o muito diferente &eacute; de Davison, de 25 anos, que faz quest&atilde;o de se apresentar apenas pelo primeiro nome. Com o conhecimento em inform&aacute;tica aprendido na escola, ajudou sua fam&iacute;lia e um s&oacute;cio a montar uma lan house naRocinha em 2000. Ele e o pai acabaram comprando a parte do s&oacute;cio e agora ampliam o neg&oacute;cio. <\/p>\n<p>A demanda &eacute; forte. Cobrando geralmente entre R$ 1 e R$ 2 por hora, as &#39;lans&#39; est&atilde;o sempre cheias &#8211; t&ecirc;m clientela cativa -, a despeito da presen&ccedil;a de telecentros municipais e estaduais queoferecem uso gratuito nas periferias. Centros de acesso pago s&atilde;o a principal forma de conex&atilde;o dos brasileiros das classes D e E &agrave; rede mundial de computadores: representam 48,08% do total, segundo dados do Comit&ecirc; Gestor da Internet (CGI). <\/p>\n<p>As lan houses surgiram na Cor&eacute;ia do Sul, em meados dos anos 90, como locais onde as pessoas se reuniam para jogar em rede. Foi com esse perfil que chegaram ao Brasil, dois anos depois. &Agrave; medida que a internet disseminou-se entre os mais ricos, o mercado ganhou novas caracter&iacute;sticas. Esses estabelecimentos migraram para a periferia e l&aacute; os jogos cederam espa&ccedil;o para a navega&ccedil;&atilde;o na web, oferecendo oportunidades de trabalho, conhecimento e divers&atilde;o. <\/p>\n<p>O lazer de alguns &eacute; fonte de renda para outros. A cabeleireira Raimunda Bandeira Carvalho, de Heli&oacute;polis, cismou com os h&aacute;bitos do filho Rafael, de 17 anos, que n&atilde;o largava mais o computador. Em abril, foi at&eacute; uma loja da Casas Bahia e comprou no credi&aacute;rio os seis micros que instalou de improviso na entrada de seu sal&atilde;o de beleza. &#39;Tem noites em que a fila de espera chega a tr&ecirc;s horas&#39;, conta Rafael, que cuida do neg&oacute;cio. <\/p>\n<p>O resultado disso &eacute;que aos poucos os h&aacute;bitos da comunidade v&atilde;o mudando. Desempregada h&aacute; meses, Marluci Ver&iacute;ssimo da Silva, de 49 anos, se cansou de ouvir falar &#39;nessa tal internet&#39; e agora est&aacute; disposta a fazer um curso que lhe ensine a usar o computador. &#39;N&atilde;o sei nada disso, mas tenho que aprender. A gente temque atender o mundo das exig&ecirc;ncias.<br \/>&#39; <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sala escura e abafada fica abarrotada de jovens. O espa&ccedil;o &#8211; um quartinho erguido na laje de um mini-mercado &#8211; &eacute; pequeno e o calor, insuport&aacute;vel. Mas quem se importa? 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