{"id":19311,"date":"2007-09-24T13:04:58","date_gmt":"2007-09-24T13:04:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19311"},"modified":"2007-09-24T13:04:58","modified_gmt":"2007-09-24T13:04:58","slug":"radiodifusao-comunitaria-uma-batalha-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19311","title":{"rendered":"Radiodifus\u00e3o comunit\u00e1ria: uma batalha desigual"},"content":{"rendered":"<p>Essa novela voc&ecirc; n&atilde;o assistir&aacute; na TV. Nem ler&aacute; nada a respeito nos jornal&otilde;es. Muito menos escutar&aacute; o resumo dos cap&iacute;tulos no r&aacute;dio do seu carro. O roteiro foi escrito pelas entidades militantes da comunica&ccedil;&atilde;o e batizado de O Direito de Nascer. A inspira&ccedil;&atilde;o veio do t&iacute;tulo veio da famosa radionovela cubana da d&eacute;cada de 1940, que foi produzida no Brasil no r&aacute;dio e na televis&atilde;o em tr&ecirc;s vers&otilde;es. A trama &eacute; longa, portanto apresentamos uma sinopse resumida. <\/p>\n<p>O primeiro cap&iacute;tulo acontece no ano de 1998, quando foi aprovada a lei n&ordm; 9.612, que autoriza a exist&ecirc;ncia de r&aacute;dios comunit&aacute;rias. At&eacute; ent&atilde;o, esse conceito n&atilde;o existia e todas eram consideradas &ldquo;piratas&rdquo; ou &ldquo;clandestinas&rdquo;. Os grandes grupos de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o gostaram dessa id&eacute;ia, mas n&atilde;o conseguiram evitar que o projeto fosse aprovado no Congresso. A partir da aprova&ccedil;&atilde;o, foi expedido o aviso de habilita&ccedil;&atilde;o para os interessados em um lugar no dial. <\/p>\n<p>Pano r&aacute;pido. O cen&aacute;rio &eacute; uma quadra poliesportiva na rua da Mina, no bairro de Heli&oacute;polis, na periferia de S&atilde;o Paulo. Estamos no dia 11 de agosto de 2007, um s&aacute;bado. O clima &eacute; festa. Neste endere&ccedil;o funciona o Uni&atilde;o de N&uacute;cleos, Associa&ccedil;&otilde;es e Sociedade de Heli&oacute;polis e S&atilde;o Jo&atilde;o Cl&iacute;maco (Unas), a entidade que gere a r&aacute;dio Heli&oacute;polis. <\/p>\n<p>Depois de mais de um ano fora do ar, finalmente a r&aacute;dio voltou a funcionar na freq&uuml;&ecirc;ncia 87,7 Mhz. Fundada em 1997, a r&aacute;dio cobre as cinco maiores favelas de S&atilde;o Paulo. Em seu entorno vivem cerca de 100 mil pessoas, que podem acompanhar a programa&ccedil;&atilde;o ao vivo entre as seis da manh&atilde; e a meia-noite. Estima-se que 34% dos moradores das &aacute;reas onde chega o sinal s&atilde;o ouvintes fi&eacute;is da Heli&oacute;polis, que ganhou diversos pr&ecirc;mios, entre eles o da Associa&ccedil;&atilde;o Paulista dos Cr&iacute;ticos de Arte (APCA). Motivos n&atilde;o faltavam para comemorar. A r&aacute;dio foi fechada e lacrada pela justi&ccedil;a e &oacute;rg&atilde;os reguladores do setor desde 20 de julho de 2006 em uma a&ccedil;&atilde;o que lembrou a repress&atilde;o dos tempos da ditadura. <\/p>\n<p>Para voltar &agrave; ativa, Heli&oacute;polis teve que buscar uma brecha na lei: vai funcionar, por enquanto, apenas em car&aacute;ter experimental. O retorno s&oacute; foi poss&iacute;vel gra&ccedil;as a uma parceria entre a Unas e a Universidade Metodista de S&atilde;o Bernardo do Campo e ao apoio da Obor&eacute; Projetos Especiais em Comunica&ccedil;&atilde;o e Artes. A id&eacute;ia &eacute; que em sua nova freq&uuml;&ecirc;ncia (87,7 FM), a r&aacute;dio Heli&oacute;polis passe por testes para verificar se h&aacute; ou n&atilde;o interfer&ecirc;ncia nas r&aacute;dios comerciais. No dia da festa, nenhum jornalista da grande ou m&eacute;dia imprensa apareceu. Os &uacute;nicos microfones e c&acirc;meras eram dos ve&iacute;culos da regi&atilde;o ou de estudantes que faziam um trabalho de conclus&atilde;o de curso. <\/p>\n<p>&nbsp;Mas por que uma r&aacute;dio que opera abertamente, &eacute; premiada e j&aacute; cansou de provar sua import&acirc;ncia para a comunidade tem que operar em car&aacute;ter experimental? &ldquo;A r&aacute;dio nunca ficou escondida. N&atilde;o era regularizada porque as condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o permitiam. O Minist&eacute;rio n&atilde;o publicava os avisos de habilita&ccedil;&atilde;o&rdquo;, diz Cristina Cavalcanti, respons&aacute;vel pelo escrit&oacute;rio paulista da Amarc (Associa&ccedil;&atilde;o Mundial das R&aacute;dios Comunit&aacute;rias). Pano r&aacute;pido. <\/p>\n<p>Quinta feira, 16 de agosto. Depois de cinco dias debru&ccedil;ados sobre dados da Anatel e do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, o coletivo Intervozes publica na p&aacute;gina eletr&ocirc;nica do Observat&oacute;rio do Direito a Comunica&ccedil;&atilde;o um documento explosivo: mais de 90% das emissoras de FM de S&atilde;o Paulo est&atilde;o com outorgas vencidas, mais de 50% n&atilde;o tem outorga para operar na capital e est&atilde;o consignadas para empresas de outros munic&iacute;pios. <\/p>\n<p>Grupos usam de artimanhas jur&iacute;dicas como forma de burlar os princ&iacute;pios da legisla&ccedil;&atilde;o para possuir diversas emissoras; 50% das permiss&otilde;es &ldquo;educativas&rdquo; n&atilde;o cumprem sua fun&ccedil;&atilde;o social. &ldquo;Dois grandes grupos orgulham-se de ter cinco emissoras de FM transmitindo para S&atilde;o Paulo, chegando a vender publicidade casada para as diversas emissoras. O Grupo Bandeirantes controla a Band FM, BandNews, Bandeirantes, Nativa e Sul-Am&eacute;rica Tr&acirc;nsito. J&aacute; o grupo CBS, dos irm&atilde;os Paulo e Jos&eacute; Masci de Abreu, controla a Kiss, Mundial, Tupi, Scalla e Terra&rdquo;, explica o relat&oacute;rio do Intervozes.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobre p&uacute;lpitos e palanques <\/p>\n<p><\/strong>O estudo do Intervozes e o cap&iacute;tulo da reabertura da Heli&oacute;polis s&atilde;o as duas pontas mais vis&iacute;veis de uma guerra surda e subterr&acirc;nea que est&aacute; sendo travada em S&atilde;o Paulo. Para entender este epis&oacute;dio cheio de meandros t&eacute;cnicos &eacute; preciso um breve pre&acirc;mbulo. A cidade de S&atilde;o Paulo foi a &uacute;ltima do Brasil a receber o aviso de habilita&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es para as r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Dizia a justificativa oficial que a maior metr&oacute;pole do pa&iacute;s simplesmente n&atilde;o tinha mais espa&ccedil;o no dial para receber um novo canal, destinado as r&aacute;dios comunit&aacute;rias. &ldquo;O dial &eacute; limitado. S&atilde;o freq&uuml;&ecirc;ncias. Como as r&aacute;dios comerciais da cidade ocupavam todas as freq&uuml;&ecirc;ncias, a Anatel contratou o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento em Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CPqD) para encontrar uma freq&uuml;&ecirc;ncia. Em 2004, a Anatel divulgou que encontrou o canal 87,5. Mas apenas em dezembro de 2006 o aviso foi expedido&rdquo;, explica Anna Cl&aacute;udia Vazzoler, advogada e coordenadora jur&iacute;dica do escrit&oacute;rio-modelo Dom Paulo Evaristo Arns, da PUC-SP. Ela foi uma das respons&aacute;veis por dar aux&iacute;lio jur&iacute;dico &agrave;s associa&ccedil;&otilde;es que pleitearam licen&ccedil;a para operar.<\/p>\n<p>As pretendentes deveriam ter baixa pot&ecirc;ncia e alcance restrito e manter uma dist&acirc;ncia de quatro quil&ocirc;metros uma das outras. Cento e trinta entidades enviaram documenta&ccedil;&atilde;o para o minist&eacute;rio. &ldquo;Estima-se que existe espa&ccedil;o apenas para 40 ou 50 r&aacute;dios&rdquo;, explica Cl&aacute;udia. Das pretendentes, 117 cumpriam todos requisitos. &ldquo;V&aacute;rias foram desclassificadas por serem claramente religiosas. Em outras, n&atilde;o h&aacute; como perceber isso pela raz&atilde;o social. Tem que esperar entrar no ar para praticar proselitismo. Existem, ainda, comerciais disfar&ccedil;adas de comunit&aacute;rias. Mas a maior parte &eacute; comunit&aacute;ria no melhor sentido da palavra&rdquo;, pontua Jo&atilde;o Brant, do coletivo Intervozes. <\/p>\n<p>Assim, como decidir quem entra e quem fica de fora entre as que est&atilde;o aptas? &Eacute; a&iacute; que come&ccedil;a o cap&iacute;tulo mais dram&aacute;tico desta novela. &ldquo;A lei diz que o minist&eacute;rio deve promover o entendimento entre as emissoras, buscando que elas se componham. Acontece que esse entendimento n&atilde;o foi promovido&rdquo;, diz Jo&atilde;o Brant. O crit&eacute;rio de &ldquo;desempate&rdquo; em caso de duas r&aacute;dios que pleiteiem uma vaga na mesma regi&atilde;o &eacute; o maior n&uacute;mero de apoios &ndash; leia-se assinaturas da comunidade. &ldquo;Com isso, as associa&ccedil;&otilde;es que conseguiram mais &#39;apoios&#39; n&atilde;o v&atilde;o querer se compor. Quem tem mais estrutura, leva. &Eacute; s&oacute; mandar gente para a porta do metr&ocirc; para recolher assinatura. Ou passar a lista depois do culto da igreja evang&eacute;lica&rdquo;, dispara Sergio Gomes, da Obor&eacute;, empresa que lidera o movimento Pelo Direito de Nascer. <\/p>\n<p>&nbsp;&ldquo;Tivemos not&iacute;cia de muitas associa&ccedil;&otilde;es que conseguiram as assinaturas de maneira trapaceira. N&atilde;o temos prova, mas sabemos que muitas foram investigadas&rdquo;, completa Cristina, da Amarc. Os cap&iacute;tulos finais do Direito de Nascer devem acontecer em dois fronts. O primeiro &eacute; a batalha por mais um canal no dial de S&atilde;o Paulo para abrigar as r&aacute;dios comunit&aacute;rias. O espa&ccedil;o existe, s&oacute; est&aacute; mal ocupado. O outro &eacute; tentar mudar os crit&eacute;rios de desempate, para algo como, por exemplo, uma comiss&atilde;o formada por pessoas de not&oacute;rio saber que decidiriam as pretendentes. De qualquer forma, j&aacute; &eacute; um avan&ccedil;o que este debate exista. S&oacute; falta o p&uacute;blico ficar sabendo.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>S&atilde;o Paulo tem um plano <\/p>\n<p><\/strong>Uma lei municipal de 2005 deu &agrave; cidade de S&atilde;o Paulo a autonomia de decidir sobre as outorgas. Por iniciativa dos vereadores Ricardo Montoro (PSDB) e Carlos Neder (PT), foi sancionada pelo ent&atilde;o prefeito Jos&eacute; Serra a lei que inclui no Plano Diretor da cidade um plano diretor para as r&aacute;dios comunit&aacute;rias. A municipaliza&ccedil;&atilde;o das outorgas, entretanto, est&aacute; sendo contestada na Justi&ccedil;a paulista pela Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (Abert). Al&eacute;m disso, o minist&eacute;rio n&atilde;o autorizou nenhuma r&aacute;dio comunit&aacute;ria a funcionar na capital paulista.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&ldquo;S&atilde;o Paulo instituiu, no Plano Diretor da cidade, a obrigatoriedade de o munic&iacute;pio criar um plano diretor de radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria. Transformou a quest&atilde;o do planejamento da localiza&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias em uma quest&atilde;o de legisla&ccedil;&atilde;o municipal. Foi pioneira. A cidade tem uma topografia acidentada, muitos pr&eacute;dios. A localiza&ccedil;&atilde;o das emissoras n&atilde;o pode seguir um crit&eacute;rio abstrato, como se a cidade fosse plana. Al&eacute;m disso, esse crit&eacute;rio est&uacute;pido, uma r&aacute;dio a cada quatro quil&ocirc;metros da outra, deixa muitos brancos, &aacute;reas descobertas. Em S&atilde;o Paulo os interesses das emissoras j&aacute; regulamentadas &eacute; maior. Elas t&ecirc;m muita for&ccedil;a pol&iacute;tica e n&atilde;o t&ecirc;m interesse em que as verdadeiras comunit&aacute;rias entrem em funcionamento. O processo aqui est&aacute; enrolado&rdquo;, informa o ex-vereador Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que &eacute; um dos l&iacute;deres do movimento em defesa das r&aacute;dios comunit&aacute;rias. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa novela voc&ecirc; n&atilde;o assistir&aacute; na TV. Nem ler&aacute; nada a respeito nos jornal&otilde;es. Muito menos escutar&aacute; o resumo dos cap&iacute;tulos no r&aacute;dio do seu carro. O roteiro foi escrito pelas entidades militantes da comunica&ccedil;&atilde;o e batizado de O Direito de Nascer. 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