{"id":19310,"date":"2007-09-24T12:36:40","date_gmt":"2007-09-24T12:36:40","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19310"},"modified":"2007-09-24T12:36:40","modified_gmt":"2007-09-24T12:36:40","slug":"sistema-de-concessoes-perpetua-oligopolio-na-radiodifusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19310","title":{"rendered":"Sistema de concess\u00f5es perpetua oligop\u00f3lio na radiodifus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>No pr&oacute;ximo dia 5 de outubro, vencem as concess&otilde;es das principais emissoras de TV brasileiras. Entre elas, est&atilde;o cinco concess&otilde;es da Rede Globo &ndash; em S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Bras&iacute;lia, Recife e Minas Gerais. Neste dia, caber&aacute; ao Executivo federal, por meio do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e da Casa Civil, aceitar ou n&atilde;o os pedidos de renova&ccedil;&atilde;o, por mais 15 anos, e submeter sua decis&atilde;o do Congresso Nacional, que tem a palavra final no processo.&nbsp;<\/p>\n<p>O que pouca gente sabe &eacute; que tal procedimento, de tamanha import&acirc;ncia para o pa&iacute;s &ndash; &eacute; redundante afirmar o papel pol&iacute;tico, econ&ocirc;mico e social que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo a TV, desempenham em nossa sociedade &ndash; ser&aacute; nada mais do que um rito burocr&aacute;tico. Mas, para evitar que a data passe em branco, movimentos sociais e entidades ligadas &agrave; luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o planejam promover manifesta&ccedil;&otilde;es e chamar a sociedade para debater o modelo das concess&otilde;es p&uacute;blicas de radiodifus&atilde;o. Um modelo que contribuiu de forma decisiva para fazer da Globo o imp&eacute;rio que ela &eacute; hoje.&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;O mercado de televis&atilde;o no Brasil, especificamente, n&atilde;o era oligopolizado at&eacute; a d&eacute;cada de 1970. Chateaubriand tentou at&eacute; monopolizar, mas a Globo, durante a ditadura militar, atualiza o projeto das elites do setor e do governo no per&iacute;odo anterior. Dadas as condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas, ela p&ocirc;de ocupar um espa&ccedil;o que os Di&aacute;rios Associados do Chat&ocirc; n&atilde;o podiam sequer sonhar&rdquo;, esclarece a cientista social da Universidade Federal de Pernambuco Maria Eduarda Rocha. Ela atribui a concentra&ccedil;&atilde;o de capital e produ&ccedil;&atilde;o da Rede Globo &agrave; pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria cultural no Brasil, que pressup&otilde;e centros produzindo para um vasto territ&oacute;rio.&nbsp;<\/p>\n<p>Maria Eduarda cita ainda como fatores que foram fundamentais para a estrutura&ccedil;&atilde;o da Globo na d&eacute;cada de 1960 o famoso acordo com a Time-Life, realizado em 1962, respons&aacute;vel por injetar capital estrangeiro na emissora, algo que ia contra a legisla&ccedil;&atilde;o vigente. &ldquo;H&aacute; um fator mais forte que &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre o empresariado da cultura e governo militar, que era muito org&acirc;nica. O governo permaneceu como maior anunciante, o que era um grande instrumento de controle, sendo que a Globo foi a grande captadora de verba publicit&aacute;ria do regime&rdquo;, sustenta.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o foi s&oacute; &agrave; &eacute;poca da ditadura que o regime de concess&otilde;es e o Estado favoreceram a Globo. Durante o governo Sarney (1985-1989), o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es Ant&ocirc;nio Carlos Magalh&atilde;es promoveu uma verdadeira farra de distribui&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es na &aacute;rea de radiodifus&atilde;o. Paulino Motter, doutor em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;ticas, na disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado A batalha invis&iacute;vel da Constituinte, mostra que em tr&ecirc;s anos e meio Sarney distribuiu 1.028 outorgas, aproximadamente 25% delas no m&ecirc;s de setembro de 1988, que antecedeu a promulga&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o. Quase todos os beneficiados foram parlamentares que, direta ou indiretamente, receberam as outorgas em troca de apoio pol&iacute;tico aos cinco anos de mandato e o regime presidencialista. Motter mostra que, dos 91 constituintes que receberam ao menos uma concess&atilde;o de r&aacute;dio ou de televis&atilde;o, 82 (90,1%) votaram a favor do mandato de cinco anos.<\/p>\n<p>Al&eacute;m de beneficiar a Globo e Sarney, ACM tamb&eacute;m aproveitou sua estada no governo federal para incrementar sua influ&ecirc;ncia na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o na Bahia. A maior parte das concess&otilde;es das emissoras que integram a Rede Bahia s&atilde;o dessa &eacute;poca. Ant&ocirc;nio Carlos Magalh&atilde;es J&uacute;nior &eacute; o presidente da Rede Bahia. Em 1987, a TV Bahia, do grupo, se tornou afiliada da Rede Globo, desbancando a TV Aratu, que retransmitia o sinal da emissora da fam&iacute;lia Marinho havia 18 anos.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Perpetua&ccedil;&atilde;o do oligop&oacute;lio <br \/><\/strong><br \/>O processo constituinte n&atilde;o foi somente um palco generoso onde parlamentares receberam concess&otilde;es para apoiar Sarney. O lobby pesado dos radiodifusores garantiu condi&ccedil;&otilde;es bastante especiais aos prestadores de servi&ccedil;o no r&aacute;dio e na TV. A Constitui&ccedil;&atilde;o Federal estabelece que, para uma concess&atilde;o n&atilde;o ser renovada, &eacute; necess&aacute;ria a delibera&ccedil;&atilde;o de dois quintos do Congresso Nacional em vota&ccedil;&atilde;o nominal. E, para ser cancelada, requer decis&atilde;o judicial, contrariando assim a regra geral da presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o p&uacute;blico.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas foi durante o regime militar, que regulamentou o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CBT) promulgado em 1962, que foram definidas as primeiras regras para outorgas e instala&ccedil;&atilde;o de emissoras. O CBT, em geral, buscava facilitar ao m&aacute;ximo a ocupa&ccedil;&atilde;o de todas as freq&uuml;&ecirc;ncias dispon&iacute;veis e abria com isso um flanco para a expans&atilde;o do setor privado, sem garantias ao interesse p&uacute;blico.&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu livro A hist&oacute;ria secreta da Rede Globo, o jornalista Daniel Herz escreveu que a legisla&ccedil;&atilde;o brasileira para a radiodifus&atilde;o &ldquo;&eacute; carente de defini&ccedil;&otilde;es de princ&iacute;pios&rdquo; e prende-se &ldquo;quase que exclusivamente a defini&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas e a tributa&ccedil;&otilde;es de compet&ecirc;ncia&rdquo;. &ldquo;O C&oacute;digo omite-se na defini&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios que orientem o uso privado desse recurso (&#8230;) de dom&iacute;nio p&uacute;blico&rdquo;, afirma.&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1979, ao apresentar as diretrizes para a radiodifus&atilde;o, o presidente Jo&atilde;o Figueiredo refor&ccedil;ou ainda mais o car&aacute;ter privatista do servi&ccedil;o, determinando que a radiodifus&atilde;o &eacute; uma atividade eminentemente privada, que o papel do Estado &eacute; &ldquo;meramente supletivo&rdquo; e que a concess&atilde;o de canais de radiodifus&atilde;o deve levar em conta, al&eacute;m dos crit&eacute;rios t&eacute;cnicos e legais, a viabilidade econ&ocirc;mico-financeira dos empreendimentos.&nbsp;<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 tentou restabelecer o car&aacute;ter p&uacute;blico da comunica&ccedil;&atilde;o. O artigo n&ordm; 221, por exemplo, diz que a produ&ccedil;&atilde;o e programa&ccedil;&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio e TV devem atender preferencialmente a finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas &ndash; princ&iacute;pios estes definidos desde o CBT; devem promover a cultura nacional e regional e o est&iacute;mulo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente; e respeitar os valores &eacute;ticos e sociais das pessoas e da fam&iacute;lia. Apesar disso, o caminho para o descumprimento de tais normas foi deixado totalmente aberto, dependendo de regulamenta&ccedil;&atilde;o posterior, e por isso os artigos da Constitui&ccedil;&atilde;o referentes &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o seguem ignorados pelos concession&aacute;rios e pelo Poder Executivo.&nbsp;<\/p>\n<p>Aus&ecirc;ncia de crit&eacute;rios Se os princ&iacute;pios constitucionais para a opera&ccedil;&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio e TV s&atilde;o ignorados no dia-a-dia, a situa&ccedil;&atilde;o para a escolha das empresas que poder&atilde;o explorar o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o n&atilde;o &eacute; nada melhor. Segundo a legisla&ccedil;&atilde;o, a concession&aacute;ria deve ser escolhida mediante processo de licita&ccedil;&atilde;o &ndash; o que, em sua origem, pretendia garantir tratamento ison&ocirc;mico aos participantes.&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, no entanto, ficou claro, pelos sucessivos decretos que alteraram os dispositivos do CBT que o foco para a escolha dos concession&aacute;rios era meramente econ&ocirc;mico. Em 1996, o decreto n&ordm; 2.108 estabeleceu para o crit&eacute;rio de pontua&ccedil;&atilde;o que 40% dos pontos da licita&ccedil;&atilde;o v&ecirc;m do prazo para iniciar a execu&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o em car&aacute;ter definitivo &ndash; enquanto 30% v&ecirc;m do tempo destinado a programas culturais, art&iacute;sticos e jornal&iacute;sticos gerados na localidade; 15% do tempo destinado a programas jornal&iacute;sticos, educativos e informativos e 15% do tempo destinado a servi&ccedil;o noticioso.&nbsp;<\/p>\n<p>A lei tamb&eacute;m exige dos interessados documenta&ccedil;&atilde;o relativa &agrave; sua qualifica&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mico-financeira, incluindo balan&ccedil;o patrimonial e demonstra&ccedil;&otilde;es cont&aacute;beis do &uacute;ltimo exerc&iacute;cio social que comprovem a boa situa&ccedil;&atilde;o financeira da empresa. Ou seja, os crit&eacute;rios favorecem o poder econ&ocirc;mico e as empresas grandes e j&aacute; estruturadas, em detrimento da diversidade e pluralidade de vozes.&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Ao introduzir a licita&ccedil;&atilde;o para a concess&atilde;o de outorgas, privilegiando o aspecto econ&ocirc;mico, do ponto de vista contratual, e abandonando outros crit&eacute;rios, o mais importante ficou esquecido&rdquo;, acredita Ven&iacute;cio Lima, pesquisador e professor da Universidade de Bras&iacute;lia. &ldquo;E assim a comunica&ccedil;&atilde;o comercial se consolidou: sem nunca obedecer &agrave;s prioridades para a radiodifus&atilde;o definidas na pr&oacute;pria lei&rdquo;, completa.&nbsp;<\/p>\n<p>Aliado &agrave; aus&ecirc;ncia de mecanismos claros que impe&ccedil;am o monop&oacute;lio dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; tamb&eacute;m proibido pela Constitui&ccedil;&atilde;o &ndash;, o privil&eacute;gio ao aspecto econ&ocirc;mico das empresas resultou num quadro de elevada concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade dos meios no pa&iacute;s.&nbsp;<\/p>\n<p>Dados do estudo Os Donos da M&iacute;dia, do Instituto de Estudos e Pesquisa em Comunica&ccedil;&atilde;o, mostram que somente seis redes privadas nacionais de televis&atilde;o aberta e seus 138 grupos regionais afiliados det&ecirc;m a propriedade de 667 ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, entre emissoras de TV, r&aacute;dios e jornais. O campo de influ&ecirc;ncia dessas redes privadas se capilariza por 294 emissoras de televis&atilde;o VHF que abrangem mais de 90% das emissoras nacionais. Somam-se a elas mais 15 emissoras UHF, 122 emissoras de r&aacute;dio AM, 184 emissoras FM e 50 jornais di&aacute;rios. Somente as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo det&ecirc;m 32 concess&otilde;es de TV e possuem 113 afiliadas no pa&iacute;s, obtendo 54% da audi&ecirc;ncia.&nbsp;<\/p>\n<p>A aus&ecirc;ncia de crit&eacute;rios se estende ap&oacute;s a obten&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o. A venda de outorgas, por exemplo, permitida por lei, &eacute; quase um processo de transfer&ecirc;ncia privada. &ldquo;Nas transfer&ecirc;ncias, n&atilde;o h&aacute; nenhum tipo de fiscaliza&ccedil;&atilde;o da autoridade p&uacute;blica. Eu sou concession&aacute;rio, voc&ecirc; tem interesse, eu vendo minha outorga pra voc&ecirc; ou para qualquer empresa ou pessoa, de acordo com o meu interesse&rdquo;, explica Lima.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pior na renova&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong>Na avalia&ccedil;&atilde;o do professor da UnB, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; pior nos processos de renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es. Al&eacute;m da n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o precisar da vota&ccedil;&atilde;o nominal de dois quintos do Congresso, Lima faz duas observa&ccedil;&otilde;es. &ldquo;Em primeiro lugar, mesmo se as concession&aacute;rias ignoraram ao longo dos anos os princ&iacute;pios que regem a radiodifus&atilde;o, previstos no artigo n&ordm; 221, isso n&atilde;o aparece como crit&eacute;rio. Em segundo, embora haja uma s&eacute;rie de exig&ecirc;ncias formais e t&eacute;cnicas, de comprova&ccedil;&atilde;o fiscal da empresa para a renova&ccedil;&atilde;o, o processo demora tanto que as comprova&ccedil;&otilde;es perdem a validade. Na pr&aacute;tica, as concess&otilde;es acabam se transformando em propriedade permanente e as renova&ccedil;&otilde;es s&atilde;o pr&oacute;-forma&rdquo;, avalia.&nbsp;<\/p>\n<p>A obriga&ccedil;&atilde;o das concession&aacute;rias que desejarem a renova&ccedil;&atilde;o dos prazos &eacute; dirigir requerimento ao Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es no per&iacute;odo entre 180 e 120 dias antes do t&eacute;rmino do prazo. Mas h&aacute; casos de processos de renova&ccedil;&atilde;o que saem do Executivo 14 anos depois de abertos, ou seja, 4 anos depois de vencido o prazo que deveria ter sido renovado. Segundo relat&oacute;rio da subcomiss&atilde;o de concess&otilde;es da Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica da C&acirc;mara dos Deputados (CCTCI), o tempo total m&eacute;dio de tramita&ccedil;&atilde;o no Poder Executivo &eacute; de 6,5 anos &ndash; sendo que o prazo de validade da outorga, no caso do r&aacute;dio, &eacute; de dez anos. &ldquo;Assim, na m&eacute;dia, cabe ao Congresso Nacional apreciar apenas 3,5 anos das outorgas, visto que os 6,5 anos restantes j&aacute; decorreram quando o processo fica finalmente dispon&iacute;vel para aprecia&ccedil;&atilde;o pela C&acirc;mara&rdquo;, diz o relat&oacute;rio.&nbsp;<\/p>\n<p>Para seguir funcionando, as empresas refugiam-se nos decretos que regem os processos de renova&ccedil;&atilde;o, todos anteriores &agrave; Constituinte. Um deles diz que, &ldquo;caso expire a concess&atilde;o ou permiss&atilde;o, sem decis&atilde;o sobre o pedido de renova&ccedil;&atilde;o, o servi&ccedil;o poder&aacute; ser mantido em funcionamento, em car&aacute;ter prec&aacute;rio&rdquo;. A previs&atilde;o da precariedade, sem qualquer prazo ou limite, conflita com o CBT, que afirma que &ldquo;expirado o prazo de concess&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o, perde, automaticamente, a sua validade a licen&ccedil;a para o funcionamento da esta&ccedil;&atilde;o&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Se, para seguir funcionando, uma emissora n&atilde;o precisa que o processo previsto na Constitui&ccedil;&atilde;o chegue ao fim, o que vale na pr&aacute;tica &eacute; o simples ato de protocolar um documento em que solicita a renova&ccedil;&atilde;o. E, se o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, por sua morosidade ou incompet&ecirc;ncia, n&atilde;o d&aacute; seguimento aos processos de renova&ccedil;&atilde;o das outorgas, ele passa, na pr&aacute;tica, a invadir a compet&ecirc;ncia do Congresso Nacional, possibilitando &agrave;s emissoras funcionarem sem terem a sua concess&atilde;o renovada&rdquo;, acredita a jornalista Cristina Char&atilde;o, integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil que luta pelo direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n<p>F&oacute;rum solicitou ao minist&eacute;rio a informa&ccedil;&atilde;o de se as emissoras que ter&atilde;o sua concess&atilde;o vencida no dia 5 de outubro haviam encaminhado este pedido. Mas n&atilde;o obteve resposta.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&Agrave;s escuras<\/p>\n<p><\/strong>Como j&aacute; dito, n&atilde;o bastasse a falta de transpar&ecirc;ncia nos processos de concess&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o das outorgas, os 15 anos que as emissoras de TV e os dez anos que as de r&aacute;dio exploram o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o s&atilde;o de total &ldquo;r&eacute;deas soltas&rdquo;. N&atilde;o h&aacute; nenhum tipo de fiscaliza&ccedil;&atilde;o, por exemplo, se as emissoras destinam o m&iacute;nimo de 5% obrigat&oacute;rio do hor&aacute;rio de sua programa&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria &agrave; transmiss&atilde;o de servi&ccedil;o noticioso. Ou se respeitam o limite m&aacute;ximo de 25% de seu hor&aacute;rio &agrave; publicidade comercial. Menos ainda se reservam cinco horas semanais para a transmiss&atilde;o de programas educacionais. Acredite ou n&atilde;o, o decreto que regulamenta o CBT impede que r&aacute;dios e TVs transmitam programas que atentem &ldquo;contra o sentimento p&uacute;blico, expondo pessoas a situa&ccedil;&otilde;es que, de alguma forma, redundem em constrangimento&rdquo; e veiculem espet&aacute;culos, trechos musicais cantados, quadros, anedotas ou palavras contr&aacute;rias &ldquo;&agrave; moral familiar e aos bons costumes&rdquo;. Mais distante da realidade da nossa TV aberta imposs&iacute;vel.&nbsp;<\/p>\n<p>Outra norma que passa ao largo da fiscaliza&ccedil;&atilde;o do governo &eacute; o artigo n&ordm; 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o, que pro&iacute;be aos parlamentares do Congresso Nacional &ldquo;ser propriet&aacute;rios, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jur&iacute;dica de direito p&uacute;blico, ou nela exercer fun&ccedil;&atilde;o remunerada&rdquo;. O Regimento Interno da C&acirc;mara tamb&eacute;m pro&iacute;be a vota&ccedil;&atilde;o dos parlamentares em assuntos que sejam de seu pr&oacute;prio interesse.&nbsp;<\/p>\n<p>Um estudo de Ven&iacute;cio Lima acerca da &uacute;ltima legislatura, no entanto, apontou que 10% dos deputados federais eram controladores de empresas de radiodifus&atilde;o. No ano de 2004, a Comiss&atilde;o da C&acirc;mara com atribui&ccedil;&atilde;o para examinar as outorgas e renova&ccedil;&otilde;es do servi&ccedil;o era composta por 33 deputados, dois quais 15 figuravam na lista do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es como concession&aacute;rios de 36 emissoras de r&aacute;dio e tr&ecirc;s canais de televis&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Isso cria um problema gigante&rdquo;, afirma Lima. &ldquo;H&aacute; uma contamina&ccedil;&atilde;o do processo, pelo fato de, tradicionalmente, haver v&aacute;rios parlamentares com interesse direto em jogo, para aprovar ou prorrogar concess&otilde;es, compondo a CCTCI&rdquo;, diz. A pr&oacute;pria subcomiss&atilde;o de concess&otilde;es da CCTCI admitiu que, at&eacute; agora, as renova&ccedil;&otilde;es eram aprovadas em bloco sem obedecer a nenhum crit&eacute;rio. Alguns parlamentares pegos votando em suas concess&otilde;es alegaram justamente a vota&ccedil;&atilde;o em bloco como defesa.&nbsp;<\/p>\n<p>Recentemente, o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es H&eacute;lio Costa &ndash; que j&aacute; foi propriet&aacute;rio de uma emissora no interior de Minas Gerais &ndash; garantiu que n&atilde;o h&aacute; parlamentares ocupando cargos de dire&ccedil;&atilde;o em emissoras de r&aacute;dio e TV. &ldquo;Mas a quest&atilde;o de ser membro da diretoria ou apenas s&oacute;cio da emissora &eacute; uma filigrana. Se &eacute; parlamentar, se transforma em poder concedente. Ent&atilde;o h&aacute; um impedimento &eacute;tico se participa de decis&otilde;es que lhe interessam&rdquo;, acredita Lima.&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar da garantia de Costa, no in&iacute;cio de agosto o MiniCom anunciou um recadastramento de todas as concession&aacute;rias de radiodifus&atilde;o. As empresas ter&atilde;o 60 dias para enviar informa&ccedil;&otilde;es sobre composi&ccedil;&atilde;o do capital, quadro de diretores, procuradores com poder de ger&ecirc;ncia, endere&ccedil;o e nome fantasia. O &uacute;ltimo recadastramento foi em 1973. N&atilde;o &eacute; demais lembrar que, por lei, qualquer mudan&ccedil;a no quadro societ&aacute;rio e contrato social da empresa deveria ser solicitada previamente ao Minist&eacute;rio. Sinal de que n&atilde;o foram.<\/p>\n<p><em>* Colaborou Glauco Faria<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/em>Revista F&oacute;rum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 5 de outubro vencem as concess\u00f5es das principais emissoras de TV brasileiras, cabendo ao governo e ao Congresso aceitar ou n\u00e3o os pedidos de renova\u00e7\u00e3o por mais 15 anos. O que pouca gente sabe \u00e9 que tal procedimento ser\u00e1 nada mais do que um rito burocr\u00e1tico.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[431],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19310"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19310"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19310\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}