{"id":19292,"date":"2007-09-20T17:25:14","date_gmt":"2007-09-20T17:25:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19292"},"modified":"2007-09-20T17:25:14","modified_gmt":"2007-09-20T17:25:14","slug":"interesses-privados-emperram-formulacao-de-lei-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19292","title":{"rendered":"Interesses privados emperram formula\u00e7\u00e3o de Lei Geral"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Uma disputa de mercado, sem que os verdadeiros prop&oacute;sitos dos protagonistas sejam explicitados. Assim as emissoras de radiodifus&atilde;o e as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es rivalizam no Congresso Nacional pela regulamenta&ccedil;&atilde;o de um setor que vive ancorado em uma legisla&ccedil;&atilde;o fragmentada e cada vez mais anacr&ocirc;nica diante da converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica. Na contram&atilde;o dos pa&iacute;ses desenvolvidos, o Brasil n&atilde;o apenas consagra em suas leis interesses particulares casu&iacute;stas como insiste em protelar a discuss&atilde;o a respeito de uma legisla&ccedil;&atilde;o ampla para as telecomunica&ccedil;&otilde;es, que englobe a radiodifus&atilde;o e garanta a democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s. Nesse contexto, o suposto conflito entre os empres&aacute;rios &eacute; apenas a ponta de um enorme iceberg que envolve bilh&otilde;es de reais.<\/p>\n<p><\/span><span>&Agrave; luz dos holofotes da imprensa, a Abert &ndash; Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o diz defender a cultura nacional ao se negar a aceitar a participa&ccedil;&atilde;o de capital estrangeiro na produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos audiovisuais. Enquanto isso, as empresas de telefonia expandem seu acesso &agrave; casa de milh&otilde;es de pessoas, tendo a possibilidade de disponibilizar conte&uacute;do e se aproveitar da converg&ecirc;ne se aproveitando da converg avez, cia tecnol&oacute;gica. E os fatos: segundo dados da Telebrasil &ndash; Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, o faturamento das empresas de telefonia atingiu em 2006 a casa dos R$ 140 bilh&otilde;es, enquanto o das emissoras de r&aacute;dio e TV aberta girava em torno de R$ 10 bi. Contra o &iacute;mpeto das empresas de radiodifus&atilde;o em continuar controlando o que os brasileiros assistem, o poder econ&ocirc;mico das teles chama a aten&ccedil;&atilde;o pelo seu alto poder de investimento tamb&eacute;m na TV a cabo. Hoje, por exemplo, a mexicana Telmex &#8211; que controla a Embratel &#8211; &eacute; s&oacute;cia da Rede Globo na operadora de TV a cabo Net, e a espanhola Telef&ocirc;nica acaba de comprar a maior parte das opera&ccedil;&otilde;es da TVA.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Leis anacr&ocirc;nicas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A Emenda Constitucional 08, aprovada durante o governo FHC em 1995, separou a radiodifus&atilde;o do restante das telecomunica&ccedil;&otilde;es, mantendo o r&aacute;dio e a televis&atilde;o atrelados ao C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CBT), de 1962, constru&iacute;do basicamente pelos empres&aacute;rios do setor, num dos primeiros acordes da sinfonia golpista executada dois anos depois em conjunto com os militares. Por sua vez, a telefonia passou a ser regulamentada pela Lei Geral de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, de 1997 e a TV a cabo pela chamada Lei do Cabo, de 1995. Os 45 anos do CBT e a converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica sugeririam uma revis&atilde;o ampla deste arcabou&ccedil;o regulat&oacute;rio e, quando da discuss&atilde;o sobre o modelo para TV digital, no ano passado, parecia haver um consenso entre os diferentes setores (governo, parlamentares, radiodifusores, empresas de telefonia, operadores de cabo e organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil) da necessidade de institui&ccedil;&atilde;o de uma nova e ampla legisla&ccedil;&atilde;o para o setor.<\/p>\n<p>Tal consenso, entretanto, pouco durou: interesses econ&ocirc;micos e a pouca (ou nenhuma) vontade do governo em contrariar setores historicamente poderosos t&ecirc;m dificultado qualquer iniciativa nesse sentido. N&atilde;o &agrave; toa, o destino dos projetos de lei que est&atilde;o sendo analisados hoje na C&acirc;mara dos Deputados que tratam das regras para a produ&ccedil;&atilde;o, programa&ccedil;&atilde;o e provimento de conte&uacute;dos ser&aacute; mesmo a resigna&ccedil;&atilde;o numa lei que abranja apenas os servi&ccedil;os de comunica&ccedil;&atilde;o social eletr&ocirc;nica de acesso condicionado &ndash; as TVs por assinatura &ndash; como j&aacute; anunciou o deputado Jorge Bittar (PT-RJ), relator dos projetos pela Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica.<\/p>\n<p><\/span><span>S&atilde;o quatro os projetos atualmente em tramita&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara: o PL 29\/07, do deputado Paulo Bornhausen (DEM-SC), que d&aacute; &agrave;s empresas de telefonia o direito de produzir e distribuir conte&uacute;do eletr&ocirc;nico; o PL 70\/07, do deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), que tenta garantir que a produ&ccedil;&atilde;o, programa&ccedil;&atilde;o, provimento e comercializa&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do brasileiro sejam reservados a brasileiros natos ou naturalizados; o PL 332\/2007, dos deputados Paulo Teixeira (PT\/SP) e Walter Pinheiro (PT\/BA), uma esp&eacute;cie de &ldquo;media&ccedil;&atilde;o&rdquo; entre os dois primeiros; e, mais recentemente, o PL 1.908\/07, do deputado Jo&atilde;o Maia (PR-RN), que cria um &ldquo;Servi&ccedil;o de Comunica&ccedil;&atilde;o Eletr&ocirc;nica de Massa&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Outros ind&iacute;cios que evidenciam o esfor&ccedil;o para adiar ao m&aacute;ximo uma decis&atilde;o que envolva a radiodifus&atilde;o foram o lobby dos empres&aacute;rios do setor para que o tema fosse tratado antes na Comiss&atilde;o de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (em fun&ccedil;&atilde;o da pretensa liga&ccedil;&atilde;o do dep. Bittar com as empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es) e a apresenta&ccedil;&atilde;o de novo projeto de lei sobre o tema tramitando no Senado (por meio do senador Flexa Ribeiro, do PSDB). &ldquo;Os donos de emissoras est&atilde;o tentando ganhar tempo, acumular for&ccedil;as, pois sabem que a converg&ecirc;ncia &eacute; inexor&aacute;vel&rdquo;, opina o deputado petista, que justifica sua op&ccedil;&atilde;o por um substitutivo que abranja somente a TV por assinatura em fun&ccedil;&atilde;o da &ldquo;correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as&rdquo; no Congresso. &ldquo;H&aacute; um dispositivo constitucional que separa radiodifus&atilde;o e telecomunica&ccedil;&otilde;es, portanto &eacute; necess&aacute;ria uma emenda constitucional. Isso significa ter que aprov&aacute;-la na C&acirc;mara e no Senado com maioria qualificada. Acho mais produtivo agora passar este projeto e nos credenciar para, no futuro, discutir a TV aberta&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p><\/span><span>Entretanto, n&atilde;o &eacute; o que acredita o pesquisador Murilo C&eacute;sar Ramos, coordenador do Laborat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas de Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia (Lapcom-UnB). Para ele, propor regula&ccedil;&otilde;es sem alterar o cap&iacute;tulo sobre comunica&ccedil;&atilde;o social da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal &eacute; in&oacute;cuo. &ldquo;N&atilde;o adianta construir um novo marco regulat&oacute;rio em cima de uma base podre. A revis&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; mais do que imperativa, mas n&atilde;o antes de uma revis&atilde;o constitucional&rdquo;, afirma. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>&ldquo;Converg&ecirc;ncia&rdquo;<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O cap&iacute;tulo mais recente desta hist&oacute;ria foi escrito durante esta semana, na Confer&ecirc;ncia Nacional Preparat&oacute;ria de Comunica&ccedil;&otilde;es, em Bras&iacute;lia. O presidente da Anatel &ndash; Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, Ronaldo Sardenberg, afirmou no evento que &ldquo;chegamos a um tempo que pede uma lei abrangente, que re&uacute;na v&aacute;rias leis, capazes de contemplarem pela &oacute;tica da evolu&ccedil;&atilde;o experimentada, a telefonia fixa e m&oacute;vel, o r&aacute;dio e a televis&atilde;o aberta e fechada, al&eacute;m da Internet&rdquo;. O ministro-chefe da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, Franklin Martins e o pr&oacute;prio ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, tamb&eacute;m foram no mesmo sentido ao afirmarem que existe um &ldquo;consenso&rdquo; entre o governo e o Congresso de que &eacute; necess&aacute;ria uma nova regulamenta&ccedil;&atilde;o para o setor.<\/p>\n<p><\/span><span>Quando questionados a respeito, emissoras e empresas de telecom apresentam suas teses a partir de uma pretensa busca em defender o interesse p&uacute;blico. O vice-presidente de rela&ccedil;&otilde;es institucionais das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo, Evandro Guimar&atilde;es, por exemplo, chegou a afirmar no mesmo evento, sobre a quest&atilde;o da converg&ecirc;ncia, que &ldquo;qualquer marco regulat&oacute;rio deve iniciar-se por uma visita ao Cap&iacute;tulo V da Constitui&ccedil;&atilde;o. &Eacute; isso que deve nos orientar, para que a converg&ecirc;ncia n&atilde;o se estabele&ccedil;a como fato consumado, e sim como um projeto para os brasileiros&rdquo;. <\/p>\n<p><\/span><span>A Telebrasil n&atilde;o tem o mesmo entendimento. Em sua apresenta&ccedil;&atilde;o na Confer&ecirc;ncia Preparat&oacute;ria, a associa&ccedil;&atilde;o das teles fixas e m&oacute;veis afirmou que a converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica &eacute; sim um fato, e ela deve ser vista como um instrumento para a realiza&ccedil;&atilde;o de &ldquo;objetivos nacionais&rdquo;, aproveitando, portanto, as &ldquo;oportunidades de desenvolvimento do mercado&rdquo;. Ou seja, prop&otilde;e que a abertura do mercado para a produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do deva ser uma pol&iacute;tica para o pr&oacute;ximo per&iacute;odo.<\/p>\n<p><\/span><span>Nessa disputa, duas coisas parecem se consolidar. De um lado, o poder de influ&ecirc;ncia das emissoras no Congresso. De outro, o crescente poder econ&ocirc;mico das empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es, que vai progressivamente tamb&eacute;m transformando-se em poder pol&iacute;tico. E, entre um e outro, os parlamentares brasileiros parecem que v&atilde;o, uma vez mais, acomodar interesses privados, esquecendo-se que sua principal tarefa como representantes dos brasileiros &eacute; a discuss&atilde;o e aprova&ccedil;&atilde;o de uma nova lei geral para as comunica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na contram\u00e3o dos pa\u00edses desenvolvidos, Brasil insiste em protelar a discuss\u00e3o sobre uma legisla\u00e7\u00e3o ampla para as telecomunica\u00e7\u00f5es, que englobe a radiodifus\u00e3o. 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