{"id":19240,"date":"2007-09-17T11:00:47","date_gmt":"2007-09-17T11:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19240"},"modified":"2007-09-17T11:00:47","modified_gmt":"2007-09-17T11:00:47","slug":"concessoes-a-caixa-preta-da-televisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19240","title":{"rendered":"Concess\u00f5es, a caixa preta da televis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\"><em>No dia 05 de outubro vencem as concess&otilde;es de importantes emissoras de televis&atilde;o do pa&iacute;s, as cinco da Rede Globo &#8211; S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Bras&iacute;lia, as da Band, Gazeta, Record e TV Cultura de S&atilde;o Paulo, entre outras. Para continuarem operando os canais que lhe foram outorgados pelo Estado, o governo federal precisa autorizar e o Congresso Nacional sancionar essa renova&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>O jornalista e professor da USP, Laurindo Leal Filho, conversou com&nbsp;o Vermelho&nbsp;sobre o assunto. Ele ressaltou a aus&ecirc;ncia de um marco regulat&oacute;rio para o setor, os fortes interesses pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos que entravam o avan&ccedil;o do debate e o poder que a Rede Globo exerce nesse cen&aacute;rio. &ldquo;&Eacute; o grande partido pol&iacute;tico do Brasil, das classes dominantes&rdquo;.<\/em> Confira a &iacute;ntegra da entrevista.<\/p>\n<p><strong>A popula&ccedil;&atilde;o brasileira desconhece o fato de que a TV &eacute; uma concess&atilde;o p&uacute;blica. No imagin&aacute;rio da popula&ccedil;&atilde;o permanece a id&eacute;ia de que a Globo, por exemplo, &eacute; propriet&aacute;ria daquele canal de televis&atilde;o. Qual a import&acirc;ncia do debate em torno das concess&otilde;es para o aprofundamento da democracia no Brasil?<br \/><\/strong>Essa &eacute; a verdadeira caixa-preta da televis&atilde;o. &Eacute; um assunto que pela primeira vez come&ccedil;a a ser discutido por alguns setores sociais, ainda que minorit&aacute;rios, mas pioneiros. &Eacute; um debate muito dif&iacute;cil, porque a maioria absoluta da sociedade s&oacute; se informa pela TV. A televis&atilde;o est&aacute; em praticamente 98% dos domic&iacute;lios. Se n&oacute;s pensarmos que 90% das pessoas s&oacute; se informam pela televis&atilde;o n&oacute;s teremos cerca de 170 milh&otilde;es de pessoas. Qualquer outro ve&iacute;culo &#8211; jornal, revista, internet, TV por assinatura &#8211; n&atilde;o chega a 10% da popula&ccedil;&atilde;o. E, obviamente, a televis&atilde;o n&atilde;o diz que &eacute; uma concess&atilde;o p&uacute;blica e, muito menos, que essas concess&otilde;es s&atilde;o renov&aacute;veis, que n&atilde;o s&atilde;o propriedade das empresas. No Brasil, as concess&otilde;es t&ecirc;m dura&ccedil;&atilde;o de 15 anos para a televis&atilde;o e 10 anos para o r&aacute;dio. Ao n&atilde;o ter acesso a essa informa&ccedil;&atilde;o, a popula&ccedil;&atilde;o acaba criando no seu imagin&aacute;rio a id&eacute;ia de que as empresas s&atilde;o propriet&aacute;rias desses canais, quando na verdade esses canais s&atilde;o bens p&uacute;blicos, outorgados pelo Estado em nome da sociedade para que os concession&aacute;rios prestem esse servi&ccedil;o por um per&iacute;odo limitado de tempo. Ent&atilde;o, enquanto n&atilde;o tivermos esse debate na sociedade brasileira ficar&aacute; muito dif&iacute;cil que se cobre das autoridades e do governo e do Legislativo uma a&ccedil;&atilde;o mais en&eacute;rgica e mais eficiente para controlar a concess&atilde;o e fazer o acompanhamento da renova&ccedil;&atilde;o dessas concess&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Quais s&atilde;o os crit&eacute;rios que uma emissora precisa cumprir, hoje, para obter a renova&ccedil;&atilde;o da sua concess&atilde;o?<br \/><\/strong>Hoje as concess&otilde;es s&atilde;o renovadas quase que burocraticamente, basta que o concession&aacute;rio prove que tem colocado a emissora no ar, que n&atilde;o tem d&eacute;bitos com a Receita Federal ou com o INSS, s&atilde;o crit&eacute;rios todos desvinculados do conte&uacute;do que ele deve transmitir. Muito embora a lei em vigor, de 1962, fa&ccedil;a algumas exig&ecirc;ncias que n&atilde;o s&atilde;o levadas em conta, infelizmente, nos processos de renova&ccedil;&atilde;o. Por exemplo, 25% de limite m&aacute;ximo de propaganda durante a programa&ccedil;&atilde;o. H&aacute; emissoras que colocam muito mais do que isso, que disfar&ccedil;am a propaganda em merchandising. N&atilde;o h&aacute; controle sobre a exig&ecirc;ncia de 5% da programa&ccedil;&atilde;o ser destinada a conte&uacute;do informativo, jornal&iacute;stico. Embora defasada, a lei estabelece algumas normas para a explora&ccedil;&atilde;o dessas concess&otilde;es, s&oacute; que os governos n&atilde;o t&ecirc;m acompanhado o cumprimento dessas exig&ecirc;ncias. Infelizmente, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es sempre esteve atrelado, com rar&iacute;ssimas exce&ccedil;&otilde;es, a pessoas muito vinculadas &agrave; radiodifus&atilde;o, e n&atilde;o h&aacute; empenho em que se seja cobrado o interesse p&uacute;blico sobre a concess&atilde;o. Vale mais na renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o o interesse do empres&aacute;rio para manter o servi&ccedil;o que lhe d&aacute; uma rentabilidade alta, do que o interesse do p&uacute;blico em receber um servi&ccedil;o de qualidade. <\/p>\n<p><strong>Os concession&aacute;rios atacam qualquer iniciativa de cria&ccedil;&atilde;o de instrumentos de controle social sobre a sua atividade. Essas s&atilde;o taxadas de censura e cerceamento da liberdade de imprensa.<br \/><\/strong>&Eacute; preciso rebater veementemente e com muita clareza essa recorrente imagem de que ser quer censura. Ao contr&aacute;rio, hoje quem faz censura s&atilde;o aqueles que det&eacute;m os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, porque eles dizem o que n&atilde;o deve ser levado ao ar e excluem uma grande parcela da produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, cultural e simb&oacute;lica brasileira. Todos n&oacute;s sabemos o quanto do movimento social n&atilde;o passa pelos telejornais brasileiros. &Eacute; preciso ficar claro que quem faz censura hoje s&atilde;o os concession&aacute;rios dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Aos poucos estamos conseguindo rebater isso, mas ainda &eacute; dif&iacute;cil, porque ainda temos forte a marca da censura da ditadura militar que n&atilde;o foi esquecida. Mas controle social n&atilde;o tem nada haver com censura. Ao contr&aacute;rio, tem haver com democracia. N&atilde;o podemos deixar que apenas duas ou tr&ecirc;s fam&iacute;lias digam o que o povo brasileiro deve saber, deve pensar, como deve se vestir, o que deve consumir.<\/p>\n<p><strong>Outro argumento utilizado pelas emissoras para menosprezar a necessidade do controle social &eacute; o de que a sociedade est&aacute; satisfeita com a programa&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute; oferecida e isso j&aacute; seria uma chancela para a sua atividade. <br \/><\/strong>N&atilde;o &eacute; verdade que a popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; contente com o que v&ecirc; na televis&atilde;o. O &iacute;ndice de audi&ecirc;ncia &eacute; san&ccedil;&atilde;o do mercado, isso &eacute; uma limita&ccedil;&atilde;o muito grande a tudo aquilo que poderia ser produzido de cultura, informa&ccedil;&atilde;o e que est&aacute; fora dos limites do mercado e, portanto, n&atilde;o s&atilde;o colocados para o p&uacute;blico que n&atilde;o tem o que escolher. O problema da televis&atilde;o comercial brasileira n&atilde;o &eacute; a baixa qualidade, mas &eacute; a falta da diversidade, da alternativa. Como as pessoas podem exigir algo que elas desconhecem? S&atilde;o gera&ccedil;&otilde;es criadas com esse modelo de televis&atilde;o comercial, diferente da Europa que teve o processo inverso. L&aacute;, a televis&atilde;o surgiu primeiramente estatal e p&uacute;blica, s&oacute; depois vieram as emissoras comerciais e, ent&atilde;o, o p&uacute;blico j&aacute; estava acostumado com um determinado n&iacute;vel de qualidade que passou a exigir das emissoras comerciais. Aqui, o p&uacute;blico n&atilde;o tem refer&ecirc;ncias para exigir uma qualidade melhor. Mesmo assim, quando se sai &agrave;s ruas para questionar se as pessoas est&atilde;o satisfeitas com o que &eacute; transmitido pela televis&atilde;o, todas as pesquisas mostram que n&atilde;o, embora n&atilde;o saibam muito claramente qual seria a alternativa, porque essa nunca lhes foi oferecida. &Eacute; como dizia Oswald de Andrade: como as pessoas podem gostar de biscoito fino se nunca provaram o biscoito fino? <\/p>\n<p><strong>E o que pode ser feito para alterar esse quadro?<br \/><\/strong>Um dos objetivos claros da televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; oferecer essa alternativa, mas ela n&atilde;o pode ficar restrita &agrave; TV P&uacute;blica, ela tem que ser oferecida por todos os canais. Nisso a movimenta&ccedil;&atilde;o da sociedade &eacute; ainda embrion&aacute;ria, mas quando for se cristalizando, n&atilde;o s&oacute; do ponto de vista da quantidade &ndash; um maior n&uacute;mero de pessoas e entidades envolvidas, mas tamb&eacute;m na quest&atilde;o da qualidade na elabora&ccedil;&atilde;o de propostas para o modelo, vamos chegar a uma situa&ccedil;&atilde;o em que ser&aacute; obrigat&oacute;ria a cria&ccedil;&atilde;o, no Brasil, de um &oacute;rg&atilde;o regulador da televis&atilde;o brasileira, que d&ecirc; conta n&atilde;o s&oacute; da quest&atilde;o da concess&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o, mas que fa&ccedil;a o acompanhamento das programa&ccedil;&otilde;es e que tenha o poder de estabelecer grades ou de influir na formula&ccedil;&atilde;o das grades das emissoras para que elas ofere&ccedil;am servi&ccedil;os complementares umas &agrave;s outras. Voc&ecirc; n&atilde;o pode ter, e algu&eacute;m j&aacute; disse que isso &eacute; uma esquizofrenia, 60, 80 milh&otilde;es de pessoas assistindo ao mesmo tempo o mesmo tipo de programa. Isso s&oacute; acontece porque n&atilde;o h&aacute; alternativa. Caberia ao &oacute;rg&atilde;o regulador, como acontece na Inglaterra, por exemplo, estabelecer que quando numa emissora est&aacute; se transmitindo uma novela, nas outras n&atilde;o possa ter novela, tem que ter um filme, na outra um document&aacute;rio e na quarta um programa de entretenimento, porque a televis&atilde;o &eacute; um servi&ccedil;o p&uacute;blico e todo o servi&ccedil;o p&uacute;blico deve ser acessado universalmente pela popula&ccedil;&atilde;o. O cidad&atilde;o n&atilde;o exerce esse direito porque n&atilde;o v&ecirc; essa sua expectativa atendida. Alguns dizem, quem n&atilde;o gosta que desligue a televis&atilde;o. N&atilde;o, ao fazer isso voc&ecirc; estar&aacute; abrindo m&atilde;o do direito de receber um servi&ccedil;o p&uacute;blico de qualidade.<\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; v&ecirc; o poder da Globo como ind&uacute;stria midi&aacute;tica no pa&iacute;s e qual sua avalia&ccedil;&atilde;o sobre a sua renova&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>A Globo &eacute; o grande partido pol&iacute;tico do Brasil, das classes dominantes, das oligarquias. Ela decodifica para a popula&ccedil;&atilde;o o ide&aacute;rio da classe dominante, e n&atilde;o s&oacute; a Globo, todas as outras, mas a Globo por ter mais audi&ecirc;ncia torna as id&eacute;ias da classe dominante as id&eacute;ias dominantes na sociedade. O poder da Rede Globo &eacute; um poder pol&iacute;tico partid&aacute;rio ser&iacute;ssimo no Brasil, muito forte. Agora n&oacute;s n&atilde;o temos hoje instrumentos legais para se estabelecer uma defini&ccedil;&atilde;o em torno da n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o da sua concess&atilde;o. Ela pode ser uma bandeira pol&iacute;tica, mas n&atilde;o h&aacute; um instrumento para dizer que a renova&ccedil;&atilde;o da Globo n&atilde;o pode ser feita porque ela infringiu este e aquele requisitos. E temos os obst&aacute;culos constitucionais. Uma n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o, ainda que fosse aprovada administrativamente teria que passar por uma vota&ccedil;&atilde;o que exige 2\/5 do Congresso Nacional, o que &eacute; praticamente imposs&iacute;vel. Nesse momento a luta deve ser, e eu acho que ela est&aacute; caminhando nesse sentido, de mostrar &agrave; sociedade que a concess&atilde;o &eacute; dela, sociedade, e que foi outorgada pelo Estado em nome dela. E a partir da&iacute; come&ccedil;ar uma luta para que se consiga um consenso mais amplo e uma press&atilde;o sobre o Congresso Nacional para que sejam revistas essas leis e criados mecanismos democr&aacute;ticos para o acompanhamento dessas concess&otilde;es. Enquanto n&atilde;o resolvermos isso, n&atilde;o chegaremos a uma democracia plena. Lembro-me de uma frase do Betinho que dizia, em tom de blague, que n&oacute;s s&oacute; ter&iacute;amos democracia no Brasil quando o presidente da Rede Globo fosse eleito pelo povo. Essa &eacute; uma imagem que mostra bem o poder dessa organiza&ccedil;&atilde;o na sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Quais seriam, em linhas gerais, algumas exig&ecirc;ncias que precisariam existir para que as renova&ccedil;&otilde;es fossem ratificadas?<br \/><\/strong>A exig&ecirc;ncia principal, sem a qual ser&aacute; dif&iacute;cil darmos um passo &agrave; frente &eacute; a elabora&ccedil;&atilde;o, pelo Executivo e ouvida a sociedade, de uma Lei de Comunica&ccedil;&atilde;o Eletr&ocirc;nica de Massa, que deveria ter sido enviada para o Congresso Nacional h&aacute; muito. A lei em vigor &eacute; de uma TV em preto e branco e n&oacute;s estamos no limiar da TV Digital. Foi elaborada num contexto cultural totalmente diferente. Naquela &eacute;poca, a sociedade estava mais no campo que na cidade. A nova lei teria que ser moderna, democr&aacute;tica e prever a cria&ccedil;&atilde;o de um &oacute;rg&atilde;o regulador. H&aacute; modelos para serem observados, como o Office of Comunication da Inglaterra, o Conselho Superior do Audiovisual na Fran&ccedil;a, o Conselho de Televis&atilde;o em Portugal. Ali&aacute;s, Portugal aprovou em agosto uma nova lei para a televis&atilde;o que passou a rever as concess&otilde;es de 5 em 5 anos, que n&atilde;o permite que uma televis&atilde;o mude sua programa&ccedil;&atilde;o 48 horas antes de ir ao ar para n&atilde;o prejudicar o telespectador, enfim, uma s&eacute;rie de detalhes que podem ser observados. Com isso, o acompanhamento da concess&atilde;o n&atilde;o seria subjetivo, seria baseado numa s&eacute;rie de elementos e determina&ccedil;&otilde;es que as emissoras teriam que cumprir. A primeira delas seria, ao se candidatarem para uma concess&atilde;o, apresentar uma proposta de grade de programa&ccedil;&atilde;o dizendo que p&uacute;blicos e servi&ccedil;os elas estariam atendendo. Caso o contrato fosse infringido estariam ali os elementos objetivos para que o &oacute;rg&atilde;o regulador pudesse sancionar a emissora, at&eacute; cancelando uma concess&atilde;o, como acontecem nos pa&iacute;ses democr&aacute;ticos. N&atilde;o seria nada subjetivo, nada antidemocr&aacute;tico, pelo contr&aacute;rio, isso se d&aacute; com qualquer servi&ccedil;o p&uacute;blico. Quando uma empresa ganha uma concess&atilde;o para operar uma linha de &ocirc;nibus ela diz qual o hor&aacute;rio, itiner&aacute;rio e a freq&uuml;&ecirc;ncia dos &ocirc;nibus. Se qualquer um desses itens n&atilde;o for cumprido ela pode perder a concess&atilde;o. A mesma coisa precisa acontecer com a televis&atilde;o. &Eacute; uma coisa aparentemente simples, mas que em fun&ccedil;&atilde;o dos entraves impostos pelos interesses pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos no Brasil n&atilde;o s&atilde;o praticados.<\/p>\n<p><strong>Qual o impacto do ingresso das novas tecnologias, principalmente com a digitaliza&ccedil;&atilde;o, no cen&aacute;rio da Radiodifus&atilde;o?<br \/><\/strong>Um dos argumentos para protelar a elabora&ccedil;&atilde;o de uma Lei de Comunica&ccedil;&atilde;o Eletr&ocirc;nica de Massa era o fato de que a televis&atilde;o digital estava chegando e iria mudar todo o cen&aacute;rio tecnol&oacute;gico, da&iacute; deveria se esperar que isso acontecesse para modificar a lei. Mas, no meu ponto de vista, deveria ter sido exatamente o contr&aacute;rio. A TV digital, ao ser implantada, j&aacute; deveria encontrar uma lei que determinasse, por exemplo, que todos os canais deveriam atender o crit&eacute;rio da multiprograma&ccedil;&atilde;o. &Eacute; uma tecnologia de ponta que favorece a democratiza&ccedil;&atilde;o da oferta de produtos televisivos e a diversidade. A outorga das atuais concess&otilde;es (anal&oacute;gicas) foi dada para que as empresas operassem apenas um canal e n&atilde;o quatro ou oito como elas agora se arrogam o direito de ter em fun&ccedil;&atilde;o da digitaliza&ccedil;&atilde;o. V&atilde;o usar esses oito como? A tend&ecirc;ncia &eacute; usar para alta defini&ccedil;&atilde;o e baixa interatividade. Vamos ter uma programa&ccedil;&atilde;o &uacute;nica, com imagem de alt&iacute;ssima qualidade e uma interatividade para atender apenas as quest&otilde;es comerciais, a possibilidade de uma venda mais r&aacute;pida e eficiente dos produtos anunciados. &Eacute; um uso med&iacute;ocre para uma tecnologia t&atilde;o avan&ccedil;ada e que poderia garantir o aumento dos atores participando do processo, novas empresas, organiza&ccedil;&otilde;es sociais, funda&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas que teriam possibilidade de colocar suas programa&ccedil;&otilde;es pelos novos canais. Haveria a possibilidade, tamb&eacute;m, de uma interatividade mais rica, incluindo pela televis&atilde;o a grande massa da popula&ccedil;&atilde;o que est&aacute; fora da internet. Isso seria poss&iacute;vel, mas n&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel com a televis&atilde;o em alta defini&ccedil;&atilde;o que parece ser&aacute; o modelo adotado pelas grandes redes.<br \/>Os movimentos que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia t&ecirc;m insistido na necessidade da realiza&ccedil;&atilde;o de uma Confer&ecirc;ncia das Comunica&ccedil;&otilde;es nos moldes das outras confer&ecirc;ncias que t&ecirc;m acontecido no Pa&iacute;s, como a de Sa&uacute;de, Mulheres, Habita&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; considera vi&aacute;vel a realiza&ccedil;&atilde;o de uma confer&ecirc;ncia nesses moldes e que impacto ela teria para a elabora&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas para o setor?<br \/><\/strong>Vi&aacute;vel e necess&aacute;ria, seria o passo seguinte para dar consist&ecirc;ncia e organicidade para esses movimentos que est&atilde;o preocupados com o papel e o poder da televis&atilde;o. N&oacute;s come&ccedil;amos a nossa conversa falando das dificuldades que a sociedade tem em entender que a televis&atilde;o &eacute; uma concess&atilde;o p&uacute;blica. A Confer&ecirc;ncia estabelecida como s&atilde;o as outras citadas, feita a partir dos munic&iacute;pios, de baixo para cima, vai contribuir para essa conscientiza&ccedil;&atilde;o da sociedade. Agora, talvez seja mais dif&iacute;cil levar isso a frente, j&aacute; que os atuais benefici&aacute;rios dessas concess&otilde;es utilizam todos os mecanismos para evitar que haja um avan&ccedil;o nesse debate. Tanto no Legislativo quanto no Executivo existe um contra-poder muito forte para evitar essa avan&ccedil;o. &Eacute; um embate forte e eu n&atilde;o acredito que uma Confer&ecirc;ncia nesses moldes seja organizada com o apoio desses poderes muito facilmente. Os obst&aacute;culos ser&atilde;o grandes, mas eles come&ccedil;am a ser enfrentados. Os movimentos devem ter o seu pr&oacute;prio caminho para levar em frente a bandeira de uma Confer&ecirc;ncia realmente democr&aacute;tica e popular das comunica&ccedil;&otilde;es e isenta de qualquer tutela seja do Legislativo ou Executivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;As empresas s\u00e3o somente operadoras de um servi\u00e7o p\u00fablico.&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[420],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19240"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19240"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19240\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}