{"id":19235,"date":"2007-09-17T10:10:44","date_gmt":"2007-09-17T10:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19235"},"modified":"2007-09-17T10:10:44","modified_gmt":"2007-09-17T10:10:44","slug":"o-jornalismo-e-o-espetaculo-da-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19235","title":{"rendered":"O jornalismo e o espet\u00e1culo da m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify\" class=\"MsoNormal\"><span>&ldquo;O que a senhora est&aacute; sentindo?&rdquo; &ndash; pergunta o rep&oacute;rter &agrave; m&atilde;e angustiada, na noite de 17 de julho, em busca de alguma not&iacute;cia sobre a filha, supostamente embarcada no tr&aacute;gico v&ocirc;o JJ 3054 da TAM. A c&acirc;mera, implac&aacute;vel e pornogr&aacute;fica, permanece fixa sobre o rosto da pobre senhora. A TV n&atilde;o pode perder nenhum detalhe daquela dor. O que importa se a pergunta &eacute; est&uacute;pida e se a resposta &eacute; mais do que &oacute;bvia? N&atilde;o se trata, aqui, de obter esclarecimento algum, nem de divulgar alguma informa&ccedil;&atilde;o nova. Ao contr&aacute;rio. Trata-se de reiterar, de repetir, de confirmar tudo aquilo que j&aacute; se sabe e se conhece. Trata-se de um novo cap&iacute;tulo da fotonovela da vida real, um Big Brother muito mais intenso, hipn&oacute;tico e perversamente sedutor. Numa palavra: sensacional.<\/p>\n<p><\/span><span>Que as emissoras de televis&atilde;o queiram explorar a dor alheia para catapultar os &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia, e com isso aumentar o valor de cada segundo investido em publicidade, em nome do faturamento e lucro, isso &eacute; f&aacute;cil explicar e entender (embora nem tanto justificar ou defender). Um pouco mais dif&iacute;cil &eacute; perceber o que querem os telespectadores que se deixam seduzir pelas imagens&nbsp; da mis&eacute;ria nossa de cada dia.<\/p>\n<p><\/span><span>Os telespectadores gozam com o espet&aacute;culo da dor, por verem projetados os seus pr&oacute;prios medos, anseios, desejos, vontades, &oacute;dios, sejam eles conscientes ou, ao contr&aacute;rio, enterrados, reprimidos e recalcados nas camadas mais profundas da argamassa ps&iacute;quica que o bom e velho Sigmund qualificou como inconsciente. A tela serve de palco ao teatro mais &iacute;ntimo de cada um. Na seguran&ccedil;a de sua casa, o telespectador pode vivenciar, por meio do outro, as suas ang&uacute;stias e prazeres sem realmente se expor aos perigos que a vida oferece. <\/p>\n<p><\/span><span>Esse mecanismo de proje&ccedil;&atilde;o ajuda a entender, por exemplo, o p&acirc;nico que se apossou de S&atilde;o Paulo na famosa&nbsp; segunda-feira, 15 de maio de 2006: alarmadas por not&iacute;cias sobre ataques do PCC, milh&otilde;es de pessoas voltaram mais cedo para suas casas. O com&eacute;rcio fechou, tudo parou. Como explicar o frenesi maluco que tomou conta da popula&ccedil;&atilde;o? Uma primeira interpreta&ccedil;&atilde;o surge f&aacute;cil: a culpa foi da televis&atilde;o, que exagerou nas not&iacute;cias sobre a intensidade da guerra entre a pol&iacute;cia e o PCC. Mas n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples. Claro que a televis&atilde;o ajudou a disseminar o clima de &ldquo;fim de mundo&rdquo;. Mas n&atilde;o foi ela que criou o p&acirc;nico. Ele j&aacute; estava instalado, apenas &agrave; espera da ocasi&atilde;o prop&iacute;cia para eclodir.<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; mais f&aacute;cil ver isso retrospectivamente, quando pensamos em outros processos de histeria em massa. O mais c&eacute;lebre deles, provavelmente, aconteceu nos Estados Unidos, em 30 de outubro de 1938, com a transmiss&atilde;o radiof&ocirc;nica da &ldquo;guerra dos mundos&rdquo;, por Orson Welles. &Agrave;s v&eacute;speras da &ldquo;noite das bruxas&rdquo; (Halloween), Welles anunciou aos 6 milh&otilde;es de ouvintes da rede CBS que o pa&iacute;s sofria uma invas&atilde;o de marcianos.&nbsp; O roteiro era baseado na fic&ccedil;&atilde;o escrita por H. G. Welles. A audi&ecirc;ncia&nbsp; ignorou o aviso de que se tratava de uma brincadeira. Resultado: milh&otilde;es de pessoas que viviam no campo entupiram rodovias rumo &agrave;s cidades mais pr&oacute;ximas, e vice-versa; gente saiu &agrave;s ruas aos prantos.<\/p>\n<p><\/span><span>A como&ccedil;&atilde;o foi produzida pela sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a que ent&atilde;o atormentava o cidad&atilde;o m&eacute;dio estadunidense. O pa&iacute;s ainda sentia os efeitos da Grande Depress&atilde;o, que, em 1929, havia destru&iacute;do a economia, o american dream. As institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas estavam em frangalhos, o desemprego atormentava milh&otilde;es de fam&iacute;lias e os tambores da guerra soavam no outro lado do Atl&acirc;ntico.<\/p>\n<p><\/span><span>Guardadas as devidas propor&ccedil;&otilde;es e relativiza&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, o cidad&atilde;o brasileiro m&eacute;dio de 2006 (como o de hoje, ali&aacute;s) tampouco podia esperar muito das institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, especialmente ap&oacute;s o &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo; e os sucessivos esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o. Ningu&eacute;m podia confiar nos sistemas p&uacute;blicos de sa&uacute;de, ensino, previd&ecirc;ncia, seguran&ccedil;a. Mesmo o brasileiro de classe m&eacute;dia sabia que a crescente concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza tornava a vida cada vez mais cara e o futuro cada vez mais incerto. Quem pode hoje, com tranq&uuml;ilidade, pagar o estudo de v&aacute;rios filhos, os planos de sa&uacute;de de pais idosos e ainda salvar algum para garantir a aposentadoria? Na favela, onde grupos de policiais coexistiam com o narcotr&aacute;fico, o conflito entre pol&iacute;cia e o PCC n&atilde;o apareceu como uma luta entre for&ccedil;as da ordem contra o caos, mas sim como uma guerra entre bandos organizados, e a popula&ccedil;&atilde;o bem no meio, sem prote&ccedil;&atilde;o alguma.<\/p>\n<p><\/span><span>O p&acirc;nico de S&atilde;o Paulo teve como ingredientes a frustra&ccedil;&atilde;o com o passado, a perplexidade face ao presente e o medo do futuro. A televis&atilde;o n&atilde;o criou, mas explorou isso tudo, como faz hoje, por exemplo, no Morro do Alem&atilde;o carioca.<\/p>\n<p><\/span><span>Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o sabem, portanto, que o sensacionalismo oferece uma via f&aacute;cil para aumentar a audi&ecirc;ncia. E o p&uacute;blico, por sua vez, espera que os meios alimentem suas fantasias cotidianas. Cria-se uma rede complexa de cumplicidade. E &eacute; precisamente essa teia de cumplicidade que torna t&atilde;o complicada a discuss&atilde;o sobre a responsabilidade social dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. De um lado, &eacute; obviamente conden&aacute;vel a atitude est&uacute;pida e desumana de explorar a dor de uma m&atilde;e perplexa com a not&iacute;cia sobre a possibilidade da s&uacute;bita morte de sua filha. Por outro lado, a audi&ecirc;ncia pede mais.<\/p>\n<p><\/span><span>Essa equa&ccedil;&atilde;o s&oacute; pode ser resolvida pela interven&ccedil;&atilde;o de um par&acirc;metro que se coloca, ao mesmo tempo, acima dos interesses pecuni&aacute;rios das emissoras e das paix&otilde;es e anseios dos telespectadores: o bem p&uacute;bico. Historicamente, desde os tempos em que a inven&ccedil;&atilde;o de Gutenberg serviu aos prop&oacute;sitos militantes de Martinho Lutero, a constru&ccedil;&atilde;o da imprensa e dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o constituiu-se dado insepar&aacute;vel da forma&ccedil;&atilde;o da esfera p&uacute;blica e da sociedade civil. Em nome do interesse p&uacute;blico, grupos privados de m&iacute;dia obtiveram a permiss&atilde;o de explorar as ondas que percorrem o espa&ccedil;o p&uacute;blico, mediante a condi&ccedil;&atilde;o (inscrita na Constitui&ccedil;&atilde;o dos estados democr&aacute;ticos ocidentais) de produzirem uma programa&ccedil;&atilde;o que eleve o n&iacute;vel cultural da popula&ccedil;&atilde;o, dignifique o cidad&atilde;o, produza uma informa&ccedil;&atilde;o confi&aacute;vel e equilibrada.<\/p>\n<p><\/span><span>Se, com o passar do tempo, o interesse privado acabou se sobrepondo ao p&uacute;blico, operando os meios de comunica&ccedil;&atilde;o mediante pr&aacute;tica exclusivamente comercial, isso pode e deve ser mudado. Em nome do interesse p&uacute;bico, &eacute; mais do que leg&iacute;timo pensar num c&oacute;digo de &eacute;tica e normas que rompa a nefasta rela&ccedil;&atilde;o de cumplicidade entre meios e p&uacute;blico cimentada pelo sensacionalismo e pela explora&ccedil;&atilde;o baixa das paix&otilde;es privadas.<\/p>\n<p><\/span><span>Como fazer isso &eacute; outro problema, que cabe &agrave; pr&oacute;pria sociedade, democraticamente, resolver. N&atilde;o ser&aacute; uma tarefa f&aacute;cil, dada a tremenda oposi&ccedil;&atilde;o oferecida pelos pr&oacute;prios meios, como se observa em cada tentativa de se regulamentar, minimamente que seja, a rede de programa&ccedil;&atilde;o. Mas &eacute; uma tarefa necess&aacute;ria, do ponto de vista da real democracia.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;O que a senhora est&aacute; sentindo?&rdquo; &ndash; pergunta o rep&oacute;rter &agrave; m&atilde;e angustiada, na noite de 17 de julho, em busca de alguma not&iacute;cia sobre a filha, supostamente embarcada no tr&aacute;gico v&ocirc;o JJ 3054 da TAM. A c&acirc;mera, implac&aacute;vel e pornogr&aacute;fica, permanece fixa sobre o rosto da pobre senhora. 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