{"id":19182,"date":"2007-09-10T16:26:33","date_gmt":"2007-09-10T16:26:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19182"},"modified":"2007-09-10T16:26:33","modified_gmt":"2007-09-10T16:26:33","slug":"livro-expoe-cicatrizes-do-jornalismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19182","title":{"rendered":"Livro exp\u00f5e cicatrizes do jornalismo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>De Porto Alegre &agrave; fronteira entre Estados Unidos e M&eacute;xico; de J&acirc;nio Quadros a maridos assassinos; de Realidade ao Globo Rural, Carlos Azevedo construiu uma das mais respeitadas trajet&oacute;rias do jornalismo brasileiro. Aos 67 anos, resolveu reunir algumas de suas principais mat&eacute;rias no livro Cicatriz de Reportagem &ndash; 13 hist&oacute;rias que fizeram um rep&oacute;rter (Editora Papagaio), que ser&aacute; lan&ccedil;ado nesta segunda-feira, dia 10, em S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p>Logo na apresenta&ccedil;&atilde;o, Azevedo explica o que h&aacute; de comum nas reportagens que escolheu: &ldquo;Seus personagens s&atilde;o &iacute;ndios, trabalhadores do campo procurando terra, seringueiros, petroleiros, oper&aacute;rios, negros, boiadeiros, imigrantes desterrados em busca de trabalho, de um lar, de uma identidade. Gente que se garante cada dia contando somente com a pr&oacute;pria fibra. Homens e mulheres cuja voz n&atilde;o costuma ser ouvida nos gabinetes do poder e na imprensa&rdquo;. <\/p>\n<p>Dono de um estilo saboroso e ao mesmo tempo contundente, Azevedo passou por reda&ccedil;&otilde;es como a de O Estado de S. Paulo, Quatro Rodas, Realidade, Caros Amigos, al&eacute;m do programa Globo Rural. &ldquo;Sempre tive prefer&ecirc;ncia por mat&eacute;rias que colocassem nosso povo na imprensa, mostrando como ele &eacute;. Ao mesmo tempo, para mim &eacute; dif&iacute;cil tratar com pol&iacute;ticos, empres&aacute;rios. Na verdade, faz parte das minhas idiossincrasias&rdquo;, disse ao Vermelho. <\/p>\n<p>No entanto, revelou o antigo militante comunista, s&oacute; depois de olhar toda sua obra, percebeu que quase havia escrito a respeito da gente simples. &ldquo;N&atilde;o foi proposital. Acabei me encaminhando para isso. E sempre foi muito rico para mim. Tenho muita resist&ecirc;ncia em trabalhar com essa coisa da apar&ecirc;ncia que as classes dominantes t&ecirc;m. Elas dizem falar em nome do povo, mas est&atilde;o &eacute; fazendo as coisas para eles pr&oacute;prios&rdquo;, enfatizou.<\/p>\n<p><strong>Conspira&ccedil;&atilde;o contra Jango<\/p>\n<p><\/strong>Al&eacute;m de apresentar as 13 reportagens que mais marcaram sua carreira, Azevedo conta, antes de cada mat&eacute;ria, o contexto da &eacute;poca, como foi a prepara&ccedil;&atilde;o da reportagem e detalhes das viagens que fez em busca de boas hist&oacute;rias. A primeira delas foi publicada em 29 de agosto de 1961, em O Estado de S. Paulo.&nbsp;<\/p>\n<p>Com apenas 21 anos, Azevedo se viu diante do desafio de cobrir a ren&uacute;ncia de J&acirc;nio Quadros e os desdobramentos posteriores. O epis&oacute;dio deu in&iacute;cio a um dos momentos mais tensos da hist&oacute;ria pol&iacute;tica brasileira e abriu caminho para a prepara&ccedil;&atilde;o do golpe militar de 1964.<\/p>\n<p>Com o afastamento do presidente do poder central, Jo&atilde;o Goulart, seu vice, deveria assumir o pal&aacute;cio do Planalto. Por&eacute;m, a elite brasileira e o comando das For&ccedil;as Armadas, com o apoio dos grandes jornais, n&atilde;o admitiam que Jango, ligado &agrave; esquerda, assumisse a presid&ecirc;ncia. A decis&atilde;o dividiu os militares e no Rio Grande do Sul, o ent&atilde;o governador Leonel Brizola denunciou o golpe que estava por vir.&nbsp;<\/p>\n<p>O jovem rep&oacute;rter, enviado &agrave; capital ga&uacute;cha, viu seus informes serem deturpados para sa&iacute;rem no O Estado de S. Paulo. Uma entrevista feita com general Machado Lopes, que defendia a legalidade e a posse de Goulart, s&oacute; foi publicada depois que a crise j&aacute; havia passado, em 5 de setembro. &ldquo;Naquela &eacute;poca, ficou muito clara a posi&ccedil;&atilde;o do Estad&atilde;o: ele estava participando da conspira&ccedil;&atilde;o para n&atilde;o dar posse ao Jo&atilde;o Goulart e tinha uma orienta&ccedil;&atilde;o clara quanto a isso&rdquo;, lembrou Azevedo.<\/p>\n<p><strong>Conservadora, como sempre<\/p>\n<p><\/strong>Questionado sobre as posi&ccedil;&otilde;es conservadoras e elitistas da &ldquo;grande m&iacute;dia&rdquo;, Azevedo diz que hoje isso se d&aacute; com mais for&ccedil;a porque &ldquo;temos um governo vindo das camadas populares, e n&atilde;o do setor dominante da sociedade. Ent&atilde;o, essa imprensa aparece para representar os interesses dessa elite. Mas, isso sempre fez parte do modo dela operar&rdquo;, lamenta.&nbsp;<\/p>\n<p>Atualmente, observa, &ldquo;&eacute; uma imprensa mais corporativa e abre espa&ccedil;o apenas para um setor da sociedade. A CBN, por exemplo. Voc&ecirc; ouve n&atilde;o sei quantos empres&aacute;rios, representantes da Fiesp, de bancos, os economistas e os especialistas &ndash; hoje se criou essa categoria, em geral formada por especuladores do mercado. Mas voc&ecirc; n&atilde;o ouve, nenhuma vez, um l&iacute;der sindical, um oper&aacute;rio, um trabalhador rural.&nbsp; Se esta fosse uma imprensa da sociedade, deveria dar espa&ccedil;o para que outros pontos de vista aparecessem&rdquo;.<\/p>\n<p>Outra marca da grande imprensa, comenta Azevedo, &eacute; a homogeneiza&ccedil;&atilde;o das reda&ccedil;&otilde;es. &ldquo;A ind&uacute;stria cultural foi monopolizada e isso acabou bloqueando a presen&ccedil;a de talentos mais contestadores. Aqueles profissionais, que durante a ditadura continuavam se opondo ao regime, vendiam sua for&ccedil;a de trabalho, mas n&atilde;o sua consci&ecirc;ncia e sua coer&ecirc;ncia. Aos poucos, esse pessoal foi saindo e criou-se um clima de total hegemonia&rdquo;.<\/p>\n<p>Com o processo de industrializa&ccedil;&atilde;o das reda&ccedil;&otilde;es, explica, &ldquo;cada editor resolve a mat&eacute;ria com v&aacute;rios rep&oacute;rteres e os textos ficam impessoais&rdquo;. Segundo ele, a solu&ccedil;&atilde;o para que haja mais reportagens de f&ocirc;lego e maior diversidade de opini&otilde;es est&aacute; na cria&ccedil;&atilde;o de novos espa&ccedil;os e no uso da Internet. &ldquo;Ela vem rompendo com essa hegemonia da grande imprensa. Tenho esperan&ccedil;as de que est&aacute; surgindo uma nova fase e que a imprensa brasileira vai se tornar multifacetada e mais complexa&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Cora&ccedil;&atilde;o quente, cabe&ccedil;a fria<\/p>\n<p><\/strong>Ao ler os textos escolhidos para Cicatrizes de Reportagem, o leitor tem a impress&atilde;o de estar batendo um papo com o autor. Sem rebuscamentos e mergulhando a fundo nos temas a que se dedica, Azevedo oferece um jornalismo de alta qualidade sobre assuntos variados. Em uma das reportagens, ele retrata a extin&ccedil;&atilde;o de nossos &iacute;ndios e o descaso do &oacute;rg&atilde;o ent&atilde;o respons&aacute;vel pela prote&ccedil;&atilde;o dos povos nativos. Num outro texto, contava a saga de um motoqueiro de nome &ldquo;Jacar&eacute;&rdquo;. Em seguida, retrata os absurdos do muro que separa o territ&oacute;rio estadunidense e mexicano e discute a globaliza&ccedil;&atilde;o a partir de hist&oacute;rias de gente que buscava do outro lado o &ldquo;sonho americano&rdquo;. <\/p>\n<p>&ldquo;Sempre fui sens&iacute;vel &agrave; quest&atilde;o das injusti&ccedil;as, da riqueza extrema de um lado e da pobreza absoluta de outro, sentimento que vinha desde a adolesc&ecirc;ncia&rdquo;, recorda. Mas, al&eacute;m desse tipo de den&uacute;ncia e de se dedicar a retratar gente comum, suas reportagens carregam outro tra&ccedil;o de similitude entre si: a profunda dedica&ccedil;&atilde;o do rep&oacute;rter por seu trabalho. &ldquo;Quando fa&ccedil;o uma reportagem grande, me apaixono completamente e passo a viver com aqueles personagens e como eles. Viro um boiadeiro entre os boiadeiros e, se estou com os &iacute;ndios, vou nadar pelado. &Agrave;s vezes, a gente at&eacute; aluga a exist&ecirc;ncia do outro para viver um pouco a vida dele&rdquo;, conta. E completa: &ldquo;cada reportagem foi uma paix&atilde;o diferente. Eu as fiz com o cora&ccedil;&atilde;o quente e a cabe&ccedil;a fria. O texto vai nascendo de voc&ecirc;, de tudo aquilo que viveu&rdquo;.<\/p>\n<p>Encerrando a conversa com o Vermelho, Azevedo vaticinou: &ldquo;Esse livro pode dar a impress&atilde;o de que estou fechando as portas, como quem faz um balan&ccedil;o do que j&aacute; escreveu. Ao contr&aacute;rio. Estou abrindo novas portas. O livro tem a inten&ccedil;&atilde;o de dizer&nbsp; &lsquo;estou aqui e estou a fim de fazer&rsquo;&rdquo;. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Porto Alegre &agrave; fronteira entre Estados Unidos e M&eacute;xico; de J&acirc;nio Quadros a maridos assassinos; de Realidade ao Globo Rural, Carlos Azevedo construiu uma das mais respeitadas trajet&oacute;rias do jornalismo brasileiro. 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