{"id":19179,"date":"2007-09-10T00:00:00","date_gmt":"2007-09-10T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19179"},"modified":"2007-09-10T00:00:00","modified_gmt":"2007-09-10T00:00:00","slug":"pesquisa-mostra-como-imprensa-ajuda-a-construir-valores-no-campo-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19179","title":{"rendered":"Pesquisa mostra como imprensa ajuda a construir valores no campo da educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Com agu&ccedil;ado olhar sobre como a imprensa ajuda a construir valores no campo da educa&ccedil;&atilde;o, o professor de hist&oacute;ria da rede p&uacute;blica estadual paulista Geraldo Sabino Ricardo Filho esquadrinhou em seu trabalho de mestrado (publicado h&aacute; dois anos em livro com o t&iacute;tulo de A Boa Escola no Discurso da M&iacute;dia), a evolu&ccedil;&atilde;o da id&eacute;ia de educa&ccedil;&atilde;o de qualidade contida nas p&aacute;ginas da revista semanal Veja ao longo do tempo. Sua pesquisa parte do come&ccedil;o da publica&ccedil;&atilde;o, quando esta ainda era dirigida por Mino Carta, que guiava suas diretrizes jornal&iacute;sticas, e se deteve especialmente no per&iacute;odo de 1995 a 2001, quando um grupo de educadores capitaneado pelo mineiro Cl&aacute;udio Moura Castro alicer&ccedil;ou as bases de um discurso de qualidade no mundo escolar. <\/p>\n<p><\/em><strong>Em seu livro, o senhor mostra como a revista Veja criou e ratificou uma id&eacute;ia de escola de qualidade. Quais os pontos centrais dessa constru&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>Procuro demonstrar que a id&eacute;ia de uma boa escola &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o coletiva de diversos atores pertencentes a campos diferentes, mas que se movimentam pelo campo educacional, ampliando suas fronteiras. Desse modo, o consenso em torno da boa escola n&atilde;o &eacute; prerrogativa da revista Veja, mas ela atua como um espa&ccedil;o de difus&atilde;o de uma determinada prescri&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica, contribuindo assim com a produ&ccedil;&atilde;o do consenso acerca do que poderia significar uma escola de qualidade.<\/p>\n<p><strong>Como um meio de comunica&ccedil;&atilde;o adquire legitimidade social para realizar esse tipo de constru&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>Um ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o, qualquer que seja ele, n&atilde;o adquire legitimidade (de qualquer natureza) fora dos processos hist&oacute;ricos em que ele est&aacute; inserido. Quando se pensa em legitimidade, &agrave; maneira do [soci&oacute;logo Pierre] Bourdieu, h&aacute; que se pensar as disputas que ocorrem no campo jornal&iacute;stico, as estrat&eacute;gias de lideran&ccedil;a nesse campo, o poder simb&oacute;lico expresso em tiragens, segmentos de leitores, jornalistas prestigiosos, entre outras quest&otilde;es. No caso da revista Veja, por exemplo, ela era (ou ainda &eacute;) a quarta maior revista de informa&ccedil;&atilde;o semanal do mundo, com mais de 1 milh&atilde;o de assinantes e uma proje&ccedil;&atilde;o de mais de 5 milh&otilde;es de leitores. Defendo, em meu trabalho, que o dom&iacute;nio da l&iacute;ngua leg&iacute;tima contribui para a conforma&ccedil;&atilde;o de consensos, legitimando e sendo legitimado.<\/p>\n<p><strong>Esse caso atesta a tese de Bourdieu de que a escola transforma desigualdades culturais em desigualdades escolares?<br \/><\/strong>Pierre Bourdieu redimensionou a pesquisa sociol&oacute;gica ao associar c&acirc;nones cient&iacute;ficos a objetos antes preteridos na academia. Seu itiner&aacute;rio de investiga&ccedil;&atilde;o &eacute; muito rico e diversificado, como os trabalhos com a sociedade cabila, na Arg&eacute;lia, reflex&otilde;es sobre os jogos ol&iacute;mpicos, o campo da alta-costura parisiense, visitas aos museus, sistemas escola&shy;res, intelectuais etc. No entanto, seu livro A Reprodu&ccedil;&atilde;o, traduzido no Brasil em meados da d&eacute;cada de 1970, foi, durante muito tempo, o mais citado e apropriado de forma um tanto apressada. Assim, o ep&iacute;teto reprodutivista acabou permeando um determinado discurso educacional, felizmente superado com trabalhos de Denice Catani, Jaime Cordeiro, Maria da Gra&ccedil;a Setton, entre outros intelectuais.<\/p>\n<p><strong>E qual a ess&ecirc;ncia dessa nova leitura da obra de Bourdieu?<br \/><\/strong>Quando se fala numa escola que transforma desigualdades culturais em desigualdades escolares, &eacute; preciso considerar o percurso intelectual de Bourdieu para entender que sua obra apresenta um conjunto de conceitos, jamais sedimentados, mas refeitos empiricamente, que atestam suas infer&ecirc;ncias sobre o sistema escolar. Bourdieu n&atilde;o afirma que a escola conserva as estruturas sociais, ao contr&aacute;rio, enfatiza que o sistema de ensino contribui para conserv&aacute;-las, o que &eacute; bem diferente, j&aacute; que as desigualdades culturais t&ecirc;m origens nas formas de transmiss&atilde;o do capital cultural, especialmente nas fam&iacute;lias. Alguns desdobramentos de suas pesquisas, supostamente sem respostas, estavam nas quest&otilde;es de aquisi&ccedil;&atilde;o de capital cultural em crian&ccedil;as de classes populares que obtinham sucesso escolar, apesar do baix&iacute;ssimo capital cultural de suas fam&iacute;lias, e foram ampliados em es&shy;tudos de soci&oacute;logos como Bernard Charlot e Bernard Lahire. Contudo, apesar dessa contribui&ccedil;&atilde;o importante, ainda &eacute; poss&iacute;vel confirmar a tese de Bourdieu de que a escola contribui para conservar a estrutura social, sem que isso se constitua numa posi&ccedil;&atilde;o conservadora do pesquisador.<\/p>\n<p><strong>Boaventura Santos fala das crises de hegemonia e de legitimidade da universidade. At&eacute; que ponto a m&iacute;dia contribui para isso no caso da reflex&atilde;o sobre educa&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>Essa pergunta &eacute; dif&iacute;cil, contudo &eacute; poss&iacute;vel considerar alguns aspectos. Boaventura de Souza Santos fala em tr&ecirc;s tipos de crises que acometeram a universidade: a crise de legitimidade, a crise de hegemonia e a crise institucional. Talvez as crises mais sentidas sejam de hegemonia e institucional, j&aacute; que a universidade tem que se haver com outras inst&acirc;ncias de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento que n&atilde;o funcionam com a mesma l&oacute;gica cient&iacute;fica tradicionalmente em voga na academia, com claro v&iacute;nculo com o mercado. O desdobramento dessa quest&atilde;o se aduz pela crise institucional, mormente pelas formas de interven&ccedil;&atilde;o do Estado e os novos modelos de avalia&ccedil;&atilde;o de desempenho e formas de financiamento. Paradoxalmente, a crise de legitimidade tem conota&ccedil;&atilde;o diversa das outras crises j&aacute; que ainda &eacute; forte o poder simb&oacute;lico da universidade de outorgar e chancelar os t&iacute;tulos acad&ecirc;micos e o poder de distin&ccedil;&atilde;o que eles representam socialmente. Nesse sentido, creio que a m&iacute;dia n&atilde;o tem uma contribui&ccedil;&atilde;o significativa no engendramento dessa crise, porque o campo educacional sempre abarcou diversos atores, oriundos de diversos campos que se movimentam na amplia&ccedil;&atilde;o de suas fronteiras, o que significa afirmar que o campo educacional &eacute; heteron&ocirc;mico, ou dito de outra forma, qualquer ator se sente autorizado para falar sobre educa&ccedil;&atilde;o (pol&iacute;ticos, intelectuais, jornalistas etc.). O problema &eacute; que a universidade perdeu parte do poder de prescri&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica, acreditando que a sua autoridade era inconteste. Ledo engano!<\/p>\n<p><strong>Com as regras de publica&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, os professores universit&aacute;rios buscam inser&ccedil;&atilde;o em muitos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o. Acredita que podem influenciar positivamente o campo jornal&iacute;stico?<br \/><\/strong>As regras de publica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m estrat&eacute;gias diferentes na academia e dependem muito da posi&ccedil;&atilde;o dos atores em seu campo e do capital simb&oacute;lico que lhes confere&nbsp; poder de lideran&ccedil;a e prest&iacute;gio, expresso em conselhos editoriais de revistas especializadas, organiza&ccedil;&atilde;o de editoras, controle dos cursos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, entre outras estrat&eacute;gias do Homo academicus. O cl&aacute;ssico trabalho de Sergio Miceli Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil permite desvendar as formas de constru&ccedil;&atilde;o de prest&iacute;gio dos intelectuais brasileiros. Assim, ao contr&aacute;rio daquilo que ocorre na Fran&ccedil;a, onde Bourdieu afirmava que os intelectuais que colaboravam na imprensa tinham prest&iacute;gio menor em seus campos de atua&ccedil;&atilde;o, sendo portanto intelectuais heteron&ocirc;micos, no Brasil, a contribui&ccedil;&atilde;o na imprensa &eacute; fator inconteste de prest&iacute;gio desse intelectual em seu campo de atua&ccedil;&atilde;o, conforme se pode observar em resenhas, lan&ccedil;amentos de livros, ou declara&ccedil;&otilde;es feitas em not&iacute;cias e reportagens, o que confere prest&iacute;gio e legitimidade tanto ao ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o como ao especialista consultado. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com agu&ccedil;ado olhar sobre como a imprensa ajuda a construir valores no campo da educa&ccedil;&atilde;o, o professor de hist&oacute;ria da rede p&uacute;blica estadual paulista Geraldo Sabino Ricardo Filho esquadrinhou em seu trabalho de mestrado (publicado h&aacute; dois anos em livro com o t&iacute;tulo de A Boa Escola no Discurso da M&iacute;dia), a evolu&ccedil;&atilde;o da id&eacute;ia &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19179\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Pesquisa mostra como imprensa ajuda a construir valores no campo da educa\u00e7\u00e3o<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[220],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19179"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19179"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19179\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}