{"id":19139,"date":"2007-09-04T17:22:19","date_gmt":"2007-09-04T17:22:19","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19139"},"modified":"2007-09-04T17:22:19","modified_gmt":"2007-09-04T17:22:19","slug":"alo-alo-tv-publica-aquele-abraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19139","title":{"rendered":"Al\u00f4, al\u00f4, TV P\u00fablica: aquele abra\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><span>O governo acerta ao convidar Luiz Gonzaga Belluzzo para presidir a rede de TV P&uacute;blica. Mas erra ao propor a extin&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s. Parece assumir a id&eacute;ia neoliberal de que tudo que vem do Estado &eacute; ruim.&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O governo deu um passo na dire&ccedil;&atilde;o certa ao convidar o professor Luiz Gongaga Belluzo para presidir a rede de TV P&uacute;blica a ser instalada no pa&iacute;s. Para um projeto de tal envergadura, era preciso come&ccedil;ar com uma lideran&ccedil;a do mundo da cultura e do saber.<\/p>\n<p><\/span><span>Inexplicavelmente, o mesmo governo est&aacute; andando para tr&aacute;s na defini&ccedil;&atilde;o do modelo gerencial e operacional da TV p&uacute;blica. A proposta de extinguir a Radiobr&aacute;s, fundindo todo o seu acervo com o da TVE para criar uma nova entidade, tem todas as chances de dar errado, al&eacute;m do equ&iacute;voco fundamental de acabar com o &uacute;nico sistema importante de comunica&ccedil;&atilde;o oficial do Estado brasileiro. No seu lugar haveria um contrato de presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os pelo qual a TV p&uacute;blica produziria informa&ccedil;&atilde;o de Estado minimamente necess&aacute;ria.<\/p>\n<p><\/span><span>Como se v&ecirc;, o caminho escolhido &eacute; de todos o mais complicado. Implica em fundir entidades totalmente diferentes, cada uma carregando pesos mortos, inclusive passivos trabalhistas e problemas funcionais. S&oacute; se explica se h&aacute; um objetivo oculto de aproveitar a oportunidade para se desfazer desses &ldquo;pesos mortos.&rdquo; Cria-se um monstro jur&iacute;dico, para resolver oportunisticamente problemas antigos que nada t&ecirc;m a ver com o projeto. Al&eacute;m disso, j&aacute; come&ccedil;a dando &agrave; TV p&uacute;blica, ainda que sob contrato de presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os, tamb&eacute;m a tarefa de comunica&ccedil;&atilde;o estatal.<\/p>\n<p><\/span><span>O que mais intriga &eacute; que a solu&ccedil;&atilde;o para a separa&ccedil;&atilde;o entre comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e comunica&ccedil;&atilde;o oficial j&aacute; estava dada, bastando aprofundar a demarca&ccedil;&atilde;o existente: atribuir &agrave; TVE, que &eacute; uma Organiza&ccedil;&atilde;o Social de fins p&uacute;blicos, portanto j&aacute; bem independente do Estado, o papel de esqueleto ou n&uacute;cleo articulador da rede p&uacute;blica e limitar a Radiobr&aacute;s ao papel espec&iacute;fico e exclusivo de comunica&ccedil;&atilde;o oficial, transferindo parte de seus equipamentos, programas e concess&otilde;es para a TVE.<\/p>\n<p><\/span><span>Das nove concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV da Radiobr&aacute;s, pelo menos metade tem voca&ccedil;&atilde;o para comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e poderiam refor&ccedil;ar o esquema TVE, constituindo o embri&atilde;o do novo sistema p&uacute;blico, sem precisar criar novas empresas ou extinguir a Radiobr&aacute;s. Agencia Brasil, TV a cabo NBR e o canal internacional &ldquo;integraci&oacute;n&rdquo; poderiam continuar como partes de um sistema estatal de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Realmente n&atilde;o d&aacute; para entender a l&oacute;gica da fus&atilde;o. Por que criar tantos problemas e descartar uma solu&ccedil;&atilde;o &oacute;bvia? Solu&ccedil;&atilde;o que j&aacute; havia sido proposta v&aacute;rias vezes durante o primeiro mandato, na ocasi&atilde;o, para acabar com a ambig&uuml;idade dos pap&eacute;is da Radiobr&aacute;s que atuava ao mesmo tempo como sistema p&uacute;blico e estatal.<\/p>\n<p><\/span><span>Pode ser que o verdadeiro objetivo seja o de acabar com a obrigatoriedade de transmiss&atilde;o da Voz do Brasil, cedendo &agrave; campanha lan&ccedil;ada em 1995 por 850 emissoras privadas de r&aacute;dio. Os bar&otilde;es da m&iacute;dia n&atilde;o satisfeitos em faturar 23 horas por dia sem pagar nada pelas concess&otilde;es outorgadas pelo Estado, ainda querem acabar com a &uacute;nica hora em que o Estado tenta se comunicar diretamente. A Voz do Brasil &eacute; ouvida por mais de 50% da popula&ccedil;&atilde;o, sendo que 11% a ouvem regularmente. A desconfian&ccedil;a se justifica, porque a campanha foi apoiada publicamente pela dire&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s j&aacute; no governo Lula. Dentro dessa l&oacute;gica, o governo ofereceria a Voz do Brasil no altar do sacrif&iacute;cio para aplacar a ira do baronato contra a cria&ccedil;&atilde;o da TV p&uacute;blica.<\/p>\n<p><\/span><span>Se for isso, o governo est&aacute; cometendo um erro grave. Est&aacute; aceitando ingenuamente a tese de que comunica&ccedil;&atilde;o estatal &eacute; necessariamente &ldquo;jornalismo chapa-branca&rdquo;, ou seja, algo conden&aacute;vel; de que a comunica&ccedil;&atilde;o do Estado &eacute; por natureza autorit&aacute;ria enquanto a dos bar&otilde;es da m&iacute;dia &eacute; a democr&aacute;tica e pluralista. Ora, informa&ccedil;&atilde;o oficial, precisa, abrangente e acurada dos atos de governo e suas raz&otilde;es, &eacute; hoje uma obriga&ccedil;&atilde;o de todos os estados democr&aacute;ticos, um atributo da sociedade da informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>A diferen&ccedil;a entre comunica&ccedil;&atilde;o oficial de Estado, num regime democr&aacute;tico, e a produ&ccedil;&atilde;o de uma rede p&uacute;blica, n&atilde;o est&aacute; no grau de veracidade, independ&ecirc;ncia, e pertin&ecirc;ncia social dos conte&uacute;dos que deve ser elevado em ambos os casos, e sim nas fun&ccedil;&otilde;es de cada programa&ccedil;&atilde;o, portanto no seu &ldquo;mix&rdquo;: a estatal tem as fun&ccedil;&otilde;es principais de divulgar as campanhas sanit&aacute;rias, educativas e outras de utilidade p&uacute;blica, e prover informa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, precisa e acurada sobre os atos do governo . Serve, inclusive, como fonte de informa&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria para o jornalismo das empresas privadas, como era o papel hist&oacute;rico da Ag&ecirc;ncia Brasil da Radiobr&aacute;s. Ainda hoje, a Ag&ecirc;ncia Brasil &eacute; acessada de quatro e cinco milh&otilde;es de vezes por m&ecirc;s por pessoas e entidades de todos os tipos, em especial pauteiros e correspondentes estrangeiros, &agrave; busca de informa&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria sobe atos e agenda de governo. Tamb&eacute;m produz mais de mil fotos por m&ecirc;s de uso livre pela m&iacute;dia.<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; a rede p&uacute;blica tem a fun&ccedil;&atilde;o de produzir informa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, cultura , cr&iacute;tica e entretenimento movidos estritamente pelo interesse p&uacute;blico, em competi&ccedil;&atilde;o qualificada com o jornalismo das redes privadas, esse movido essencialmente pela busca de lucro e portanto pelos &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia. A competi&ccedil;&atilde;o da rede p&uacute;blica n&atilde;o &eacute; com a do Estado, &eacute; com a da empresa privada.<\/p>\n<p><\/span><span>Comunica&ccedil;&atilde;o oficial de Estado n&atilde;o &eacute; propaganda. &Eacute; um servi&ccedil;o p&uacute;blico essencial nos estados modernos. Por tr&aacute;s dessa concep&ccedil;&atilde;o de que comunica&ccedil;&atilde;o do governo &eacute; algo nefasto est&aacute; tamb&eacute;m a id&eacute;ia de que o estado &eacute; nefasto, quanto menor melhor. &Eacute; a proposta neoliberal do Estado m&iacute;nimo. E tamb&eacute;m o equ&iacute;voco conceitual de considerar que o Estado n&atilde;o faz parte da esfera p&uacute;blica, quando ele &eacute; a mais p&uacute;blica de todas as partes dessa esfera.<\/p>\n<p><\/span><span>Se o governo extinguir a Radiobr&aacute;s estar&aacute; caminhando na contram&atilde;o da hist&oacute;ria. O que ele deve, isso sim, &eacute; acabar com pr&aacute;tica nefasta de usar dinheiro p&uacute;blico para fazer propaganda de si mesmo. E proibir essa pr&aacute;tica tamb&eacute;m nos Estados e munic&iacute;pios.<\/p>\n<p><\/span><span>Deixar a Radiobr&aacute;s e a TVE onde est&atilde;o, apenas desbastando e separando mais claramente seus pap&eacute;is &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica mais simples para a instala&ccedil;&atilde;o da rede p&uacute;blica de TV no Brasil. E tem mais: &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o que mant&eacute;m at&eacute; geograficamente a separa&ccedil;&atilde;o entre comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e estatal, deixando a Radiobr&aacute;s perto do poder, e localizando o n&uacute;cleo de produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica da rede p&uacute;blica bem longe desse poder, no Rio de Janeiro, a cidade civilista e libert&aacute;ria por excel&ecirc;ncia , ou mesmo em S&atilde;o Paulo. &Eacute; um equ&iacute;voco adicional sediar o jornalismo da TV p&uacute;blica em Bras&iacute;lia, com seu Plano Piloto elitista, contaminado pelas rela&ccedil;&otilde;es prom&iacute;scuas de poder.<\/p>\n<p><\/span><span>Uma nova rede p&uacute;blica de tev&ecirc; deve come&ccedil;ar como se come&ccedil;a uma nova universidade: atraindo para o seu projeto as melhores cabe&ccedil;as de cada campo do conhecimento e partindo diretamente para a produ&ccedil;&atilde;o desse conhecimento. No caso da TV, Para a produ&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s ou quatro programas de grande qualidade e impacto. O resto &eacute; imbr&oacute;glio burocr&aacute;tico. N&atilde;o leva a nada.<\/p>\n<p><em>* <\/em><\/span><span><em>Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de S&atilde;o Paulo, &eacute; colaborador da Carta Maior e autor, entre outros, de &ldquo;A s&iacute;ndrome da antena parab&oacute;lica: &eacute;tica no jornalismo brasileiro&rdquo; (1996) e &ldquo;As Cartas &Aacute;cidas da campanha de Lula de 1998&rdquo; (2000).<\/p>\n<p><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;Carta Maior<\/font><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo acerta ao convidar Luiz Gonzaga Belluzzo para presidir a rede de TV P&uacute;blica. Mas erra ao propor a extin&ccedil;&atilde;o da Radiobr&aacute;s. 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