{"id":19092,"date":"2007-08-30T14:45:41","date_gmt":"2007-08-30T14:45:41","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19092"},"modified":"2007-08-30T14:45:41","modified_gmt":"2007-08-30T14:45:41","slug":"outorga-e-renovacao-das-concessoes-de-radio-e-tv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19092","title":{"rendered":"Outorga e renova\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es de r\u00e1dio e TV"},"content":{"rendered":"<p><span><em>No pr&oacute;ximo dia 5 de outubro, vencem as concess&otilde;es das principais emissoras de TV brasileiras. Entre elas da Record, Bandeirantes e as cinco concess&otilde;es da Rede Globo &ndash; em S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Bras&iacute;lia, Recife e Belo Horizonte. Em teoria, este seria o prazo para o governo federal decidir se aceitar&aacute; o pedido de renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es a essas empresas e encaminhar esta decis&atilde;o para posterior an&aacute;lise do Congresso Nacional. Na pr&aacute;tica, n&atilde;o se sabe o que vai acontecer. Se o Presidente da Rep&uacute;blica e os parlamentares n&atilde;o se manifestarem sobre o assunto, as emissoras continuar&atilde;o operando com licen&ccedil;as prec&aacute;rias. Historicamente, o tempo m&eacute;dio de an&aacute;lise pelo Executivo dos processos de renova&ccedil;&atilde;o de outorgas de r&aacute;dio e TV tem sido de mais de seis anos.<\/p>\n<p><\/em><\/span><em><span>O simbolismo da data, no entanto, far&aacute; com que o dia 5 de outubro n&atilde;o passe em branco. Diversos movimentos sociais, sindicatos e organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil est&atilde;o preparando, para este dia, mobiliza&ccedil;&otilde;es pelo pa&iacute;s. Um dos objetivos &eacute; denunciar a flagrante ilegalidade que existe hoje nos processos de concess&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o de outorgas.<\/p>\n<p><\/span><span>Sobre este assunto, o Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o entrevistou Ven&iacute;cio Artur de Lima, pesquisador s&ecirc;nior do N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica (NEMP) da Universidade de Bras&iacute;lia. Confira abaixo os principais trechos da conversa.<\/p>\n<p><\/span><\/em><strong><span>Atualmente, os crit&eacute;rios econ&ocirc;micos s&atilde;o os principais num processo de licita&ccedil;&atilde;o para a concess&atilde;o de outorgas de r&aacute;dio e TV no Brasil. Que tipo de problemas isso cria?<br \/><\/span><\/strong><span>Antes mesmo das outorgas serem concedidas via licita&ccedil;&atilde;o, o que valia mais era o poder econ&ocirc;mico das empresas. Foi assim que a comunica&ccedil;&atilde;o comercial se consolidou no pa&iacute;s. Nunca obedeceu &agrave;s prioridades definidas na pr&oacute;pria lei. Na origem da legisla&ccedil;&atilde;o de radiodifus&atilde;o, se estabeleceu a prioridade a finalidades educativas. De 1988 pra c&aacute;, com a promulga&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, o artigo 221 passou a estabelecer quatro prioridades claras, que valeriam para qualquer tipo de outorga de radiodifus&atilde;o: finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas, mas isso nunca foi cumprido. Dar mais peso aos crit&eacute;rios econ&ocirc;micos na licita&ccedil;&atilde;o &eacute; s&oacute; uma forma atrav&eacute;s da qual a lei &eacute; burlada em detrimento dos objetivos que a priori s&atilde;o definidos para a radiodifus&atilde;o. Ao introduzir a licita&ccedil;&atilde;o e privilegiar o aspecto econ&ocirc;mico, do ponto de vista contratual, e abandonar os outros, voc&ecirc; esquece o que &eacute; mais importante.&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>E isso tamb&eacute;m vale pra a venda de outorgas, que tamb&eacute;m &eacute; permitida por lei. &Eacute; quase um processo de transfer&ecirc;ncia privada, que envolve o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. Nas transfer&ecirc;ncias, n&atilde;o h&aacute; nenhum tipo de fiscaliza&ccedil;&atilde;o da autoridade p&uacute;blica. Eu sou concession&aacute;rio, voc&ecirc; tem interesse, eu vendo minha outorga pra voc&ecirc; e pronto. E posso vender pra qualquer tipo de pessoa.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>E o que ocorre nos processos de renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es, para os quais sequer h&aacute; crit&eacute;rios estabelecidos?<br \/><\/strong><\/span><span>Na renova&ccedil;&atilde;o &eacute; pior ainda. As concess&otilde;es acabam se transformando em propriedade dos concession&aacute;rios. S&atilde;o tempor&aacute;rias, mas se transformam em propriedade permanente. Isso tem sido inclusive uma preocupa&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Recentemente, um procurador disse que era um absurdo todos os tipos de contrato de presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o p&uacute;blico poderem ser desfeitos pelo outorgante e nada disso se aplicar &agrave; radiodifus&atilde;o. Ou seja, at&eacute; o Minist&eacute;rio P&uacute;blico se deu conta de que as renova&ccedil;&otilde;es s&atilde;o pr&oacute;-forma. Na pr&aacute;tica, embora haja uma s&eacute;rie de exig&ecirc;ncias formais e t&eacute;cnicas, de comprova&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&atilde;o fiscal, elas n&atilde;o se concretizam. Primeiro, porque o processo de renova&ccedil;&atilde;o demora tanto que essas comprova&ccedil;&otilde;es perdem a validade. Segundo, porque na renova&ccedil;&atilde;o se ignora tudo o que j&aacute; havia sido ignorado na concess&atilde;o. Ou seja, o artigo 221 continua n&atilde;o aparecendo como crit&eacute;rio. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>O processo tamb&eacute;m passa pelo Congresso Nacional, ou seja, deputados e senadores exercem, neste caso um poder, concedente. Ao mesmo tempo, a legisla&ccedil;&atilde;o diz que nenhum parlamentar pode ser dirigente de empresas concession&aacute;rias de servi&ccedil;o p&uacute;blico. Isso &eacute; respeitado?<\/strong><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>H&aacute;, sabidamente, v&aacute;rios problemas no Congresso envolvendo concess&otilde;es e renova&ccedil;&otilde;es de outorgas. Um deles &eacute; o processo de tramita&ccedil;&atilde;o interno. O Congresso sempre alegou que n&atilde;o tinha pessoal preparado para instruir os processo de renova&ccedil;&atilde;o. Recentemente, houve avan&ccedil;os neste sentido, com o ato normativo n&uacute;mero 1\/2007 da subcomiss&atilde;o de concess&otilde;es da CCTCI [Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica da C&acirc;mara dos Deputados], que estabeleceu mudan&ccedil;as no tempo da tramita&ccedil;&atilde;o, na exig&ecirc;ncia de se disponibilizar um banco de dados sobre os processos, etc.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas o problema de solu&ccedil;&atilde;o mais dif&iacute;cil &eacute; que, a partir do momento em que o Congresso passou a ser poder concedente, foi incorporado a este poder um grupo grande de parlamentares que s&atilde;o, eles pr&oacute;prios, associados &agrave; radiodifus&atilde;o. Ou porque s&atilde;o diretamente concession&aacute;rios ou, embora n&atilde;o apare&ccedil;am nos contratos, est&atilde;o indiretamente envolvidos via familiares ou laranjas. Isso cria problemas gigantes, porque o concession&aacute;rio se confunde em alguns casos com o poder concedente, tamb&eacute;m respons&aacute;vel pela renova&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>Ou seja, h&aacute; uma contamina&ccedil;&atilde;o do processo pelo fato de que, tradicionalmente, h&aacute; v&aacute;rios deputados compondo a CCTCI com interesse direto em jogo, ou para aprovar ou para prorrogar concess&otilde;es. Isso foi admitido no relat&oacute;rio da pr&oacute;pria subcomiss&atilde;o de concess&otilde;es. O documento disse que, at&eacute; agora, as renova&ccedil;&otilde;es eram aprovadas em bloco sem obedecer a nenhum crit&eacute;rio. Alguns parlamentares que foram pegos votando suas pr&oacute;prias concess&otilde;es alegaram, em sua defesa, que isso acontecia porque a vota&ccedil;&atilde;o era em bloco.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>No in&iacute;cio do ano, o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es H&eacute;lio Costa afirmou que n&atilde;o havia nenhum parlamentar concession&aacute;rio de r&aacute;dio e TV no pa&iacute;s.<br \/><\/strong><\/span><span>O imbr&oacute;glio legal &eacute; mais complicado do que parece, n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples como o ministro coloca. O C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es, de 1962, faz uma restri&ccedil;&atilde;o neste sentido. A regulamenta&ccedil;&atilde;o do C&oacute;digo, de 63, foi diversas vezes modificada. No meio disso, entra a Constitui&ccedil;&atilde;o, que coloca o problema de uma forma diferente: o problema passa a existir quando o cidad&atilde;o comum se transforma em parlamentar. Antes disso &ndash; portanto, mesmo enquanto candidato &ndash; ele pode ser concession&aacute;rio. Tendo sido eleito, a&iacute; o artigo 54 da CF passa a valer. A&iacute; o parlamentar passa a empresa para o nome da esposa&#8230;<\/p>\n<p><\/span><span>Mas na verdade os detalhes se o parlamentar &eacute; s&oacute;cio ou membro da diretoria de uma emissora s&atilde;o uma filigrana. Se o sujeito &eacute; parlamentar, ele se transforma em poder concedente. Os regimentos das duas Casas dizem que, quando a pessoa tiver interesse privado, h&aacute; um impedimento &eacute;tico em decidir sobre essa quest&atilde;o. No caso da C&acirc;mara, o impedimento tem que ser declarado pelo pr&oacute;prio deputado. Mas &eacute; obvio que como radiodifusor o parlamentar deveria se excluir de toda manifesta&ccedil;&atilde;o que envolvesse radiodifus&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>Essa quest&atilde;o &eacute; central no mundo contempor&acirc;neo, quando se conhece o pelo papel da comunica&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica. Obviamente &eacute; uma pratica antidemocr&aacute;tica. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>H&aacute; algumas semanas, o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es anunciou um recadastramento das emissoras de r&aacute;dio e TV, algo que n&atilde;o ocorria desde 1973. As empresas ter&atilde;o que enviar informa&ccedil;&otilde;es como o quadro societ&aacute;rio atual, endere&ccedil;o, etc. Esse recadastramento serve para alguma coisa se n&atilde;o h&aacute; fiscaliza&ccedil;&atilde;o do MiniCom durante o per&iacute;odo de explora&ccedil;&atilde;o da outorga?<br \/><\/strong><\/span><span>O recadastramento &eacute; para ingl&ecirc;s ver. Ser&aacute; um banco de dados atualizado pelos pr&oacute;prios interessados e n&atilde;o h&aacute; nenhuma informa&ccedil;&atilde;o se isso vai ser ou n&atilde;o colocado &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Em novembro de 2003, o cadastro das concess&otilde;es foi disponibilizado no site Minicom e desapareceu no in&iacute;cio deste ano. Quando alguma irregularidade&nbsp;&eacute; encontrada e se acha algu&eacute;m envolvido, o mecanismo de defesa das pessoas&nbsp;&eacute; dizer que o cadastro est&aacute; desatualizado. Agora se fala em recadastramento, mas ningu&eacute;m diz que a informa&ccedil;&atilde;o &eacute; p&uacute;blica, que deveria estar dispon&iacute;vel. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Num curto prazo, o que poderia ser feito para melhorar esta situa&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong><\/span><span>Se a lei fosse cumprida, com certeza absoluta j&aacute; seria um outro quadro. Um exemplo seria o acompanhamento das renova&ccedil;&otilde;es e das novas outorgas para emissoras de r&aacute;dio e TV existentes no munic&iacute;pio. Se todos conhecessem a rela&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es existentes em seu munic&iacute;pio, as datas de vencimento de cada uma e as rela&ccedil;&otilde;es de cada uma com os pol&iacute;ticos locais, se essa informa&ccedil;&atilde;o fosse amplamente divulgada na sociedade, a popula&ccedil;&atilde;o poderia fazer um acompanhamento disso. A situa&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; t&atilde;o absurda que se a sociedade civil conseguisse simplesmente levantar os concession&aacute;rios e aplicar as regras de hoje j&aacute; seria uma revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As concess\u00f5es se transformaram em propriedade dos concession\u00e1rios&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[396,363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19092"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19092"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19092\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}