{"id":19031,"date":"2007-08-21T17:19:52","date_gmt":"2007-08-21T17:19:52","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=19031"},"modified":"2007-08-21T17:19:52","modified_gmt":"2007-08-21T17:19:52","slug":"autonomia-e-independencia-em-risco-na-nova-tv-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=19031","title":{"rendered":"Autonomia e independ\u00eancia em risco na nova TV p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>Quando o Governo Federal anunciou a inten&ccedil;&atilde;o de construir uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o, setores da sociedade logo se preocuparam em definir as diferen&ccedil;as fundamentais entre emissoras p&uacute;blicas e estatais. Para ser de fato p&uacute;blica, a nova TV deveria ter gest&atilde;o independente do governo, financiamento n&atilde;o contingenci&aacute;vel e uma programa&ccedil;&atilde;o que refletisse a diversidade da sociedade brasileira. N&atilde;o cumpridas estas premissas, a nova institui&ccedil;&atilde;o acabaria por se constituir como uma TV estatal ou governamental, mas n&atilde;o uma TV p&uacute;blica.<\/p>\n<p>A apreens&atilde;o de que tais princ&iacute;pios n&atilde;o fossem respeitados n&atilde;o nos impediu de apoiar a iniciativa. Afinal, &eacute; evidente a necessidade de se instituir no pa&iacute;s um aut&ecirc;ntico sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o, aut&ocirc;nomo e independente em rela&ccedil;&atilde;o aos governos e ao mercado. Historicamente, o setor comercial de r&aacute;dio e TV tem se mostrado incapaz de garantir o debate plural sobre as quest&otilde;es centrais para o Brasil. S&atilde;o in&uacute;meros &ndash; e permanentes &ndash; os exemplos em que os interesses particulares dos donos da m&iacute;dia se imp&otilde;em frente ao interesse p&uacute;blico, com resultados desastrosos para a democracia. <\/p>\n<p>A pol&ecirc;mica sobre &ldquo;p&uacute;blico X estatal&rdquo; parecia ter sido dirimida com a realiza&ccedil;&atilde;o do I F&oacute;rum Nacional de TVs P&uacute;blicas, em maio deste ano, quando governo, emissoras do campo p&uacute;blico e organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil assinaram a Carta de Bras&iacute;lia, documento que estabelecia diretrizes para a nova TV p&uacute;blica: ela deveria ser independente em rela&ccedil;&atilde;o ao governo federal, com autonomia para estabelecer sua programa&ccedil;&atilde;o e gerenciar seus recursos. O conselho gestor da TV Brasil, explicitava o documento, deveria ser representativo da sociedade e, em sua composi&ccedil;&atilde;o, o governo n&atilde;o deveria ter maioria. Buscava-se, assim, afastar o risco de a emissora se tornar bra&ccedil;o pol&iacute;tico do Executivo federal, qualquer que seja seu ocupante. <\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos meses, prevaleceu a convic&ccedil;&atilde;o de que o governo cumpriria o compromisso assumido e daria efetividade aos princ&iacute;pios pactuados. De fato, alguns princ&iacute;pios parecem estar se concretizando. Ser&aacute; um avan&ccedil;o se o governo realmente adotar um modelo de rede horizontal e descentralizado. Tamb&eacute;m &eacute; positivo o incentivo &agrave; autonomia das emissoras estaduais em rela&ccedil;&atilde;o aos governos locais.<\/p>\n<p>Entretanto, o que parecia consolidado &ndash; o car&aacute;ter p&uacute;blico da nova institui&ccedil;&atilde;o &ndash; est&aacute; sob risco. A proposta atual do governo contraria os princ&iacute;pios da Carta de Bras&iacute;lia ao estabelecer mecanismos de gest&atilde;o vinculados direta e exclusivamente ao Executivo federal. Pela proposta, tanto o conselho gestor da TV (respons&aacute;vel por zelar pelas finalidades p&uacute;blicas da institui&ccedil;&atilde;o) quanto a presid&ecirc;ncia da nova emissora seriam indicados pelo presidente da Rep&uacute;blica, sem qualquer necessidade de aprova&ccedil;&atilde;o por &oacute;rg&atilde;o independente.<\/p>\n<p>Ora, com um conselho de &ldquo;personalidades&rdquo; indicado pelo presidente, a TV perde sua autonomia e independ&ecirc;ncia, amea&ccedil;ando seu car&aacute;ter p&uacute;blico. N&atilde;o &eacute; a mera exist&ecirc;ncia de um &oacute;rg&atilde;o gestor que confere &agrave; emissora este car&aacute;ter. &Eacute; preciso que ele seja plural e representativo, preservando a independ&ecirc;ncia da institui&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao governo. Al&eacute;m disso, &eacute; a pr&oacute;pria sociedade quem deve escolher os seus representantes. A id&eacute;ia de um governo que indica, em nome da sociedade, quem a representa, &eacute; paternalista e anti-democr&aacute;tica, independentemente de quem sejam estes indicados.<\/p>\n<p>Alega o ministro Franklin Martins que representantes de institui&ccedil;&otilde;es no conselho gestor da emissora tendem a defender interesses corporativos. A preocupa&ccedil;&atilde;o com a poss&iacute;vel contamina&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o por interesses particulares &eacute; leg&iacute;tima, mas a solu&ccedil;&atilde;o proposta &eacute; a pior poss&iacute;vel. &Eacute; certo que n&atilde;o deve haver no conselho vagas fixas para qualquer institui&ccedil;&atilde;o. O desafio &eacute; estabelecer mecanismos democr&aacute;ticos e participativos de indica&ccedil;&atilde;o, seja por confer&ecirc;ncia ou por elei&ccedil;&atilde;o direta. Esse modelo j&aacute; &eacute; utilizado &ndash; e bem-sucedido &ndash; em estruturas como o Conselho Nacional de Sa&uacute;de e o Conselho das Cidades que, embora tenham atribui&ccedil;&otilde;es distintas do conselho de gest&atilde;o da nova TV p&uacute;blica, tamb&eacute;m t&ecirc;m a miss&atilde;o de representar o conjunto da sociedade.<\/p>\n<p>A ousadia e coragem que o governo teve ao propor a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova rede de televis&atilde;o devem permanecer na escolha de seu modelo de gest&atilde;o. Neste momento de defini&ccedil;&otilde;es, &eacute; imprescind&iacute;vel zelar pelo car&aacute;ter efetivamente p&uacute;blico da futura institui&ccedil;&atilde;o, para que nenhum governo, a qualquer tempo, possa utiliz&aacute;-la como um instrumento pol&iacute;tico. Que assim seja, para o bem da ainda incipiente democracia brasileira. <\/p>\n<p><em>*Diogo Moyses e Jo&atilde;o Brant s&atilde;o coordenadores do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/p>\n<p><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_normal_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/font><\/em>Folha de S&atilde;o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o Governo Federal anunciou a inten&ccedil;&atilde;o de construir uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o, setores da sociedade logo se preocuparam em definir as diferen&ccedil;as fundamentais entre emissoras p&uacute;blicas e estatais. 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