{"id":18996,"date":"2007-08-16T20:13:29","date_gmt":"2007-08-16T20:13:29","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18996"},"modified":"2007-08-16T20:13:29","modified_gmt":"2007-08-16T20:13:29","slug":"renan-e-os-negocios-obscuros-da-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18996","title":{"rendered":"Renan e os neg\u00f3cios obscuros da Abril"},"content":{"rendered":"<div>V&iacute;tima de um feroz e estranho bombardeio da revista Veja, o senador Renan Calheiros decidiu partir para o revide &ndash; prestando um servi&ccedil;o &agrave; sociedade. Na semana passada, ele enviou aos parlamentares uma carta questionando os motivos da investida.&nbsp; &ldquo;Patriotismo? Compromisso &eacute;tico com a lisura e o comportamento dos homens p&uacute;blicos? Ou, quem sabe, usar-me como cortina de fuma&ccedil;a para que, por suas sombras, acabe celebrada uma nebulosa transa&ccedil;&atilde;o de cerca de R$ 1 bilh&atilde;o, envolvendo a venda de uma concess&atilde;o de canal de televis&atilde;o pelo Grupo Abril, propriet&aacute;rio da revista Veja, a uma empresa estrangeira?&rdquo;. Ao final, o presidente do Senado prop&ocirc;s a apura&ccedil;&atilde;o deste &ldquo;neg&oacute;cio bilion&aacute;rio que se deseja manter na obscuridade&rdquo;. <\/p>\n<p>A fam&iacute;glia Civita, dona do poderoso grupo midi&aacute;tico, n&atilde;o deu capa &agrave; &ldquo;nebulosa transa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Acostumada a condenar sem julgamento todos os que atrapalham seus projetos pol&iacute;ticos ou ambi&ccedil;&otilde;es comerciais, num atentado &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o, preferiu o sil&ecirc;ncio. Apostou no esquecimento e na pouca repercuss&atilde;o. J&aacute; o resto da m&iacute;dia venal, tamb&eacute;m adepta da &ldquo;presun&ccedil;&atilde;o da culpa&rdquo;, optou por encobrir o caso e sequer averiguou as acusa&ccedil;&otilde;es. Agiu como c&uacute;mplice de um crime ou como quem tem culpa no cart&oacute;rio. Mas as den&uacute;ncias s&atilde;o graves e bem que poderiam ensejar uma CPI para apurar os pobres da m&iacute;dia. O senador Renan Calheiros, que conhece os bastidores do poder e hoje &eacute; satanizado pelos poderosos, teria importante papel a cumprir.<\/p>\n<p><strong>A transa&ccedil;&atilde;o Telef&oacute;nica-TVA<\/p>\n<p><\/strong>O bilion&aacute;rio neg&oacute;cio, que n&atilde;o teve qualquer alarde na imprensa, &eacute; realmente obscuro. Em julho passado, a Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) aprovou a venda de parte da TVA, que pertence a Abril, para a multinacional Telef&oacute;nica por R$ 922 milh&otilde;es. Foram transferidos 100% da TV por assinatura via microondas (MMDS), 49% das a&ccedil;&otilde;es votantes da TV a cabo fora de S&atilde;o Paulo e 19,9% destas no estado. A Telef&oacute;nica, com &ldquo;valor de mercado&rdquo; de US$ 104 bilh&otilde;es, s&oacute; n&atilde;o abocanhou integralmente a TVA por restri&ccedil;&otilde;es da Lei do Cabo. Na pr&aacute;tica, a Abril tornou-se um &ldquo;laranja&rdquo; da multinacional, que oficialmente &eacute; espanhola, mas que d&aacute; lucros para poderosos bancos, como o Citigroup, JP Morgan-Chase e BankBoston.<\/p>\n<p>A transa&ccedil;&atilde;o, feita na surdina e &agrave;s pressas, s&oacute; se tornou p&uacute;blica devido ao voto contr&aacute;rio de Pl&iacute;nio Aguiar Jr. no Conselho da Anatel, que foi disponibilizado a seu pedido no site da ag&ecirc;ncia. Ele considerou que a venda afeta os interesses dos acionistas da TVA e n&atilde;o resguarda os interesses nacionais, j&aacute; que o n&uacute;mero de a&ccedil;&otilde;es adquirido pela multinacional chegou ao limite de 49%. Para o conselheiro, isso contraria o artigo 7&ordm; da Lei do Cabo, &ldquo;uma vez que o seu objetivo &eacute; assegurar que as decis&otilde;es em concession&aacute;rias de TV a cabo sejam tomadas exclusivamente por brasileiros, o que n&atilde;o ocorrer&aacute; no presente caso, uma vez que as decis&otilde;es estar&atilde;o sujeitas &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o da Telesp, que &eacute; controlada por estrangeiros&rdquo;.<\/p>\n<p>A aprova&ccedil;&atilde;o da Anatel, entretanto, apenas oficializou o que j&aacute; vinha ocorrendo desde o in&iacute;cio deste ano &ndash; portanto, antes da formaliza&ccedil;&atilde;o da venda. &ldquo;Voc&ecirc; abre os jornais e v&ecirc; as propagandas conjuntas, dizendo ao consumidor que ele pode ter como provedor da internet a Speedy, da Telef&oacute;nica, ou a Ajato, da TVA. A Telef&oacute;nica est&aacute; oferecendo pacotes de TV por assinatura, o que mostra que a opera&ccedil;&atilde;o comercial j&aacute; est&aacute; em andamento&rdquo;, denunciou, em mar&ccedil;o, ao jornal Hora do Povo, o diretor da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), Alexandre Annemberg. Pouco depois, a presidente do Conselho Administrativo de Defesa do Consumidor (Cade), Elizabeth Farina, ao comentar o processo Telef&oacute;nica-TVA, confessou que o &oacute;rg&atilde;o &ldquo;n&atilde;o tem imposto grandes restri&ccedil;&otilde;es aos atos de concentra&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea de telecomunica&ccedil;&otilde;es&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>Os v&iacute;nculos com os racistas<\/p>\n<p><\/strong>Esse n&atilde;o &eacute; o primeiro neg&oacute;cio obscuro da Abril. No ano passado, o escritor Renato Pompeu denunciou na revista Caros Amigos que &ldquo;o grupo de m&iacute;dia sul-africano Naspers adquiriu 30% do capital acion&aacute;rio da Editora Abril, que det&eacute;m 54% do mercado brasileiro de revistas e 58% das rendas de an&uacute;ncios em revistas no pa&iacute;s. Para tanto, pagou 422 milh&otilde;es de d&oacute;lares&rdquo;. Da mesma forma que ocorre hoje na transa&ccedil;&atilde;o TVA-Telef&oacute;nica, a imprensa nativa n&atilde;o deu maior destaque &agrave;quela negociata e nem sequer revelou a hist&oacute;ria da multinacional sul-africana. &ldquo;N&atilde;o foi dada a devida aten&ccedil;&atilde;o ao fato de a Naspers ter sido um dos esteios do regime de apartheid na &Aacute;frica do Sul e ter prosperado com a segrega&ccedil;&atilde;o racial&rdquo;, criticou Pompeu.<\/p>\n<p>Dos quadros deste grupo sa&iacute;ram os tr&ecirc;s primeiros-ministros do regime fascista e racistas do pa&iacute;s. &ldquo;Com a ajuda dos governos do apartheid, dos quais suas publica&ccedil;&otilde;es foram porta-vozes, a Naspers evoluiu para se tornar o maior conglomerado da m&iacute;dia imprensa e eletr&ocirc;nica da &Aacute;frica, onde atua em dezenas de pa&iacute;ses, tendo estendido tamb&eacute;m suas atividades para na&ccedil;&otilde;es como a Hungria, Gr&eacute;cia, &Iacute;ndia, China e, agora, para o Brasil. Em setembro de 1997, um total de 127 jornalistas da Naspers pediu desculpas em p&uacute;blico pela sua atua&ccedil;&atilde;o no apartheid, em documento dirigido &agrave; Comiss&atilde;o da Verdade e da Reconcilia&ccedil;&atilde;o, encabe&ccedil;ada pelo arcebispo Desmond Tutu&#8230; A pr&oacute;pria Naspers, entretanto, jamais pediu perd&atilde;o por suas liga&ccedil;&otilde;es&rdquo;. A revista Veja, agora infestada pela empresa racista, tamb&eacute;m nunca falou sobre a &ldquo;nebulosa transa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>Os interesses alien&iacute;genas<\/p>\n<p><\/strong>Mas as rela&ccedil;&otilde;es obscuras do Grupo Abril v&atilde;o bem al&eacute;m. At&eacute; recentemente, ele sofria forte influ&ecirc;ncia na sua linha editorial de corpora&ccedil;&otilde;es dos EUA. A Capital International, terceiro maior gestor de fundos de investimentos desta pot&ecirc;ncia, tinha dois prepostos no seu Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o &ndash; Willian Parker e Guilherme Lins. Em julho de 2004, esta ag&ecirc;ncia de especuladores havia adquirido 13,8% das a&ccedil;&otilde;es da Abril, numa opera&ccedil;&atilde;o viabilizada por uma emenda constitucional sancionada por FHC em 2002. O Grupo Abril tamb&eacute;m tem v&iacute;nculos com a Cisneros Group, holding controlada por Gustavo Cisneros, um dos principais mentores do frustrado golpe midi&aacute;tico contra o presidente Hugo Ch&aacute;vez, em abril de 2002. <\/p>\n<p>Segundo Gustavo Barreto, pesquisador da UFRJ, o grupo ainda possui rela&ccedil;&otilde;es com v&aacute;rios bancos, como o Safra e o norte-americana JP Morgan &ndash; &ldquo;o mesmo que calcula o chamado risco-pa&iacute;s, &iacute;ndice que designa o risco que os investidores correm quando investem no Brasil. Em outras palavras, expressa a percep&ccedil;&atilde;o do investidor estrangeiro sobre a capacidade deste pa&iacute;s &lsquo;honrar&rsquo; os seus compromissos. Estas e outras institui&ccedil;&otilde;es financeiras de peso s&atilde;o os debenturistas &ndash; detentores das deb&ecirc;ntures (t&iacute;tulos da d&iacute;vida) &ndash; da Editora Abril e de seu principal produto jornal&iacute;stico. Em suma, s&atilde;o respons&aacute;veis pela reestrutura&ccedil;&atilde;o da editora que publica a revista com linha editorial fortemente pr&oacute;-mercado e anti-movimentos sociais&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>Um ninho de tucanos<\/p>\n<p><\/strong>Al&eacute;m de controlada por corpora&ccedil;&otilde;es estrangeiras, a Abril mant&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es estreitas com o PSDB, que &eacute; o n&uacute;cleo org&acirc;nico do capital rentista, e com o PFL, que representa a velha oligarquia conservadora. Em&iacute;lio Carazzai, que exerceu a fun&ccedil;&atilde;o de vice-presidente de Finan&ccedil;as do Grupo Abril, foi presidente da Caixa Econ&ocirc;mica Federal no governo FHC. Outra tucana influente Civita &eacute; Claudia Costin, ministra de FHC respons&aacute;vel pela demiss&atilde;o de servidores p&uacute;blicos, ex-secret&aacute;ria de Geraldo Alckmin e vice-presidente da Funda&ccedil;&atilde;o Victor Civita. N&atilde;o &eacute; para menos que a Editora Abril sempre privilegiou os pol&iacute;ticos tucanos.<\/p>\n<p>Afora os poss&iacute;veis apoios &ldquo;n&atilde;o contabilizados&rdquo;, que s&oacute; uma rigorosa auditoria da Justi&ccedil;a Eleitoral poderia provar, nas elei&ccedil;&otilde;es de 2002, ela doou R$ 50,7 mil a dois cardeais do PSDB. O deputado federal Alberto Goldman recebeu R$ 34,9 mil da influente fam&iacute;lia; j&aacute; o deputado Aloysio Nunes, ex-ministro de FHC, foi agraciado com R$ 15,8 mil. Ela tamb&eacute;m depositou R$ 303 mil na conta da DNA Propaganda, a famosa empresa de Marcos Val&eacute;rio que inaugurou um il&iacute;cito esquema de financiamento eleitoral para Eduardo Azeredo, ex-presidente do PSDB. &nbsp;Estes e outros &ldquo;segredinhos&rdquo; do Grupo Abril ajudam a entender a linha editorial da revista Veja e a sua postura de opositora radical do governo Lula.<\/p>\n<p><em>* Altamiro Borges &eacute; jornalista, membro do Comit&ecirc; Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro &ldquo;As encruzilhadas do sindicalismo&rdquo; (Editora Anita Garibaldi, 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V&iacute;tima de um feroz e estranho bombardeio da revista Veja, o senador Renan Calheiros decidiu partir para o revide &ndash; prestando um servi&ccedil;o &agrave; sociedade. 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