{"id":18967,"date":"2007-08-14T15:22:27","date_gmt":"2007-08-14T15:22:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18967"},"modified":"2007-08-14T15:22:27","modified_gmt":"2007-08-14T15:22:27","slug":"a-nova-rede-se-enreda-uma-teia-de-equivocos-compromete-a-tv-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18967","title":{"rendered":"A nova rede se enreda: uma teia de equ\u00edvocos compromete a TV p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<div class=\"createdate\" align=\"justify\">O processo de constru&ccedil;&atilde;o da nova rede p&uacute;blica de televis&atilde;o &ndash; batizada TV Lula pelos advers&aacute;rios e auto-designada, provisoriamente ou n&atilde;o, de TV Brasil &ndash; vai se convertendo em mais um exemplo cristalino de que as boas inten&ccedil;&otilde;es nem sempre conduzem a bons resultados. Apoiado por todos os segmentos da TV p&uacute;blica e por setores importantes da sociedade, em particular os que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, o projeto saiu bastante fortalecido do F&oacute;rum Nacional de TVs P&uacute;blicas, o grande evento de reorganiza&ccedil;&atilde;o desse campo, que ocorreu em maio, em Bras&iacute;lia. Era tido como a ponta de lan&ccedil;a de uma nova estrutura para toda a televis&atilde;o de utilidade p&uacute;blica no pa&iacute;s. Tr&ecirc;s meses depois, entretanto, os erros de condu&ccedil;&atilde;o no processo est&atilde;o erodindo a base de apoio da nova rede e podem comprometer a sua viabiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na &ldquo;Carta de Bras&iacute;lia&rdquo; resultante daquele Forum, documento que consolidou os princ&iacute;pios, finalidades e demandas da televis&atilde;o p&uacute;blica brasileira, o que se propunha era uma ampla reformula&ccedil;&atilde;o de todos os setores da TV n&atilde;o-comercial, tendo por eixos a introdu&ccedil;&atilde;o da TV digital, novo sistema de transmiss&atilde;o com estr&eacute;ia marcada para dezembro deste ano, em S&atilde;o Paulo, e a decis&atilde;o do Presidente Lula de dotar o pa&iacute;s de uma rede p&uacute;blica de TV forte e competitiva, capaz de rivalizar com as redes comerciais na sedu&ccedil;&atilde;o dos telespectadores. A tecnologia digital propiciaria as condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas para acomodar novos canais e novos servi&ccedil;os, a nova rede carrearia m&uacute;ltiplos recursos de investimento, e o ambiente favor&aacute;vel permitiria, ao mesmo tempo, consertar o que est&aacute; errado na televis&atilde;o p&uacute;blica existente e projetar com precis&atilde;o o que se quer para o futuro.<\/p>\n<p>As entidades representativas do campo p&uacute;blico da TV e da sociedade civil propunham, especialmente, que a TV digital concentrasse todos os canais p&uacute;blicos numa mesma faixa do espectro e que a sua transmiss&atilde;o fosse feita conjuntamente, sob controle de um ente p&uacute;blico, o chamado &ldquo;operador de rede&rdquo;. Isso permitira a melhor utiliza&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel da capacidade do espectro destinada aos canais p&uacute;blicos, que teriam, a cada instante, mais ou menos &ldquo;banda&rdquo; dispon&iacute;vel para os servi&ccedil;os que oferecessem, dependendo de suas necessidades (muita banda para transmiss&atilde;o de filmes em alta defini&ccedil;&atilde;o, menos banda para a transmiss&atilde;o de debates em defini&ccedil;&atilde;o padr&atilde;o, por exemplo). Permitiria, sobretudo, maior racionaliza&ccedil;&atilde;o no investimento p&uacute;blico em transmissores, antenas, retransmissores e sistemas de gerenciamento. O governo federal poria o grosso do dinheiro, os canais p&uacute;blicos complementariam na medida de suas possibilidades, o operador de rede controlaria o tr&aacute;fego das imagens e todas as demandas seriam compatibilizadas e atendidas.<\/p>\n<p>Para isso funcionar, seriam necess&aacute;rias tamb&eacute;m algumas medidas regulat&oacute;rias, a come&ccedil;ar pelas outorgas para que os canais p&uacute;blicos hoje existentes apenas na TV a cabo &ndash; os canais legislativos, comunit&aacute;rios e universit&aacute;rios &ndash; possam operar em TV digital aberta. A regulamenta&ccedil;&atilde;o da publicidade comercial em televis&atilde;o p&uacute;blica, assim como a implementa&ccedil;&atilde;o do dispositivo constitucional que obriga a TV a privilegiar a educa&ccedil;&atilde;o e a cultura, a produ&ccedil;&atilde;o independente, o cinema brasileiro e a programa&ccedil;&atilde;o regional, seriam outros aspectos legais dessa ampla reforma de todo o campo p&uacute;blico da televis&atilde;o. Impulsionados pelo Governo Federal, teriam sustenta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no Congresso e poderiam vencer o obstinado lobby das emissoras comerciais, sempre no combate a toda e qualquer medida regulat&oacute;ria em seu mercado, ainda que as afete apenas indiretamente.<\/p>\n<p>Nada disso, entretanto, foi acolhido pelo grupo interministerial que implementa o projeto da rede p&uacute;blica, coordenado pela Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social. Fechado em si mesmo desde o final do F&oacute;rum de maio, dialogando pouco com os setores que o ap&oacute;iam, o grupo vem se concentrando exclusivamente na montagem da TV Brasil, em molde de rede anacr&ocirc;nico, autorit&aacute;rio e irrealista. N&atilde;o considerou a s&eacute;rio a proposta do operador de rede p&uacute;blico. Sequer defende o agrupamento dos canais no espectro. E ainda resiste &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o imediata, simult&acirc;nea &agrave; da TV Brasil, dos outros canais p&uacute;blicos criados pelo decreto presidencial 5820\/06, que instituiu a TV digital: os canais da educa&ccedil;&atilde;o, da cultura e da cidadania. S&atilde;o justamente esses canais, com a funcionalidade da &ldquo;multiprograma&ccedil;&atilde;o&rdquo; (v&aacute;rias programa&ccedil;&otilde;es diferentes transmitidas por um mesmo canal), que podem abrigar as emissoras p&uacute;blicas hoje confinadas na TV a cabo e atender as demandas reprimidas de conte&uacute;do independente e regional.<\/p>\n<p>Ou seja: o grupo interministerial est&aacute; cuidando da &ldquo;sua&rdquo; TV e deixando todo o resto para depois, para um futuro absolutamente incerto. Quem tem um m&iacute;nimo de viv&ecirc;ncia nas quest&otilde;es de pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&otilde;es sabe que as chances de mudan&ccedil;a nessa &aacute;rea s&atilde;o raras, e que condi&ccedil;&otilde;es institucionais como as propiciadas pelo F&oacute;rum de maio s&atilde;o irrepet&iacute;veis. Portanto, as mudan&ccedil;as desejadas na televis&atilde;o p&uacute;blica deveriam ser feitas j&aacute;, agora, neste momento, antes que estr&eacute;ie a TV digital e se feche a janela de oportunidade. Mas o grupo interministerial parece acreditar no mitol&oacute;gico &ldquo;dia que vir&aacute;&rdquo;, o amanh&atilde; radioso em que todas as utopias se materializar&atilde;o por si mesmas, como se n&atilde;o fosse necess&aacute;rio constru&iacute;-las desde o presente.&nbsp; E como se n&atilde;o houvesse sucess&atilde;o de governo no Brasil, n&atilde;o houvessem inimigos da TV p&uacute;blica esperando chegar ao poder para prejudic&aacute;-la.<\/p>\n<p>A TV Brasil est&aacute; se organizando como uma rede de TV em formato convencional, na qual uma emissora central, resultante da fus&atilde;o da Radiobr&aacute;s com a TVE do Rio de Janeiro, apresenta-se como &ldquo;cabe&ccedil;a de rede&rdquo;, isto &eacute;, como grande provedora de programa&ccedil;&atilde;o a outras emissoras, poss&iacute;veis afiliadas. Oferece seu conte&uacute;do em troca da distribui&ccedil;&atilde;o de seu sinal, na &aacute;rea de alcance da afiliada. Mant&eacute;m uma estrutura vertical de organiza&ccedil;&atilde;o, produzindo a maioria dos programas que exibir&aacute;. De lambuja, oferece alguns espa&ccedil;os aos programas regionais e independentes em sua grade de programa&ccedil;&atilde;o. Recusa, entretanto, a id&eacute;ia de uma rede horizontal, organizada sem hierarquias entre as emissoras aderentes, com m&uacute;ltiplas formas de compartilhamento de programa&ccedil;&atilde;o, estrutura e servi&ccedil;os. <\/p>\n<p>A TV Brasil organiza-se, em resumo, como a Globo e as demais redes comerciais, cujo formato &eacute; a fonte de todos os problemas de centralismo, baixa diversidade e marginaliza&ccedil;&atilde;o cultural que a televis&atilde;o p&uacute;blica combate. Formato anacr&ocirc;nico e autorit&aacute;rio, repita-se. E tamb&eacute;m irrealista, porque: 1) presume que as emissoras p&uacute;blicas regionais, sob controle de interesses pol&iacute;ticos paroquiais, correr&atilde;o de bra&ccedil;os abertos a refor&ccedil;ar uma estrutura federal de comunica&ccedil;&atilde;o, o que s&oacute; beneficiaria o governo central. 2) s&oacute; seriam admitidas na rede emissoras regionais que adotassem o modelo p&uacute;blico, livrando-se da inger&ecirc;ncia dos governos que as mant&ecirc;m, o que demandaria um &ldquo;desprendimento&rdquo; que esses governos certamente n&atilde;o t&ecirc;m.<\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida, o maior avan&ccedil;o no projeto da TV Brasil reside na disposi&ccedil;&atilde;o do grupo interministerial em promover uma relativa &ldquo;desestatiza&ccedil;&atilde;o&rdquo; da nova rede, criando-a sob o modelo de funda&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de direito privado que a manteria, teoricamente, independente do governo. Essa &eacute; uma velha demanda pol&iacute;tica de todo o campo p&uacute;blico da televis&atilde;o: a de que os canais sejam utilizados para os interesses amplos da sociedade, n&atilde;o as conveni&ecirc;ncias de governantes. Ao estruturar-se como rede sob efetivo controle p&uacute;blico, n&atilde;o-governamental, a exemplo da sempre festejada BBC brit&acirc;nica, a TV Brasil estaria livre de ser TV Lula, ou TV de qualquer futuro governante. <\/p>\n<p>Ocorre que, mesmo nisso, o projeto da TV Brasil vai se equivocando. Delineia-se um modelo em que a emissora seria controlada por um Conselho de Gest&atilde;o, composto por personalidades nomeadas pelo governo, em vez de representantes de entidades da sociedade civil, por elas indicados. Mesmo as personalidades n&atilde;o poderiam escolher livremente os seus sucessores, sendo substitu&iacute;das por novos indicados do governo, quando conclu&iacute;ssem seus mandatos. Os diretores da emissora, embora subordinados ao conselho, tamb&eacute;m seriam nomeados pelo governo. Ou seja: TV p&uacute;blica, &ldquo;ma non troppo&rdquo;. Na verdade, TV estatal em vers&atilde;o &ldquo;light&rdquo;, supostamente aut&ocirc;noma, mas de fato monitorada.<\/p>\n<p>A medida provis&oacute;ria formalizando o projeto da TV Brasil ser&aacute; editada nas pr&oacute;ximas semanas. Ainda h&aacute; tempo para que a rota seja corrigida. O Ministro Franklin Martins, que comanda o processo, tem a op&ccedil;&atilde;o diante de si. Pode atirar fora o capital pol&iacute;tico acumulado em anos de lutas da televis&atilde;o p&uacute;blica brasileira, que ap&oacute;ia a reforma do segmento, ou pode liderar as profundas mudan&ccedil;as necess&aacute;rias ao reordenamento dessa &aacute;rea, como se espera dele. Vamos torcer pelo bom senso.<\/p>\n<p><em>* Gabriel Priolli &eacute; jornalista e diretor de televis&atilde;o. Preside a ABTU-Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Televis&atilde;o Universit&aacute;ria<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O processo de constru&ccedil;&atilde;o da nova rede p&uacute;blica de televis&atilde;o &ndash; batizada TV Lula pelos advers&aacute;rios e auto-designada, provisoriamente ou n&atilde;o, de TV Brasil &ndash; vai se convertendo em mais um exemplo cristalino de que as boas inten&ccedil;&otilde;es nem sempre conduzem a bons resultados. 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