{"id":18958,"date":"2007-08-14T14:33:08","date_gmt":"2007-08-14T14:33:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18958"},"modified":"2007-08-14T14:33:08","modified_gmt":"2007-08-14T14:33:08","slug":"mercado-audiovisual-e-producao-independente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18958","title":{"rendered":"Mercado audiovisual e produ\u00e7\u00e3o independente"},"content":{"rendered":"<p><em>Leopoldo Nunes &eacute; um dos diretores da Ag&ecirc;ncia Nacional de Cinema (Ancine), &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por regulamentar o mercado audiovisual nacional. Aos 41 anos de idade, o paulista passou pela Secretaria do Audiovisual do Minist&eacute;rio da Cultura, junto a Orlando Senna, e pelo cargo de Diretor de Patroc&iacute;nios da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Institucional da Secretaria Geral da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. Cineasta e antigo cineclubista, teve sua indica&ccedil;&atilde;o &agrave; Ancine defendida pelo Ministro Gilberto Gil, e seu mandato expira em 2010. Tem ainda um hist&oacute;rico de milit&acirc;ncia nas categorias de base do cinema brasileiro, com duas passagens pela Associa&ccedil;&atilde;o de Documentaristas de S&atilde;o Paulo (ABD-SP) e duas outras pela ABD nacional, de onde foi para a diretoria do Congresso Brasileiro de Cinema, entre 2000 e 2002, e de l&aacute; para o Minist&eacute;rio da Cultura, no come&ccedil;o da gest&atilde;o Gil.<\/em> <\/p>\n<p><em>Nessa entrevista, Nunes fala dos mecanismos utilizados pela Ancine para fomento &agrave; cadeia produtiva do cinema, do momento do cinema nacional, da rela&ccedil;&atilde;o entre a produ&ccedil;&atilde;o independente com a TV, de Ancinav e da digitaliza&ccedil;&atilde;o das m&iacute;dias audiovisuais.<\/em><\/p>\n<p><strong>Parece um feliz chav&atilde;o dizer que o cinema nacional atravessa uma boa fase. Tal aquecimento, representado pelo n&uacute;mero de produ&ccedil;&otilde;es, por seu reconhecimento internacional, pelo reconhecimento do p&uacute;blico nacional e pelo aumento dos or&ccedil;amentos das produ&ccedil;&otilde;es. Isso &eacute; s&oacute; uma bolha, um momento, ou esse ritmo vai se manter?<\/strong><br \/>Vai se manter, sim. Tanto o governo quanto o setor cinematogr&aacute;fico est&atilde;o empenhados neste sentido. Tudo o que estamos vendo a&iacute;, que d&aacute; sustenta&ccedil;&atilde;o a este momento do cinema nacional, surgiu de uma rela&ccedil;&atilde;o entre o governo e o setor. Hoje o investimento anual, entre estatais, Ancine e Minist&eacute;rio da Cultura, atrav&eacute;s de editais e de leis de incentivo, est&aacute; em torno de 200 milh&otilde;es de reais. E neste universo, a produ&ccedil;&atilde;o &eacute; o melhor problema, pois hoje temos produ&ccedil;&atilde;o e agora o grande problema &eacute; a presen&ccedil;a e circula&ccedil;&atilde;o dos filmes nas salas. S&atilde;o necess&aacute;rias agora pol&iacute;ticas de difus&atilde;o em parceira com a televis&atilde;o aberta e fechada e o setor de v&iacute;deo, al&eacute;m de apoio &agrave;s estruturas de distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o de filmes em salas para levar o cinema nacional a um novo patamar.<\/p>\n<p>Neste sentido, h&aacute; tamb&eacute;m a novidade do aporte de recursos reembols&aacute;veis para este mercado, atrav&eacute;s do BNDES. Por isso que este momento n&atilde;o s&oacute; vai ser duradouro como &eacute; um momento de crescimento do mercado, tanto para os investimentos, diretos e indiretos, como atrav&eacute;s dos mecanismos criados para fomento, e tamb&eacute;m atrav&eacute;s das pol&iacute;ticas, j&aacute; discutidas, de fortalecimento da distribui&ccedil;&atilde;o independente.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; poss&iacute;vel &ldquo;criar&rdquo; um ambiente assim sem uma Ancinav?<\/strong><br \/>Sim. &Eacute; certo que n&oacute;s estamos circunscritos &agrave; nossa compet&ecirc;ncia de atua&ccedil;&atilde;o, com atividades que dizem respeito ao aux&iacute;lio &agrave; circula&ccedil;&atilde;o, ao fomento e &agrave; fiscaliza&ccedil;&atilde;o das atividades ligadas a produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do audiovisual, em especial o cinema e atividades correlatas como a publicidade, mas &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Em se definindo o que &eacute; o conte&uacute;do brasileiro, em se definindo o que &eacute; produ&ccedil;&atilde;o independente, temos uma quest&atilde;o maior apenas que &eacute; a discuss&atilde;o da Lei Geral de comunica&ccedil;&otilde;es, mas, dentro da nossa compet&ecirc;ncia, &eacute; poss&iacute;vel atuar e expandir bastante o mercado.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; poss&iacute;vel expandir em um mercado que se sabe concentrado?<\/strong><br \/>Sem d&uacute;vida h&aacute; uma concentra&ccedil;&atilde;o muito grande de t&iacute;tulos, das majors, e uma briga muito intensa pelo espa&ccedil;o de tela. A gente tem de entender que as majors t&ecirc;m mudado sua estrat&eacute;gia no mercado mundial e que a gente tem de lutar por uma presen&ccedil;a maior do nosso cinema.<\/p>\n<p>N&oacute;s temos tamb&eacute;m de sair do cerco das duas mil salas, ampliar o mercado e aumentar a demanda por t&iacute;tulos brasileiros. Recentemente, dois ou tr&ecirc;s t&iacute;tulos distribu&iacute;dos pelas majors tomaram todo o mundo. Ao mesmo tempo em que isto ocorre, h&aacute; uma rea&ccedil;&atilde;o e as cinematografias nacionais t&ecirc;m se colocado contra isso. N&oacute;s estamos com uma produ&ccedil;&atilde;o consolidada, mas com uma s&eacute;rie de distribui&ccedil;&otilde;es aqu&eacute;m do que poderia ser feito. Mas, daqui at&eacute; 2010 n&oacute;s teremos uma participa&ccedil;&atilde;o crescente, tamb&eacute;m com o crescimento do mercado.<\/p>\n<p><strong>Vale mais para o Brasil tornar-se uma Bollywood ou uma Nig&eacute;ria?<\/strong><br \/>Nem uma coisa nem outra. O Brasil tem uma caracter&iacute;stica geogr&aacute;fica e nacional espec&iacute;fica. No caso da &Iacute;ndia ela tem um grande mercado, tamb&eacute;m no Oriente, ali entre a pr&oacute;pria &Iacute;ndia e todos aqueles &ldquo;Ist&atilde;os&rdquo;, Curdist&atilde;o, Paquist&atilde;o, Afeganist&atilde;o e afins. Ela tem uma caracter&iacute;stica pr&oacute;pria, um nicho em uma grande regi&atilde;o do planeta. No caso da Nig&eacute;ria, &eacute; uma experi&ecirc;ncia nova, baseada na replicabilidade do meio digital e na aus&ecirc;ncia de uma ind&uacute;stria consolidada.<\/p>\n<p>Aqui temos um setor audiovisual muito industrial mesmo, temos uma experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria, um grande mercado, mesmo com a escassez atual, as duas mil salas de exibi&ccedil;&atilde;o. &Agrave; exce&ccedil;&atilde;o do M&eacute;xico, a Am&eacute;rica Latina tem uma organiza&ccedil;&atilde;o que torna a produ&ccedil;&atilde;o local e a distribui&ccedil;&atilde;o bem mais dif&iacute;cil do que no nosso caso. Nosso cinema &eacute; produzido ao modo da ind&uacute;stria ocidental, e temos potencial para atingir tanto o mercado interno e externo. A Argentina tem tido uma boa experi&ecirc;ncia internacional, mas falha ao atender o mercado local. Por isso que a nossa experi&ecirc;ncia &eacute; &uacute;nica. Como Gustavo Dahl diz, jabuticaba s&oacute; tem no Brasil. &Eacute; meio assim, a nossa experi&ecirc;ncia &eacute; muito pr&oacute;pria, n&oacute;s n&atilde;o pretendemos copiar nenhum outro modelo, pois nosso modelo &eacute; pr&oacute;prio, baseado em nossa pr&oacute;pria hist&oacute;ria.<\/p>\n<p><strong>E qual a vis&atilde;o da Ancine em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pol&iacute;ticas de financiamento e apoio do BNDES no setor, e como a ag&ecirc;ncia pretende atuar em rela&ccedil;&atilde;o a este &ldquo;refor&ccedil;o&rdquo;? Investimentos como este s&atilde;o o sinal de que &eacute; poss&iacute;vel vislumbrarmos uma estrutura&ccedil;&atilde;o do mercado cinematogr&aacute;fico nacional? <br \/><\/strong>Contribu&iacute;mos desde o come&ccedil;o para a formula&ccedil;&atilde;o desta pol&iacute;tica, e o banco esteve muito aberto neste sentido. N&oacute;s s&oacute; t&iacute;nhamos fundos perdidos [investimentos que utilizavam fundos perdidos, com recursos que n&atilde;o voltam para os cofres p&uacute;blicos], atrav&eacute;s das leis de fomento, mas h&aacute; setores que podem utilizar o capital de risco e nesse sentido s&atilde;o pol&iacute;ticas absolutamente complementares, pensando as pol&iacute;ticas do MinC, da Ancine, da Petrobr&aacute;s e do BNDES.<\/p>\n<p>Agora no BNDES at&eacute; os produtores, com um bom capital, podem se servir de um recurso com risco, por terem certeza que poder&atilde;o pagar, e toda esta cadeia de fomento est&aacute; inserida no mesmo projeto, um projeto discutido tamb&eacute;m com os setores de TV e Cinema. Na TV, voc&ecirc; tem ainda uma presen&ccedil;a quase insignificante da produ&ccedil;&atilde;o nacional em cinema, mas h&aacute; mecanismos que podem mudar isso, como a recente mudan&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao uso do artigo 1&deg;a da Lei do Audiovisual ou o uso do artigo 3&deg; da mesma lei pela TV. H&aacute; ainda ferramentas como o artigo 39, cada vez mais utilizado, para s&eacute;ries como Mandrake, que se tornou refer&ecirc;ncia e produto de exporta&ccedil;&atilde;o. O imposto devido das empresas de TV tamb&eacute;m pode ser usado neste sentido, e as TVs t&ecirc;m procurado a Ancine no sentido de descobrir como adaptar seus modelos de neg&oacute;cios para utilizar estes impostos.<\/p>\n<p><strong>Esta aproxima&ccedil;&atilde;o das TVs &eacute; muito importante?<\/strong><br \/>A presen&ccedil;a do filme brasileiro na TV e no v&iacute;deo n&atilde;o chega, em valores, a 1% do total no setor. Em rela&ccedil;&atilde;o ao mercado de v&iacute;deo, primeiro temos de entender que foram mais de 10 anos sem um &oacute;rg&atilde;o regulador. Mas o setor de v&iacute;deo &eacute; um dos mais rent&aacute;veis da cadeia audiovisual, e o mercado explora esta rentabilidade, atrav&eacute;s da comercializa&ccedil;&atilde;o de produtos estrangeiros, que se apresentam com valores mais vantajosos para os distribuidores do que os produtos nacionais. &Eacute; um mercado em que n&atilde;o h&aacute; isonomia. Estamos estudando mecanismos que facilitem essa isonomia, ou ent&atilde;o vamos ter de ficar sempre botando dinheiro em nosso cinema, que ficar&aacute; espremido no mercado de salas de exibi&ccedil;&atilde;o, por falta de regula&ccedil;&atilde;o e condi&ccedil;&otilde;es ison&ocirc;micas de competi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Que tipo de solu&ccedil;&atilde;o diminuiria esse afunilamento?<\/strong><br \/>Algumas solu&ccedil;&otilde;es: o fortalecimento do distribuidor brasileiro; um fundo setorial para subsidiar uma ou outra a&ccedil;&atilde;o mercadol&oacute;gica, como subs&iacute;dio a juros, que estamos tratando como benef&iacute;cio; e o di&aacute;logo com o mercado de v&iacute;deo, no sentido de facilitar a forma&ccedil;&atilde;o de pactos, e de uma regulamenta&ccedil;&atilde;o a partir destes pactos.<\/p>\n<p><strong>E na TV?<\/strong><br \/>A gente tem feito esfor&ccedil;os em v&aacute;rias dire&ccedil;&otilde;es, e com atores diversos. Um exemplo &eacute; o Documenta Brasil, realizado com o SBT, com obras que v&atilde;o primeiro para a TV aberta, depois para as salas e v&iacute;deo. S&atilde;o casos em que &eacute; fomentado, por meio do Artigo 3&ordm; que permite reinvestimento de parte do imposto por remessa de lucros ao estrangeiro, ou seja, por royalties de filmes estrangeiros exibidos aqui pelas TVs &#8211; e a TV entra com a janela de exibi&ccedil;&atilde;o, que por si s&oacute; &eacute; um valor muito grande, diga-se de passagem. Com este instrumento n&oacute;s estamos dando a nossa cota de subs&iacute;dio para que se estabele&ccedil;a uma rela&ccedil;&atilde;o entre produtores independentes e as TVs. Com o investimento em fundos subsidiados e a intermedia&ccedil;&atilde;o na rela&ccedil;&atilde;o entre TVs e produtores independentes, creio que teremos boas novidades no audiovisual para o pr&oacute;ximo ano, em um mercado que come&ccedil;a a exportar.<\/p>\n<p><strong>Existe cinema nacional sem cota de tela?<\/strong><br \/>N&atilde;o, nem cinema brasileiro, nem cinema franc&ecirc;s, ingl&ecirc;s ou americano. O cinema americano mesmo vive no mercado, det&eacute;m 80% do mercado mundial, mas &eacute; financiado pelo governo. N&atilde;o h&aacute; cinematografia n&atilde;o financiada, por meio de subs&iacute;dio ou impostos, como &eacute; o caso da Fran&ccedil;a e da Argentina. O que existe &eacute; combinar fundo perdido com recurso de risco. Al&eacute;m disso, h&aacute;, na Fran&ccedil;a, uma cota de tela poderosa. Na Espanha, onde o mercado est&aacute; focado na televis&atilde;o, h&aacute; no cinema tamb&eacute;m um mecanismo de cota de tela, um pouco diferente da nossa. E em todos estes pa&iacute;ses predomina, no mercado, o cinema americano. Pa&iacute;ses como a Fran&ccedil;a e a Cor&eacute;ia do Sul t&ecirc;m cotas de tela praticamente draconianas para garantir seu mercado interno. Sem mercado interno voc&ecirc; n&atilde;o movimenta a economia, n&atilde;o tem massa cr&iacute;tica, n&atilde;o tem base. <\/p>\n<p><strong>O nosso modelo de cota de tela n&atilde;o est&aacute; superado?<\/strong><br \/>Com certeza. No Brasil, a cota de tela &eacute; um sistema muito antigo, mas &eacute; uma prote&ccedil;&atilde;o que existe em quase todos os pa&iacute;ses. &Eacute; um instrumento de uma cinematografia que est&aacute; em desvantagem, em uma situa&ccedil;&atilde;o de grande fragilidade no mercado. Nossa cota de tela &eacute; min&uacute;scula, e os setores de distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tomam iniciativas contr&aacute;rias, n&atilde;o v&atilde;o al&eacute;m da cota de tela. Por isso &eacute; um instrumento regulador indispens&aacute;vel. Hoje a gente disputa, fora o circuito de arte, de 200 ou 300 salas, somente com o cinema americano, e de forma desigual. Alguns criticam a qualidade e apelo ao p&uacute;blico do cinema nacional, mas n&atilde;o h&aacute; qualidade sem demanda, sen&atilde;o o cinema &eacute; feito somente por necessidade de express&atilde;o, com um perfil bem mais autoral, e na medida do poss&iacute;vel palat&aacute;vel pelo mercado.<\/p>\n<p>No Brasil, n&atilde;o h&aacute; ainda, para o cinema, uma produ&ccedil;&atilde;o com perfil industrial, mas n&oacute;s estamos pactuando isso, ajudando a construir. Como a nossa cinematografia &eacute; muito fr&aacute;gil, a cota &eacute; uma medida indispens&aacute;vel e ainda ser&aacute; por muito tempo ainda. Outros setores da cadeia audiovisual, como a publicidade e o v&iacute;deo institucional, s&atilde;o bem mais fortes e n&atilde;o precisam deste mecanismo.<\/p>\n<p><strong>O cinema nacional &eacute; mais conhecido fora do pa&iacute;s do que dentro?<\/strong><br \/>O Brasil j&aacute; teve uma presen&ccedil;a maior, nos anos 60 e 70, no mercado internacional. Hoje nossa cinematografia &eacute; pouco conhecida, apesar de ter uma qualifica&ccedil;&atilde;o muito grande. Mas &eacute; certo afirmar que o brasileiro conhece muito pouco sua produ&ccedil;&atilde;o independente, e esse &eacute; o nosso principal esfor&ccedil;o neste momento. Temos inclusive programas de exporta&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para qualificar o produtor brasileiro no plano internacional. Estamos abrindo espa&ccedil;o para o independente, que por um lado tem a TV ainda fechada &agrave; sua produ&ccedil;&atilde;o, e por outro n&atilde;o conhecia os mercados internacionais, a pol&iacute;tica e as din&acirc;micas de distribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Ent&atilde;o a TV &eacute; essencial neste processo de valoriza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o independente?<\/strong><br \/>Sem d&uacute;vida nenhuma, para fortalecer o conjunto da atividade produtiva e audiovisual no pa&iacute;s. Ao mesmo tempo em que n&oacute;s um esfor&ccedil;o para dar protagonismo aos produtores que n&atilde;o t&ecirc;m estrutura, reconhecemos a TV, que &eacute; central na produ&ccedil;&atilde;o nacional e de exporta&ccedil;&atilde;o, seja a novela ou o mercado publicit&aacute;rio, que tamb&eacute;m pagam impostos. Aqui, por&eacute;m, voc&ecirc; tem uma s&eacute;rie de mecanismos j&aacute; criados, de estruturas que auxiliam e fomentam este mercado &ndash; o artigo 1&deg;, 3&deg;, 3&ordm;A e o 25&deg; da Lei Rouanet, para as radiodifusoras, editais de fomentos e linhas do BNDES. A TV tem um papel indispens&aacute;vel &ndash; alta tecnologia, horas de programa&ccedil;&atilde;o &ndash; ent&atilde;o a gente tem responsabilidade em dar um respaldo pelo conjunto que a atividade representa, e entendemos a for&ccedil;a dos grandes conglomerados, mas a prioridade ainda &eacute; o produtor independente. Nossa responsabilidade nesse meio &eacute; fazer filmes, mas filmes que circulem e possibilitem o desenvolvimento dessa cadeia produtiva e econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p><strong>O dinheiro investido a fundo perdido retorna para a pr&oacute;pria economia, e como se d&aacute; este retorno?<\/strong><br \/>&Eacute; um erro dizer que esse &eacute; um dinheiro que vai e n&atilde;o volta. Voc&ecirc; tem dificuldade para encontrar t&eacute;cnicos para produ&ccedil;&otilde;es audiovisuais hoje, e isto &eacute; sintom&aacute;tico de um aumento das produ&ccedil;&otilde;es nesta atividade. A atividade passa a criar uma din&acirc;mica pr&oacute;pria de recursos. Circula um grande volume de capital em nome da atividade do audiovisual, e o investimento em produ&ccedil;&atilde;o &eacute; 1% ou 2% do que circula nesta atividade, ou seja, &eacute; um investimento pequeno e que gera um grande ativo para o pa&iacute;s. Essa &eacute; uma discuss&atilde;o muito obtusa, pois se foca em cima do produtor independente e se ignora o que realmente circula. Se voc&ecirc; pegar o quanto o cinema estrangeiro circula, percebe que o recurso investido em produ&ccedil;&atilde;o brasileira &eacute; insignificante. &Eacute; um grande ativo que geramos ainda, com o cinema, tendo um recurso econ&ocirc;mico que se torna um capital simb&oacute;lico, um capital que, depois de cumprido seu c&iacute;rculo econ&ocirc;mico, tem fun&ccedil;&atilde;o cultural. Outro ponto, ainda em discuss&atilde;o, &eacute; o uso de um escalonamento nos investimentos com fundo perdido, de acordo com as contrapartidas em &ldquo;dinheiro bom&rdquo;. N&oacute;s entendemos que n&atilde;o podemos tratar os diferentes como iguais. Um investimento num independente tem um impacto nas estruturas que alimenta toda uma cadeia produtiva, e gera depois um ativo para uma produtora. N&oacute;s temos isso com a agroind&uacute;stria, t&iacute;nhamos com a ind&uacute;stria de sapatos e com outras.<\/p>\n<p><strong>Queria tocar ainda em outro ponto: qual destino foi dado para o projeto da Ancinav?<\/strong><br \/>&Eacute; um projeto fundamental. Desafio qualquer um a apontar no projeto os itens que pegaram para colocar-nos como autorit&aacute;rios. &Eacute; o tipo de grita que vem sempre dos mesmos segmentos, os &ldquo;conteudistas&rdquo; que atuam no mercado e adotam uma postura conservadora. Os mecanismos de prote&ccedil;&atilde;o previstos eram fundamentais, em um ambiente de diversidade como este, para garantir os direitos &agrave; soberania e a autodetermina&ccedil;&atilde;o dos povos, garantir a diversidade cultural. O projeto da Ancinav, diga-se de passagem, foi discutido com todo o setor audiovisual, amplamente. Depois fomos v&iacute;timas de um ataque contra o projeto. Neste momento, com o interesse de preservar a soberania do pa&iacute;s e a diversidade cultural, o Congresso Nacional esta debatendo mais de um projeto de lei que toca neste ponto.<\/p>\n<p><strong>Outra quest&atilde;o sobre a qual come&ccedil;am a surgir d&uacute;vidas &eacute; a digitaliza&ccedil;&atilde;o do cinema. Como a Ancine v&ecirc; este processo?<br \/><\/strong>N&oacute;s estamos, no mercado, com um processo concomitante de digitaliza&ccedil;&atilde;o das TVs e com a necessidade de produ&ccedil;&atilde;o digital daqui para frente. O que &eacute; certo nesse momento &eacute; que as majors definiram um padr&atilde;o t&eacute;cnico, que deve ser adotado, e que &eacute; um padr&atilde;o de alto custo, que como toda ind&uacute;stria come&ccedil;a num pre&ccedil;o mais elevado e tende a se adaptar &agrave;s pr&oacute;prias disponibilidades do mercado. Para a defini&ccedil;&atilde;o dos padr&otilde;es, h&aacute; toda uma discuss&atilde;o de ado&ccedil;&atilde;o de softwares e sistemas livres, e isso ainda n&atilde;o est&aacute; definido. Mas nesse momento essa discuss&atilde;o &eacute; incipiente, o mercado de filmes em celul&oacute;ide ainda deve continuar por um tempo. Estamos discutindo com os setores afetados, para definir o melhor para o pa&iacute;s e para nos inserir nesta mudan&ccedil;a. O que j&aacute; est&aacute; definido, por sua vez, &eacute; a opera&ccedil;&atilde;o, quase que experimental, dos grandes distribuidores brasileiros. O mundo ainda n&atilde;o definiu qual, ou quais, ser&atilde;o os padr&otilde;es majorit&aacute;rios, depois de anos de discuss&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o. A discuss&atilde;o tem se arrastado por 20 anos, com um padr&atilde;o desenvolvido pelos japoneses j&aacute; em 1989, e experimentos de George Lucas desde 1990, mas sem uma defini&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria americana ningu&eacute;m deve come&ccedil;ar a produzir em larga escala. Temos nos adaptado, para n&atilde;o ficarmos isolados e n&atilde;o criarmos dificuldades para circula&ccedil;&atilde;o da nossa produ&ccedil;&atilde;o por conta do padr&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>E a digitaliza&ccedil;&atilde;o da TV, ter&aacute; impacto neste mercado? Como atua a TV P&uacute;blica neste momento de mudan&ccedil;as?<\/strong><br \/>N&atilde;o tenha d&uacute;vidas. Hoje, a produ&ccedil;&atilde;o em digital, mesmo a produ&ccedil;&atilde;o em um bom padr&atilde;o, como o broadcasting, &eacute; bem acess&iacute;vel. O que se precisa &eacute; criar a demanda. Fa&ccedil;o parte do grupo executivo da TV p&uacute;blica, e ela ser&aacute; uma grande demandante da produ&ccedil;&atilde;o independente. A produ&ccedil;&atilde;o para esta e outras m&iacute;dias em digital vai gerar um aumento muito significativo neste sentido. N&oacute;s temos a produ&ccedil;&atilde;o, desde o document&aacute;rio, do cinema de anima&ccedil;&atilde;o, da teledramartugia, do pr&oacute;prio cinema, at&eacute; produ&ccedil;&otilde;es esportivas, em divis&otilde;es regionais e modalidades pouco exploradas pela televis&atilde;o comercial, ativos alheios da grande m&iacute;dia. Tudo isso pode chegar, com multi-programa&ccedil;&atilde;o, com WEB-TV, com TV universit&aacute;ria, etc. A digitaliza&ccedil;&atilde;o vai mudar substancialmente o conceito que a gente tem da TV como ela &eacute;, pois trabalha muito mais numa l&oacute;gica de web do que de radiodifus&atilde;o, que j&aacute; &eacute; adotada no mundo todo. E, fora do Brasil tamb&eacute;m, a produ&ccedil;&atilde;o independente &eacute; quem sustenta a atividade audiovisual, at&eacute; por manter uma alta qualidade com um custo menor, e a TV apenas gerenciando esta programa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;100canais<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diretor da Ancine defende fortalecimento da produ\u00e7\u00e3o independente.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[282,377],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18958"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18958"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18958\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}