{"id":18955,"date":"2007-08-14T14:22:14","date_gmt":"2007-08-14T14:22:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18955"},"modified":"2007-08-14T14:22:14","modified_gmt":"2007-08-14T14:22:14","slug":"democratizacao-da-cultura-e-da-comunicacao-uma-simbiose-necessaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18955","title":{"rendered":"Democratiza\u00e7\u00e3o da cultura e da comunica\u00e7\u00e3o: uma simbiose necess\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Trazer para um encontro os debates sobre a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da cultura representa um reconhecimento de que essas duas lutas est&atilde;o diretamente ligadas de forma que a democratiza&ccedil;&atilde;o da cultura depende da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, assim como a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, para atingir seu potencial de emancipa&ccedil;&atilde;o, deve estar ligada &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da cultura. Com essa perspectiva, v&aacute;rios coletivos militantes pela comunica&ccedil;&atilde;o e pela cultura est&atilde;o organizando o 1&ordm; Encontro Paulista pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o e da Cultura, a ser realizado no m&ecirc;s de outubro em S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>A cultura &eacute; o conte&uacute;do da comunica&ccedil;&atilde;o. As representa&ccedil;&otilde;es culturais, entendidas como o conjunto de manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas (ex: produ&ccedil;&atilde;o musical, audiovisual, literatura) e de manifesta&ccedil;&otilde;es n&atilde;o art&iacute;sticas que tamb&eacute;m representam e reportam a sociedade (ex: conjunto da produ&ccedil;&atilde;o da imprensa), constituem a tradu&ccedil;&atilde;o pelo indiv&iacute;duo de seu conhecimento da sociedade, al&eacute;m de contribuir para a forma&ccedil;&atilde;o de uma compreens&atilde;o cr&iacute;tica da sociedade pelos interlocutores dessas representa&ccedil;&otilde;es culturais. Os conte&uacute;dos dessas representa&ccedil;&otilde;es culturais (art&iacute;sticas e, nosso recorte, jornal&iacute;sticas) s&atilde;o limitados pelo limite do conhecimento de seu autor, e pelas escolhas do autor (filtro das refer&ecirc;ncias culturais) que ser&atilde;o feitas conforme a sua vis&atilde;o de mundo.<\/p>\n<p>Como exemplo, n&atilde;o se pode exigir que um escritor do sul possa fazer um romance sobre as comunidades ind&iacute;genas do norte do pa&iacute;s, sem que ele tenha contato com tais comunidades. Da mesma forma, um morador de S&atilde;o Paulo sem acesso a outros meios de informa&ccedil;&atilde;o al&eacute;m da grande m&iacute;dia dificilmente ter&aacute; conhecimento sobre a realidade dos conflitos de terra no campo, de forma que n&atilde;o conseguir&aacute; formar uma opini&atilde;o sobre tais conflitos diferente da opini&atilde;o veiculada pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Esse limite de conhecimento ou de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode, contudo, ser alegado pelos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Estes t&ecirc;m potencial de ter acesso e de produzir conte&uacute;do sobre toda a nossa diversidade cultural brasileira, seja tal cultura produzida no campo ou na cidade, entretanto, isso n&atilde;o ocorre porque o filtro de tais meios de comunica&ccedil;&atilde;o tem sido o filtro do interesse pelo lucro, que prioriza a ind&uacute;stria cultural de massa, homogeneizada, e o filtro da defesa de interesses de uma elite conservadora, que prioriza uma comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o participativa, n&atilde;o interativa, e que enxerga o espectador como um indiv&iacute;duo passivo, que deve apenas receber um conte&uacute;do j&aacute; formado.<\/p>\n<p>Infelizmente, a produ&ccedil;&atilde;o cultural (manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas e jornal&iacute;sticas) veiculada pela grande m&iacute;dia hoje &eacute; na verdade a reprodu&ccedil;&atilde;o de uma cultura hegem&ocirc;nica, das id&eacute;ias da cultura dominante. E tais id&eacute;ias &ldquo;n&atilde;o s&atilde;o dominantes&rdquo;, conforme Marilena Chau&iacute;, &ldquo;porque abarcam toda a sociedade, nem porque a sociedade nela se reconhe&ccedil;a, mas porque s&atilde;o id&eacute;ias dos que exercem a domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Nesse sentido, a conseq&uuml;&ecirc;ncia dessa domina&ccedil;&atilde;o &eacute; a falta de conhecimento do povo sobre sua cultura e sua realidade. Se o limite da grande m&iacute;dia &eacute; o filtro da comunica&ccedil;&atilde;o, o limite da popula&ccedil;&atilde;o &eacute; a falta de conhecimento, de acesso, assim como a dificuldade de produ&ccedil;&atilde;o e de veicula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos produzidos por essa popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; nesse espa&ccedil;o que se insere a luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da cultura, com duas vertentes principais, a democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; cultura e &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e a democratiza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o da cultura e da comunica&ccedil;&atilde;o. Democratizar o acesso significa instrumentalizar o acesso a todo o espectro cultural, que abarca n&atilde;o apenas a cultura hegem&ocirc;nica, mais facilmente acess&iacute;vel em virtude da chamada ind&uacute;stria cultural, mas tamb&eacute;m a cultura brasileira e latino-americana em toda a sua diversidade e riqueza, j&aacute; que produzida por coletivos com hist&oacute;rias e caracter&iacute;sticas peculiares. A cultura dos movimentos sociais, a cultura dos quilombolas, a cultura ind&iacute;gena, a cultura tradicional, a cultura marginal, a cultura da periferia, a cultura do campo, a cultura urbana, e tantas outras. Democratizar a produ&ccedil;&atilde;o significa dar meios para que essas culturas possam produzir seus pr&oacute;prios conte&uacute;dos e divulgar tais conte&uacute;dos em outros espa&ccedil;os. Em suma, trata-se de dar acesso e reproduzir o imagin&aacute;rio e a realidade brasileira e latino americana para ajudar na forma&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica da sociedade.<\/p>\n<p>Para que se obtenha a democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso e da produ&ccedil;&atilde;o da cultura e da comunica&ccedil;&atilde;o, uma s&eacute;rie de medidas deve ser tomada. No campo da comunica&ccedil;&atilde;o, &eacute; necess&aacute;ria a consolida&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blicos e privados que sejam democr&aacute;ticos, interativos e que veiculem a produ&ccedil;&atilde;o cultural popular. Nesse sentido, faz-se necess&aacute;rio a implementa&ccedil;&atilde;o de um sistema de tv p&uacute;blica, ora em discuss&atilde;o, que seja controlado pela popula&ccedil;&atilde;o e que veicule conte&uacute;dos produzidos pela popula&ccedil;&atilde;o, assim como se faz necess&aacute;rio a defesa de um modelo de TV Digital que privilegie a participa&ccedil;&atilde;o, a intera&ccedil;&atilde;o e a universalidade do acesso. Com rela&ccedil;&atilde;o ao sistema de TV privado, &eacute; preciso que o Estado exer&ccedil;a de forma efetiva a regula&ccedil;&atilde;o sobre as redes de televis&atilde;o para que estas busquem efetivamente realizar os objetivos estabelecidos na Constitui&ccedil;&atilde;o de servir &agrave; promo&ccedil;&atilde;o da cultura nacional e regional, de estimular a produ&ccedil;&atilde;o independente, de dar prefer&ecirc;ncia &agrave; finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas, e de veicular uma produ&ccedil;&atilde;o cultural, art&iacute;stica e jornal&iacute;stica regionalizada. Caso as redes de televis&atilde;o privadas n&atilde;o sigam tais princ&iacute;pios e assim n&atilde;o atendam ao interesse p&uacute;blico, &eacute; preciso que o Estado aplique as devidas san&ccedil;&otilde;es, inclusive a n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es de tais ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o. Ainda no campo da comunica&ccedil;&atilde;o, ressaltamos a import&acirc;ncia da liberaliza&ccedil;&atilde;o da atua&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, que t&ecirc;m grande potencial de desenvolver uma comunica&ccedil;&atilde;o participativa e regional, conforme os objetivos estabelecidos na Constitui&ccedil;&atilde;o citados acima. Por fim, &eacute; importante que o modelo de internet livre e participativa seja mantido, evitando-se a emerg&ecirc;ncia de leis ou proibindo tecnologias que restrinjam a liberdade de utiliza&ccedil;&atilde;o do ciberespa&ccedil;o.<\/p>\n<p>No campo da cultura, a luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o passa pela disputa de um modelo de tutela das obras intelectuais que assegure o livre fluxo, utiliza&ccedil;&atilde;o, e recria&ccedil;&atilde;o das obras intelectuais, ao contr&aacute;rio do atual modelo propriet&aacute;rio que impede o compartilhamento dos conte&uacute;dos culturais e que, apesar do pequeno retorno financeiro concedido aos artistas, submetem os artistas e cientistas aos interesses pelos intermedi&aacute;rios da produ&ccedil;&atilde;o cultural e cient&iacute;fica. Al&eacute;m disso, &eacute; importante ressaltar o papel do Estado na promo&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que estimulem o acesso e a produ&ccedil;&atilde;o cultural regional e diversificada.<\/p>\n<p>Dentre as v&aacute;rias medidas propostas para a democratiza&ccedil;&atilde;o da cultura e da comunica&ccedil;&atilde;o, destaca-se a necessidade de conferir a cada indiv&iacute;duo ou grupo social produtor de cultura o poder de disseminar a sua produ&ccedil;&atilde;o cultural e assim fazer frente &agrave; produ&ccedil;&atilde;o massificada. S&atilde;o medidas que visam conferir a esses grupos ou indiv&iacute;duos iguais possibilidades de produ&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da cultura, justamente para que eles possam preservar a sua diferen&ccedil;a, a sua individualidade. Nas palavras de Boaventura de Souza Santos, &ldquo;as pessoas e os grupos sociais t&ecirc;m o direito a ser iguais quando a diferen&ccedil;a os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza&rdquo;.<\/p>\n<p>&Eacute; nesse sentido que o 1&ordm; Encontro Paulista pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o e da Cultura est&aacute; sendo organizado e visa, para al&eacute;m da discuss&atilde;o, contar com a colabora&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos e coletivos que possam juntos levantar a bandeira e fortalecer a luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da cultura<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trazer para um encontro os debates sobre a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e da cultura representa um reconhecimento de que essas duas lutas est&atilde;o diretamente ligadas de forma que a democratiza&ccedil;&atilde;o da cultura depende da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, assim como a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, para atingir seu potencial de emancipa&ccedil;&atilde;o, deve estar ligada &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18955\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Democratiza\u00e7\u00e3o da cultura e da comunica\u00e7\u00e3o: uma simbiose necess\u00e1ria<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[84],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18955"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18955"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18955\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}