{"id":18872,"date":"2007-08-02T12:32:58","date_gmt":"2007-08-02T12:32:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18872"},"modified":"2007-08-02T12:32:58","modified_gmt":"2007-08-02T12:32:58","slug":"governo-e-radiodifusores-a-promiscuidade-se-mantem-de-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18872","title":{"rendered":"Governo e radiodifusores: a promiscuidade se mant\u00e9m de p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><span>H&aacute; muitos anos milito no movimento de democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. J&aacute; vi muita coisa escabrosa, mas poucas vezes me senti t&atilde;o constrangido quanto na reuni&atilde;o realizada pelo ministro H&eacute;lio Costa, no dia 1&deg; de agosto, para discutir a digitaliza&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio.<\/p>\n<p><\/span><span>O tal &ldquo;conselho&rdquo; convocado pelo ministro n&atilde;o tem exist&ecirc;ncia de fato. N&atilde;o h&aacute; um ato normativo que o tenha criado. Ningu&eacute;m sabe quantas pessoas o integram, quais os crit&eacute;rios de composi&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o h&aacute; recursos para custear a ida dos participantes (cada um paga do seu bolso, aumentando a desigualdade entre radiodifusores e os movimentos sociais). Tampouco houve uma convocat&oacute;ria p&uacute;blica.<\/p>\n<p><\/span><span>Esta foi a segunda reuni&atilde;o, mas n&atilde;o havia uma ata da anterior, com o relato do que fora discutido. Tamb&eacute;m n&atilde;o havia uma pauta para esta reuni&atilde;o e, antes do ministro chegar, os presentes foram sugerindo assuntos a um assessor do minist&eacute;rio. Ao final da reuni&atilde;o, a proposta para a cria&ccedil;&atilde;o de grupos de trabalho simplesmente n&atilde;o foi encaminhada e n&atilde;o foi marcada a data do pr&oacute;ximo encontro.<\/p>\n<p><\/span><span>Na sala de reuni&otilde;es estavam mais de quarenta pessoas. Exceto pela presen&ccedil;a da Associa&ccedil;&atilde;o Mundial de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (AMARC), da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria (ABRA&Ccedil;O), do Coletivo Intervozes, <\/span><span>do F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o (FNDC)<\/span><span> e da Associa&ccedil;&atilde;o das R&aacute;dios P&uacute;blicas (ARPUB), todos os demais ou eram do governo ou empres&aacute;rios. Alguns em suas falas chegaram a reconhecer que n&atilde;o representavam ningu&eacute;m, mas apenas a sua pr&oacute;pria r&aacute;dio, o seu pr&oacute;prio neg&oacute;cio. Por que os empres&aacute;rios tiveram o privil&eacute;gio de comparecer em massa? At&eacute; um jornalista da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (ABERT) acompanhou a reuni&atilde;o, enquanto o restante da imprensa esperava do lado de fora.<\/p>\n<p><\/span><span>O ministro chegou, falou por um longo per&iacute;odo, explicando o porque de sua prefer&ecirc;ncia pelo IBOC (padr&atilde;o norte-americano) e anunciou a decis&atilde;o para tr&ecirc;s semanas.<\/p>\n<p><\/span><span>Antes, contudo, o representante da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (ANATEL) j&aacute; informara que existe uma consulta p&uacute;blica em andamento, que define os crit&eacute;rios para o processo de avalia&ccedil;&atilde;o, e que, portanto, n&atilde;o h&aacute; um relat&oacute;rio conclusivo sobre os testes que as emissoras comerciais v&ecirc;m fazendo com o IBOC. Ora, se a consulta p&uacute;blica n&atilde;o acabou e se n&atilde;o h&aacute; uma avalia&ccedil;&atilde;o dos testes, qual o crit&eacute;rio que o minist&eacute;rio usar&aacute; para tomar a decis&atilde;o?<\/p>\n<p><\/span><span>Tive a oportunidade de questionar o ministro, dizendo que poderiam existir v&aacute;rios crit&eacute;rios diferentes para a escolha. Um deles seria a possibilidade de democratizar o espectro eletromagn&eacute;tico, abrindo-o para novas emissoras. E, neste caso, o IBOC era considerado (em um estudo realizado pela Benton Foundation) um &ldquo;devorador de banda&rdquo;. Isso significa que o espa&ccedil;o atualmente ocupado pelas emissoras ir&aacute; dobrar e, consequentemente, diminuir&aacute; a disponibilidade para novas r&aacute;dios. Fui bruscamente interrompido pelo ministro (v&aacute;rias vezes!) e, quando ficou patente que eu n&atilde;o demonstrava vontade de me calar diante das interrup&ccedil;&otilde;es, um assessor do minist&eacute;rio simplesmente se levantou e disse que eu devia encerrar minha fala.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas o mais curioso foi que, para defender o IBOC diante do estudo da Benton Foundation, o ministro pediu socorro ao assessor da ABERT, Ronald Barbosa, que ficou, ent&atilde;o, encarregado de &ldquo;explicar&rdquo; como funciona o IBOC. Neste gesto simples, mas t&atilde;o sintom&aacute;tico, o ex-empregado da TV Globo e propriet&aacute;rio de uma r&aacute;dio FM em Barbacena demonstrou que n&atilde;o sabe ainda separar a figura do ministro da figura do radialista. O minist&eacute;rio tem assessores e o ministro n&atilde;o pode, em uma reuni&atilde;o p&uacute;blica, se socorrer com as explica&ccedil;&otilde;es do empresariado. Para citar uma frase repetida &agrave; exaust&atilde;o por membros deste governo, n&atilde;o foi &ldquo;uma atitude republicana&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Menos republicano ainda foi descobrirmos que na reuni&atilde;o estavam presentes dois empregados da empresa norte-americana Ibiquity, dona do padr&atilde;o norte-americano IBOC. Mas, que n&atilde;o havia nenhum representante de outros padr&otilde;es tecnol&oacute;gicos.<\/p>\n<p><\/span><span>Antes de me interromper, o ministro j&aacute; havia feito o mesmo duas outras vezes. Primeiro, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ABRA&Ccedil;O. Depois, com o representante da Telavo (empresa que fabrica transmissores). A Telavo argumentava que n&atilde;o podia fazer transmissores IBOC porque a Ibiquity n&atilde;o cedera as especifica&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias. Com isso a ind&uacute;stria nacional ficaria de m&atilde;os atadas. A resposta do ministro n&atilde;o podia ser mais esclarecedora: &ldquo;se vira&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Indiretamente, a fala da Telavo revela uma outra preocupa&ccedil;&atilde;o. O padr&atilde;o IBOC &eacute; propriet&aacute;rio da Ibiquity, que cobra uma licen&ccedil;a anual para cada r&aacute;dio que utiliza sua tecnologia. H&eacute;lio Costa afirma que essa taxa (paga pelas r&aacute;dios nos Estados Unidos) n&atilde;o ser&aacute; cobrada no Brasil. Mas, n&atilde;o apresenta um &uacute;nico documento oficial para comprovar o que diz. O exemplo da soja transg&ecirc;nica da Monsanto prova que esse tipo de licen&ccedil;a pode ser abolida na implanta&ccedil;&atilde;o da tecnologia, para retornar posteriormente quando todos j&aacute; a estiveram utilizando. &Eacute; a m&aacute;xima que afirma que &ldquo;a primeira dose &eacute; de gra&ccedil;a&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>Ao longo da reuni&atilde;o, v&aacute;rios empres&aacute;rios se sucederam para dizer que o ministro tem a &ldquo;responsabilidade&rdquo; de escolher o IBOC, que o r&aacute;dio n&atilde;o sobreviver&aacute; no Brasil se esta n&atilde;o for a decis&atilde;o do governo e que os testes j&aacute; ocorriam h&aacute; muito tempo e que o pa&iacute;s n&atilde;o poderia esperar mais. Os mesmos empres&aacute;rios que pediam pressa ao ministro n&atilde;o comentavam, contudo, que o Brasil espera h&aacute; 45 anos por uma nova lei para as comunica&ccedil;&otilde;es, que aguardamos h&aacute; 19 anos a regulamenta&ccedil;&atilde;o do cap&iacute;tulo da comunica&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal e que, mais recentemente, o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a reabriu o debate sobre a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa da programa&ccedil;&atilde;o, a pedido dos pr&oacute;prios empres&aacute;rios, mesmo depois de ter conclu&iacute;do um debate de tr&ecirc;s anos. O sentido de urg&ecirc;ncia em um caso simplesmente n&atilde;o vale para todos os outros casos.<\/p>\n<p><\/span><span>Para se justificar diante de tantos absurdos, o ministro afirmou que o processo de escolha seguir&aacute; os mesmos tr&acirc;mites da TV digital. O que &eacute;, obviamente, um absurdo. No caso do r&aacute;dio digital n&atilde;o h&aacute; um decreto criando um &ldquo;sistema brasileiro&rdquo;, n&atilde;o foram feitas pesquisas e n&atilde;o h&aacute; um conselho consultivo. Perguntei ao ministro se, nesse caso, pod&iacute;amos cobrar que o minist&eacute;rio produziria estudos sobre a pol&iacute;tica industrial, a legisla&ccedil;&atilde;o em outros pa&iacute;ses e os modelos de neg&oacute;cios (todos produzidos para a TV digital). Visivelmente constrangido diante da cobran&ccedil;a, o ministro afirmou n&atilde;o ter recursos para fazer tais estudos.<\/p>\n<p><\/span><span>Segundo o ministro, trata-se, apenas, de uma atualiza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e que quem faz pol&iacute;tica para as comunica&ccedil;&otilde;es &eacute; o Congresso Nacional. H&eacute;lio Costa parece ter se esquecido que seu colega de profiss&atilde;o, Franklin Martins, est&aacute; justamente formulando uma pol&iacute;tica (que dever&aacute; seguir na forma de medida provis&oacute;ria) sobre a cria&ccedil;&atilde;o de uma TV p&uacute;blica. At&eacute; onde sabemos, Martins n&atilde;o &eacute; um parlamentar, mas integrante do mesmo poder Executivo que abriga o ministro H&eacute;lio Costa.<\/p>\n<p><\/span><span>Sei que sobraram poucos companheiros de jornada no governo Lula. Daqueles que ajudaram a eleger este governo e, ao mesmo tempo, a construir um movimento pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Aqueles que estiveram na equipe de transi&ccedil;&atilde;o e que, antes, fizeram o programa de governo para a &aacute;rea. Os que por l&aacute; est&atilde;o devem ter seus motivos. Avaliam que ainda &eacute; poss&iacute;vel fazer algo de importante pelo pa&iacute;s ou precisam pagar o aluguel no final do m&ecirc;s. De uma forma ou de outra, se continuam acreditando nos ideais pelos quais tanto lutaram, devem ter ficado no m&iacute;nimo constrangidos ao perceber que desde ACM o Brasil n&atilde;o tinha um ministro t&atilde;o despudoradamente dedicado &agrave; causa do oligop&oacute;lio privado das comunica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><\/span><span>Eu, pelo menos, fiquei envergonhado com o que vi naquela sala em Bras&iacute;lia.<br \/><\/span><\/p>\n<p><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; muitos anos milito no movimento de democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. 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