{"id":18858,"date":"2007-07-31T12:54:31","date_gmt":"2007-07-31T12:54:31","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18858"},"modified":"2007-07-31T12:54:31","modified_gmt":"2007-07-31T12:54:31","slug":"qual-a-melhor-tatica-para-enfrentar-o-monopolio-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18858","title":{"rendered":"Qual a melhor t\u00e1tica para enfrentar o monop\u00f3lio &#8220;Global&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Vamos voltar ao tema da concess&atilde;o de funcionamento de emissoras de televis&atilde;o pelo governo federal brasileiro. Para aqueles que, como eu, percebem que a Rede Globo de Televis&atilde;o exerce no Brasil o papel de um meio de comunica&ccedil;&atilde;o oficial, &agrave;s avessas &#8211; isto &eacute;, det&eacute;m um poder de arb&iacute;trio sobre a conduta do governo (e do povo que o elegeu), direcionando este governo no rumo da economia neoliberal, e, mais do que isto, legitimando ideologicamente as resolu&ccedil;&otilde;es governamentais afinadas com o pensamento neoliberal &#8211; qual seria o melhor caminho para propor a quebra da concess&atilde;o do canal televisivo pelo Estado? A cassa&ccedil;&atilde;o, pura e simples, ou a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o?<\/p>\n<p><\/span><span>Meu argumento central &eacute; de que n&atilde;o se pode contar com o aparelho de Estado para qualquer iniciativa neste sentido, pelo menos neste momento, no Brasil. Considero que o governo brasileiro, no n&iacute;vel do Poder Executivo, n&atilde;o tem o m&iacute;nimo interesse no enfrentamento com a Rede Globo. Ao contr&aacute;rio, o governo Lula, a meu ver, jamais tomar&aacute; qualquer medida que implique no questionamento da concess&atilde;o para opera&ccedil;&atilde;o da Rede Globo de televis&atilde;o. Lula deixa-se pautar pela Rede Globo, pois sabe muito bem que se seguir a cartilha neoliberal n&atilde;o tem com o que se preocupar. E Lula est&aacute; disposto a avan&ccedil;ar, neste segundo governo, no ide&aacute;rio da economia de mercado e do Estado privatizado. S&oacute; faltam as reformas da previd&ecirc;ncia, trabalhista e administrativa para selar o &quot;pacto pelo alto&quot; com o empresariado, enquanto estabelece um &quot;pacto por baixo&quot; com os trabalhadores, atrav&eacute;s de suas principais organiza&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p><\/span><span>Mas, e quanto aos trabalhadores independentes que percebem no monop&oacute;lio, de fato, da Rede Globo uma interfer&ecirc;ncia devastadora sobre a pol&iacute;tica no Brasil? Em primeiro lugar, n&atilde;o creio que se possa fugir de um certo legalismo no trato da quest&atilde;o. Quer dizer, o tema &eacute; constitucional e qualquer campanha que pretenda obter alguma repercuss&atilde;o deve levar em conta este fator. <\/p>\n<p><\/span><span>Ent&atilde;o, o que fazer? Ou melhor, como fazer? O m&iacute;nimo de legalismo que se deve levar em conta &eacute; que n&atilde;o se pode caracterizar legalmente, de direito, a Rede Globo como um monop&oacute;lio. N&oacute;s sabemos que ela exerce este papel de fato, mas isto n&atilde;o nos permite avan&ccedil;ar juridicamente neste argumento. Afinal, h&aacute; pelo menos mais meia d&uacute;zia de redes de televis&atilde;o nacionais no pa&iacute;s. O argumento do monop&oacute;lio n&atilde;o serve como mote de campanha anti-concess&atilde;o. Creio que o argumento capaz de mobilizar diversos setores da sociedade civil em prol do fim da concess&atilde;o &quot;Global&quot; &eacute; aquele de base pol&iacute;tico-econ&ocirc;mica, isto &eacute;, que a Rede globo comete irregularidades grav&iacute;ssimas no &acirc;mbito econ&ocirc;mico-financeiro e que n&atilde;o honra os seus compromissos frente ao Estado, a sociedade e, por paradoxal que seja, em rela&ccedil;&atilde;o ao pr&oacute;prio mercado capitalista. <\/p>\n<p><\/span><span>Muito se especula que a Globo est&aacute; envolvida, h&aacute; bastante tempo, em escabrosas transa&ccedil;&otilde;es financeiras nacionais e internacionais. Para ficar apenas no que j&aacute; foi publicado a respeito, basta dar uma olhada mais atenta em pe&ccedil;as acusat&oacute;rias do tipo do v&iacute;deo &quot;Muito al&eacute;m do cidad&atilde;o Kane&quot; e do livro &quot;Afunda&ccedil;&atilde;o Roberto Marinho&quot; para se ter uma vaga no&ccedil;&atilde;o do que ocorre nos bastidores da rede televisiva e, por extens&atilde;o, das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo. <\/p>\n<p><\/span><span>Eu acho que a campanha pelo fim da concess&atilde;o deveria iniciar-se com apura&ccedil;&otilde;es e den&uacute;ncias destas &quot;irregularidades&quot; (na verdade, se comprovadas as acusa&ccedil;&otilde;es, poss&iacute;veis crimes do colarinho branco). Esta campanha precisa ser massiva, ganhando as ruas, como forma de pressionar o governo federal, o Poder Legislativo, no caso dos dois quintos de votos para a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o e o Poder Judici&aacute;rio, no caso da necessidade de decis&atilde;o judicial em prol da cassa&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>Trata-se de movimento t&aacute;tico que visa esclarecer &agrave; sociedade o que representa a Rede Globo em termos n&atilde;o s&oacute; pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicos, mas tamb&eacute;m econ&ocirc;mico-financeiros e como o governo federal se omite diante desta situa&ccedil;&atilde;o e at&eacute; mesmo compartilha dela, para beneficiar-se do monop&oacute;lio de fato. <\/p>\n<p><\/span><span>Neste sentido, o primeiro passo para a cassa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o de funcionamento para a Rede Globo seria exigir que ela se enquadrasse nas supostas regras do pr&oacute;prio capitalismo e passasse a ter a conduta que deveria ser a de qualquer empresa privada. Paralelamente, caberia chamar a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que uma concess&atilde;o do Estado implica compromissos n&atilde;o s&oacute; financeiros do concession&aacute;rio, mas &eacute;ticos e pol&iacute;ticos. No caso da Globo, as &quot;irregularidades&quot; que poderiam lev&aacute;-la &agrave; cassa&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o tamb&eacute;m poderiam estar relacionadas a esses outros aspectos.<\/p>\n<p><\/span><span>Enfim, a Rede Globo precisa ser enquadrada legalmente. As &quot;irregularidades&quot; devem ser constatadas por minuciosas investiga&ccedil;&otilde;es. A campanha p&uacute;blica pela cassa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o da licen&ccedil;a deveria ent&atilde;o come&ccedil;ar pela cobran&ccedil;a de que &oacute;rg&atilde;os do Estado atuassem no levantamento das prov&aacute;veis &quot;irregularidades&quot;. Caberia &agrave; Pol&iacute;cia Federal (que tal uma opera&ccedil;&atilde;o V&ecirc;nus Platinada?) e ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico devassarem os neg&oacute;cios da Rede Globo. Mas para isto &eacute; imprescind&iacute;vel que institui&ccedil;&otilde;es da sociedade civil fa&ccedil;am den&uacute;ncias que, uma vez divulgadas e investigadas, permitam acionar a legisla&ccedil;&atilde;o vigente fazendo com que a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o (via Congresso Nacional) ou a cassa&ccedil;&atilde;o (via STF) possa se viabilizar. <\/p>\n<p><\/span><span>Ainda no plano dos instrumentos legais, o que poderia abreviar a rescis&atilde;o da concess&atilde;o seria a revoga&ccedil;&atilde;o do atual dispositivo constitucional pelo qual o concession&aacute;rio de canais de radiodifus&atilde;o, diferentemente dos concession&aacute;rios de outros servi&ccedil;os p&uacute;blicos, n&atilde;o pode ter seu contrato automaticamente rescindido pela simples verifica&ccedil;&atilde;o de irregularidade jur&iacute;dica e fiscal. Mas, para que isto venha a ocorrer, &eacute; necess&aacute;rio que o Congresso Nacional modifique o texto constitucional vigente, o que tamb&eacute;m envolve uma mobiliza&ccedil;&atilde;o dos parlamentares, que n&atilde;o pode ser obtida sem uma grande campanha, capaz de exercer press&atilde;o direta sobre o Congresso. <\/p>\n<p><\/span><span>Creio que a press&atilde;o direta da opini&atilde;o p&uacute;blica organizada poderia vir de uma campanha pela n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o, com ampla divulga&ccedil;&atilde;o dos il&iacute;citos a serem apurados e divulgados. Nessa poss&iacute;vel campanha contra o papel monopol&iacute;stico e para-estatal da Rede Globo, atestado pelos favorecimentos do Estado &agrave; concession&aacute;ria, seria fundamental a participa&ccedil;&atilde;o dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o alternativa, que defendem a democratiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. R&aacute;dios, jornais, sites, blogs comunit&aacute;rios e alternativos deveriam ocupar a vanguarda da campanha de moraliza&ccedil;&atilde;o e democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. <\/p>\n<p><\/span><span>Considerando que a m&iacute;dia grande, como um todo, tenderia a boicotar a referida campanha, a participa&ccedil;&atilde;o efetiva (e n&atilde;o apenas ret&oacute;rica, como ocorre hoje) da m&iacute;dia alternativa no processo, ajudando a dar nome aos bois e exigindo do Estado um posicionamento &agrave; altura do poder concedente, desencadearia fatalmente um processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o social, por si s&oacute;, amplamente democr&aacute;tico. <\/p>\n<p><\/span><span>Enfim, n&atilde;o custa relembrar a Chicago dos anos 30, quando Al Capone posava infal&iacute;vel em suas a&ccedil;&otilde;es. Nada parecia poder det&ecirc;-lo. A solu&ccedil;&atilde;o veio atrav&eacute;s de uma medida legalista que a principio n&atilde;o seria capaz de atingi-lo. Como todos sabem, Al Capone foi pego por irregularidades junto ao fisco. Guardadas as devidas propor&ccedil;&otilde;es, talvez estejamos mais pr&oacute;ximos do que parece da obten&ccedil;&atilde;o de uma vit&oacute;ria sem precedentes no esfor&ccedil;o pela real democratiza&ccedil;&atilde;o dos ve&iacute;culos de m&iacute;dia no pa&iacute;s. &Eacute; uma quest&atilde;o de se encontrar a melhor t&aacute;tica para o enfrentamento.<\/p>\n<p><\/span><span><em>*&nbsp;Canrobert Costa Neto, Bacharel em Sociologia Pol&iacute;tica pela Universidade de Bras&iacute;lia, Mestrado em Hist&oacute;ria do Brasil pela UnB, Doutorado em Hist&oacute;ria da Am&eacute;rica Latina pela Universidade Federal Fluminense, P&oacute;s-doutorado em Sociologia Rural pela Universidad de C&oacute;rdoba, Espanha. Membro do conselho editorial da revista Margem Esquerda. Co-autor do artigo &quot;Das ocupa&ccedil;&otilde;es de terra &agrave; reforma agr&aacute;ria no Brasil&quot;, revista Margem Esquerda, n&uacute;mero 2, Editora Boitempo, S&atilde;o Paulo. Professor, Pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de Docentes da UFRRJ (ADUR).<\/em><\/span><\/p>\n<p><span><em><br \/><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/font><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vamos voltar ao tema da concess&atilde;o de funcionamento de emissoras de televis&atilde;o pelo governo federal brasileiro. 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