{"id":18845,"date":"2007-07-30T13:07:57","date_gmt":"2007-07-30T13:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18845"},"modified":"2007-07-30T13:07:57","modified_gmt":"2007-07-30T13:07:57","slug":"voyeurismo-e-espetaculo-comprometem-o-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18845","title":{"rendered":"Voyeurismo e espet\u00e1culo comprometem o jornalismo"},"content":{"rendered":"<p>Flagrado em seu gabinete pela c&acirc;mera da Rede Globo, em gestos grosseiros enquanto assistia not&iacute;cias sobre as investiga&ccedil;&otilde;es do acidente com o AirBus da TAM, o assessor especial da presid&ecirc;ncia para assuntos internacionais, Marco Aur&eacute;lio Garcia, al&eacute;m de alvo da grande m&iacute;dia, na &uacute;ltima semana, foi assunto tamb&eacute;m nos ve&iacute;culos especializados em comunica&ccedil;&atilde;o. O fato mereceu considera&ccedil;&otilde;es de toda ordem e justifica, da parte dos profissionais da &aacute;rea &ndash; especialmente os jornalistas, uma reflex&atilde;o sobre a pr&aacute;tica profissional. <\/p>\n<p>Os gestos grosseiros de Marco Aur&eacute;lio Garcia &ndash; flagrado pela reportagem da Rede Globo em seu gabinete, junto com um assessor de imprensa, enquanto assistia (supostamente) no telejornal da emissora uma reportagem que poderia desonerar em parte a responsabilidade do governo no desastre com a aeronave da TAM (motivo de sua &ldquo;comemora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, segundo a mat&eacute;ria) &ndash; foram fartamente criticados durante a &uacute;ltima semana. <\/p>\n<p>Houve manifesta&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis e contr&aacute;rias ao assessor, ao governo e &agrave; TAM. Na pr&aacute;tica do jornalismo, entretanto, onde se situa o fato? A mat&eacute;ria contribui para o entendimento das causas do acidente? Deixa a popula&ccedil;&atilde;o mais bem informada sobre a quest&atilde;o da crise a&eacute;rea? Reproduz o ponto de vista do governo sobre essa quest&atilde;o? A reportagem do e-F&oacute;rum entrevistou especialistas em &eacute;tica e pol&iacute;tica na comunica&ccedil;&atilde;o sobre o assunto. <\/p>\n<p>A quest&atilde;o &eacute; paradoxal, segundo a an&aacute;lise de Maria Helena Weber, autora do livro Comunica&ccedil;&atilde;o e Espet&aacute;culos da Pol&iacute;tica (Ed. UFRGS), professora do curso de Comunica&ccedil;&atilde;o na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. &ldquo;De qualquer &acirc;ngulo que olharmos, haver&aacute; uma justificativa. At&eacute; para o uso do voyeurismo. Se a imprensa antes fazia a vigil&acirc;ncia da democracia, parece que agora ela est&aacute; &lsquo;espiando&rsquo; o governo por qualquer janela&rdquo;, observa. <\/p>\n<p>A professora destaca a grande incid&ecirc;ncia do mercado e do espet&aacute;culo no jornalismo. &ldquo;Vender a not&iacute;cia a qualquer pre&ccedil;o. E este caso foi um excelente produto de venda (como olhar pelo buraco da fechadura). A espetacularidade fornece ind&iacute;cio para que todos os jornalistas, todo mundo, interpretem como quiser&rdquo;, analisa. <\/p>\n<p><strong>Vazio repleto de significados<\/p>\n<p><\/strong>A Globo nos diz que o assessor da presid&ecirc;ncia assistia o Jornal Nacional. &ldquo;Mas ao olhar a imagem, voc&ecirc; n&atilde;o v&ecirc; isso&rdquo;, lembra Maria Helena, destacando que a din&acirc;mica do espetacular se utiliza de uma coisa que &eacute; vazia, mas que promove. &ldquo;H&aacute; uma den&uacute;ncia semi&oacute;tica, uma s&eacute;rie de signos e uma resposta, digamos, do autor desses signos, mas n&atilde;o tem o fato completo: o que eles estavam conversando, o que assistiam, qual era o texto?&rdquo;, questiona a professora. Ela observa que quando Marco Aur&eacute;lio Garcia, sujeito da encena&ccedil;&atilde;o, d&aacute; sua explica&ccedil;&atilde;o sobre o fato, neste momento ele est&aacute; ratificando que realmente assistia o Jornal Nacional, enquanto ele poderia ter plantado uma d&uacute;vida. &ldquo;&Eacute; uma cena vazia que tem dois gestos. &Eacute; t&atilde;o aut&ocirc;noma, que quem lhe deu sentido foi o pr&oacute;prio Marco Aur&eacute;lio, que caiu na armadilha&rdquo;, justifica Maria Helena. <\/p>\n<p>O professor Francisco Karam, autor do livro Jornalismo, &Eacute;tica e Liberdade (Ed. Summus), professor do departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, observa que o caso do Marco Aur&eacute;lio Garcia ilustra uma tend&ecirc;ncia pol&iacute;tica que incide sobre o jornalismo, de maximiza&ccedil;&atilde;o dos fatos. &ldquo;Uma esp&eacute;cie de campanha sistem&aacute;tica, que ocorre n&atilde;o s&oacute; no Brasil, mas tamb&eacute;m aqui na Argentina (Karam est&aacute; residindo na Argentina, onde realiza seu p&oacute;s-doutorado). &Eacute; o que chamam de campanha suja, como tamb&eacute;m chamam na It&aacute;lia, que &eacute; usar todos os fatos negativos e maximizar. &Eacute; uma campanha de desprest&iacute;gio do governo&rdquo;, relata o professor.<\/p>\n<p>O gesto do assessor presidencial, na interpreta&ccedil;&atilde;o de Maria Helena Weber, n&atilde;o representa uma posi&ccedil;&atilde;o do governo brasileiro. A constru&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria pela emissora tampouco contribui com a investiga&ccedil;&atilde;o sobre as causas do acidente. Tamb&eacute;m n&atilde;o deixa a popula&ccedil;&atilde;o mais informada sobre o comprometimento do governo no caso. &ldquo;N&atilde;o contribui com nada&rdquo;, diz Maria Helena, lembrando que o poder da m&iacute;dia est&aacute; exatamente na capacidade de sincretizar: hora joga a seu favor, hora joga a favor do governo, hora pode jogar a favor da popula&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Ent&atilde;o fica dif&iacute;cil, exatamente por estas leituras, conseguirmos classificar a quem serve. Esta n&atilde;o serviu ao governo, com certeza&rdquo;. Para Francisco Karam, n&atilde;o &eacute; leg&iacute;timo usar um aspecto comportamental de algu&eacute;m que est&aacute; em um cargo p&uacute;blico e transformar isso no emblema de todo um governo. &ldquo;Est&aacute; havendo uma mistura geral&rdquo;, avalia.<\/p>\n<p>Karam destaca a delicada a posi&ccedil;&atilde;o das pessoas que ocupam cargos p&uacute;blicos, que precisam ter cuidado redobrado com suas atitudes. &ldquo;&Eacute; um problema muito s&eacute;rio, em algum momento acaba sendo explorado&rdquo;, analisa. <\/p>\n<p><strong>Not&iacute;cia ou espet&aacute;culo?<\/p>\n<p><\/strong>Mas aquela cena era ou n&atilde;o uma not&iacute;cia? Maria Helena garante: &ldquo;Claro que era uma not&iacute;cia!&quot; Mas, ao &ldquo;cavar&rdquo; a mat&eacute;ria, a partir de uma c&acirc;mera distante, apontada para um ambiente reservado, a reportagem prestava servi&ccedil;o relevante? Maria Helena lembra que a mesma Globo, algumas semanas antes, denunciava a quest&atilde;o das notas frias no caso do Renan Calheiros. &quot;Ela fez uma den&uacute;ncia, deu visibilidade e conseguiu reverter, de alguma maneira, o que estava mal. Esse &eacute; um dos poderes da m&iacute;dia&rdquo;, aponta a professora, destacando, por&eacute;m, que &agrave;s vezes ela &eacute; construtiva, outras vezes &eacute; destrutiva, dependendo da rela&ccedil;&atilde;o que estabelece com os governos. &quot;N&atilde;o &eacute; verdade que o governo est&aacute; se lixando para o povo brasileiro. Mas este foi o tom da imprensa no caso do Marco Aur&eacute;lio&rdquo;, afirma. <\/p>\n<p>Um recorte como o que foi feito nesta reportagem pode ser utilizado para quase tudo. A gestualidade serve para tudo. Do ponto de vista da informa&ccedil;&atilde;o, da contribui&ccedil;&atilde;o social, por&eacute;m, o fato em quest&atilde;o n&atilde;o serve para nada, na opini&atilde;o de Maria Helena. Para Karam, talvez a Globo esteja muito preocupada com a perda da audi&ecirc;ncia. &ldquo;Acho que pode ser uma v&aacute;lvula de escape para a sobreviv&ecirc;ncia, por causa competitividade com outras redes. Mas ela (Globo) n&atilde;o vai poder manter essa hegemonia at&eacute; o fim dos tempos, porque est&atilde;o surgindo coisas novas e ela n&atilde;o pode dar conta disso&rdquo;, projeta o professor. <\/p>\n<p>Karam acredita, entretanto, que o jornalismo como a atividade que trabalha o mundo social, que permite que os acontecimentos do dia-a-dia tenham suas vers&otilde;es entendidas e acessadas pelo conjunto da cidadania, &eacute; o que ainda prevalece e dever&aacute; prevalecer. &ldquo;O jornalismo com compromisso, com a legitimidade social dada pelo S&eacute;culo XX, baseada na credibilidade, na veracidade vai continuar existindo&rdquo;, atesta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;publica&ccedil;&atilde;o autorizada, desde que citada a fonte original (FNDC).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Flagrado em seu gabinete pela c&acirc;mera da Rede Globo, em gestos grosseiros enquanto assistia not&iacute;cias sobre as investiga&ccedil;&otilde;es do acidente com o AirBus da TAM, o assessor especial da presid&ecirc;ncia para assuntos internacionais, Marco Aur&eacute;lio Garcia, al&eacute;m de alvo da grande m&iacute;dia, na &uacute;ltima semana, foi assunto tamb&eacute;m nos ve&iacute;culos especializados em comunica&ccedil;&atilde;o. 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