{"id":18777,"date":"2007-07-18T20:16:10","date_gmt":"2007-07-18T20:16:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18777"},"modified":"2007-07-18T20:16:10","modified_gmt":"2007-07-18T20:16:10","slug":"comunitarias-o-dia-em-que-os-piratas-ganharam-premio-de-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18777","title":{"rendered":"Comunit\u00e1rias: o dia em que os piratas ganharam pr\u00eamio de cidadania"},"content":{"rendered":"<p><span>Santa Luz, distante 260 quil&ocirc;metros de Salvador, na Bahia, n&atilde;o existe. Como n&atilde;o existe aquela popula&ccedil;&atilde;o que acha que existe por l&aacute; &ndash; cerca de 34 mil habitantes. A n&atilde;o-exist&ecirc;ncia de Santa Luz foi determinada pela m&iacute;dia ao estabelecer para o Brasil que o Brasil se resume a Rio, S&atilde;o Paulo e Bras&iacute;lia. &Eacute; uma m&iacute;dia preconceituosa e narcisista: ela expurga o que n&atilde;o &eacute; espelho, seu espelho. Por isso, Santa Luz e mais outros 5.600 munic&iacute;pios brasileiros n&atilde;o existem.<\/p>\n<p><\/span><span>Mas &eacute; de l&aacute;, de Santa Luz, regi&atilde;o sisaleira baiana, que vem o recado. O representante de uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria, junto com outros nobres jornalistas deste pa&iacute;s, recebeu nesta quinta-feira, dia 13 de julho, o pr&ecirc;mio &quot;Amigo da Inf&acirc;ncia&quot;, promovido pela Ag&ecirc;ncia Nacional de Direitos da Inf&acirc;ncia (ANDI), com o patroc&iacute;nio da Petrobr&aacute;s e apoio da Unicef.<\/p>\n<p><\/span><span>Seu nome &eacute; Edisv&acirc;nio Nascimento, mas o tratam, como se viu, como inexistente, irreal, ou, como pirata, bandido, marginal. Isto porque Edisv&acirc;nio atua numa r&aacute;dio comunit&aacute;ria n&atilde;o autorizada naquele munic&iacute;pio. Atua, n&atilde;o; atuava. Porque, como se trata de uma r&aacute;dio &quot;pirata&quot;, o Estado brasileiro achou por bem que ela n&atilde;o deveria estar no ar. E a r&aacute;dio comunit&aacute;ria de Santa Luz, premiada pela ANDI pelo trabalho em defesa da inf&acirc;ncia, foi fechada.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Comunica&ccedil;&atilde;o popular<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Azar de Santa Luz porque a r&aacute;dio mesmo reconhecida pela comunidade, pelos que querem um pa&iacute;s mais justo, pela ANDI, pelos defensores da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, pela maioria do povo brasileiro, n&atilde;o &eacute; reconhecida pelo governo. Este governo, que se viciou no jogo pol&iacute;tico para se manter no poder visando &agrave; eternidade, tem aqui mais uma prova (existem milhares) de que r&aacute;dio comunit&aacute;ria sem a concess&atilde;o oficial &eacute; muitas vezes comunit&aacute;ria.<\/p>\n<p><\/span><span>O pr&ecirc;mio da ANDI &eacute; uma li&ccedil;&atilde;o para o governo de que precisa mudar urgentemente a sua pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&atilde;o. Ou melhor, criar uma pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&atilde;o para o povo brasileiro. Hoje, o governo apenas obedece &agrave; linha pol&iacute;tica estabelecida pelos empres&aacute;rios do setor. Quando o governo Lula vai entender que s&oacute; vai mudar alguma coisa neste pa&iacute;s quando deixar de fazer pol&iacute;tica para se manter no poder? Quando ir&aacute; reconhecer um direito fundamental do ser humano, o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m de Edisv&acirc;nio, um outro militante do movimento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias foi agraciado com o pr&ecirc;mio da ANDI: S&eacute;rgio Gomes, fundador e diretor da Obor&eacute;, uma entidade aplicada em formular e implementar projetos na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o popular. S&eacute;rgio Gomes, ex-professor da ECA-USP, integra a Associa&ccedil;&atilde;o Mundial das R&aacute;dios Comunit&aacute;rias e &eacute; um dos &iacute;cones do movimento.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Crit&eacute;rios de premia&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>A premia&ccedil;&atilde;o de Edisv&acirc;nio e de S&eacute;rgio &eacute; mais uma prova (mais uma, Lula!) de que o atual processo de concess&atilde;o de emissoras de r&aacute;dio e TV no pa&iacute;s n&atilde;o presta. &Eacute; sintom&aacute;tico que a r&aacute;dio comunit&aacute;ria Santa Luz &ndash; considerada pirata pelo Estado &ndash; pleiteia um canal h&aacute; nove anos! Isto &eacute;, eis um pirata que h&aacute; nove anos tenta deixar a legalidade. O Estado, que &eacute; t&atilde;o competente e r&aacute;pido para fiscalizar e reprimir as r&aacute;dios n&atilde;o autorizadas, demora quase uma d&eacute;cada &quot;analisando um processo&quot;. A r&aacute;dio de Santa Luz foi fechada e o canal n&atilde;o saiu. N&atilde;o saiu por qu&ecirc;? Ora, porque esta &eacute; uma boa comunit&aacute;ria e n&atilde;o tem pol&iacute;tico ou igrejas empurrando.<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o se trata aqui de um xingamento ao Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, mas de uma den&uacute;ncia com provas. E a prova maior de que as autoriza&ccedil;&otilde;es de r&aacute;dios comunit&aacute;rias est&atilde;o submetidas a interesses pol&iacute;ticos e religiosos est&aacute; no rigoroso estudo assinado pelo professor Ven&iacute;cio Lima e pelo consultor legislativo Cristiano Lopes, veiculado neste Observat&oacute;rio. Nele se mostra como as autoriza&ccedil;&otilde;es at&eacute; hoje concedidas &agrave;s r&aacute;dios comunit&aacute;rias n&atilde;o obedecem &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o, mas sim, a um coronelismo pol&iacute;tico e religioso que d&aacute; as ordens no MC, no governo, no Estado. O estudo foi apresentado h&aacute; cerca de dois meses e at&eacute; agora nada aconteceu. Se este governo fosse s&eacute;rio e tivesse o m&iacute;nimo de compromisso com a legalidade e a na&ccedil;&atilde;o, o ministro teria ca&iacute;do.<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; importante registrar o que leva a ANDI a premiar os 20 jornalistas Amigos da Inf&acirc;ncia: a escolha dos jornalistas que o recebem n&atilde;o se baseia em uma reportagem ou conjunto de reportagens espec&iacute;fico, mas na produ&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de mat&eacute;rias que contribuem para a discuss&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas dirigidas &agrave; popula&ccedil;&atilde;o infanto-juvenil. S&atilde;o reconhecidos tanto os rep&oacute;rteres quanto os editores e chefes de reda&ccedil;&atilde;o, que estimulam suas equipes e orientam a linha editorial de seus ve&iacute;culos para dar maior visibilidade aos temas da inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia. Da mesma forma, s&atilde;o valorizados profissionais que atuam em ONGs e no meio acad&ecirc;mico e que por meio de seu trabalho contribuem com essa causa.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Ensinando cidadania<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Outros crit&eacute;rios decisivos na escolha s&atilde;o:<\/p>\n<p><\/span><span>&#8211; &Eacute;tica no exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o;<br \/><\/span><span>&#8211; Atua&ccedil;&atilde;o com grande responsabilidade social enquanto formador de opini&atilde;o;<br \/><\/span><span>&#8211; Contribui&ccedil;&atilde;o para a constru&ccedil;&atilde;o de novos valores, buscando uma mudan&ccedil;a de comportamento em seus p&uacute;blicos-alvos no que diz respeito aos direitos infanto-juvenis;<br \/><\/span><span>&#8211; Est&iacute;mulo ao protagonismo juvenil atrav&eacute;s de seu trabalho.<\/p>\n<p><\/span><span>A li&ccedil;&atilde;o da r&aacute;dio comunit&aacute;ria de Santa Luz &eacute; dirigida ao governo, &agrave; Anatel, &agrave; Pol&iacute;cia Federal, ao Estado brasileiro &ndash; que aceita, e algumas vezes reproduz, a vers&atilde;o alucinada, criada por alguns setores anti-democr&aacute;ticos, de que r&aacute;dio comunit&aacute;ria derruba avi&atilde;o. Quem conhece as r&aacute;dios comunit&aacute;rias do Brasil, no entanto, sabe que o caso de Santa Luz n&atilde;o &eacute; &uacute;nico. H&aacute; v&aacute;rias r&aacute;dios comunit&aacute;rias, em todo pa&iacute;s, fazendo trabalho similar. A grande maioria, por&eacute;m, &eacute; penalizada, satanizada, amaldi&ccedil;oada, sob a acusa&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o ter cumprido a burocracia. Centenas de militantes j&aacute; foram indiciados pela PF\/Anatel, presos e at&eacute; punidos, por fazerem o que faz Edisv&acirc;nio. Muitas vezes, paradoxalmente, a Justi&ccedil;a determina ao condenado que a puni&ccedil;&atilde;o seja efetuar servi&ccedil;os para a comunidade. Ora, &eacute; exatamente isto que elas &ndash; as boas r&aacute;dios comunit&aacute;rias &ndash; fazem.<\/p>\n<p><\/span><span>O movimento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias n&atilde;o defende r&aacute;dios de empres&aacute;rios, pol&iacute;ticos ou religi&otilde;es. O que se defende &eacute; a boa r&aacute;dio comunit&aacute;ria. E elas s&atilde;o muitas. Em todo o pa&iacute;s. Algumas t&ecirc;m a autoriza&ccedil;&atilde;o de funcionamento, outras n&atilde;o. Mas est&atilde;o ensinando o que &eacute; cidadania e, principalmente, o que &eacute; um jornalismo voltado aos interesses do coletivo.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Vampiros modernistas<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>O lastim&aacute;vel &eacute; que o Estado brasileiro, como prova o estudo do professor Ven&iacute;cio Lima, cometeu e est&aacute; cometendo um tipo de erro que n&atilde;o tem solu&ccedil;&atilde;o &agrave; vista: outorga concess&otilde;es contra a lei, ciente de que estas concess&otilde;es n&atilde;o podem ser revisadas. A legisla&ccedil;&atilde;o brasileira foi arrumada de tal modo que praticamente impede a cassa&ccedil;&atilde;o da outorga concedida, mesmo quando se comprova que a emissora n&atilde;o est&aacute; dentro da lei ou comete abusos na programa&ccedil;&atilde;o. Se uma emissora brasileira fizer como a RCTV da Venezuela, por exemplo, que conspirou e promoveu um golpe de Estado, o governo vai ter dificuldades em cassar sua concess&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Por conta deste Estado dominado pelos pol&iacute;ticos e religi&otilde;es, as falsas r&aacute;dios comunit&aacute;rias brotam aos montes, por todo o Brasil. A lei 9.612\/09 pro&iacute;be a outorga a igrejas, mas&#8230; No Distrito Federal foi dada autoriza&ccedil;&atilde;o para a &quot;r&aacute;dio comunit&aacute;ria&quot; da Igreja Casa da B&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, ligada a um deputado distrital, J&uacute;nior Brunelli; no Rio de Janeiro, a (rica) Igreja de Nossa Senhora de Copacabana recebeu do MC autoriza&ccedil;&atilde;o para instalar uma &quot;r&aacute;dio comunit&aacute;ria&quot;; em S&atilde;o Gon&ccedil;alo (RJ) ocorre a mesma coisa. Como institui&ccedil;&otilde;es religiosas, ferindo a lei, conseguiram autoriza&ccedil;&atilde;o? Ao que parece, esta rela&ccedil;&atilde;o prom&iacute;scua entre o Estado e as igrejas &eacute; caso para uma a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Poderia se pensar em CPI, mas qual deputado &ndash; de esquerda ou de direita &ndash; iria enfrentar a Igreja Cat&oacute;lica e o seu poder? A nossa ousada esquerda n&atilde;o teria peito para isso. Hoje ela opta por considerar a Igreja uma aliada, mesmo sabendo que a Igreja est&aacute; saqueando um espa&ccedil;o que pertence ao povo, tornando-se a maior latifundi&aacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s.<\/p>\n<p><\/span><span>Ao premiar Edisv&acirc;nio e S&eacute;rgio Gomes, a ANDI revela este Brasil intencionalmente oculto pela m&iacute;dia comercial brasileira. Revela o Brasil verdadeiro, de gente que luta contra o Estado, as grandes redes comerciais de comunica&ccedil;&atilde;o, o governo Lula, a falta de recursos&#8230; Enfim, luta contra todos os inimigos da democracia. Quando um cabra como Edisv&acirc;nio ganha um pr&ecirc;mio como este, ele est&aacute; dizendo &agrave; hist&oacute;ria que n&atilde;o somente Santa Luz existe, como existe um Brasil vasto, real, belo e corajoso. Um Brasil que n&atilde;o se avista das janelas dos pal&aacute;cios de Bras&iacute;lia, onde as conversas mais inteligentes e profundas, apreciadas por condes e viscondes, discorrem sobre a eternidade humana, e de como continuar o jogo da pol&iacute;tica para que, quando vier o eterno, eles continuem ali, quais vampiros modernistas, nessa declamat&oacute;ria bizarra, bizantina, interrompida apenas pelo zumbido das milhares de moscas azuis, amarelas e cinzas que habitam com eles este palco de efemeridades.<\/p>\n<p><\/span><span><em>* Diocl&eacute;cio Luz &eacute; jornalista, diretor do Sindicato dos Jornalistas do DF, autor do livro &quot;A arte de pensar e fazer r&aacute;dios comunit&aacute;rias&quot;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Luz, distante 260 quil&ocirc;metros de Salvador, na Bahia, n&atilde;o existe. 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