{"id":18763,"date":"2007-07-17T17:28:47","date_gmt":"2007-07-17T17:28:47","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18763"},"modified":"2007-07-17T17:28:47","modified_gmt":"2007-07-17T17:28:47","slug":"censura-nao-protecao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18763","title":{"rendered":"Censura, n\u00e3o. Prote\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p><em>Tem sede na Su&eacute;cia o principal observat&oacute;rio das rela&ccedil;&otilde;es entre m&iacute;dia e inf&acirc;ncia do mundo. A International Clearinghouse on Children, Youth and Media, criada em 1997 pela Unesco, monitora o cumprimento da Conven&ccedil;&atilde;o dos Direitos da Crian&ccedil;a e do Adolescente no que diz respeito aos programas de tev&ecirc; e, cada vez mais, tamb&eacute;m &agrave; internet e aos jogos eletr&ocirc;nicos.&nbsp;<\/p>\n<p>No pa&iacute;s-sede da institui&ccedil;&atilde;o, as tev&ecirc;s n&atilde;o podem exibir comerciais que tenham como p&uacute;blico-alvo crian&ccedil;as com menos de 12 anos. As faixas hor&aacute;rias tamb&eacute;m s&atilde;o seguidas com rigor. Cecilia von Feilitzen, coordenadora cient&iacute;fica da Clearinghouse e uma das principais estudiosas do tema no mundo, conversou com CartaCapital e, ao tomar p&eacute; da situa&ccedil;&atilde;o do Brasil, levou dois sustos. Um, ao saber que a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa foi tratada como tentativa de censura. Outro, quando descobriu que os brasileiros assistem, em m&eacute;dia, cinco horas de tev&ecirc; por dia<\/em><\/p>\n<p><strong>No &uacute;ltimo anu&aacute;rio da Clearinghouse, &eacute; citada uma pesquisa que mostra a rela&ccedil;&atilde;o entre os programas infantis e o aumento da obesidade e at&eacute; diabetes do tipo 2 na inf&acirc;ncia. A m&iacute;dia tornou-se um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica infantil?<br \/><\/strong>Cecilia von Feilitzen &#8211;&nbsp;Sem d&uacute;vida. A televis&atilde;o tem tamb&eacute;m aspectos positivos, mas, em muitos pa&iacute;ses, pode ser considerada uma quest&atilde;o de sa&uacute;de p&uacute;blica, pois determina certos padr&otilde;es de comportamento das crian&ccedil;as e adolescentes. E n&atilde;o estamos falando apenas dos programas infantis. A partir dos 7 ou 8 anos, &eacute; comum que as crian&ccedil;as queiram ver o que os pais v&ecirc;em, de reality shows a programas violentos e, pela televis&atilde;o, comecem a conhecer o mundo. O problema &eacute; que eles s&atilde;o menos cr&iacute;ticos e mais impression&aacute;veis que os adultos.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A influ&ecirc;ncia da tev&ecirc; vem crescendo?<br \/><\/strong>Ela existe e &eacute; discutida desde o in&iacute;cio da tev&ecirc; e, antes disso, dizia respeito aos filmes. Durante todo o s&eacute;culo XX, discutiu-se a influ&ecirc;ncia negativa exercida, sobretudo, pela fic&ccedil;&atilde;o que abusa da viol&ecirc;ncia. Mas &eacute; fato que a situa&ccedil;&atilde;o piorou a partir do advento da tev&ecirc; por sat&eacute;lite, em meados dos anos 80. At&eacute; ent&atilde;o, as tev&ecirc;s exibiam apenas os programas nacionais, que podiam ser, at&eacute; certo ponto, regulados. Com o sat&eacute;lite, a audi&ecirc;ncia da tev&ecirc; dobrou no mundo e os canais se propagaram. E hoje, conforme avan&ccedil;a a tecnologia, a preocupa&ccedil;&atilde;o com os efeitos nocivos da tev&ecirc; s&oacute; aumenta. Na Su&eacute;cia, por exemplo, temos uma s&eacute;rie de restri&ccedil;&otilde;es para proteger crian&ccedil;as e adolescentes, mas n&atilde;o temos poder sobre os programas produzidos em outros pa&iacute;ses e transmitidos via sat&eacute;lite.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os tipos de restri&ccedil;&atilde;o variam muito na Europa?<br \/><\/strong>N&atilde;o h&aacute; regras &uacute;nicas para a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia. Em muitos pa&iacute;ses, boa parte da programa&ccedil;&atilde;o infantil &eacute; composta de desenhos importados e, sendo assim, os governos locais n&atilde;o conseguem control&aacute;-la. Mas nos pa&iacute;ses do norte da Europa, como a Su&eacute;cia, os programas infantis s&atilde;o, sobretudo, feitos pelos canais p&uacute;blicos e as regras s&atilde;o claras.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&Eacute; verdade que &eacute; proibido anunciar produtos infantis durante a programa&ccedil;&atilde;o voltada &agrave;s crian&ccedil;as?<br \/><\/strong>Na Su&eacute;cia, desde o fim dos anos 90, n&atilde;o s&atilde;o permitidos comerciais voltados &agrave;s crian&ccedil;as, em nenhum momento da programa&ccedil;&atilde;o. Em outros pa&iacute;ses, a discuss&atilde;o estende-se, inclusive, para a propaganda de alimentos. A Gr&atilde;-Bretanha e a Noruega proibiram, em certos hor&aacute;rios, os comerciais de junk food.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A seu ver, que medidas restritivas s&atilde;o razo&aacute;veis e n&atilde;o configuram coer&ccedil;&atilde;o da liberdade da express&atilde;o?<br \/><\/strong>Todos os pa&iacute;ses europeus, neste momento, t&ecirc;m regras que estipulam hor&aacute;rios para a exibi&ccedil;&atilde;o de programas. Na Su&eacute;cia, programas considerados inadequados para crian&ccedil;as n&atilde;o podem ir ao ar antes das 9 da noite. Em outros lugares, o hor&aacute;rio-limite pode ser um pouco mais tardio, mas h&aacute; uma esp&eacute;cie de agenda comum que todos seguem e &eacute; fiscalizada, em geral, por conselhos mistos, formados por gente de diversos setores.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quais os limites entre a regula&ccedil;&atilde;o e a liberdade de express&atilde;o?<br \/><\/strong>A liberdade de express&atilde;o &eacute;, freq&uuml;entemente, a liberdade de express&atilde;o de umas poucas pessoas que t&ecirc;m acesso &agrave; m&iacute;dia, como os pr&oacute;prios jornalistas, pol&iacute;ticos, celebridades e uma certa elite. Mas as crian&ccedil;as tamb&eacute;m devem ter direito &agrave; liberdade de express&atilde;o e &agrave; prote&ccedil;&atilde;o contra o marketing de bebidas alco&oacute;licas e de ideais corporais inating&iacute;veis. Muita gente n&atilde;o tem direito de se expressar atrav&eacute;s da m&iacute;dia. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; justo defender os direitos de express&atilde;o apenas da m&iacute;dia comercial.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No Brasil, a discuss&atilde;o sobre classifica&ccedil;&atilde;o indicativa foi tratada, pelas tev&ecirc;s, como uma tentativa de censura. Isso acontece em outros pa&iacute;ses?<br \/><\/strong>Censura n&atilde;o tem nada a ver com estabelecimento de faixas hor&aacute;rias. Impor hor&aacute;rios e definir o que &eacute; aconselh&aacute;vel para crian&ccedil;as n&atilde;o t&ecirc;m nada a ver com censura, &eacute; apenas um aviso. Surpreende-me ouvir que a classifica&ccedil;&atilde;o seja tratada como censura. Em quase todos os pa&iacute;ses, s&atilde;o estabelecidos hor&aacute;rios e est&atilde;o previstas possibilidades de san&ccedil;&atilde;o para quem n&atilde;o os cumpre. Na Europa, na Austr&aacute;lia e outros lugares discute-se, inclusive, a insufici&ecirc;ncia da auto-regula&ccedil;&atilde;o. Deve haver grupos independentes que monitorem a programa&ccedil;&atilde;o. Nos Pa&iacute;ses Baixos, h&aacute; agora uma organiza&ccedil;&atilde;o financiada pela pr&oacute;pria m&iacute;diaque estabelece a classifica&ccedil;&atilde;o para programas de tev&ecirc;, filmes, DVDs e jogos de&nbsp; computador. &Eacute; uma classifica&ccedil;&atilde;o cruzada. A m&iacute;dia, nesse caso, tomou consci&ecirc;ncia de que precisa fazer parte do processo de regula&ccedil;&atilde;o. Em toda a Europa e no Canad&aacute;, neste momento, h&aacute; tamb&eacute;m uma regula&ccedil;&atilde;o dos jogos de computador.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As crian&ccedil;as e adolescentes come&ccedil;am a passar mais tempo em frente a jogos de computador do que da tev&ecirc;?<br \/><\/strong>N&atilde;o, a tev&ecirc; ainda &eacute; a m&iacute;dia mais utilizada. O que parece &eacute; que a internet e os games n&atilde;o vieram substituir, mas somar-se &agrave; televis&atilde;o. De todo modo, ainda &eacute; uma minoria de crian&ccedil;as e adolescentes, no mundo, que tem acesso a jogos de computador.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas, cada vez mais, fala-se nos jogos superviolentos que, n&atilde;o raro, servem de inspira&ccedil;&atilde;o para a pr&aacute;tica de alguns crimes.<br \/><\/strong>Muitos jovens e adultos buscam nos games inspira&ccedil;&atilde;o para a pr&aacute;tica de crimes. Esse jovem tem problemas psicol&oacute;gicos, familiares e usa como exemplo os games e programas violentos. &Eacute; uma esp&eacute;cie de imita&ccedil;&atilde;o. Os jovens criminosos v&ecirc;em v&aacute;rias vezes o mesmo jogo ou filme para aprender a praticar um crime. Os efeitos psicol&oacute;gicos dos games t&ecirc;m sido estudados. Questiona-se se eles s&atilde;o mero entretenimento.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual o papel dos pais nesse caldeir&atilde;o de imagens dispon&iacute;veis? Aqui, as tev&ecirc;s alegam que devem ser os pais os &uacute;nicos respons&aacute;veis pelo que os filhos v&ecirc;em.<br \/><\/strong>O problema &eacute; que esses pais nem sempre est&atilde;o aptos a fazer isso. Muitos pais n&atilde;o tomam os cuidados devidos, outros n&atilde;o podem prestar aten&ccedil;&atilde;o, porque n&atilde;o est&atilde;o em casa. Os governos n&atilde;o podem abrir m&atilde;o dessa responsabilidade e dizer que est&aacute; tudo nas m&atilde;os dos pais.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quais seriam as particularidades da televis&atilde;o latino-americana em rela&ccedil;&atilde;o aos pa&iacute;ses europeus?<br \/><\/strong>Acho que voc&ecirc; conhece melhor as tev&ecirc;s da&iacute; do que eu. Mas todos sabemos que, na Am&eacute;rica Latina, a televis&atilde;o tem uma influ&ecirc;ncia maior sobre a popula&ccedil;&atilde;o do que na Europa. As pessoas, de modo geral, assistem muita televis&atilde;o e t&ecirc;m pouco acesso a outros meios de informa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; assim?&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No Brasil, as pessoas v&ecirc;em, em m&eacute;dia, cinco horas de tev&ecirc; por dia.<br \/><\/strong>&Eacute; verdade? &Eacute; admir&aacute;vel. Se isso for verdade, &eacute; mais do que nos Estados Unidos, onde a popula&ccedil;&atilde;o v&ecirc; muita televis&atilde;o. Na Su&eacute;cia, s&atilde;o em m&eacute;dia duas horas por dia. Cinco horas &eacute;, realmente, um fen&ocirc;meno.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&Eacute; a principal divers&atilde;o do povo brasileiro&#8230;<br \/><\/strong>E tem a ver com a pobreza, suponho, com a falta de outras op&ccedil;&otilde;es de lazer. Nessecaso, creio que &eacute; ainda mais importante prestar aten&ccedil;&atilde;o nos efeitos que a m&iacute;dia tem sobre a forma&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as e adolescentes. Estamos preocupados, em primeiro lugar, com a viol&ecirc;ncia, mas h&aacute; uma s&eacute;rie de outros pontos sobre os quais nos debru&ccedil;amos. H&aacute; a pornografia em filmes e imagens v&aacute;rias, o excesso de marketing, o est&iacute;mulo a preconceitos. Neste ambiente em que informa&ccedil;&atilde;o, entretenimento e propaganda se misturam e que o marketing de produtos infantis &eacute; milion&aacute;rio, governos e sociedade t&ecirc;m de prestar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia e aos efeitos que ela tem sobre a inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p><em>* Copyright Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a Unesco, a garantia dos direitos das crian\u00e7as e adolescentes depende do controle da tev\u00ea. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[334],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18763"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18763"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18763\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18763"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18763"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}