{"id":18759,"date":"2007-07-17T15:58:44","date_gmt":"2007-07-17T15:58:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18759"},"modified":"2007-07-17T15:58:44","modified_gmt":"2007-07-17T15:58:44","slug":"a-noite-do-delete-ou-quando-a-ancinav-reduziu-se-a-ancine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18759","title":{"rendered":"A &#8220;noite do delete&#8221;, ou quando a Ancinav reduziu-se a Ancine"},"content":{"rendered":"<div><em>Por&nbsp;Eduardo Carvalho, do 100canais.<\/em><\/div>\n<div>SALVADOR &#8211; Durante o III Semin&aacute;rio Internacional de Cinema e Audiovisual, ocorrido em Salvador, entre os dias 9 e 13 de julho, esta reportagem conversou como Secret&aacute;rio do Audiovisual do Minist&eacute;rio da Cultura, o cineasta baiano Orlando Senna, que falou sobre que fim levou a proposta da cria&ccedil;&atilde;o da Ancinav, ag&ecirc;ncia que regularia todo o setor de audiovisual no pa&iacute;s, sobre a cria&ccedil;&atilde;o de uma Rede de TVs p&uacute;blicas no Brasil, sobre a digitaliza&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o, sobre a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa e sobre a escolha do presidente Lula de fazer do setor de audiovisual um assunto estrat&eacute;gico em seu governo. Leia, a seguir, as melhores passagens da conversa: <\/div>\n<div id=\"impressao\">\n<p><strong>O que aconteceu com o projeto da Ancinav?<br \/><\/strong>Orlando Senna &#8211; Houve um bloqueio claro, p&uacute;blico, que todos viram e reconheceram. Uma esp&eacute;cie de muro de conten&ccedil;&atilde;o do setor de teledifus&atilde;o &agrave; proposta da Ancinav, pois era apenas uma proposta e n&atilde;o um projeto feito e acabado. Foi o que aconteceu, uma conten&ccedil;&atilde;o, uma recusa de debater o assunto e uma tentativa de impedir que ele fosse debatido. <\/p>\n<p><strong>Isso significa que estamos mexendo no centro nevr&aacute;lgico do poder?<br \/><\/strong>OS &#8211; Estamos mexendo no centro nevr&aacute;lgico do poder midi&aacute;tico, n&atilde;o s&oacute; do Brasil, mas do mundo. Lembre-se, por exemplo, que conhecemos no in&iacute;cio deste s&eacute;culo 21 um novo tipo de modelo de golpe de estado, o golpe midi&aacute;tico, nos moldes do que tentaram aplicar na Venezuela. Ilustro isso, para acertarmos na dimens&atilde;o de que poder estamos falando. De qualquer maneira, foi isso que impediu uma discuss&atilde;o p&uacute;blica mais profunda sobre a Ancinav, embora ela tenha acontecido, pois, al&eacute;m da rea&ccedil;&atilde;o de parte da m&iacute;dia e do pr&oacute;prio governo e da pr&oacute;pria atividade naquilo que ela teve que dizer ao confrontar-se com esta rejei&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia ao debate, houve uma consulta p&uacute;blica muito interessante, com mais de 4 mil mensagens. Ou seja, aconteceu o debate, ainda que n&atilde;o na profundidade que desej&aacute;vamos. <\/p>\n<p>De qualquer maneira, h&aacute; dois encaminhamentos muito interessantes. Lembremos que, antes, o gabinete estava fechado. Para n&atilde;o refazer a hist&oacute;ria toda, a &uacute;ltima tentativa imediatamente anterior ao governo Lula, foi a do Gedic, o Grupo Executivo de Desenvolvimento da Ind&uacute;stria do Cinema, que se reunia com alguns cineastas que passavam informa&ccedil;&otilde;es para a gente, por debaixo dos panos, pois o acordo com o governo era o de que nada sa&iacute;sse do gabinete antes de se votar a lei geral de regulamenta&ccedil;&atilde;o do setor, exatamente para se evitar movidas de &aacute;gua no setor. A lei n&atilde;o saiu: saiu a Ancine. Desde o Gedic, a proposta da atividade cinematogr&aacute;fica e de parte da audiovisual era para a cria&ccedil;&atilde;o de uma ag&ecirc;ncia mais abrangente e mais ampla, j&aacute; era para uma Ancinav, isso l&aacute; no governo FHC.<\/p>\n<p><strong>Foi quando nasceram tamb&eacute;m as press&otilde;es para tirar o audiovisual da regulamenta&ccedil;&atilde;o geral para o setor?<br \/><\/strong>OS &#8211; S&oacute; como anedota, n&oacute;s temos, na hist&oacute;ria do cinema brasileiro, o que costumamos chamar de a &ldquo;Noite do Delete&rdquo;. No &uacute;ltimo encontro de discuss&atilde;o do Ministro Pedro Parente com o Gedic e seu subgrupo de cineastas (Carlos Diegues, Luiz Carlos Barreto, Luiz Severiano Ribeiro Neto, Rodrigo Saturnino Braga, Evandro Guimar&atilde;es e Gustavo Dahl, coordenador), quando estava encaminhada a formula&ccedil;&atilde;o da proposta para a cria&ccedil;&atilde;o de uma Ag&ecirc;ncia do Audiovisual, desceu algu&eacute;m de um helic&oacute;ptero e teve uma conversa com o pr&oacute;prio Fernando Henrique. Come&ccedil;aram ent&atilde;o uma s&eacute;rie de contra-ordens ao pessoal que estava trabalhando na formula&ccedil;&atilde;o da ag&ecirc;ncia e o pr&oacute;prio ministro Pedro Parente come&ccedil;ou a &ldquo;deletar&rdquo; tudo o que se referia &agrave; televis&atilde;o. (A &iacute;ntegra do sum&aacute;rio executivo do pr&eacute;-projeto de planejamento estrat&eacute;gico que resultou destas reuni&otilde;es <a target=\"_blankhref=&quot;http:\/\/www.aptc.org.br\/biblioteca\/gedic02.htm&quot;\">pode ser lido aqui<\/a>). A &ldquo;noite do delete&rdquo; ilustra como a coisa era reservada!<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; falou em dois encaminhamentos&hellip;<br \/><\/strong>OS &ndash; Sim, abriu o debate e mostrou que o tema audiovisual &eacute; t&atilde;o importante, que pr&oacute;prio presidente Lula em sua primeira a&ccedil;&atilde;o referente a colocou-o como estrat&eacute;gico, como um tema de Estado. O novo governo, com a compreens&atilde;o da import&acirc;ncia estrat&eacute;gica econ&ocirc;mica, n&atilde;o apenas a art&iacute;stica, mas, sobretudo, a econ&ocirc;mica da atividade, trouxe-o aos prismas da opini&atilde;o p&uacute;blica (do p&uacute;blico, da m&iacute;dia, do Congresso), para ser debatido, conhecido e discutido pela opini&atilde;o p&uacute;blica global. E aconteceu, foi t&atilde;o forte o impacto da proposta na m&iacute;dia, por causa da televis&atilde;o, que a discuss&atilde;o ganhou as ruas. Chegavam not&iacute;cias de pessoas discutindo Ancinav nos &ocirc;nibus, nas filas, nos bares, gente do povo, sem liga&ccedil;&atilde;o direta com a atividade. <\/p>\n<p>O segundo passo que foi proporcionado pela pol&ecirc;mica Ancinav foi uma coisa pr&aacute;tica da decis&atilde;o de Lula em afirmar que dever&iacute;amos separar as coisas como devem ser separadas e garantir a Ancine, que esteve amea&ccedil;ada tamb&eacute;m, e prepar&aacute;-la para o que vem depois: para a inevitabilidade de termos uma ag&ecirc;ncia, um organismo, um mecanismo que regule toda a atividade E a Ancine est&aacute; sendo preparada para isso com gente muito mais ligada a este projeto do que antes. Tamb&eacute;m vamos fazer a lei geral de comunica&ccedil;&atilde;o, para a qual foi nomeada uma comiss&atilde;o interministerial que est&aacute; andando muito lentamente, porque est&aacute; sem est&iacute;mulo. <\/p>\n<p>Para finalizar esta quest&atilde;o, estamos diante de um cen&aacute;rio para o qual precisamos de normas adequadas, claras e modernas: trata-se do cen&aacute;rio da TV digital e da digitaliza&ccedil;&atilde;o de toda a atividade audiovisual (televis&atilde;o, cinema, m&uacute;sica etc.). Diante destas novas rela&ccedil;&otilde;es, temos que ter lei, sen&atilde;o agravaremos as distor&ccedil;&otilde;es de um setor que ainda &eacute; regido por uma lei de teledifus&atilde;o de 1962, &eacute;poca em que ainda n&atilde;o se pensava nem em videocassete e a TV ainda era em preto e branco. &Eacute; imposs&iacute;vel o Estado brasileiro conseguir materializar o projeto de TV digital que j&aacute; est&aacute; empenhado se n&atilde;o houver normas de acordo com esta nova realidade. Foi muito bom que o governo tenha lan&ccedil;ado esta quest&atilde;o como cen&aacute;rio para discutir estas coisas. Tornou-se um assunto debatido publicamente. Deixou os segundos cadernos para vir para a p&aacute;gina de pol&iacute;tica e demonstrou que todo o setor: comunica&ccedil;&atilde;o, teledifus&atilde;o, cinema, audiovisual, tudo pede regulamenta&ccedil;&atilde;o. Claro que pode acontecer de nos reportarmos a uma televis&atilde;o e ela, apesar de restringir o debate, assumir que ele &eacute; necess&aacute;rio. At&eacute; como escudo de prote&ccedil;&atilde;o contra os monstros tentaculares da comunica&ccedil;&atilde;o mundial que, daqui a pouco, estar&atilde;o pegando peda&ccedil;os importantes e estrat&eacute;gicos das nossas grandes empresas de teledifus&atilde;o. A Globo est&aacute; sentindo isso muito claramente, est&aacute; sob press&atilde;o forte e cont&iacute;nua.<\/p>\n<p><strong>No meio do acirramento deste debate, ainda na ressaca da discuss&atilde;o da proposta da Ancinav, foi adequado o momento para se propor a discuss&atilde;o da classifica&ccedil;&atilde;o indicativa e o da forma&ccedil;&atilde;o de uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o?<br \/><\/strong>OS &ndash; &Eacute; um aspecto t&atilde;o espec&iacute;fico este da classifica&ccedil;&atilde;o indicativa&hellip; Na minha opini&atilde;o, deve haver sim indica&ccedil;&atilde;o de idade, sem, no entanto, a orienta&ccedil;&atilde;o do hor&aacute;rio. A quest&atilde;o da TV P&uacute;blica estava passando da hora na perspectiva do atual governo. Na verdade, s&oacute; n&atilde;o saiu antes, um pouco pela rea&ccedil;&atilde;o da grande m&iacute;dia &agrave; proposta da Ancinav; houve um tempo de acomoda&ccedil;&atilde;o e de negocia&ccedil;&otilde;es, al&eacute;m de um tempo de prepara&ccedil;&atilde;o dentro do pr&oacute;prio &acirc;mbito da TV p&uacute;blica brasileira para que se pudesse lan&ccedil;ar aquele f&oacute;rum do ano passado. Como Secret&aacute;rio do Audiovisual, eu considero este impulso para a constru&ccedil;&atilde;o de um novo desenho mais amplo, mais forte e muito n&iacute;tido da Tv p&uacute;blica como a melhor a&ccedil;&atilde;o da secretaria nestes cinco anos, devido ao qu&ecirc; isto pode impactar no cen&aacute;rio comunicacional brasiliro. Trabalhoso, mas tinha que ser iniciado. E j&aacute; ganhamos algo pelo simples in&iacute;cio do processo, no que diz respeito ao entendimento dos tr&ecirc;s sistemas televisivos que existem no Brasil: o estatal, o p&uacute;blico e o privado. Havia uma certa confus&atilde;o entre os dois primeiros que ficou muito evidente no in&iacute;cio da discuss&atilde;o. Agora j&aacute; andamos: j&aacute; sabemos do que se trata, o governo sabe o que &eacute;, e sabe que deve haver uma televis&atilde;o estatal que seja porta-voz do governo e ofere&ccedil;a servi&ccedil;os p&uacute;blicos estatais &agrave; popula&ccedil;&atilde;o; a televis&atilde;o p&uacute;blica que seja a voz da sociedade, que faz o gerenciamento da sociedade e televis&atilde;o privada que j&aacute; se sabia o que &eacute;.<\/p>\n<p><strong>Este projeto finaliza-se quando? H&aacute; uma disputa para ver quem o conduz? <br \/><\/strong>OS &#8211; &Eacute; decis&atilde;o do presidente que o projeto ande o mais rapidamente poss&iacute;vel, inclusive para n&atilde;o haver desencontro da convers&atilde;o da TV anal&oacute;gica em digital. H&aacute; uma correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, uma conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica entre for&ccedil;as que pareciam ser bem mais distintas do que na verdade se revelaram. Na verdade, existe uma boa coincid&ecirc;ncia de pensamento entre o Minist&eacute;rio da Cultura, a Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, com o Franklin Martins, o presidente da Rep&uacute;blica e o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o que agora est&aacute; participando de maneira mais forte e decisiva do que antes. <\/p>\n<p><strong>E h&aacute; d&uacute;vidas se o projeto concretiza-se?<br \/><\/strong>OS &#8211; Diante da grandiosidade da proposta cultural, as pessoas v&atilde;o com certo cuidado, indagando sobre os recursos. Mas o que est&aacute; afixado e esperamos, sob as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os de Oxumar&eacute; que isso n&atilde;o mude, &eacute; fazer uma televis&atilde;o p&uacute;blica realmente destinada para todo o territ&oacute;rio nacional, com gest&atilde;o p&uacute;blica, e com absoluta independ&ecirc;ncia do poder econ&ocirc;mico, ou seja, da televis&atilde;o privada, e do poder pol&iacute;tico, ou seja, da televis&atilde;o estatal. E o desafio fica maior se pensarmos em fazer uma televis&atilde;o p&uacute;blica de qualidade. Uma televis&atilde;o que seja sedutora!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Eduardo Carvalho, do 100canais. 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