{"id":18744,"date":"2007-07-16T17:16:14","date_gmt":"2007-07-16T17:16:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18744"},"modified":"2007-07-16T17:16:14","modified_gmt":"2007-07-16T17:16:14","slug":"em-busca-de-agendas-perdidas-e-direitos-nunca-conquistados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18744","title":{"rendered":"Em busca de agendas perdidas e direitos nunca conquistados"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Com uma variedade de atores atuando em diferentes frentes e um cen&aacute;rio pol&iacute;tico contradit&oacute;rio (e, especialmente no campo da comunica&ccedil;&atilde;o, beirando a esquizofrenia), a luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil enfrenta desafios herc&uacute;leos. Embora possa haver a impress&atilde;o &ndash; &agrave; primeira vista e comparando com pa&iacute;ses em situa&ccedil;&otilde;es similares &ndash; de que h&aacute; aqui um campo prop&iacute;cio para a batalha pelo direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, o fato &eacute; que o pa&iacute;s ainda parece longe de ter um movimento de comunica&ccedil;&atilde;o organizado como tal.<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; certo que nunca se discutiu tanto comunica&ccedil;&atilde;o como se discute hoje no pa&iacute;s. O cen&aacute;rio, no entanto, n&atilde;o pode ser considerado favor&aacute;vel para aqueles que lutam pelo direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Ele pode ser resumido nas seguintes caracter&iacute;sticas: <\/p>\n<p><\/span><span><strong>1)<\/strong>&nbsp;<\/span><span>Aus&ecirc;ncia de regula&ccedil;&atilde;o e pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o:<\/span><span> o cen&aacute;rio legal e institucional da defesa do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; de terra arrasada. N&atilde;o h&aacute; legisla&ccedil;&atilde;o atualizada sobre a radiodifus&atilde;o (a atual data de 1962), n&atilde;o h&aacute; limites &agrave; propriedade cruzada, n&atilde;o h&aacute; sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&atilde;o, as r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o reprimidas diariamente (fecham-se mais r&aacute;dios do que se autoriza) e o setor privado dita as suas pr&oacute;prias regras. Al&eacute;m disso, n&atilde;o h&aacute; nenhum tipo de pol&iacute;tica de incentivo &agrave; pluralidade e &agrave; diversidade de m&iacute;dias. Nessas condi&ccedil;&otilde;es, sem a regula&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XX, o pa&iacute;s ainda se v&ecirc; na necessidade de estabelecer a regula&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XXI, num cen&aacute;rio de converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica e empresarial.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>2)<\/strong>&nbsp;<\/span><span>Esquizofrenia governamental:<\/span><span> desde a entrada de Lula na presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, mas especialmente depois da entrada de H&eacute;lio Costa no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, vive-se uma realidade esquizofr&ecirc;nica nas pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o. Enquanto o minist&eacute;rio de Costa trabalha com pol&iacute;ticas conservadoras em sintonia com o interesse dos radiodifusores, outros &oacute;rg&atilde;os do governo, como o Minist&eacute;rio da Cultura, de Gilberto Gil, e a Radiobr&aacute;s, presidida at&eacute; o in&iacute;cio de 2007 por Eug&ecirc;nio Bucci, busca a implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas democr&aacute;ticas. Ainda assim, at&eacute; o final do mandato, as &ldquo;bolas divididas&rdquo; sobraram para o lado do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e dos radiodifusores.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>3)<\/strong>&nbsp;<\/span><span>Ofensiva da m&iacute;dia conservadora<\/span><span>: do ponto de vista do conte&uacute;do, a grande m&iacute;dia, que se posicionou contra o Governo Lula nas elei&ccedil;&otilde;es, continua operando para determinar a sua pauta pol&iacute;tica, confirmando seu papel como o grande partido pol&iacute;tico organizador da agenda da direita. A agenda recente inclui, entre outros pontos: o apoio a flexibiliza&ccedil;&atilde;o dos direitos trabalhistas, a defesa do corte de gastos p&uacute;blicos e das reformas da previd&ecirc;ncia, al&eacute;m do embate constante com os movimentos do campo (agravado pela recente ofensiva contra os quilombolas). No &uacute;ltimo per&iacute;odo, acentuou-se a a&ccedil;&atilde;o reacion&aacute;ria nos temas da comunica&ccedil;&atilde;o, numa campanha contra as r&aacute;dios comunit&aacute;rias e contra a n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da RCTV venezuelana.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>4)<\/strong>&nbsp;<\/span><span>Isolamento da pauta: <\/span><span>os movimentos de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o t&ecirc;m conseguido fazer de sua agenda democr&aacute;tica uma luta de todos os movimentos sociais. Como veremos mais &agrave; frente, isso &eacute; fruto de uma combina&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas, entre elas a dispers&atilde;o dos pr&oacute;prios movimentos da comunica&ccedil;&atilde;o e a aus&ecirc;ncia de direitos consolidados que permita a defesa de uma pauta unit&aacute;ria.<\/span><\/p>\n<p><span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Assim, o momento atual da luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil &eacute; hoje marcado por tr&ecirc;s desafios principais: 1) busca de converg&ecirc;ncias entre movimentos com caracter&iacute;sticas e prioridades diferentes, em vez de privilegiar as diverg&ecirc;ncias; 2) a necessidade, em um momento de ofensiva conservadora da grande m&iacute;dia, de viabilizar a implanta&ccedil;&atilde;o da agenda do s&eacute;culo XXI ao mesmo tempo em que luta pela agenda n&atilde;o realizada do s&eacute;culo XX; e, ligado a esse segundo ponto, 3) a imposi&ccedil;&atilde;o de se trabalhar por uma agenda positiva em um cen&aacute;rio de terra arrasada, em que n&atilde;o h&aacute; direitos a serem defendidos, com o agravante de que os movimentos sociais vivem um momento de descenso.<\/p>\n<p><\/span><span>Esses desafios n&atilde;o necessariamente constituem a agenda pol&iacute;tica dos movimentos, mas s&atilde;o os principais n&oacute;s cr&iacute;ticos a serem desatados. Para examin&aacute;-los, este texto ir&aacute; se focar menos no detalhamento da conjuntura pol&iacute;tica, e mais na diversidade de atores que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o (ou pelo direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o) no Brasil, buscando compreender suas propostas, lutas, pontos de converg&ecirc;ncia, logros e retrocessos e as articula&ccedil;&otilde;es. Para isso, &eacute; fundamental fazer um repasse r&aacute;pido da hist&oacute;ria desses movimentos no Brasil.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Um breve hist&oacute;rico<br \/><\/strong><\/span><span>A origem da luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil est&aacute; ligada ao momento pol&iacute;tico em que o mundo discutia, na d&eacute;cada de 1970, as propostas discutidas no &acirc;mbito da UNESCO &ndash; propostas, que, alguns anos depois, apareceriam no Relat&oacute;rio McBride. At&eacute; ali, a pauta do combate &agrave; censura e a defesa da liberdade de express&atilde;o ocupavam um espa&ccedil;o central na luta dos diversos movimentos anti-diatatoriais, mas n&atilde;o existia uma a&ccedil;&atilde;o organizada pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Naquele momento, entidades como a Uni&atilde;o Crist&atilde; Brasileira de Comunica&ccedil;&atilde;o Social (UCBC) e um setor da academia brasileira impulsionaram no pa&iacute;s a discuss&atilde;o sobre a necessidade de pol&iacute;ticas democr&aacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o. O pa&iacute;s vivia uma ditadura militar e os imp&eacute;rios privados, especialmente a Rede Globo, cresciam em alian&ccedil;a com os governos ditatoriais. Ali, as propostas n&atilde;o encontrariam nenhuma reverbera&ccedil;&atilde;o no governo, mas pautariam o tema nos setores progressistas, indicando que a democratiza&ccedil;&atilde;o da sociedade e a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o eram (como seguem sendo) mutuamente dependentes. Surgem nessa &eacute;poca dezenas de iniciativas de comunica&ccedil;&atilde;o alternativa, especialmente jornais, que chegam a atingir grandes tiragens.<\/p>\n<p><\/span><span>Na d&eacute;cada de 80, o movimentos de r&aacute;dios livres e comunit&aacute;rias e a perspectiva de uma nova Constitui&ccedil;&atilde;o (aprovada finalmente em 1988) impulsionam o movimento e fazem ele se organizar, tanto local como nacionalmente. Em 1984, durante a transi&ccedil;&atilde;o do regime ditatorial para o regime democr&aacute;tico, foi formada a Frente Nacional por Pol&iacute;ticas Democr&aacute;ticas de Comunica&ccedil;&atilde;o, que reunia a Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Imprensa (ABI), a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras P&uacute;blicas, Educativas e Culturais (Abepec) e v&aacute;rias universidades. A cria&ccedil;&atilde;o da Frente marcava a migra&ccedil;&atilde;o de um movimento que antes trabalhava pela mobiliza&ccedil;&atilde;o popular e cria&ccedil;&atilde;o de uma rede de comunica&ccedil;&atilde;o alternativa para um movimento que passava a atacar pelas vias institucionais centrais, tentando atingir os grandes meios.<\/p>\n<p><\/span><span>Esse movimento, com altos e baixos, seguiria organizado at&eacute; a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988. Naquele ano, travou-se uma verdadeira batalha na defini&ccedil;&atilde;o do cap&iacute;tulo sobre Comunica&ccedil;&atilde;o, em que o movimento teve alguns avan&ccedil;os, mas amargou derrotas significativas, como a n&atilde;o aprova&ccedil;&atilde;o de um Conselho Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o com car&aacute;ter deliberativo e os limites impostos para a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es ou para o cancelamento de outorgas de r&aacute;dio e TV.<\/p>\n<p><\/span><span>Em 1991, fruto da articula&ccedil;&atilde;o da Frente, surge o F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o, que abarcou entidades acad&ecirc;micas, profissionais, estudantis e representa&ccedil;&otilde;es de outros segmentos, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Confer&ecirc;ncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tendo, durante todo esse per&iacute;odo, a Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) capitaneado a organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil.<\/p>\n<p><\/span><span>Na d&eacute;cada de 90, o F&oacute;rum se marcaria como o principal ator na luta institucional pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil. A despeito do fortalecimento do neoliberalismo no pa&iacute;s, nesse momento a luta institucional lograria alguns &ecirc;xitos importantes, como a lei da TV a cabo, em 1995, que garantiu espa&ccedil;o para canais de acesso p&uacute;blico &ndash; comunit&aacute;rios e universit&aacute;rios &ndash; e prop&ocirc;s a infra-estrutura baseada em uma rede p&uacute;blica e &uacute;nica.<\/p>\n<p><\/span><span>Logo ap&oacute;s essa pequena esperan&ccedil;a, o movimento se desarticulou. No Brasil, as pol&iacute;ticas neoliberais tiveram na segunda metade da d&eacute;cada de 1990 o seu auge, e a privatiza&ccedil;&atilde;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es deu mais muni&ccedil;&atilde;o e contingente para o lado do empresariado (com o tempo, as contradi&ccedil;&otilde;es do sistema de produ&ccedil;&atilde;o capitalista levariam ao embate entre empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es e radiodifusores, que permanece hoje, ainda que eles cultivem interesses comuns). O FNDC passou alguns anos desestruturado, e a agenda &ldquo;s&eacute;culo XX&rdquo; come&ccedil;ou a se mostrar insuficiente para enfrentar as novas quest&otilde;es.<\/p>\n<p><\/span><span>O final dos anos 90 e come&ccedil;o dos 2000 viu a retomada do movimento a partir da reorganiza&ccedil;&atilde;o do FNDC e do surgimento de iniciativas sob diferentes perspectivas, como a Campanha pela &Eacute;tica na TV &ndash; que passou a trabalhar a den&uacute;ncia dos telespectadores sobre a viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos na m&iacute;dia &ndash;, diversas entidades pol&iacute;ticas e acad&ecirc;micas que retomaram a bandeira do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o<a name=\"_ftnref1\" href=\"mambots\/editors\/tinymce\/jscripts\/tiny_mce\/blank.htm#_ftn1\" title=\"_ftnref1\"><span>[1]<\/span><\/a>, ampliando a pauta da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, e iniciativas de produ&ccedil;&atilde;o independente e aut&ocirc;noma, em especial o Centro de M&iacute;dia Independente (Indymedia).<\/p>\n<p><\/span><span>Ao final de 2002, a chegada de Lula &agrave; presid&ecirc;ncia criou uma situa&ccedil;&atilde;o de dif&iacute;cil manejo para os movimentos. Ao mesmo tempo em que a elei&ccedil;&atilde;o alimentou uma enorme esperan&ccedil;a (as propostas do programa de governo e do programa de transi&ccedil;&atilde;o foram desenvolvidas em boa parte por pessoas com liga&ccedil;&atilde;o com os movimentos), o in&iacute;cio do governo criou uma situa&ccedil;&atilde;o de impasse, na qual os movimentos de comunica&ccedil;&atilde;o tiveram dificuldades para encontrar o seu papel na nova conjuntura. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>O quadro atual<br \/><\/strong><\/span><span>A esquizofrenia do governo Lula na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o acabou levando a uma reorganiza&ccedil;&atilde;o do movimento e de iniciativas conjuntas, mas encontrou uma resist&ecirc;ncia conservadora igualmente fortalecida. Frente a esse quadro, &eacute; relevante localizar as diferentes iniciativas e relacion&aacute;-las com os desafios e n&oacute;s cr&iacute;ticos listados no in&iacute;cio a fim de compreender a atual agenda dos movimentos do campo da comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>O papel hist&oacute;rico do FNDC faz dele uma refer&ecirc;ncia fundamental, embora nos &uacute;ltimos anos a articula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tenha demonstrado a mesma capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o de anos anteriores. Formado em grande parte por entidades sindicais e representativas, o F&oacute;rum depende da mobiliza&ccedil;&atilde;o desses setores para dar impulso a suas lutas, e tem enfrentado o mesmo problema de desmobiliza&ccedil;&atilde;o que afeta movimentos da mesma natureza. Al&eacute;m disso, com a amplia&ccedil;&atilde;o da pauta, o FNDC passou a n&atilde;o abarcar toda a diversidade do campo que se mobiliza pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Nos &uacute;ltimos anos, a pauta central da articula&ccedil;&atilde;o foi o processo de digitaliza&ccedil;&atilde;o, e ao final de 2006 apontou-se a realiza&ccedil;&atilde;o de uma Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o<a name=\"_ftnref2\" href=\"mambots\/editors\/tinymce\/jscripts\/tiny_mce\/blank.htm#_ftn2\" title=\"_ftnref2\"><span>[2]<\/span><\/a> como o principal objetivo a ser trabalhado em 2007. <\/p>\n<p><\/span><span>Desde o in&iacute;cio da d&eacute;cada, tem ganhado for&ccedil;a movimentos n&atilde;o representativos, que organizam militantes na luta pelo direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Nesse campo, tem destaque o Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, que re&uacute;ne ativistas de 14 dos 27 estados brasileiros e grupos de atua&ccedil;&atilde;o mais local, como o Comunicativistas, no Rio de Janeiro, e o Fopecom, em Pernambuco. Esses grupos t&ecirc;m se caracterizado pela retomada do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o como mote, com a concep&ccedil;&atilde;o de que a comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve ser um espa&ccedil;o apenas de especialistas. Nesse sentido, sua luta busca viabilizar a apropria&ccedil;&atilde;o social da comunica&ccedil;&atilde;o. Mesmo sem &ldquo;base de representa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, eles t&ecirc;m se firmado como atores fundamentais no campo, combinando capacidade de formula&ccedil;&atilde;o e de mobiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Tamb&eacute;m t&ecirc;m se fortalecido processos de acompanhamento da programa&ccedil;&atilde;o e controle p&uacute;blico da m&iacute;dia, especialmente com a den&uacute;ncia de viola&ccedil;&otilde;es sistem&aacute;ticas de direitos humanos na m&iacute;dia. A principal iniciativa nesse sentido &eacute; a Campanha pela &Eacute;tica na TV, que re&uacute;ne a Comiss&atilde;o de Direitos Humanos e Minorias da C&acirc;mara dos Deputados e entidades da sociedade civil, como o Conselho Federal de Psicologia. A Campanha, conhecida como &ldquo;Quem financia a baixaria &eacute; contra a cidadania&rdquo; elabora um ranking mensal com as den&uacute;ncias recebidas, e tenta atuar diretamente com os anunciantes dos programas, visando convenc&ecirc;-los a n&atilde;o apoiar programas de baixaria ou que violem direitos humanos. Embora tenha perdido um pouco de sua for&ccedil;a com a n&atilde;o elei&ccedil;&atilde;o de Orlando Fantazzini (deputado criador da campanha e membro da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos), a campanha permanece tendo import&acirc;ncia central.<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; o movimento de r&aacute;dios comunit&aacute;rias sofre de uma enorme dispers&atilde;o, com v&aacute;rias entidades representando diferentes perspectivas e com dificuldades para trabalhar em conjunto. A principal delas &eacute; a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Radiodifus&atilde;o Comunit&aacute;ria (Abra&ccedil;o). Sua principal pauta segue sendo o combate &agrave; repress&atilde;o, j&aacute; que, durante o Governo Lula, o fechamento de r&aacute;dios comunit&aacute;rias aumentou, ao inv&eacute;s de arrefecer, como seria esperado. Da mesma forma, buscam-se condi&ccedil;&otilde;es de sustenta&ccedil;&atilde;o e sobreviv&ecirc;ncia, uma vez que a lei brasileira &eacute; extremamente restritiva: pro&iacute;be publicidade comercial e cria uma luta fratricida entre as r&aacute;dios ao estabelecer o limite de uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria por localidade. Para este setor, o desafio se situa na dificuldade em estabelecer uma agenda estrat&eacute;gica de luta em meio a ataques da Pol&iacute;cia Federal e da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel) e dos diferentes interesses que convivem entre as r&aacute;dios.<\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m dessas iniciativas, v&aacute;rias outras se juntaram ao campo que luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es por conta do processo de converg&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, num processo que cria novas quest&otilde;es e demandas. Nesse campo situam-se entidades da &aacute;rea de inclus&atilde;o digital, como a Rede de Informa&ccedil;&otilde;es para o Terceiro Setor (Rits), da cultura, como o Congresso Brasileiro de Cinema e a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Produtores Independentes e de propriedade intelectual, como o Centro de Tecnologia Social da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas, que representa o Creative Commons no Brasil. Al&eacute;m disso, multiplicam-se coletivos de iniciativas aut&ocirc;nomas, como o Centro de M&iacute;dia Independente, que foca na produ&ccedil;&atilde;o colaborativa e compartilhada e v&aacute;rios outros pequenos grupos com a mesma filosofia, ainda que com tem&aacute;ticas distintas.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Os desafios da atua&ccedil;&atilde;o convergente<br \/><\/strong><\/span><span>Nos &uacute;ltimos anos, o processo de implementa&ccedil;&atilde;o da TV digital no Brasil possibilitou a retomada de iniciativas convergentes entre as diversas iniciativas. No momento em que a pauta passou a ocupar lugar central na agenda do governo, foi criada a Frente por um Sistema Democr&aacute;tico de R&aacute;dio e TV Digital, reunindo mais de uma centena de entidades, entre elas praticamente todas as com atua&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o. A Frente conseguiu pautar o debate na sociedade, fazendo com que o debate n&atilde;o ficasse restrito a quest&otilde;es tecnol&oacute;gicas. Ainda assim, um ponto forte da Frente foi justamente a participa&ccedil;&atilde;o de entidades com perfil t&eacute;cnico, com participa&ccedil;&atilde;o de sindicatos da &aacute;rea, como a Federa&ccedil;&atilde;o Interestadual de Trabalhadores em Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Fittel), que possibilitou que se travasse uma batalha t&eacute;cnica de igual para igual com os radiodifusores. Depois da publica&ccedil;&atilde;o do decreto que definiu pelo padr&atilde;o japon&ecirc;s, a Frente perdeu f&ocirc;lego, por conta da aus&ecirc;ncia de um horizonte estrat&eacute;gico de curto prazo.<\/p>\n<p><\/span><span>Ainda assim, independentemente do tema da digitaliza&ccedil;&atilde;o ter perdido for&ccedil;a, nos &uacute;ltimos meses tem havido v&aacute;rios esfor&ccedil;os para que as entidades n&atilde;o se dispersem e trabalhem em conjunto. Neste ano de 2007, ganhou for&ccedil;a a pauta do sistema p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o e da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&otilde;es, reivindica&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas do movimento. Nos dois casos, as diversas entidades t&ecirc;m conseguido trabalhar em conjunto, definindo pautas e estrat&eacute;gias comuns de atua&ccedil;&atilde;o. Est&aacute; claro, entretanto, que essas iniciativas ganharam f&ocirc;lego porque setores do Executivo (no caso do sistema p&uacute;blico) ou do Legislativo (no caso da Confer&ecirc;ncia) compraram a briga e impulsionaram iniciativas estatais nesse sentido. Sem parceiros com vis&otilde;es parecidas no governo ainda &eacute; muito dif&iacute;cil para o movimento de comunica&ccedil;&atilde;o estabelecer sua agenda positiva.<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; o envolvimento dos movimentos de massa com a pauta da comunica&ccedil;&atilde;o continua t&iacute;mido. Embora os principais movimentos (em especial o MST &ndash; Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) dediquem v&aacute;rios esfor&ccedil;os &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de meios pr&oacute;prios de comunica&ccedil;&atilde;o, eles ainda n&atilde;o d&atilde;o peso &agrave; luta por pol&iacute;ticas democr&aacute;ticas. Esse fato se deve especialmente a duas quest&otilde;es, de naturezas distintas:<\/p>\n<p><\/span><span><strong>1)<\/strong> A primeira &eacute; que o pr&oacute;prio movimento de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem t&atilde;o clara uma pauta comum, o que dificulta a apropria&ccedil;&atilde;o dessa agenda pelos movimentos que n&atilde;o t&ecirc;m na comunica&ccedil;&atilde;o sua principal a&ccedil;&atilde;o. Isso n&atilde;o exime os movimentos sociais de responsabilidade, mas cria um quadro mais dif&iacute;cil para que essa apropria&ccedil;&atilde;o da pauta se efetiva.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>2)<\/strong> A segunda e maior dificuldade para que essa pauta seja apropriada pelos movimentos parece estar no conjunto de algumas caracter&iacute;sticas do campo da comunica&ccedil;&atilde;o e no momento pol&iacute;tico que vivemos. A Via Campesina avalia que tem havido na hist&oacute;ria brasileira ciclos de ascensos e descensos no movimento de massas, que em geral antecipam os ciclos de ascensos e descensos da esquerda. Para eles, desde o final da d&eacute;cada de 80, estamos numa etapa de descenso dos movimentos, momento em que os movimentos ou lutam contra a redu&ccedil;&atilde;o de direitos (em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s reformas trabalhista e previdenci&aacute;ria, por exemplo) ou se baseiam em leis atuais satisfat&oacute;rias para exigir sua aplica&ccedil;&atilde;o (reforma agr&aacute;ria e quest&atilde;o ind&iacute;gena, por exemplo). O grande desafio na comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; que o cen&aacute;rio &eacute; de terra arrasada, e simplesmente n&atilde;o h&aacute; direito sendo atacado porque n&atilde;o h&aacute; nenhum direito garantido. Nesse cen&aacute;rio, a pauta &eacute; a briga pela positiva&ccedil;&atilde;o do direito e por pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que viabilizem a sua frui&ccedil;&atilde;o, enfrentando os gargalos econ&ocirc;micos, pol&iacute;ticos, sociais e culturais que impedem sua realiza&ccedil;&atilde;o. Entretanto, no momento em que os movimentos est&atilde;o tendo que se agarrar no que j&aacute; t&ecirc;m garantido, trabalhar &lsquo;pela positiva&rsquo; se torna muito dif&iacute;cil. Uma das poucas lutas &lsquo;de resist&ecirc;ncia&rsquo; poss&iacute;vel hoje &eacute; a das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, que t&ecirc;m sido fechadas em ritmo acelerado, e que sobrevivem a despeito da lei limitante.<\/p>\n<p><\/span><span>Esses dois fatores &ndash; em especial o segundo &ndash; explicam a dificuldade de a pauta do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o ganhar a sociedade. Isso n&atilde;o significa que ela n&atilde;o continue sendo central. Apenas indica que, enquanto durar esse per&iacute;odo de descenso no Brasil, &eacute; prov&aacute;vel que n&atilde;o haja engajamento efetivo dos movimentos sociais na luta por pol&iacute;ticas democr&aacute;ticas. De qualquer forma, a perspectiva deve ser de manter essa luta e manter o di&aacute;logo permanente com os movimentos no sentido de intercambiar pautas e construir a&ccedil;&otilde;es conjuntas, buscando impulsionar tamb&eacute;m as lutas sociais gerais.<\/p>\n<p><\/span><span>Para o pr&oacute;ximo per&iacute;odo, define-se para o movimento de comunica&ccedil;&atilde;o brasileiro uma agenda que inclui pontos como a necessidade uma nova regula&ccedil;&atilde;o para as comunica&ccedil;&otilde;es &ndash; que d&ecirc; conta da agenda perdida do s&eacute;culo XX e da nova agenda da converg&ecirc;ncia do s&eacute;culo XXI &ndash;, a defesa e o incentivo aos ve&iacute;culos comunit&aacute;rios, a implanta&ccedil;&atilde;o de um sistema p&uacute;blico de TV e r&aacute;dio, a digitaliza&ccedil;&atilde;o (especialmente a quest&atilde;o do r&aacute;dio, ainda em aberto), a democratiza&ccedil;&atilde;o do processo de concess&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o de outorgas, a constitui&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de participa&ccedil;&atilde;o popular na defini&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas (como uma Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&otilde;es), e a classifica&ccedil;&atilde;o indicativa da programa&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de temas como inclus&atilde;o digital e flexibiliza&ccedil;&atilde;o da propriedade intelectual. Motivos de sobra para o movimento dar conta de suas diferen&ccedil;as e trabalhar de maneira convergente sobre o n&oacute;s cr&iacute;ticos que se apresentam.<\/span><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><em>* Jo&atilde;o Brant &eacute; coordenador do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social<\/p>\n<p><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma variedade de atores atuando em diferentes frentes e um cen&aacute;rio pol&iacute;tico contradit&oacute;rio (e, especialmente no campo da comunica&ccedil;&atilde;o, beirando a esquizofrenia), a luta pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil enfrenta desafios herc&uacute;leos. Embora possa haver a impress&atilde;o &ndash; &agrave; primeira vista e comparando com pa&iacute;ses em situa&ccedil;&otilde;es similares &ndash; de que h&aacute; aqui &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18744\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Em busca de agendas perdidas e direitos nunca conquistados<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[330],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18744"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18744\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}