{"id":18735,"date":"2007-07-16T10:58:13","date_gmt":"2007-07-16T10:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18735"},"modified":"2007-07-16T10:58:13","modified_gmt":"2007-07-16T10:58:13","slug":"comunidade-indigena-reclama-protagonismo-midiatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18735","title":{"rendered":"Comunidade ind\u00edgena reclama protagonismo midi\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p>Exibida de forma depreciativa por uma emissora de televis&atilde;o, a seq&uuml;&ecirc;ncia de imagens de um &iacute;ndio embriagado nunca mais saiu da cabe&ccedil;a de Luiz Carlos Kara&iacute;, do povo Guarani Mby&aacute;. Ele &eacute; uma das 220 pessoas, reunidas aproximadamente em 45 fam&iacute;lias, que vivem na Aldeia Krukutu, em Parelheiros, Zona Sul de S&atilde;o Paulo. &quot;Muitas vezes n&oacute;s n&atilde;o deixamos mais tirar fotos nem filmar&quot;, conta o professor que se dedica ao Centro de Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura Ind&iacute;gena (Ceci) instalado no local, quando perguntado sobre a rela&ccedil;&atilde;o do seu povo com a m&iacute;dia jurua (termo guarani para n&atilde;o-&iacute;ndio). <\/p>\n<p>&quot;A gente tem que ser esperto mesmo. Eles passam o dia inteiro aqui. N&oacute;s falamos horas e horas. E eles v&atilde;o e criam fic&ccedil;&otilde;es&quot;, completa o l&iacute;der comunit&aacute;rio e escritor da aldeia Krukutu, Ol&iacute;vio Jekup&eacute;. Ele e Luiz Carlos mant&ecirc;m a tradi&ccedil;&atilde;o da cultura oral divulgando hist&oacute;rias ind&iacute;genas entre outros n&uacute;cleos de parentes Guarani &#8211; no oguat&aacute; (caminhada) em busca da yvy mar&atilde; ey (terra sem mal) &#8211; e em outros espa&ccedil;os como faculdades e escolas. &quot;&Eacute; um jeito de levar o nome ind&iacute;gena l&aacute; em cima&quot;, define Ol&iacute;vio Jekup&eacute;. &quot;Antes, o &iacute;ndio contava a hist&oacute;ria e o branco escrevia&quot;, compara a lideran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&quot;A m&iacute;dia s&oacute; se interessa com a quest&atilde;o ind&iacute;gena quando chega dia 19 de abril ou quando o &iacute;ndio erra&quot;, discorre Jos&eacute; Pires, ind&iacute;gena que exerce as fun&ccedil;&otilde;es de tesoureiro da Associa&ccedil;&atilde;o GuaraniNh&ecirc;&#39;Por&atilde;, que se prop&otilde;e a &quot;organizar projetos para os moradores da aldeia Krukutu&quot;. A entidade mant&eacute;m um site com informa&ccedil;&otilde;es sobre a cultura guarani que reserva espa&ccedil;o para textos produzidos pelos pr&oacute;prios ind&iacute;genas. <\/p>\n<p>Assessora de comunica&ccedil;&atilde;o do Conselho Indigenista Mission&aacute;rio (Cimi), Priscila D. de Carvalho concorda com a preval&ecirc;ncia de um padr&atilde;o midi&aacute;tico que costuma pautar a quest&atilde;o ind&iacute;gena como &quot;tema cultural&quot; ou revestido de conota&ccedil;&atilde;o &quot;negativa&quot;, na linha dos &quot;pobres &iacute;ndios que est&atilde;o sendo massacrados&quot;. Al&eacute;m disso, o interesse da imprensa comercial guarda envolvimento com conflitos pol&iacute;tico-econ&ocirc;micos. As aten&ccedil;&otilde;es dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o se voltaram para os Guarani Mby&aacute; de Parelheiros , por exemplo, no contexto de constru&ccedil;&atilde;o do trecho sul do Rodoanel, megaobra rodovi&aacute;ria que interliga os principais eixos de acesso &agrave; cidade de S&atilde;o Paulo. Depois de intensa disputa, os ind&iacute;genas conseguiram expandir as &aacute;reas que ocupam: 100 hectares para a Krukutu e outros 100 &agrave; aldeia Tenond&eacute; Por&atilde; (Barragem), terra irm&atilde; localizada nos mesmos arredores da represa Billings.<\/p>\n<p>A recorr&ecirc;ncia desse padr&atilde;o entre as mat&eacute;rias sobre &iacute;ndios n&atilde;o se justifica apenas pela corrida contra o tempo da atividade midi&aacute;tica. &quot;N&atilde;o se pode esperar de um jornalista outra coisa que a repeti&ccedil;&atilde;o daquilo que ouve desde crian&ccedil;a. A id&eacute;ia de evolu&ccedil;&atilde;o e de progresso. Ou seja, a meta de sair de uma origem para virar &#39;civilizado&#39; &eacute; marcante no ide&aacute;rio de todos&quot;, explica a antrop&oacute;loga Dominique Tilkin Gallois, do N&uacute;cleo de Hist&oacute;ria Ind&iacute;gena e Indigenismo da Universidade de S&atilde;o Paulo (NHII\/USP). No entanto, execrar o uso e a apropria&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia &quot;n&atilde;o-&iacute;ndia&quot; pelos povos ind&iacute;genas seria o triunfo da nega&ccedil;&atilde;o em detrimento do di&aacute;logo. &quot;O pr&oacute;prio da cultura &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o a manuten&ccedil;&atilde;o ou a perman&ecirc;ncia&quot;, coloca Dominique. <\/p>\n<p>Um dos ind&iacute;cios de um ato maior de viol&ecirc;ncia e exclus&atilde;o social consiste na ignor&acirc;ncia a respeito da grafia antropol&oacute;gica do nome de uma etnia ou no desconhecimento da maneira como a pr&oacute;pria comunidade se denomina. &quot;&Eacute; muito mais complexo que as denomina&ccedil;&otilde;es e formas de identifica&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o a parte externa, aparente desses equ&iacute;vocos profundos&quot;, comenta a antrop&oacute;loga. Para ela, neste ponto, o importante &quot;&eacute; n&atilde;o se perder em hip&oacute;teses de &#39;estrat&eacute;gias&#39; que na verdade s&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es de realizadores, ou antrop&oacute;logos, ou jornalistas etc&quot;. Muitas vezes, adiciona, &quot;o que falta verificar &eacute; se os grupos ind&iacute;genas t&ecirc;m espa&ccedil;o, tempo e condi&ccedil;&otilde;es de transformar suas formas culturais segundo seus pr&oacute;prios interesses, padr&otilde;es, ritmos e l&oacute;gicas&quot;.<\/p>\n<p><strong>Internet, r&aacute;dio, papel e poder<\/p>\n<p><\/strong>Outro aspecto que atrai o interesse de jornalistas &eacute; a presen&ccedil;a da internet, dos celulares e dos videogames na vida dos &iacute;ndios, normalmente colocada como contraponto &agrave;s tradi&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas. Luiz Carlos Kara&iacute; defende o uso da internet no processo de difus&atilde;o de sua cultura e de contato com outras comunidades ind&iacute;genas, n&atilde;o apenas pelo website mantido pela Associa&ccedil;&atilde;o Guarani Nh&ecirc;&#39;Por&atilde;, mas tamb&eacute;m por mecanismos de comunica&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea como o MSN Messenger e o site de relacionamentos como o Orkut. <\/p>\n<p>Moradores da aldeia Krukutu exibem perfis no Orkut reafirmando c&oacute;digos &eacute;tnico-culturais e participam de comunidades como &quot;Educa&ccedil;&atilde;o Escolar Ind&iacute;gena&quot; e &quot;Problemas Ind&iacute;genas&quot;, espa&ccedil;os virtuais para a amplia&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o interna entre integrantes, apoiadores do movimento ind&iacute;gena. &quot;Estamos no s&eacute;culo XXI&quot;, diz Luiz Carlos, lembrando que a cultura de seu povo, assim como as outras, n&atilde;o est&aacute; parada no tempo. Al&eacute;m de ensinar inform&aacute;tica &agrave;s crian&ccedil;as e aos jovens nas 13 esta&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis no Ceci, o professor pretende compartilhar as habilidades que adquiriu no curso espec&iacute;fico sobre a manuten&ccedil;&atilde;o de computadores. <\/p>\n<p>Se a internet j&aacute; faz parte da vida Guarani, outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o mais pr&oacute;ximos da cultura oral ind&iacute;gena &#8211; e que podem favorecer o protagonismo dos povos &#8211; ainda n&atilde;o s&atilde;o muito utilizados. Apenas mais recentemente, iniciativas como o projeto Educom.r&aacute;dio, desenvolvido junto ao povo Guarani-Kaiow&aacute; de Amamba&iacute;, no Mato Grosso do Sul, passaram a efetivar a capacita&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica para a implanta&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dios comunit&aacute;rias. A experi&ecirc;ncia resultou, inclusive, na produ&ccedil;&atilde;o de um programa em yopar&aacute; (mistura dos idiomas Portugu&ecirc;s e Guarani). Na Regi&atilde;o Nordeste, alguns povos &#8211; como os Xukuru do Ororub&aacute;, em Pernambuco, e os Patax&oacute; H&atilde;-H&atilde;-H&atilde;e, no sul da Bahia &#8211; j&aacute; contam com equipamentos pr&oacute;prios para a produ&ccedil;&atilde;o de material radiof&ocirc;nico. <\/p>\n<p>As insatisfa&ccedil;&otilde;es do movimento ind&iacute;gena quanto &agrave; regula&ccedil;&atilde;o da radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria pela Lei 9612\/98 est&atilde;o condensadas no Relat&oacute;rio da Oficina de &Aacute;udio para os Povos Ind&iacute;genas, que aconteceu de 03 a 06 de junho de 2007 na aldeia Caramuru dos Patax&oacute; H&atilde;-H&atilde;-H&atilde;e. O documento aponta a necessidade de uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica para os povos ind&iacute;genas que garanta especial respeito &agrave; diversidade de suas culturas e suas estruturas internas de organiza&ccedil;&atilde;o social. No tocante &agrave;s cr&iacute;ticas a limita&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas como o raio de abrang&ecirc;ncia de apenas 1 km, por sua vez, os povos se colocam ao lado de diversos setores dos movimentos sociais na luta conjunta pelo fortalecimento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias.<\/p>\n<p><span>O meio impresso tamb&eacute;m pode dar espa&ccedil;o para que as comunidades ind&iacute;genas atuem como sujeitos em processos de comunica&ccedil;&atilde;o. Na pr&oacute;pria aldeia Krukutu, livros did&aacute;ticos para educa&ccedil;&atilde;o infantil em guarani que reproduzem fotografias das crian&ccedil;as e textos de professores do Ceci, editados em parceria com o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o (MEC), aguardam distribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Sob orienta&ccedil;&atilde;o das lideran&ccedil;as comunit&aacute;rias, a associa&ccedil;&atilde;o de Jos&eacute; Pires elabora e imprime folhetos informativos que procuram valorizar o potencial tur&iacute;stico da regi&atilde;o da Krukutu, a fim de dar f&ocirc;lego ao tekoha (modo de vida) Guarani. <\/span>O ecoturismo possibilita a alian&ccedil;a dos povos de outras aldeias &#8211; Tenond&eacute; Por&atilde;, Ytu e Pyau (as duas &uacute;ltimas, na regi&atilde;o do Pico do Jaragu&aacute;) &#8211; desde 2001 e acaba atuando em frentes fundamentais: na luta pelas terras guaranis, dificultando a &quot;amea&ccedil;a&quot; de posseiros que avan&ccedil;am na regi&atilde;o de Parelheiros; e na garantia do sustento das fam&iacute;lias que, muitas vezes, dependem da venda do artesanato e da renda de programas assistenciais do governo. A atividade amplia ainda as pol&iacute;ticas de preserva&ccedil;&atilde;o ambiental, principalmente contra a polui&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua, essencial para o tekoha Guarani. H&aacute; inclusive um programa de visitas monitoradas com palestras e apresenta&ccedil;&atilde;o do coral Kyringue Vy&#39;Aa, Vozes das Crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>A chave da rela&ccedil;&atilde;o entre ind&iacute;genas e m&iacute;dia passa pelas pr&oacute;prias comunidades, na opini&atilde;o de Priscila, do Cimi, organiza&ccedil;&atilde;o ligada &agrave; Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que publica h&aacute; d&eacute;cadas o jornal Porantim. O pr&oacute;prio Ol&iacute;vio Jekup&eacute;, da aldeia Krukutu, j&aacute; escreveu textos para o peri&oacute;dico mensal, que destina 400 assinaturas a comunidades e escolas. N&atilde;o faltam evid&ecirc;ncias de que os papeis de protagonistas nesse processo cabem aos pr&oacute;prios &iacute;ndios, superando a figura&ccedil;&atilde;o na imprensa comercial e utilizando as ferramentas da comunica&ccedil;&atilde;o conforme as suas pr&oacute;prias demandas. Afinal, como recorda Priscila: &quot;Comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; poder, &eacute; disputa de poder&quot;.<\/p>\n<p><em>*Estudante de Jornalismo da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes da Universidade de S&atilde;o Paulo (ECA\/USP). Esta reportagem faz parte do Projeto Rep&oacute;rter do Futuro, da Obor&eacute;. <\/p>\n<p><\/em>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim como outras diversas comunidades ind\u00edgenas no Brasil, os Guarani Mby\u00e1, que vivem na Zona Sul de S\u00e3o Paulo, encaram o desafio de assumir o papel de sujeito no campo da comunica\u00e7\u00e3o e, por meio de diversas m\u00eddias, difundem a sua cultura e fortalecem suas lutas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[327],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18735"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18735"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18735\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18735"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18735"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18735"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}