{"id":18696,"date":"2007-07-10T14:53:17","date_gmt":"2007-07-10T14:53:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18696"},"modified":"2007-07-10T14:53:17","modified_gmt":"2007-07-10T14:53:17","slug":"os-poderes-ocultos-na-democracia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18696","title":{"rendered":"Os poderes ocultos na \u201cdemocracia\u201d brasileira"},"content":{"rendered":"<p><span>Os poderes econ&ocirc;micos e midi&aacute;tico s&atilde;o irm&atilde;os g&ecirc;meos que, de bra&ccedil;os dados, numa sociedade neoliberal, seq&uuml;estraram, em grande parte, os poderes executivo, legislativo e judici&aacute;rio. A teoria da separa&ccedil;&atilde;o dos poderes executivo, legislativo e judici&aacute;rio nasce com o Estado constitucional moderno como fundamento de uma sociedade onde o poder do Estado seja limitado, impedindo que o absolutismo anule a liberdade e mantenha privil&eacute;gios heredit&aacute;rios insustent&aacute;veis em uma sociedade que busca a igualdade. Os tr&ecirc;s poderes aut&ocirc;nomos foram um avan&ccedil;o em rela&ccedil;&atilde;o ao absolutismo de Luiz XIV e seus descendentes.<\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute; mais de duzentos anos que todo Estado que pretende ser democr&aacute;tico deve partir da separa&ccedil;&atilde;o de poderes como meio de evitar abusos, inseguran&ccedil;a e injusti&ccedil;a. &Eacute; claro que este mecanismo n&atilde;o basta para a realiza&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a como busca de dignidade expressa nas condi&ccedil;&otilde;es de vida com oportunidade real para todas as pessoas desenvolverem seu potencial, condi&ccedil;&atilde;o primeira da liberdade. <\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o h&aacute; liberdade efetiva na mis&eacute;ria e exclus&atilde;o. Direitos sociais e econ&ocirc;micos como sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, moradia, trabalho digno com sal&aacute;rio justo que permita a reparti&ccedil;&atilde;o de riquezas, reforma agr&aacute;ria, s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es de exerc&iacute;cio da liberdade e efetividade de uma democracia participativa que d&ecirc; voz a todos a partir dos &uacute;ltimos, de forma que cada pessoa possa ajudar a construir um conceito coletivo de justo, legal, normal e &eacute;tico.<\/p>\n<p><\/span><span>Entretanto, passados muitos anos, percebemos que novos poderes, n&atilde;o constitucionais e n&atilde;o democr&aacute;ticos, desafiaram a estrutura jur&iacute;dica constitucional criada. Fora da estrutura de poder prevista na Constitui&ccedil;&atilde;o se desenvolveram poderes n&atilde;o constitucionais, n&atilde;o legais, fruto da op&ccedil;&atilde;o por um sistema essencialmente injusto, pois fundado no ego&iacute;smo, no individualismo e na competi&ccedil;&atilde;o: o capitalismo.<\/p>\n<p><\/span><span>Com o tempo, no decorrer do s&eacute;culo XX, o poder econ&ocirc;mico tornou-se mais forte que o Estado. O dinheiro passou a financiar campanhas eleitorais e com isto passou a dominar o poder legislativo encarregado de fazer as leis. Logo as leis, em vez de representarem os interesses do povo passaram a representar os interesses dos detentores do capital, do dinheiro. O dinheiro tamb&eacute;m passou a financiar as campanhas dos chefes do poder executivo e com isto os prefeitos, governadores e presidentes passaram a representar os interesses daqueles que financiavam as suas campanhas e n&atilde;o o interesse de todos. Os grandes do poder judici&aacute;rio passaram a ganhar tanto que se encastelaram na classe dominante economicamente. O poder econ&ocirc;mico tornou-se o grande poder em um Estado que pretendia ser democr&aacute;tico. O que deveria ser de todos passou a ser de poucos numericamente, mas poderosos financeiramente.<\/p>\n<p><\/span><span>Finalmente, o poder econ&ocirc;mico, com seu farto dinheiro, dominou a m&iacute;dia no momento em que n&atilde;o bastava produzir mercadorias para vender, mas precisava antes induzir novos consumidores. Os jornais, as r&aacute;dios e as televis&otilde;es passaram a pertencer a cada vez menos pessoas. Estas pessoas, propriet&aacute;rias destes meios de comunica&ccedil;&atilde;o come&ccedil;aram a nos mostrar apenas o que interessava a eles. O pov&atilde;o pode ver apenas as imagens que eles querem que sejam vistas; os pobres podem saber dos fatos apenas na interpreta&ccedil;&atilde;o deles. Os pobres quase n&atilde;o t&ecirc;m op&ccedil;&otilde;es. Tem que assistir a novelas envenenadas pela propaganda intermitente. Tem que assistir aos filmes que eles determinam. Ouvir quem eles convidam para as entrevistas. Entretanto a mentira tem limite e um dia o povo dir&aacute; chega: n&atilde;o h&aacute; liberdade e justi&ccedil;a em uma sociedade fundada na propriedade privada, no ego&iacute;smo, no dinheiro, no lucro, na explora&ccedil;&atilde;o, no individualismo e na competi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Dois poderes ileg&iacute;timos hoje dominam os tr&ecirc;s poderes constitucionais. Para construirmos a sociedade justa, solid&aacute;ria, igualit&aacute;ria, livre e sustent&aacute;vel ecologicamente que sonhamos isto n&atilde;o pode continuar. O povo organizado est&aacute; lutando por democracia econ&ocirc;mica e por &ldquo;reforma agr&aacute;ria no ar&rdquo;.<\/p>\n<p><\/span><span>O poder econ&ocirc;mico n&atilde;o apenas lucra (eufemismo de roubo) na especula&ccedil;&atilde;o financeira, mas faz campanhas publicit&aacute;rias ensurdecedoras para encarcerar grande parte da popula&ccedil;&atilde;o em d&iacute;vidas comerciais. Outro dia, uma revendedora de autom&oacute;veis trombeteava aos quatro ventos: &ldquo;saia de carro novo por apenas R$15,90 por dia.&rdquo; Daqui a pouco, dir&atilde;o: &ldquo;leve um carro novo por apenas 0,80 centavos por hora.&rdquo; Mas n&atilde;o dizem por quantos anos a pessoa ficar&aacute; ref&eacute;m desta e de tantas outras compras que, muitas vezes, s&atilde;o necessidades artificiais criadas pelo imp&eacute;rio do consumo, denunciado por Eduardo Galeano.<\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute; setores econ&ocirc;micos que roubam muito em cima da mis&eacute;ria e da viol&ecirc;ncia. Parece haver uma alian&ccedil;a macabra entre bandidos e grandes empres&aacute;rios do setor de seguran&ccedil;a. Por exemplo, &agrave;s 18 horas, queimam um &ocirc;nibus coletivo em S&atilde;o Paulo; &agrave;s 20 horas, quem incendiou o &ocirc;nibus est&aacute; sentado na poltrona diante do Jornal Nacional da TV Lobo, pois sabe que aquela cena ser&aacute; transmitida para todo o Brasil. O telespectador, ao ver uma cena de viol&ecirc;ncia na TV (ou em Jornais e revistas), recebe em si, como que por inje&ccedil;&atilde;o na veia, o medo. Dissemina-se o medo. Resultado: quem pode se tranca em condom&iacute;nios fechados, cerca el&eacute;trica, seguran&ccedil;a particular. As empresas do setor de seguran&ccedil;a explodem champagne. Logo, uma m&iacute;dia que oferece para a sociedade como card&aacute;pio di&aacute;rio viol&ecirc;ncia, economicismo e baixaria est&aacute; a servi&ccedil;o da classe enriquecida e agride covardemente a maioria da popula&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute;, no Brasil 80 TVs Comunit&aacute;rias a cabo. Por que n&atilde;o podem ser canais abertos? <\/span>Por que h&aacute; persegui&ccedil;&atilde;o cruel &agrave;s R&aacute;dios Comunit&aacute;rias? <\/p>\n<p><span>N&atilde;o basta eleger representantes dos poderes executivo e legislativo. Urge partilhar os poderes econ&ocirc;mico e midi&aacute;tico. Isso s&oacute; se faz com respeito &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o somos obrigados a cumprir leis inconstitucionais, pois as leis inconstitucionais s&atilde;o injustas. Esse tipo de resist&ecirc;ncia acorda consci&ecirc;ncias anestesiadas que s&atilde;o c&uacute;mplices de sistemas opressivos. Urge boicotar leis inconstitucionais como forma contempor&acirc;nea leg&iacute;tima do exerc&iacute;cio do direito constitucional &agrave; resist&ecirc;ncia contra a opress&atilde;o, a injusti&ccedil;a e a exclus&atilde;o. No passado ocorreu o boicote do sal e do tecido ingl&ecirc;s na &Iacute;ndia, o dos &ocirc;nibus segregacionistas no Sul dos Estados Unidos e tantos outros movimentos de resist&ecirc;ncia, na forma de desobedi&ecirc;ncia civil, em todo o mundo, trazendo conquistas fundamentais para a humanidade.<\/p>\n<p><\/span><span>Sigamos sob inspira&ccedil;&atilde;o das parteiras do Egito que, ao fazerem greve e &ldquo;desobedi&ecirc;ncia civil&rdquo;, al&eacute;m de lan&ccedil;ar as bases para a nova Constitui&ccedil;&atilde;o do povo hebreu &#8211; o Dec&aacute;logo &#8211; que tem a defesa da vida como coluna mestra, tornou poss&iacute;vel o nascimento de Mois&eacute;s e de tantos que lutaram pela liberta&ccedil;&atilde;o dos pobres das garras do imp&eacute;rio dos fara&oacute;s.&nbsp; Move-nos a energia revolucion&aacute;ria de Jesus Cristo, de Gandhi, de Luther King, dos Sem Terra que arrebentam as cercas dos latif&uacute;ndios e do sistema educacional.<\/p>\n<p><\/span><span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<\/span><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os poderes econ&ocirc;micos e midi&aacute;tico s&atilde;o irm&atilde;os g&ecirc;meos que, de bra&ccedil;os dados, numa sociedade neoliberal, seq&uuml;estraram, em grande parte, os poderes executivo, legislativo e judici&aacute;rio. 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