{"id":18681,"date":"2007-07-09T16:14:18","date_gmt":"2007-07-09T16:14:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18681"},"modified":"2007-07-09T16:14:18","modified_gmt":"2007-07-09T16:14:18","slug":"a-tv-digital-pode-nos-libertar-do-apartheid","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18681","title":{"rendered":"A TV digital pode nos libertar do apartheid"},"content":{"rendered":"<p>No final dos anos 1980, anunciava-se no Brasil a chegada da televis&atilde;o por assinatura. Dezenas de canais seriam oferecidos ao p&uacute;blico, rompendo os estreitos limites da televis&atilde;o aberta, &uacute;nico modelo de transmiss&atilde;o at&eacute; ent&atilde;o conhecido. A tecnologia chegava para democratizar a TV brasileira, dando finalmente ao telespectador ampla possibilidade de escolha. A partir daquele momento, tornava-se irrelevante discutir a qualidade da programa&ccedil;&atilde;o oferecida. Afinal, com a multiplica&ccedil;&atilde;o de canais, a quest&atilde;o estaria superada. Dali para a frente haveria televis&atilde;o para todos os gostos. Pelo menos, era o que se dizia.<\/p>\n<p>Doce ilus&atilde;o. Combinando o abismo na distribui&ccedil;&atilde;o de renda com a prom&iacute;scua rela&ccedil;&atilde;o existente entre concession&aacute;rios de canais de TV e os poderes p&uacute;blicos, a nova tecnologia serviu para tornar ainda mais perverso o papel da televis&atilde;o no Brasil. Inaugurou-se, com a TV por assinatura, o apartheid televisivo. De um lado, a minoria economicamente privilegiada, com acesso a uma programa&ccedil;&atilde;o um pouco mais diversificada. De outro, a grande maioria &#8211; cerca de 90% da popula&ccedil;&atilde;o, ou 160 milh&otilde;es de brasileiros &#8211; condenada a ver programas que, quase sempre, beiram a indig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O custo da assinatura &eacute; proibitivo para a maioria. Mas mesmo a minoria afortunada, dispondo de mais canais, n&atilde;o se viu contemplada por uma ampla diversidade art&iacute;stica, cultural ou informativa. Melhorou um pouco, mas n&atilde;o muito. Isso porque a nova tecnologia ficou nas m&atilde;os dos mesmos empres&aacute;rios que historicamente controlam a radiodifus&atilde;o no pa&iacute;s. Eles det&ecirc;m quase todos os novos canais, reafirmando na TV por assinatura o oligop&oacute;lio consagrado na TV aberta.<\/p>\n<p>Nada indica que o mesmo n&atilde;o venha a ocorrer com a TV digital, anunciada para entrar no ar, em S&atilde;o Paulo, no pr&oacute;ximo dia 2 de dezembro. Outra vez, vozes que se levantam contra a qualidade do servi&ccedil;o prestado pela televis&atilde;o s&atilde;o contidas sob a alega&ccedil;&atilde;o de que com a nova tecnologia tudo ser&aacute; diferente. E agora os novos canais n&atilde;o se contar&atilde;o mais &agrave;s dezenas, como se previa para o cabo, e sim &agrave;s centenas, digitalizados. Resta perguntar: quem os controlar&aacute;? E de que forma ser&atilde;o utilizados?<\/p>\n<p>As perspectivas n&atilde;o s&atilde;o muito animadoras. H&aacute; fortes ind&iacute;cios de que uma tecnologia, como a da TV digital, capaz de impulsionar a democratiza&ccedil;&atilde;o da oferta televisiva, venha a ser apropriada pelos mesmos grupos que sempre controlaram o setor. S&atilde;o empresas operadoras de um servi&ccedil;o p&uacute;blico atuando estritamente nos limites da l&oacute;gica comercial, determinada pela maximiza&ccedil;&atilde;o dos lucros. Nessa linha, a possibilidade do uso ampliado do espectro reduz e a diversidade da programa&ccedil;&atilde;o ficar&aacute;, outra vez, posta de lado. <\/p>\n<p>A equa&ccedil;&atilde;o &eacute; simples. A digitaliza&ccedil;&atilde;o da TV permite o alargamento das faixas de transmiss&atilde;o. Onde hoje trafega uma programa&ccedil;&atilde;o, poder&atilde;o passar quatro ou mesmo oito. Bem utilizados, outorgados para empresas e institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas capazes de atender diferentes demandas da sociedade, esses canais ampliariam significativamente a oferta de programas, com resultados positivos tanto para o telespectador como para a imensa maioria de produtores. Ganhariam quase todos: o p&uacute;blico, que passaria a ter op&ccedil;&otilde;es reais de programa&ccedil;&atilde;o, e o mercado produtor independente, hoje sem espa&ccedil;o nas grandes redes. Seria o melhor dos mundos: a diversidade art&iacute;stica, cultural e pol&iacute;tica do pa&iacute;s chegando &agrave; casa de todos os brasileiros combinada &agrave; amplia&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho no setor.<\/p>\n<p>No entanto, ao que tudo indica, a nova tecnologia n&atilde;o ser&aacute; usada dessa forma. Aos atuais concession&aacute;rios de canais anal&oacute;gicos ser&aacute; outorgada toda a faixa de 6 megahertz por onde trafegar&atilde;o os sinais digitalizados. E eles far&atilde;o o que bem entenderem nesse amplo espa&ccedil;o. Poder&atilde;o multiplicar as suas pr&oacute;prias programa&ccedil;&otilde;es, o que implicar&aacute; numa defini&ccedil;&atilde;o das imagens um pouco mais baixa (mas ainda semelhante &agrave;quelas que vemos hoje atrav&eacute;s dos DVDs) ou veicular programas &uacute;nicos em alta defini&ccedil;&atilde;o. Infelizmente, a decis&atilde;o, mais uma vez, n&atilde;o levar&aacute; em conta o interesse p&uacute;blico. Prevalecer&aacute; o que for mais rent&aacute;vel.<\/p>\n<p>Dentro da mesma l&oacute;gica, dever&aacute; ser operada a outra novidade trazida pela TV digital: a interatividade ampla. A nova tecnologia abre a possibilidade de integrar &agrave; Internet os milh&otilde;es de aparelhos receptores de televis&atilde;o em uso no pa&iacute;s. Para isso, s&atilde;o necess&aacute;rios conversores a pre&ccedil;os acess&iacute;veis e a reserva de &aacute;reas do espectro para esse tipo de servi&ccedil;o. A tend&ecirc;ncia, observada a l&oacute;gica comercial, ser&aacute; a introdu&ccedil;&atilde;o de uma interatividade simples, capaz apenas de facilitar a venda mais r&aacute;pida dos produtos anunciados pelas redes de TV. Se isso de fato ocorrer, estar&aacute; consagrado o uso med&iacute;ocre de uma tecnologia altamente sofisticada.<\/p>\n<p>Cabe, ainda, entender melhor quais s&atilde;o os atores at&eacute; aqui apontados como os maiores beneficiados pela chegada da TV digital: as empresas concession&aacute;rias de canais de televis&atilde;o. Bens p&uacute;blicos, as concess&otilde;es se tornaram, na pr&aacute;tica, privadas e praticamente heredit&aacute;rias. A constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, ao definir que a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o de uma concess&atilde;o de r&aacute;dio ou TV deva ser aprovada por dois quintos do Congresso Nacional em vota&ccedil;&atilde;o aberta, praticamente tornou perenes os atuais concession&aacute;rios. E sobre o tema h&aacute; um sil&ecirc;ncio quase sagrado. Pesquisadores e jornalistas encontram dificuldade para saber quando come&ccedil;a e quando acaba uma concess&atilde;o desse tipo.<\/p>\n<p>Com muito empenho se soube, por exemplo, que v&aacute;rios per&iacute;odos de outorga vencem nos pr&oacute;ximos meses. Um assunto de grande relev&acirc;ncia social e pol&iacute;tica. Afinal, s&atilde;o esses concession&aacute;rios que ditam a pauta nacional, j&aacute; que a maioria absoluta da popula&ccedil;&atilde;o s&oacute; se informa ou se diverte pela TV. Cabe ent&atilde;o perguntar: ser&aacute; que eles est&atilde;o prestando um bom servi&ccedil;o p&uacute;blico &agrave; popula&ccedil;&atilde;o? Que contribui&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m dado para reduzir a viol&ecirc;ncia, aumentar a solidariedade, promover o desenvolvimento cultural e art&iacute;stico da na&ccedil;&atilde;o? Como est&atilde;o refletindo a diversidade de id&eacute;ias existente no pa&iacute;s, fundamental para o exerc&iacute;cio da democracia? S&atilde;o quest&otilde;es imprescind&iacute;veis para uma an&aacute;lise da qualidade do servi&ccedil;o p&uacute;blico prestado pelos concession&aacute;rios.<\/p>\n<p>E est&aacute; na hora dessa an&aacute;lise ser feita. Sabe-se, por exemplo, que vencem no pr&oacute;ximo dia 5 de outubro as concess&otilde;es da Rede Globo em Bras&iacute;lia, S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte; a da Record, em S&atilde;o Paulo; da Bandeirantes, em S&atilde;o Paulo e Belo Horizonte; da Jornal do Commercio em Recife, entre outras. Seria o momento de avaliarmos publicamente os servi&ccedil;os por elas prestados nos &uacute;ltimos 15 anos, per&iacute;odo de vig&ecirc;ncia das outorgas. Caberia &agrave; sociedade dizer, por exemplo, se est&aacute; satisfeita com a programa&ccedil;&atilde;o que recebe em casa e quais mudan&ccedil;as prop&otilde;e para os pr&oacute;ximos anos. Seria um excelente exerc&iacute;cio democr&aacute;tico, infelizmente ainda desconhecido entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Das respostas sairia o balizamento para as novas concess&otilde;es, as quais, seguindo na linha do aprofundamento da democracia, teriam como princ&iacute;pio b&aacute;sico a garantia da diversidade. Seria o modo de romper com a mesmice atual, na qual a competi&ccedil;&atilde;o pela audi&ecirc;ncia se d&aacute; em torno de f&oacute;rmulas exaustivamente repetidas, desprezando o experimento e a inova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nesse quadro, a &uacute;nica sinaliza&ccedil;&atilde;o positiva, ainda que embrion&aacute;ria, &eacute; a da cria&ccedil;&atilde;o de uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o. Se bem-sucedida, poder&aacute; alterar o panorama sombrio esbo&ccedil;ado at&eacute; aqui. De um lado rompendo com as amarras do mercado, mostrando ao p&uacute;blico a vida que existe al&eacute;m desse limite. De outro, provocando mudan&ccedil;as na pr&oacute;pria televis&atilde;o comercial, confrontada com um telespectador mais exigente, conhecedor da diversidade televisiva, a ele apresentada pela rede p&uacute;blica. Embora estreito, esse parece ser o &uacute;nico caminho existente, pelo menos neste momento, para alterar o panorama desolador vivido pela televis&atilde;o brasileira &agrave;s v&eacute;speras da chegada da TV digital.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final dos anos 1980, anunciava-se no Brasil a chegada da televis&atilde;o por assinatura. 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