{"id":18679,"date":"2007-07-09T15:19:57","date_gmt":"2007-07-09T15:19:57","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18679"},"modified":"2007-07-09T15:19:57","modified_gmt":"2007-07-09T15:19:57","slug":"bndes-dinheiro-publico-para-a-concentracao-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18679","title":{"rendered":"BNDES: dinheiro p\u00fablico para a concentra\u00e7\u00e3o privada"},"content":{"rendered":"<p><span>O BNDES &#8211; banco estatal de fomento &agrave;s pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e governamentais &#8211; acaba de reduzir sua taxa de juro anual de 6% para 4,5% nos financiamentos destinados &agrave;s empresas de comunica&ccedil;&atilde;o social que est&atilde;o incorporando a tecnologia digital ao sistema de TV. O SBT, de S&iacute;lvio Santos, j&aacute; embolsou 9,2 milh&otilde;es de reais do BNDES e tudo indica que a Globo, Bandeirantes, Record e Rede TV tenham conseguido algo parecido, mas sem divulga&ccedil;&atilde;o pela imprensa.<\/p>\n<p><\/span><span>Em princ&iacute;pio, parece um neg&oacute;cio cristalino e inquestion&aacute;vel num pa&iacute;s dominado pelo capitalismo neoliberal. &Eacute; algo que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tamb&eacute;m chamaria de sinal de &quot;prosperidade&quot;. Afinal, grandes empresas est&atilde;o recebendo incentivos do tesouro nacional para modernizarem seu patrim&ocirc;nio &#8211; com a aquisi&ccedil;&atilde;o de equipamentos de &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o. Afinal, o Brasil avan&ccedil;a na tecnologia de ponta que &eacute; usada apenas em alguns poucos pa&iacute;ses ricos e desenvolvidos do mundo globalizado.<\/p>\n<p><\/span><span>Por tr&aacute;s dessa transa&ccedil;&atilde;o aparentemente normal entre Estado e iniciativa privada, est&atilde;o encobertos os equ&iacute;vocos cometidos nas decis&otilde;es governamentais contr&aacute;rios aos interesses do Pa&iacute;s e do povo brasileiro. Se governar &eacute; saber definir corretamente as prioridades, a escolha errada das prioridades denuncia um governo ruim. No caso, a maneira como a ado&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o digital da radiodifus&atilde;o est&aacute; sendo implantada merece uma boa reflex&atilde;o e v&aacute;rios questionamentos &#8211; j&aacute; que caber&aacute; &agrave; sociedade brasileira pagar todas as contas dos eventuais desatinos.<\/p>\n<p><\/span><span>Primeiramente &eacute; preciso questionar porque o Brasil tem urg&ecirc;ncia em mudar todo o sistema de radiodifus&atilde;o para uma tecnologia nova e mais sofisticada. Trata-se realmente de uma prioridade nacional? O sistema atual se tornou invi&aacute;vel? Essa an&aacute;lise &eacute; pertinente porque o investimento feito na nova tecnologia da radiodifus&atilde;o, destinado especialmente para o sistema privado, poderia ser aplicado em outras necessidades mais urgentes, como um programa de moradias, a melhoria do sistema de sa&uacute;de, a abertura de novas universidades federais, a reforma agr&aacute;ria, a moderniza&ccedil;&atilde;o das estradas &#8211; enfim, no atendimento de v&aacute;rias demandas sociais e, ao mesmo tempo, em obras e empreendimentos geradores de mais empregos do que a mudan&ccedil;a do modelo tecnol&oacute;gico.<\/p>\n<p><\/span><span>Talvez a mais forte justificativa para a mudan&ccedil;a de tecnologia esteja no fato de que o modelo digital possibilita democratizar o sistema de radiodifus&atilde;o existente, na medida em que multiplica a capacidade de canais abertos de TV e abre espa&ccedil;o para a concess&atilde;o de novos canais p&uacute;blicos e comunit&aacute;rios &#8211; para segmentos e setores da sociedade exclu&iacute;dos e sem acesso aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Somente a democratiza&ccedil;&atilde;o efetiva do sistema pode justificar uma pol&iacute;tica p&uacute;blica voltada para essa moderniza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica da radiodifus&atilde;o.<\/span><span>Em segundo lugar, ainda n&atilde;o est&aacute; claro para a sociedade porque o governo optou pelo modelo digital japon&ecirc;s, defendido pela TV Globo, e desprezou o modelo brasileiro desenvolvido por pesquisadores de v&aacute;rias universidades. &Eacute; algo incompreens&iacute;vel que se abra m&atilde;o do dom&iacute;nio do conhecimento e da tecnologia, com patente brasileira, para se adotar um modelo importado. Como &eacute; poss&iacute;vel que o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es e o presidente da Rep&uacute;blica tenham escolhido a tecnologia japonesa sem que a sociedade, a comunidade cient&iacute;fica e universit&aacute;ria, o Congresso Nacional, os trabalhadores e o Judici&aacute;rio tenham debatido democraticamente tal decis&atilde;o? Est&aacute; claro que a op&ccedil;&atilde;o feita &eacute; danosa ao Brasil, n&atilde;o apenas por aumentar a depend&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica, mas, sobretudo, por aumentar a evas&atilde;o dos recursos financeiros, o pagamento de royalties e a remessa de lucros para o exterior. Com certeza o Brasil perdeu uma boa chance de estimular o crescimento de seu parque industrial, a gera&ccedil;&atilde;o de empregos mais qualificados e de desenvolver uma tecnologia que pudesse ser compartilhada no Mercosul e com todos os pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Dinheiro p&uacute;blico<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Em terceiro, precisam ser questionadas as raz&otilde;es que levaram o governo federal a oferecer dinheiro p&uacute;blico para o programa de mudan&ccedil;a tecnol&oacute;gica, com juros privilegiados, sabendo que o setor da radiodifus&atilde;o &eacute; altamente concentrado e controlado por alguns poucos grupos empresariais privados. &Eacute; mais dif&iacute;cil entender porque as mesmas condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o oferecidas aos pequenos agricultores, comerciantes e industriais que tenham projetos de expans&atilde;o, j&aacute; que estes t&ecirc;m possibilidade de gerar mais empregos e movimentar mais a economia do que a mudan&ccedil;a de tecnologia dos grupos privados da radiodifus&atilde;o. Enquanto o cidad&atilde;o comum, no seu dia-a-dia paga juro m&iacute;nimo de 3% ao m&ecirc;s, nos financiamentos e compras a cr&eacute;dito, e a maior parte dos agricultores, comerciantes e industriais precisa se socorrer no sistema banc&aacute;rio privado, submetidos &agrave; agiotagem legalizada dos mercados, os grandes grupos da comunica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m linha de cr&eacute;dito especial no BNDES com 4,5% ao ano. Tudo indica que essa &eacute; apenas mais uma forma de transferir renda e recursos p&uacute;blicos para uma minoria empresarial e rica do Pa&iacute;s.<\/p>\n<p><\/span><span>Finalmente, a sociedade precisa questionar porque os crit&eacute;rios adotados pelo BNDES s&atilde;o preenchidos facilmente pelos grandes grupos e n&atilde;o pelas emissoras isoladas. Tudo indica que a linha de cr&eacute;dito foi montada para favorecer a incorpora&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o digital pelas principais redes de TV e deixar de fora as emissoras com poucos recursos patrimoniais e financeiros, as pequenas redes locais, educativas, universit&aacute;rias e comunit&aacute;rias. Uma das exig&ecirc;ncias do Programa de Apoio &agrave; Implementa&ccedil;&atilde;o do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (PROTVD) &eacute; o valor m&iacute;nimo do financiamento fixado em R$5 milh&otilde;es, com garantias pessoais, algo completamente fora da realidade da grande maioria das emissoras isoladas de TV.<\/p>\n<p><\/span><span>Mais uma vez a decis&atilde;o governamental parece apenas uma exig&ecirc;ncia de garantia financeira, uma medida recomend&aacute;vel para assegurar que o financiamento do BNDES tenha o devido retorno. No entanto, as restri&ccedil;&otilde;es colocadas provocam conseq&uuml;&ecirc;ncias diretas na realidade do sistema de radiodifus&atilde;o, entre as quais o distanciamento tecnol&oacute;gico &#8211; de qualidade nas transmiss&otilde;es &#8211; entre a elite poderosa dos concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o e os demais concession&aacute;rios; a disputa desigual da audi&ecirc;ncia e no faturamento comercial; e, mais grave, a real possibilidade de ocorrer maior concentra&ccedil;&atilde;o do sistema de comunica&ccedil;&atilde;o social nas m&atilde;os das grandes redes.<\/p>\n<p><\/span><span>Nas condi&ccedil;&otilde;es atuais, as emissoras isoladas de TV n&atilde;o ter&atilde;o recursos pr&oacute;prios para comprar a nova tecnologia, correm o risco de serem incorporadas pelos grandes grupos ou deixar&atilde;o de existir nos pr&oacute;ximos anos, j&aacute; que o modelo digital come&ccedil;a a vigorar no dia 2 de dezembro deste ano. Ou seja, o &quot;avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico&quot; for&ccedil;ado, n&atilde;o priorit&aacute;rio para o Brasil, ao inv&eacute;s de proporcionar a democratiza&ccedil;&atilde;o do sistema de radiodifus&atilde;o, se transformou em mais um mecanismo contr&aacute;rio &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o e que favorece ainda mais a concentra&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o social. <\/span>Tudo isso com a coniv&ecirc;ncia deliberada do governo federal.<\/p>\n<p><em>* <span>Hamilton Octavio de Souza &eacute; jornalista e professor da PUC-SP.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O BNDES &#8211; banco estatal de fomento &agrave;s pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e governamentais &#8211; acaba de reduzir sua taxa de juro anual de 6% para 4,5% nos financiamentos destinados &agrave;s empresas de comunica&ccedil;&atilde;o social que est&atilde;o incorporando a tecnologia digital ao sistema de TV. O SBT, de S&iacute;lvio Santos, j&aacute; embolsou 9,2 milh&otilde;es de reais do &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18679\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">BNDES: dinheiro p\u00fablico para a concentra\u00e7\u00e3o privada<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18679"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18679"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18679\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}