{"id":18660,"date":"2007-07-04T15:51:00","date_gmt":"2007-07-04T15:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18660"},"modified":"2007-07-04T15:51:00","modified_gmt":"2007-07-04T15:51:00","slug":"o-fator-murdoch-la-e-ca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18660","title":{"rendered":"O fator Murdoch, l\u00e1 e c\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>A edi&ccedil;&atilde;o de s&aacute;bado (30\/6) de O Globo (p&aacute;g. 36) reproduz um veemente libelo do colunista do New York Times, Paul Krugman, contra a compra do Wall Street Journal pelo tubar&atilde;o da m&iacute;dia Rupert Murdoch (&quot;O fator Murdoch na m&iacute;dia americana&quot;, ver abaixo).<\/p>\n<p>A mat&eacute;ria &eacute; triplamente merit&oacute;ria: a) pelo conte&uacute;do; b) pela revela&ccedil;&atilde;o de que o NYTimes manifesta-se ostensivamente sobre os neg&oacute;cios do concorrente e, c) pelo fato de levar um jornal&atilde;o brasileiro a discutir em p&uacute;blico a quest&atilde;o da propriedade de um ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o. Ainda que em outro mercado, no hemisf&eacute;rio norte [ver remiss&otilde;es abaixo]. <\/p>\n<p>A imprensa brasileira deixou de se expor &agrave; opini&atilde;o p&uacute;blica. Discute tudo, menos a vida &iacute;ntima das empresas jornal&iacute;sticas. A imprensa brasileira deixou de brigar pela integridade da imprensa brasileira. Mas o que se passa dentro de uma empresa jornal&iacute;stica &eacute; de interesse da sociedade. <\/p>\n<p><strong>Pacto de sil&ecirc;ncio<\/strong><\/p>\n<p>Se Murdoch efetivamente comprar o poderoso Wall Street Journal, ficar&aacute; em Nova York com dois jornais &ndash; o New York Post, que atua no segmento popular, e o jornal&atilde;o de neg&oacute;cios, um dos mais influentes di&aacute;rios do mundo, o WSJ.<\/p>\n<p>O NYTimes tem obriga&ccedil;&atilde;o de discutir isso publicamente porque Murdoch, al&eacute;m de tubar&atilde;o, &eacute; um dos maiores reacion&aacute;rios no mundo da m&iacute;dia. N&atilde;o respeita os princ&iacute;pios de isen&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tem o menor apre&ccedil;o pelo equil&iacute;brio dos ve&iacute;culos que coleciona e, al&eacute;m disso, tem o maior desprezo pelo que pensam os seus empregados. Mesmo os do primeiro escal&atilde;o.<\/p>\n<p>Os EUA est&atilde;o discutindo a compra do WSJ e assim tamb&eacute;m a opini&atilde;o p&uacute;blica inglesa, porque Murdoch j&aacute; &eacute; dono do Times de Londres e ao acrescentar um jornal&atilde;o americano ao seu formid&aacute;vel portf&oacute;lio tornar-se-&aacute; imbat&iacute;vel.<\/p>\n<p>Se o NYTimes n&atilde;o discutisse a compra do concorrente estaria traindo os interesses dos seus leitores e dos seus anunciantes. Se ficasse omisso, seria acusado de c&uacute;mplice e irrespons&aacute;vel. Sua biografia ficaria indelevelmente comprometida.<\/p>\n<p>No Brasil, &eacute; diferente. A imprensa &eacute; um dos poucos tabus da nossa imprensa. Foi estabelecido um pacto de sil&ecirc;ncio em torno da m&iacute;dia em geral e dos jornais, em particular. A ANJ (Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornais, que transcende ao segmento di&aacute;rio e em algumas quest&otilde;es abarca tamb&eacute;m os seman&aacute;rios, a despeito da exist&ecirc;ncia da ANER, entidade revisteira) adota rigorosos c&oacute;digos de conduta. <\/p>\n<p><strong>Primeira grandeza<\/strong><\/p>\n<p>O pluralismo e a diversidade da nossa m&iacute;dia s&atilde;o condicionados pelo corporativismo desta mesma m&iacute;dia. A pauta dos jornais brasileiros teoricamente tem poucas limita&ccedil;&otilde;es &ndash; em princ&iacute;pio a grande imprensa trata de tudo. A realidade &eacute; outra: uma vaca sagrada verdadeiramente intoc&aacute;vel foi instalada no &acirc;mago da nossa imprensa e impede que a sociedade seja informada do que se passa intramuros.<\/p>\n<p>Significa que nosso jornalismo &ndash; por melhor e mais brilhante que seja nos seus aspectos formais, intelectuais e operacionais &ndash; est&aacute; proibido de ser absolutamente transparente. Em certas disciplinas &eacute; assumidamente opaco. N&atilde;o por culpa de poderosos governos ou delirantes caudilhos, mas por op&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria. Voca&ccedil;&atilde;o suicida. Nossa imprensa transgride voluntariamente uma das suas principais fun&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o consegue perceber que perde o direito de exigir transpar&ecirc;ncia e limpidez nas diferentes esferas da sociedade. <\/p>\n<p>Quando o jornalista-empres&aacute;rio Ary de Carvalho tomou O Dia do deputado-empres&aacute;rio Chagas Freitas (que, por sua vez, o havia tomado de Ademar de Barros), o assunto n&atilde;o vazou, circunscrito &agrave;s conversas de bar. Chagas Freitas foi durante duas d&eacute;cadas o presidente do Sindicato das Empresas Propriet&aacute;rias de Jornais do Rio de Janeiro, precursor da ANJ. N&atilde;o obstante, foi atropelado pelo pragmatismo\/corporativismo dos ex-parceiros &ndash; &quot;o rei &eacute; morto, viva o rei&quot;. A imprensa americana ou inglesa ou alem&atilde; ou francesa ou espanhola, jamais manteria este assunto na gaveta. [Ver, neste Observat&oacute;rio, &quot;O Rei est&aacute; morto, viva o Rei&quot;)<\/p>\n<p>Os procedimentos e neg&oacute;cios do empres&aacute;rio Nelson Tanure nunca foram examinados pelos seus pares. Mesmo o seu ex&oacute;tico hobby de colecionar ou alugar moribundos (Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, CNT, Isto&Eacute;) n&atilde;o consegue despertar o interesse de uma imprensa geralmente t&atilde;o sens&iacute;vel aos esc&acirc;ndalos. <\/p>\n<p>O Globo iniciou uma formid&aacute;vel s&eacute;rie de reportagens sobre &quot;Impunidade&quot;. Mais do que investiga&ccedil;&atilde;o, &eacute; uma magn&iacute;fica exibi&ccedil;&atilde;o de um dos principais atributos e deveres da imprensa: sua capacidade de lembrar e referenciar. No domingo (1\/7), &agrave; p&aacute;gina 3, um quadro simples e aterrador: os dez esc&acirc;ndalos dos &uacute;ltimos dez anos, todos impunes. Come&ccedil;a com os precat&oacute;rios (1997) e termina com os sanguessugas (2006). <\/p>\n<p>Ficou de fora o esc&acirc;ndalo da compra do Dossi&ecirc; Vedoin para ser publicado no seman&aacute;rio Isto&Eacute;, um dos &uacute;nicos casos em que a infal&iacute;vel Pol&iacute;cia Federal reconheceu a sua falibilidade. Crime eleitoral de primeira grandeza e cujo piv&ocirc; era um ve&iacute;culo jornal&iacute;stico. Sobrou. Esc&acirc;ndalo na m&iacute;dia n&atilde;o serve &agrave; nossa m&iacute;dia. <\/p>\n<p><strong>Entrevista ignorada<\/strong><\/p>\n<p>No domingo 24\/6, a Folha de S.Paulo publicou com enorme destaque uma entrevista com aquela que no dia seguinte ela pr&oacute;pria classificaria como &quot;Musa do Esc&acirc;ndalo&quot;, M&ocirc;nica Veloso, a ex-namorada do senador Renan Calheiros. <\/p>\n<p>Com sutileza e alguma mal&iacute;cia, o jornal revelou o perfil da testemunha-chave da revista Veja sem contudo desqualificar o teor das graves acusa&ccedil;&otilde;es contra o senador. Como a mo&ccedil;a quer aparecer, a Folha fez a sua vontade &ndash; mostrou-a. <\/p>\n<p>Arrependeu-se: a entrevista passou uma semana inteira completamente ignorada pelos agil&iacute;ssimos e atentos leitores da Folha de S.Paulo. Inacredit&aacute;vel: de segunda (25\/6) a segunda (2\/7), uma das se&ccedil;&otilde;es de cartas mais din&acirc;micas da grande imprensa deixou de lado uma mat&eacute;ria superbadalada, picante, trepidante, politicamente incorreta por&eacute;m muito reveladora sobre os bastidores do nosso jornalismo investigativo. <\/p>\n<p>Rupert Murdoch, o rei da manipula&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o aprovaria este sil&ecirc;ncio. <\/p>\n<p>*** <\/p>\n<p><strong>O fator Murdoch na m&iacute;dia americana<\/strong><\/p>\n<p><em>Paulo Krugman # copyright The New York Times (29\/6) e O Globo (30\/6)<\/em><\/p>\n<p>Em outubro de 2003, o Programa de Posturas Pol&iacute;ticas Internacionais publicou um estudo chamado &quot;Enganos, a m&iacute;dia e a Guerra do Iraque&quot;. Ele mostrava que 60% dos americanos acreditavam em pelo menos uma das afirma&ccedil;&otilde;es: havia provas da liga&ccedil;&atilde;o entre Iraque e Al-Qaeda; foram encontradas armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa no Iraque; a opini&atilde;o p&uacute;blica apoiava a guerra dos EUA contra o Iraque.<\/p>\n<p>Esses enganos, por&eacute;m, dependiam da fonte das not&iacute;cias. S&oacute; 23% dos que assistiam os canais p&uacute;blicos PBS ou NPR acreditavam que alguma dessas afirma&ccedil;&otilde;es fosse verdadeira, mas o percentual chegava a 80% nos que recorriam &agrave; Fox News. Dois ter&ccedil;os dos f&atilde;s da Fox acreditavam que os EUA tinham provas de que Saddam Hussein cooperasse com a Al-Qaeda.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, algu&eacute;m acha que est&aacute; tudo bem a News Corp., de Rupert Murdoch, que controla a Fox News, comprar o Wall Street Journal? O problema com Murdoch n&atilde;o &eacute; que ele seja um ide&oacute;logo da direita. Se fosse apenas isso, ele seria menos perigoso. Ele &eacute;, antes, um oportunista que explora um ambiente de m&iacute;dia desregulamentado por meio da distor&ccedil;&atilde;o do notici&aacute;rio para favorecer quem ele acredita que ajudar&aacute; seus neg&oacute;cios.<\/p>\n<p>Nos EUA, essa estrat&eacute;gia significou o favorecimento do governo Bush &ndash; mas ano passado ele se protegeu arrecadando fundos para a campanha de Hillary Clinton ao Senado. Na Gr&atilde;-Bretanha, Murdoch apoiou Tony Blair em 1997 e deu-lhe uma cobertura favor&aacute;vel, &quot;assegurando&quot;, diz o New York Times, &quot;que o novo governo deixasse intactos seus ativos brit&acirc;nicos&quot;. E, na China, as organiza&ccedil;&otilde;es de Murdoch cuidaram de n&atilde;o ofender a ditadura.<\/p>\n<p>O pessoal de Murdoch n&atilde;o faz afirma&ccedil;&otilde;es falsas: eles induzem ao engano por indiretas. Nos primeiros meses da ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque, a Fox cobriu exaustivamente cada relat&oacute;rio de poss&iacute;veis armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa, com pouco ou nenhum espa&ccedil;o para a posterior descoberta de que fora um alarme falso.<\/p>\n<p>Quando tudo falha, as empresas jornal&iacute;sticas de Murdoch simplesmente param de cobrir assuntos inconvenientes. O Projeto para Excel&ecirc;ncia no Jornalismo apurou que, no primeiro trimestre de 2007, os programas diurnos da Fox News dedicaram apenas 6% de seu tempo &agrave; Guerra no Iraque, contra 18% na MSNBC e 20% na CNN. O que tomou o lugar do Iraque?<\/p>\n<p>Anna Nicole Smith, com 17% do espa&ccedil;o da Fox.<\/p>\n<p>Os defensores da oferta de Murdoch pelo Journal afirmam que n&atilde;o devemos julg&aacute;-lo pela Fox News, mas por sua condu&ccedil;&atilde;o do vener&aacute;vel Times de Londres, que ele comprou em 1981. Realmente, o vi&eacute;s pol&iacute;tico do Times &eacute; muito menos &oacute;bvio que o da Fox News. Mas v&aacute;rios funcion&aacute;rios do Times disseram ter havido press&otilde;es para manipular a cobertura &ndash; e todos que vi defenderem a administra&ccedil;&atilde;o de Murdoch ainda est&atilde;o em sua folha de pagamento.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; obst&aacute;culos legais &agrave; compra do Journal pela News Corp. Mas a press&atilde;o da sociedade poderia evitar isso. Talvez o Congresso pudesse fazer audi&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Se Murdoch comprar o Journal, ser&aacute; um dia triste para a m&iacute;dia e a democracia americanas. Se houvesse justi&ccedil;a, Murdoch, que fez mais que qualquer um no jornalismo para levar os EUA a uma guerra injustific&aacute;vel e desastrosa, seria um p&aacute;ria desacreditado. Em vez disso, ele est&aacute; expandindo seu imp&eacute;rio. [Paul Krugman &eacute; colunista do New York Times]<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A edi&ccedil;&atilde;o de s&aacute;bado (30\/6) de O Globo (p&aacute;g. 36) reproduz um veemente libelo do colunista do New York Times, Paul Krugman, contra a compra do Wall Street Journal pelo tubar&atilde;o da m&iacute;dia Rupert Murdoch (&quot;O fator Murdoch na m&iacute;dia americana&quot;, ver abaixo). A mat&eacute;ria &eacute; triplamente merit&oacute;ria: a) pelo conte&uacute;do; b) pela revela&ccedil;&atilde;o de &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18660\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">O fator Murdoch, l\u00e1 e c\u00e1<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18660"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18660\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}