{"id":18622,"date":"2007-06-29T12:55:03","date_gmt":"2007-06-29T12:55:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18622"},"modified":"2007-06-29T12:55:03","modified_gmt":"2007-06-29T12:55:03","slug":"em-busca-da-democracia-comunicacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18622","title":{"rendered":"Em busca da democracia comunicacional"},"content":{"rendered":"<p>Mattelart esteve no Brasil durante o III Enecult para afirmar que o bom momento de di&aacute;logo sobre pol&iacute;ticas culturais &eacute; resultado da evolu&ccedil;&atilde;o do pensamento sobre cultura nascido no fim dos anos 60 e calado pelo pensamento neoliberal entre os anos 80 e 90: &ldquo;A Conven&ccedil;&atilde;o da Unesco sobre a Diversidade Cultural&quot;, aprovada em 2005, legitima esse pensamento da cultura dissociada dos grandes meios de produ&ccedil;&atilde;o&rdquo;.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva ao 100canais, Mattelart foi explicativo ao relembrar o nascimento e o silenciamento dos debates sobre diversidade e criticou o distanciamento vision&aacute;rio dos movimentos sociais sobre cultura e avaliou positivamente a gest&atilde;o de Gilberto Gil no Minist&eacute;rio da Cultura, mas pontuou que nada adianta o trabalho do Gil se o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o compartilha dos mesmos princ&iacute;pios de empoderamento que a diversidade cultural pode proporcionar.&nbsp;<\/p>\n<p>&ldquo;Todo esse debate &eacute; sobre o que &eacute; uma democracia comunicacional. Como implantar uma pol&iacute;tica cultural pela diversidade cultural se a pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&atilde;o tira das m&atilde;os da sociedade as ferramentas e tecnologias para exercer seus direitos? &Eacute; preciso abrir o acesso das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, abrir o espectro, democratizar&rdquo;, atacou Mattelart, sobre o ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, que defende os interesses dos grandes radiodifusores.&nbsp;<\/p>\n<p>Leia os principais trechos da entrevista:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De onde vem o conceito de &ldquo;pol&iacute;ticas culturais&rdquo;?<br \/><\/strong>Armand Mattelart &ndash; Tradicionalmente, a no&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas culturais nasce a partir da discuss&atilde;o internacional da Unesco, no princ&iacute;pio dos anos 70. A discuss&atilde;o sobre pol&iacute;ticas culturais surge com o aprimoramento da vis&atilde;o de democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso aos bens culturais. At&eacute; ent&atilde;o, predominava a leitura sobre cultura nos pensamentos do Iluminismo. O interessante &eacute; que, ao mesmo tempo, a rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a entre as delega&ccedil;&otilde;es dos pa&iacute;ses do sul e do norte na Unesco ficou equilibrada. Os pa&iacute;ses do terceiro mundo eram maioria. Assim, a problem&aacute;tica da rela&ccedil;&atilde;o entre a comunica&ccedil;&atilde;o e os povos virou pauta. E, mais tarde, na Confer&ecirc;ncia da Unesco no M&eacute;xico, em 1982, j&aacute; se reivindicava a necessidade de pol&iacute;ticas culturais, com princ&iacute;pios antropol&oacute;gicos. Com isso, avan&ccedil;a a consci&ecirc;ncia de elaborar pol&iacute;ticas de democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, para que seja respeitado o que se denominou direito humano &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Isso se legitima no relat&oacute;rio &ldquo;Um Mundo, V&aacute;rias Vozes&rdquo; de McBride. E foi no M&eacute;xico que, pela primeira vez, reivindicou-se que pol&iacute;ticas de democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o andassem juntas com pol&iacute;ticas culturais.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas a Unesco perdeu for&ccedil;a depois disso&#8230;<br \/><\/strong>Sim. Os Estados Unidos e a Inglaterra abandonaram a Unesco. Sendo eles os grandes patrocinadores do &oacute;rg&atilde;o, a Unesco ficou enfraquecida. Depois de um tempo, houve um momento de hiberna&ccedil;&atilde;o sobre os debates dessa quest&atilde;o. O que ocorre &eacute; que a Unesco progressivamente voltava a compreender a cultura relacionada &agrave;s problem&aacute;ticas da sociedade. Passou-se a discutir, ent&atilde;o, o problema das ind&uacute;strias culturais, sistemas e concentra&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, o di&aacute;logo das culturas. E a Conven&ccedil;&atilde;o da Unesco sobre a Diversidade Cultural, aprovada em 2005, legitima esse pensamento da cultura dissociada dos grandes meios de produ&ccedil;&atilde;o. A sociedade civil envolvida nesse processo, nesse pensamento, passou a compreender que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ent&atilde;o estabelecer pol&iacute;ticas culturais sem pensar tamb&eacute;m pol&iacute;ticas de democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; imposs&iacute;vel pensar pol&iacute;ticas culturais dissociadas das pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o. H&aacute; necessidade de descentraliza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Acesso &agrave; palavra. Acesso &agrave;s ondas de r&aacute;dios. Diversidade cultural.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E como a Conven&ccedil;&atilde;o se concretiza de fato em pol&iacute;ticas nos pa&iacute;ses que a ratificaram?<br \/><\/strong>Primeiro &eacute; fundamental lembrar que essa movimenta&ccedil;&atilde;o toda trouxe os Estados Unidos de volta para a Unesco. Que votou, junto com Israel, contra a Diversidade Cultural. Agora, em todos os pa&iacute;ses, at&eacute; mesmo na Fran&ccedil;a [que, segundo Mattelart, tem grande tradi&ccedil;&atilde;o na implanta&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas culturais] a vis&atilde;o de identidade nacional ainda est&aacute; associada &agrave; express&atilde;o de seus grandes campe&otilde;es, de seus &iacute;dolos. Quando os movimentos sociais estiverem participando de forma mais efetiva e utiliz&aacute;-la como instrumento e fim de suas lutas, percebendo que a cultura &eacute; transversal a todos os outros direitos reivindicados, avan&ccedil;aremos.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como a academia est&aacute; trabalhando a rela&ccedil;&atilde;o com o Estado nessa quest&atilde;o hoje?<br \/><\/strong>No princ&iacute;pio dos anos 80, houve um processo de desregulamenta&ccedil;&atilde;o conceitual. Com a entrada das desregulamenta&ccedil;&otilde;es das pol&iacute;ticas, gerada pelo processo de globaliza&ccedil;&atilde;o, todos perderam a no&ccedil;&atilde;o do que &eacute; pol&iacute;tica p&uacute;blica. E a unidade acad&ecirc;mica acaba refugiando-se nos novos conceitos neoliberais. S&oacute; depois surge a proposta de quebra com o conceito anti-globaliza&ccedil;&atilde;o e com a prote&ccedil;&atilde;o das express&otilde;es culturais. Eu penso que &eacute; muito concreto que, nos anos 80 e 90, a universidade caiu no culturalismo. Um dos &iacute;ndices que nos apontam isso &eacute; a prolifera&ccedil;&atilde;o de estudos sobre consumo cultural em contraste com a aus&ecirc;ncia no estudo da produ&ccedil;&atilde;o. Hoje, acredito que &eacute; poss&iacute;vel tratar a cultura n&atilde;o apenas no economicismo e nem no culturalismo. Reconciliar os aspectos da cultura &eacute; fundamental. A economia pol&iacute;tica da comunica&ccedil;&atilde;o e da cultura precisa ser abra&ccedil;ada pela academia.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gostaria que o sr. fizesse uma avalia&ccedil;&atilde;o de Gilberto Gil no Minist&eacute;rio da Cultura do Brasil.<br \/><\/strong>&Eacute; positiva minha avalia&ccedil;&atilde;o sobre Gilberto Gil. Mas o importante &eacute; que o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o compartilha da mesma vis&atilde;o sobre a comunica&ccedil;&atilde;o e a cultura que Gil e sua time. Todo esse debate &eacute; sobre o que &eacute; uma democracia comunicacional. Como implantar uma pol&iacute;tica cultural pela diversidade cultural se a pol&iacute;tica de comunica&ccedil;&atilde;o tira das m&atilde;os da sociedade as ferramentas e tecnologias para exercer seus direitos? &Eacute; preciso abrir o acesso das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, abrir o espectro, democratizar. O Gil &eacute; bom, mas n&atilde;o &eacute; o ideal, porque seu governo n&atilde;o compartilha de sua vis&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n<p><em>(*) Carlos Gustavo Yoda cobriu o evento a convite da organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/font><\/em>permitida a reprodu&ccedil;&atilde;o, desde que citada a fonte original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Conven\u00e7\u00e3o da Unesco precisa dos movimentos sociais para partir para a pr\u00e1xis&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[282,303],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18622"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18622"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18622\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}