{"id":18612,"date":"2007-06-28T12:38:06","date_gmt":"2007-06-28T12:38:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18612"},"modified":"2007-06-28T12:38:06","modified_gmt":"2007-06-28T12:38:06","slug":"tv-digital-quem-e-que-vai-as-compras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18612","title":{"rendered":"TV Digital: quem \u00e9 que vai \u00e0s compras?"},"content":{"rendered":"<p><span>O decreto assinado pelo presidente Lula em junho de 2006 (que institui o SBTVD-T) estabelece que o tempo de transi&ccedil;&atilde;o da TV anal&oacute;gica para a digital&nbsp;ser&aacute; de 10 anos. Ou seja, em 2016 todas as transmiss&otilde;es anal&oacute;gicas seriam desligadas e s&oacute; os sinais digitais poderiam ser captados pelos televisores. O desligamento dos sinais anal&oacute;gicos &eacute; chamado de switch-off, momento em que, em tese, os canais anal&oacute;gicos seriam &ldquo;devolvidos&rdquo; &agrave; Uni&atilde;o. Em S&atilde;o Paulo, cidade escolhida para dar inicio &agrave; migra&ccedil;&atilde;o, as transmiss&otilde;es come&ccedil;am em dezembro deste ano. Em tese, &eacute; claro, pois j&aacute; tem gente admitindo que o prazo n&atilde;o ser&aacute; cumprido.<\/p>\n<p><\/span><span>Para que a transi&ccedil;&atilde;o siga adiante, duas coisas precisam acontecer:<\/p>\n<p><\/span><span>Primeiro, as emissoras precisam trocar seu parque de transmiss&atilde;o anal&oacute;gico por um novo, digital. Isso n&atilde;o &eacute; trivial, especialmente em cidades m&eacute;dias e pequenas, onde o faturamento das emissoras &eacute; pequeno e o financiamento do BNDES esbarrar&aacute; na j&aacute; tradicional necessidade excessiva de garantias ou no alto valor m&iacute;nimo para a concess&atilde;o de empr&eacute;stimos. Como a TV brasileira n&atilde;o &eacute; o Jardim Bot&acirc;nico, d&aacute; para imaginar a dificuldade que ser&aacute; fazer isso no interior do Brasil.<\/p>\n<p><\/span><span>Segundo, a popula&ccedil;&atilde;o precisa comprar conversores (tamb&eacute;m chamados de set top boxes) ou novos televisores que j&aacute; venham com os receptores digitais. Sem isso, as emissoras podem at&eacute; irradiar o sinal digital, mas ningu&eacute;m ir&aacute; assisti-lo. Ou seja, para que a TV digital se torne uma realidade, a popula&ccedil;&atilde;o precisar&aacute; ir &agrave;s compras. E. para que o cidad&atilde;o compre um conversor (j&aacute; que o Brasil n&atilde;o &eacute; o Jap&atilde;o e aqui ningu&eacute;m troca de televisores a cada cinco anos), &eacute; preciso que algo o mova a faz&ecirc;-lo. Sem motiva&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel, ningu&eacute;m o far&aacute;. <\/p>\n<p><\/span><span>E &eacute; a&iacute; que reside o problema:&nbsp;a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ter&aacute; motivos para comprar o conversor. Ao contr&aacute;rio, ter&aacute; motivos para n&atilde;o faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p><\/span><span>Vejamos:<\/p>\n<p><\/span><span>1. A TV digital, com a edi&ccedil;&atilde;o do decreto 4.901 de 2003, passou a ter&nbsp; como objetivo se consolidar como um instrumento de inclus&atilde;o social a partir do oferecimento de servi&ccedil;os interativos, tanto aqueles de interesse p&uacute;blico (e-gov, e-banking, email, educa&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia, etc) quanto os de interesse de mercado (vendas on-line, etc). Al&eacute;m disso, estes servi&ccedil;os interativos serviriam como porta de entrada de muitos brasileiros &agrave; Internet, tendo em vista que, segundo o pr&oacute;prio IBGE, mais da metade da popula&ccedil;&atilde;o brasileira jamais acessou a rede mundial de computadores. Dessa forma, a interatividade constituir-se-ia em um diferencial relevante em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; TV anal&oacute;gica e poderia mover a popula&ccedil;&atilde;o a comprar os conversores.<\/p>\n<p><\/span><span>Acontece que a TV digital brasileira n&atilde;o ser&aacute; interativa. Recentemente, o governo anunciou que (1) o middlleware Ginga (desenvolvido para processar a interatividade), n&atilde;o ser&aacute; embarcado nos conversores porque &ldquo;n&atilde;o est&aacute; pronto&rdquo;, (2) os conversores mais simples, mesmo ap&oacute;s a conclus&atilde;o dos testes com o Ginga, n&atilde;o obrigatoriamente ter&atilde;o embarcados o middlleware e, portanto, n&atilde;o ter&atilde;o capacidade de processar a interatividade. Em portugu&ecirc;s simples significa dizer que, neste ponto, a TV digital ser&aacute; exatamente igual &agrave; anal&oacute;gica: sem interatividade. At&eacute; porque os que comprarem conversores mais avan&ccedil;ados &#8211; capazes de processar a interatividade &#8211; ser&atilde;o os mesmos que hoje possuem acesso &agrave; Internet.<\/p>\n<p><\/span><span>Ou seja, a aus&ecirc;ncia da interatividade &eacute; uma raz&atilde;o a menos para ir &agrave;s compras.<\/p>\n<p><\/span><span>2. Durante os debates que antecederam a escolha do padr&atilde;o japon&ecirc;s (ISDB), uma das potencialidades anunciadas era justamente a multiprograma&ccedil;&atilde;o, ou seja, a possibilidade de, em um mesmo canal, serem transmitidas mais de uma programa&ccedil;&atilde;o (at&eacute; oito, j&aacute; que o Brasil adotar&aacute; o padr&atilde;o de compress&atilde;o H.264). N&atilde;o &agrave; toa, reside na multiprograma&ccedil;&atilde;o a grande possibilidade de democratizar o principal meio de comunica&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s e dar voz &agrave;s tantas diversidades hoje ausentes da televis&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>No entanto o Decreto 5.820\/2006, al&eacute;m de sacramentar o padr&atilde;o japon&ecirc;s, destinou aos radiodifusores a mesma fatia de espectro (6 MHz) hoje necess&aacute;ria &agrave; transmiss&atilde;o anal&oacute;gica, para as transmiss&otilde;es digitais. Com este espa&ccedil;o, de duas, uma: ou cada um dos radiodifusores transmitir&aacute; mais de uma programa&ccedil;&atilde;o, ou desperdi&ccedil;ar&aacute; parte substancial do espectro de freq&uuml;&ecirc;ncias. Como para as emissoras comerciais a primeira op&ccedil;&atilde;o &eacute; ilegal &#8211; pois contraria a Lei 4.117\/62 &ndash; o espectro ser&aacute; desperdi&ccedil;ado. Simples assim.<\/p>\n<p><\/span><span>Ou seja, como o governo n&atilde;o fracionou o canal de 6 MHz e tamb&eacute;m n&atilde;o instituiu a figura do operador de rede para que mais programadores pudessem ofertar o servi&ccedil;o, os mesmos que oferecem conte&uacute;do atualmente continuar&atilde;o a faz&ecirc;-lo, sem que novas programa&ccedil;&otilde;es sejam ofertadas. Em cidades como S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, mantido o plano de canaliza&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel), nenhum outro programador poder&aacute; ocupar o espectro. Nem mesmo as emissoras do campo p&uacute;blico, inclusa a&iacute; a futura rede p&uacute;blica de televis&atilde;o. <\/p>\n<p><\/span><span>Sem novos conte&uacute;dos, outra raz&atilde;o a menos para ir &agrave;s compras.<\/p>\n<p><\/span><span>3. Uma terceira raz&atilde;o para migrar para a TV digital &eacute; qualidade de som e imagem. Afinal, quem n&atilde;o quer uma imagem com qualidade de DVD? <\/p>\n<p><\/span><span>Entretanto, a maioria absoluta da popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o comprar&aacute; um televisor de alta defini&ccedil;&atilde;o (capaz de mostrar a melhoria substancial na qualidade de imagem), pelo simples fato de que ele (o televisor de alta defini&ccedil;&atilde;o) &eacute; caro demais e que ainda levar&aacute; alguns bons anos para que fique acess&iacute;vel aos quase 50% da popula&ccedil;&atilde;o que ganha menos de dois sal&aacute;rios m&iacute;nimos, ou mesmo aos outros 30% que ganham menos de cinco sal&aacute;rios m&iacute;nimos. Ou seja, mesmo que a popula&ccedil;&atilde;o compre um conversor, n&atilde;o poder&aacute; assistir &agrave; alta defini&ccedil;&atilde;o, pelo menos nos pr&oacute;ximos anos.<\/p>\n<p><\/span><span>Se a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vai usufruir de imediato da melhoria da imagem e do som, est&aacute; a&iacute; uma outra raz&atilde;o para n&atilde;o ir &agrave;s compras.<\/p>\n<p><\/span><span>4. H&eacute;lio Costa afirmou durante meses (convicto, diga-se) que os conversores custariam R$ 100, um pre&ccedil;o razo&aacute;vel e acess&iacute;vel &agrave; maioria da popula&ccedil;&atilde;o, especialmente se os juros (do parcelamento) n&atilde;o fossem abusivos. Entretanto, &agrave; &eacute;poca, muitos j&aacute; atentavam para o fato de que, sem escalada de produ&ccedil;&atilde;o internacional, seria imposs&iacute;vel chegar a este valor. Entretanto, eis que, na &uacute;ltima semana, alguns fabricantes assumem que os conversores mais simples n&atilde;o sair&atilde;o por menos de R$ 800*.<\/span><span> <\/p>\n<p><\/span><span>Ou seja, se j&aacute; n&atilde;o h&aacute; motivos para comprar um conversor, passa-se a ter uma boa raz&atilde;o para n&atilde;o compr&aacute;-lo. Afinal, por que desembolsar R$ 800 para ver a mesma televis&atilde;o que vemos hoje?<\/p>\n<p><\/span><span>5. A redu&ccedil;&atilde;o dos pre&ccedil;os, em tese, aconteceria ap&oacute;s as classes A e B come&ccedil;arem a comprar os conversores. Faz sentido, mas a&iacute; reside um detalhe: os mais abastados n&atilde;o comprar&atilde;o os conversores, pois j&aacute; t&ecirc;m TV a cabo (que est&aacute; sendo digitalizada &#8211; em S&atilde;o Paulo, por exemplo, a transi&ccedil;&atilde;o acaba em dezembro) ou por sat&eacute;lite (que j&aacute; &eacute; digital). Ou seja, aqueles que poderiam promover o &ldquo;efeito escala&rdquo; n&atilde;o o far&atilde;o, pois j&aacute; t&ecirc;m a sua TV digital por assinatura.<\/p>\n<p><\/span><span>Tivesse o governo atentado para a necessidade de uma pol&iacute;tica integrada com a TV por assinatura (n&atilde;o foi falta de aviso, inclusive de empres&aacute;rios), o impacto da produ&ccedil;&atilde;o em escala&nbsp; poderia de fato contribuir para a redu&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;os em curto per&iacute;odo de tempo. N&atilde;o custa lembrar que, tanto no cabo quanto no sat&eacute;lite, o Brasil utiliza o padr&atilde;o DVB (europeu).<\/p>\n<p><\/span><span>6. Se o ponto anterior n&atilde;o &eacute; necessariamente um motivo para n&atilde;o comprar o conversor, segue a&iacute; mais um: o fato de o governo estar disposto a voltar atr&aacute;s e permitir a instala&ccedil;&atilde;o de mecanismos anti-c&oacute;pia na televis&atilde;o digital (<\/span><span>bastou que o governo fosse pressionado pela ind&uacute;stria de Hollywood e pela Globo para recuar em sua inten&ccedil;&atilde;o original). Isso significa dizer que o que se faz hoje &#8211; copiar conte&uacute;dos para consumo pessoal, com fins educativos e n&atilde;o-lucrativos &#8211; n&atilde;o poder&aacute; mais ser feito, assim como n&atilde;o poder&aacute; faz&ecirc;-lo um professor que queira gravar um conte&uacute;do para discuss&atilde;o em sala de aula. Isso, &eacute; claro, a despeito do que diz a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal.<\/p>\n<p><\/span><span>Se hoje &eacute; poss&iacute;vel copiar os conte&uacute;dos para os fins que a lei permite e se n&atilde;o poderei fazer isso na TV digital, por que comprar um conversor?<\/span>&nbsp;<span>Pessimismo? Talvez, mas voltemos a falar disso em 2009, um ano ap&oacute;s o in&iacute;cio das transmiss&otilde;es em S&atilde;o Paulo. Pode ser em 2010, se preferirem. Mas uma coisa &eacute; fato: mantida a rota da carruagem, em 2016 n&atilde;o estaremos nem perto de concluir a transi&ccedil;&atilde;o e desligar os canais anal&oacute;gicos, permanecendo o Brasil com as transmiss&otilde;es simult&acirc;neas anal&oacute;gicas e digitais por mais tempo do que o necess&aacute;rio e impedindo o oferecimento de novas e mais programa&ccedil;&otilde;es.<br \/><\/span><\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn1\"><span><em>* Para os que se interessam pelo assunto: o pre&ccedil;o do set top box &eacute; fundamentalmente&nbsp;ditado pela velocidade do fluxo de bits, assim como pelo tipo de&nbsp;compress&atilde;o. A alta defini&ccedil;&atilde;o, por exemplo, gera alto fluxo de bits, o que exige processadores mais potentes e mais caros.<\/em><\/span><span><em>&nbsp;<\/p>\n<p><\/em><\/span><span><em>** Diogo Moyses &eacute;&nbsp;membro do Intervozes e editor do Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o<\/em>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;reprodu&ccedil;&atilde;o autorizada, desde que citada a fonte original.<br \/><\/span><span>&nbsp;<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O decreto assinado pelo presidente Lula em junho de 2006 (que institui o SBTVD-T) estabelece que o tempo de transi&ccedil;&atilde;o da TV anal&oacute;gica para a digital&nbsp;ser&aacute; de 10 anos. 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