{"id":18600,"date":"2007-06-27T14:37:09","date_gmt":"2007-06-27T14:37:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18600"},"modified":"2007-06-27T14:37:09","modified_gmt":"2007-06-27T14:37:09","slug":"jornalista-tem-lado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18600","title":{"rendered":"Jornalista tem lado"},"content":{"rendered":"<p><span><em>Como jornalista, voc&ecirc; tem de estar do lado da justi&ccedil;a, do equil&iacute;brio, da dec&ecirc;ncia, tem de se posicionar. O Oriente M&eacute;dio n&atilde;o &eacute; um jogo, onde voc&ecirc; d&aacute; tempo equivalente para cada time. N&atilde;o &eacute; um julgamento p&uacute;blico, &eacute; uma imensa trag&eacute;dia humana. Se estiv&eacute;ssemos cobrindo o tr&aacute;fico de escravos no Brasil, dar&iacute;amos o mesmo espa&ccedil;o ao escravo e ao traficante?<\/p>\n<p><\/em><\/span><span>&#8211; Robert Fisk, correspondente de guerra brit&acirc;nico do jornal The Independent, em entrevista concedida a S&eacute;rgio D&aacute;vila, da Folha de S. Paulo (25\/06\/07).<\/p>\n<p><\/span><span>A opini&atilde;o de Fisk traz de volta a eterna discuss&atilde;o sobre a imparcialidade jornal&iacute;stica. H&aacute; pelo menos quatro anos venho defendendo, aqui no Fazendo Media, uma posi&ccedil;&atilde;o muito clara: o texto jornal&iacute;stico s&oacute; poder&aacute; ser imparcial quando escrito por rob&ocirc;s. Pedir que um jornalista seja imparcial &eacute; o mesmo que exigir que ele deixe de amar, que abandone seus sentimentos, que se desumanize. O ser humano, enquanto humano, possui uma subjetividade, um hist&oacute;rico de vida que lhe confere um determinado vocabul&aacute;rio, este j&aacute; repleto de significa&ccedil;&otilde;es e pontos de vista. No fundo, por mais que o jornalista ou&ccedil;a os dois ou mais lados de uma quest&atilde;o, ele tender&aacute; a escrever &quot;isso aconteceu, segundo fulano&quot; quando acreditar no tal fulano, ou &quot;isso teria acontecido, segundo beltrano&quot;, quando desconfiar do tal beltrano.<\/p>\n<p><\/span><span>H&aacute; um outro aspecto extremamente relevante, por&eacute;m nunca discutido com profundidade. Trata-se do modo como a estrutura da reportagem &eacute; constru&iacute;da. Muitas vezes, o contraponto apresentado n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico ou o mais representativo. &Eacute; preciso enfatizar que toda constru&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica &eacute; pautada por subjetividades. E &eacute; justamente nesse ponto que a compreens&atilde;o da hist&oacute;ria se faz notar, na mesma propor&ccedil;&atilde;o em que a ignor&acirc;ncia do jornalista se faz lamentar. De modo que &eacute; poss&iacute;vel construir uma reportagem sobre um homem-bomba em Bagd&aacute; registrando apenas o n&uacute;mero de mortos e ressaltando o fanatismo daquele sujeito que se matou, ou ent&atilde;o esquadrinhar a quest&atilde;o de outra forma, perguntando, por exemplo, quais as raz&otilde;es que levam algu&eacute;m a se explodir ou criticando a invas&atilde;o do Iraque pelos EUA. A partir da&iacute;, tudo muda. As fontes ouvidas ser&atilde;o outras, t&iacute;tulo e subt&iacute;tulo ser&atilde;o completamente diferentes e at&eacute; o conjunto de palavras utilizado dever&aacute; variar. Por que o termo &quot;terrorista&quot; &eacute; usado para designar algu&eacute;m que pega em armas para resistir &agrave; invas&atilde;o estrangeira e n&atilde;o para intitular aqueles que invadem?<\/p>\n<p><\/span><span>O triste nisso tudo &eacute; que essa fal&aacute;cia da imparcialidade jornal&iacute;stica vem sendo utilizada para a legitima&ccedil;&atilde;o de toda sorte de crime contra a humanidade, cujo exemplo mais chocante tem sido a cobertura do massacre estadunidense no Iraque a partir de jornalistas embutidos na tropa invasora. As corpora&ccedil;&otilde;es de m&iacute;dia brasileiras exibem esse material &#8211; devidamente monitorado pelo Departamento de Defesa dos EUA &#8211; ao mesmo tempo em que seus editores concedem entrevistas sobre os valores nobres da imparcialidade jornal&iacute;stica e criticam a n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da RCTV em nome da liberdade de imprensa.<\/p>\n<p><\/span><span>Por fim, cabe comentar a pergunta que Robert Fisk devolve a S&eacute;rgio D&aacute;vila. &quot;Se estiv&eacute;ssemos cobrindo o tr&aacute;fico de escravos no Brasil, dar&iacute;amos o mesmo espa&ccedil;o ao escravo e ao traficante?&quot;. Fisk, como se sabe, vive no Oriente M&eacute;dio h&aacute; 40 anos e s&oacute; esteve no Brasil em duas oportunidades. Porque se vivesse aqui certamente saberia que a resposta para sua pergunta &eacute; &quot;claro que n&atilde;o&quot;. No Brasil, as corpora&ccedil;&otilde;es de m&iacute;dia dariam muito mais espa&ccedil;o para os traficantes de escravos, do mesmo modo que deram para os torturadores de outrora e assim como d&atilde;o para os assassinos de hoje.<br \/><\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n<p><span><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como jornalista, voc&ecirc; tem de estar do lado da justi&ccedil;a, do equil&iacute;brio, da dec&ecirc;ncia, tem de se posicionar. O Oriente M&eacute;dio n&atilde;o &eacute; um jogo, onde voc&ecirc; d&aacute; tempo equivalente para cada time. N&atilde;o &eacute; um julgamento p&uacute;blico, &eacute; uma imensa trag&eacute;dia humana. 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