{"id":18591,"date":"2007-06-26T18:13:55","date_gmt":"2007-06-26T18:13:55","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18591"},"modified":"2007-06-26T18:13:55","modified_gmt":"2007-06-26T18:13:55","slug":"502-das-emissoras-legalizadas-tem-vinculos-com-politicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18591","title":{"rendered":"50,2% das emissoras legalizadas t\u00eam v\u00ednculos com pol\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"art_texto\"><\/p>\n<p>As r&aacute;dios comunit&aacute;rias existem entre n&oacute;s desde a d&eacute;cada de 1980, muito antes de serem regularizadas em 1998. Mais recentemente elas t&ecirc;m ocupado com freq&uuml;&ecirc;ncia as p&aacute;ginas e o espa&ccedil;o da grande m&iacute;dia. Delas se tem not&iacute;cia por supostas interfer&ecirc;ncias no nosso ca&oacute;tico tr&aacute;fego a&eacute;reo ou quando a Pol&iacute;cia Federal e a Anatel (Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es) executam as constantes ordens de apreens&atilde;o de equipamentos transmissores e a pris&atilde;o de operadores de r&aacute;dios n&atilde;o-legalizadas.<\/p>\n<p>As r&aacute;dios comunit&aacute;rias legalmente autorizadas, exploradas por associa&ccedil;&otilde;es e funda&ccedil;&otilde;es, deveriam ser um dos mais importantes instrumentos para a efetiva democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil. Nelas deveria ser exercido o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o por aqueles que, em geral, n&atilde;o o t&ecirc;m &ndash; at&eacute; porque, muitas vezes, o desconhecem. Infelizmente, n&atilde;o &eacute; o que acontece.<\/p>\n<p>Primeiro, porque a lei que regularizou as r&aacute;dios comunit&aacute;rias &eacute; excludente. Ela mais dificulta do que facilita o exerc&iacute;cio do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. E, segundo, porque o processo de outorga para funcionamento de uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria &eacute; um intermin&aacute;vel e tortuoso caminho que poucos conseguem percorrer. Existem milhares de pedidos de outorga aguardando autoriza&ccedil;&atilde;o para funcionamento no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>Pr&aacute;tica corriqueira<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>A hip&oacute;tese de que as r&aacute;dios comunit&aacute;rias se transformaram em instrumento de barganha pol&iacute;tica, configurando uma pr&aacute;tica a que chamamos de &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo&quot;, foi a orienta&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica para o desenvolvimento da presente pesquisa&nbsp;&nbsp;&ndash;&nbsp;uma realiza&ccedil;&atilde;o do Instituto Para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), com apoio da Funda&ccedil;&atilde;o Ford.<\/p>\n<blockquote dir=\"ltr\" style=\"margin-right: 0px\">\n<p><a href=\"http:\/\/observatorio.ultimosegundo.ig.com.br\/download\/Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf\"><strong>Clique aqui<\/strong><\/a> para ter o relat&oacute;rio final da pesquisa &quot;R&aacute;dios comunit&aacute;rias: coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo (1999-2004)&quot; [arquivo PDF; 1,72 MB]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Durante mais de 18 meses trabalhamos na constru&ccedil;&atilde;o de um banco de dados com informa&ccedil;&otilde;es sobre 2.205 r&aacute;dios autorizadas a funcionar pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es (isto representa 80,44% das r&aacute;dios que j&aacute; haviam sido autorizadas at&eacute; janeiro de 2007). <\/p>\n<p>Em seguida, conseguimos realizar uma s&eacute;rie de levantamentos com dados aos quais n&atilde;o se tem acesso p&uacute;blico, dentre eles: estat&iacute;sticas referentes ao n&uacute;mero de processos autorizados pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e aos processos encaminhados pela Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica &ndash; Casa Civil\/Secretaria de Rela&ccedil;&otilde;es Institucionais (SRI) ao Congresso Nacional; quadro estat&iacute;stico com o n&uacute;mero de outorgas concedidas individualmente pelos ministros que ocuparam o Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es durante o per&iacute;odo estudado; c&aacute;lculo do tempo m&eacute;dio de tramita&ccedil;&atilde;o dos processos na Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica &ndash; Casa Civil\/SRI; cruzamento dos dados referentes aos tempos de tramita&ccedil;&atilde;o na Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica &ndash; Casa Civil\/SRI com os dados do banco de dados &quot;Pleitos&quot; (programa de cadastro e aprecia&ccedil;&atilde;o dos&nbsp;pedidos de &ldquo;acompanhamento de processo&rdquo; encaminhados por pol&iacute;ticos ao Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es); e cruzamento dos nomes dos representantes legais e membros das diretorias das r&aacute;dios comunit&aacute;rias analisadas com as seguintes listagens: <\/p>\n<p><font color=\"#ff0000\"><\/p>\n<p><strong>(a) candidatos eleitos e derrotados nas elei&ccedil;&otilde;es municipais de 2000 e 2004; <\/strong><\/p>\n<p><\/font><font color=\"#ff0000\"><\/p>\n<p><strong>(b) candidatos eleitos e derrotados nas elei&ccedil;&otilde;es estaduais e federais de 1998, 2002 e 2006; <\/strong><\/p>\n<p><\/font><font color=\"#ff0000\"><\/p>\n<p><strong>(c) doadores de campanha nas elei&ccedil;&otilde;es de 2000, 2002, 2004 e 2006; <\/strong><\/p>\n<p><\/font><font color=\"#ff0000\"><\/p>\n<p><strong>(d) membros de partidos pol&iacute;ticos; <\/strong><\/p>\n<p><\/font><\/p>\n<p><strong><font color=\"#ff0000\">(e) arquivos de publica&ccedil;&otilde;es editadas nos munic&iacute;pios na qual operam r&aacute;dios comunit&aacute;rias; e<\/font><font color=\"#000000\"> <\/font><\/strong><\/p>\n<p><font color=\"#ff0000\"><\/p>\n<p><strong>(f) lista de cotistas, s&oacute;cios, diretores e membros de diretorias de entidades de radiodifus&atilde;o comercial, educativa e comunit&aacute;ria.<\/strong><\/p>\n<p><\/font><\/p>\n<p>Os principais resultados obtidos confirmam a exist&ecirc;ncia de um quadro alarmante no setor: a maioria das r&aacute;dios comunit&aacute;rias funciona no pa&iacute;s de forma &quot;irregular&quot; porque n&atilde;o logrou ser devidamente autorizada; e, entre a minoria autorizada, mais da metade opera de forma ilegal.<\/p>\n<p>Entre as 2.205 r&aacute;dios pesquisadas, foi poss&iacute;vel identificar v&iacute;nculos pol&iacute;ticos em 1.106 &ndash; ou 50,2% delas. Embora exista uma varia&ccedil;&atilde;o consider&aacute;vel nesses v&iacute;nculos entre os estados, o mesmo n&atilde;o acontece quando se comparam as regi&otilde;es. Os cinco estados nos quais encontramos maior &iacute;ndice de v&iacute;nculo pol&iacute;tico (Tocantins, Amazonas, Santa Catarina, Esp&iacute;rito Santo e Alagoas) representam o Norte, o Sul, o Sudeste e o Nordeste, quatro das cinco regi&otilde;es brasileiras. Trata-se, portanto, de uma pr&aacute;tica pol&iacute;tica nacional.<\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>Descaminhos burocr&aacute;ticos<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Identificamos, tamb&eacute;m, um n&uacute;mero consider&aacute;vel de r&aacute;dios comunit&aacute;rias com v&iacute;nculos religiosos: 120 delas, ou 5,4% do total. O dom&iacute;nio desses v&iacute;nculos &eacute; da religi&atilde;o cat&oacute;lica, com 83 emissoras, ou 69,2%; 33 emissoras, ou 27,5%, eram ligadas a igrejas protestantes; 2 emissoras, ou 1,66%, a ambas as religi&otilde;es; 1 &agrave; doutrina esp&iacute;rita e 1 ao umbandismo. <\/p>\n<p>Ainda que significativo, o resultado obtido certamente subestima a verdadeira preval&ecirc;ncia de v&iacute;nculos religiosos. As &uacute;nicas fontes poss&iacute;veis de informa&ccedil;&atilde;o eram notici&aacute;rios, p&aacute;ginas oficiais das igrejas, informa&ccedil;&otilde;es contidas nos pr&oacute;prios estatutos das entidades ou as denomina&ccedil;&otilde;es &quot;pastor&quot; e &quot;padre&quot; nos nomes utilizados nas urnas pelos candidatos nas elei&ccedil;&otilde;es pesquisadas.<\/p>\n<p>Finalmente, comprovamos a exist&ecirc;ncia de duplicidade de outorga em 26 emissoras &ndash; ou 1,2% das associa&ccedil;&otilde;es ou funda&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias. Duplicidade significa a exist&ecirc;ncia de ao menos um integrante da diretoria da r&aacute;dio comunit&aacute;ria pertencente &agrave; diretoria de uma outra concession&aacute;ria de radiodifus&atilde;o educativa, comercial ou comunit&aacute;ria &ndash; algo proibido por lei. Em termos proporcionais, destacaram-se os estados de Mato Grosso, com 4,6% de duplicidades; Minas Gerais, com 2,1%; Rio de Janeiro, com 1,9%; Goi&aacute;s, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, com 1,8%. <\/p>\n<p>O conjunto de resultados confirma a hip&oacute;tese central da exist&ecirc;ncia de um &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo&quot; envolvendo as outorgas de r&aacute;dios comunit&aacute;rias.<\/p>\n<p>J&aacute; no in&iacute;cio do processo de obten&ccedil;&atilde;o da outorga no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es fica claro que a exist&ecirc;ncia de um &quot;padrinho pol&iacute;tico&quot; &eacute; determinante n&atilde;o s&oacute; para a aprova&ccedil;&atilde;o do pedido como para a&nbsp;velocidade de sua tramita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na etapa seguinte &ndash; o Pal&aacute;cio do Planalto &ndash; alguns processos foram acelerados enquanto outros foram retidos sem qualquer raz&atilde;o de ordem t&eacute;cnica que justificasse tal procedimento. Na pr&aacute;tica, o resultado &eacute; a outorga de r&aacute;dios comunit&aacute;rias para algumas entidades e a n&atilde;o-concess&atilde;o para outras.<\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>Conseq&uuml;&ecirc;ncias perversas<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, os dados revelam que existe uma intensa utiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das outorgas em dois n&iacute;veis: no municipal, em que elas t&ecirc;m um valor no &quot;varejo&quot; da pol&iacute;tica, com uma import&acirc;ncia bastante localizada; e no estadual-federal, no qual se atua no &quot;atacado&quot;, por meio da constru&ccedil;&atilde;o de um ambiente formado por diversas r&aacute;dios comunit&aacute;rias controladas por for&ccedil;as pol&iacute;ticas locais que devem o &quot;favor&quot; de sua legaliza&ccedil;&atilde;o a um padrinho pol&iacute;tico. <\/p>\n<p>Dos 1.106 casos detectados em que havia v&iacute;nculo pol&iacute;tico, exatos 1.095 (99%) eram relativos a um ou mais pol&iacute;ticos que atuam em n&iacute;vel municipal. Al&eacute;m disso, todos os outros 11 casos restantes s&atilde;o referentes a v&iacute;nculos com algum pol&iacute;tico que atua em n&iacute;vel estadual ou candidatos derrotados a cargos de n&iacute;vel federal. N&atilde;o houve nenhum caso detectado de v&iacute;nculo direto entre emissoras comunit&aacute;rias e ocupantes de cargos eletivos em n&iacute;vel federal. <\/p>\n<p>Confirmou-se, portanto, que o hist&oacute;rico v&iacute;nculo entre concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o e pol&iacute;ticos profissionais continua existindo na radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria. Mas, agora, de forma in&eacute;dita: &eacute; a municipaliza&ccedil;&atilde;o do v&iacute;nculo entre emissoras de radiodifus&atilde;o e pol&iacute;ticos profissionais por interm&eacute;dio do &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo&quot;. <\/p>\n<p>Quando se discute a digitaliza&ccedil;&atilde;o do r&aacute;dio e que se torna mais clara a necessidade de modifica&ccedil;&otilde;es no atual marco regulat&oacute;rio da comunica&ccedil;&atilde;o eletr&ocirc;nica de massa, os resultados desta pesquisa, al&eacute;m de confirmar a pr&aacute;tica pol&iacute;tica de um &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico de novo tipo&quot;, fazem emergir um panorama sombrio com conseq&uuml;&ecirc;ncias perversas para a consolida&ccedil;&atilde;o da democracia brasileira. Conhecer&nbsp;este cen&aacute;rio &eacute; condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para transform&aacute;-lo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;permitida a reprodu&ccedil;&atilde;o, desde que citada a fonte original.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa coordenada pelo Instituto Para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) revela que as r\u00e1dios comunit\u00e1rias tamb\u00e9m se transformaram em instrumento de barganha pol\u00edtica. 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