{"id":18552,"date":"2007-06-21T14:35:45","date_gmt":"2007-06-21T14:35:45","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18552"},"modified":"2007-06-21T14:35:45","modified_gmt":"2007-06-21T14:35:45","slug":"liberdades-tolhidas-um-olhar-critico-sobre-a-liberdade-de-expressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18552","title":{"rendered":"Liberdades tolhidas: um olhar cr\u00edtico sobre a \u201cliberdade de express\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">Estamos imersas\/os no tempo e no espa&ccedil;o e tem sido a partir dessas duas categorias que somos percebidas e percebemos o mundo em que vivemos. Nosso tempo &eacute; 2007, s&eacute;culo XXI, inclusive denominados p&oacute;s-modernos. Nosso espa&ccedil;o, nosso territ&oacute;rio: Brasil &#8211; pa&iacute;s latino-americano, de cultura multi-&eacute;tnica que convive com as imensas desigualdades sociais, e, entre outras coisas, com os resqu&iacute;cios do per&iacute;odo da ditadura militar, este que em nosso tempo provoca arrepios quando o que est&aacute; em jogo &eacute; a liberdade de express&atilde;o.<\/p>\n<p>A imprensa, empres&aacute;rios\/as, jornalistas, intelectuais, artistas e movimentos sociais, s&atilde;o aqueles\/as que mais t&ecirc;m se interessado ou mais debatido as quest&otilde;es acerca da liberdade de express&atilde;o em tempos de &ldquo;liberdades indiscriminadas&rdquo; e\/ou que tolhem outras liberdades. A quest&atilde;o que se aborda aqui nesse espa&ccedil;o, n&atilde;o est&aacute; mais na limita&ccedil;&atilde;o ditatorial do que &eacute; pensado, mas, no seu extremo, aos abusos porque a liberdade de express&atilde;o vem passando e quais os caminhos a serem trilhados no combate aos mesmos, uma vez que direito &agrave; liberdade de express&atilde;o n&atilde;o pode ferir outros direitos humanos.<\/p>\n<p>A m&uacute;sica bomba no cabar&eacute; do grupo de forr&oacute; Mastruz com leite, na &iacute;ntegra, diz o seguinte: &ldquo;Jogaram uma bomba no cabar&eacute;, voou para todo lado peda&ccedil;o de mulher, foi tanto de caco de puta pra todo lado, dava pra apanhar de p&aacute;, de enxada e de colher! No meio da rua tava os bra&ccedil;os de Tereza, no meio-fio tava as pernas de Rach&eacute;, em cima das telha os cabelo de Maria, no terra&ccedil;o de uma casa tava os peito de Isab&eacute;! A&iacute; eu juntei tudo e colei bem direitinho fiz uma rapariga mista, agora todo homem quer! Pode jogar uma bomba l&aacute; no cabar&eacute;, que eu junto os cacos das puta, pra fazer outra mulher!&rdquo;.<\/p>\n<p>Na nossa constitui&ccedil;&atilde;o, artigo 5&ordm;, par&aacute;grafo IX, h&aacute; a seguinte refer&ecirc;ncia: &ldquo;Todos s&atilde;o iguais perante a lei, sem distin&ccedil;&atilde;o de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no pa&iacute;s a inviolabilidade do direito &agrave; vida, &agrave; liberdade, &agrave; igualdade, &agrave; seguran&ccedil;a, &agrave; propriedade, nos termos seguintes: (&#8230;) &Eacute; livre a express&atilde;o da atividade intelectual, art&iacute;stica, cient&iacute;fica e de comunica&ccedil;&atilde;o, independentemente de censura ou licen&ccedil;a&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">H&aacute; ainda no artigo 220, par&aacute;grafo 2&ordm;, o seguinte: &ldquo;A manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento, a cria&ccedil;&atilde;o, a express&atilde;o e a informa&ccedil;&atilde;o, sob qualquer forma, processo ou ve&iacute;culo n&atilde;o sofrer&atilde;o qualquer restri&ccedil;&atilde;o, observado o disposto nessa constitui&ccedil;&atilde;o (&#8230;) &Eacute; vedada toda e qualquer censura de natureza pol&iacute;tica, ideol&oacute;gica e art&iacute;stica&rdquo;.<\/p>\n<p>A cita&ccedil;&atilde;o de tais leis, nos apresenta, rapidamente, o resultado da luta pela liberdade, pela possibilidade de expressar o que se sente, de falar o que se pensa, como m&aacute;ximas do direito humano fundamental &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Esse esfor&ccedil;o n&atilde;o tem sido em v&atilde;o. Cidad&atilde;s e cidad&atilde;os v&ecirc;m cada vez mais buscando alternativas &agrave;s formas hegem&ocirc;nicas de comunica&ccedil;&atilde;o e a pr&oacute;pria luta dessas pessoas e movimentos tem sido certamente uma das nossas maiores conquistas. <\/p>\n<p>A quest&atilde;o &eacute; que o outro lado da moeda, ou seja, alguns resultados dessa ilimitada liberdade (se assim se pode dizer) de express&atilde;o como a m&uacute;sica acima e tantas outras, chama &agrave; reflex&atilde;o sobre at&eacute; que ponto &eacute; poss&iacute;vel continuar assim, como proceder e a quem cabe responsabilidades quando &eacute; chegado o limite.<\/p>\n<p>Na nossa Constitui&ccedil;&atilde;o est&aacute; expl&iacute;cito que &ldquo;Todas as pessoas s&atilde;o iguais perante a lei e t&ecirc;m o direito, sem discrimina&ccedil;&atilde;o alguma, a igual prote&ccedil;&atilde;o da lei. A este respeito a lei deve proibir qualquer forma de discrimina&ccedil;&atilde;o e garantir a todas as pessoas prote&ccedil;&atilde;o igual e eficaz contra qualquer tipo de discrimina&ccedil;&atilde;o por motivo de ra&ccedil;a, cor, sexo, l&iacute;ngua, religi&atilde;o, opini&atilde;o pol&iacute;tica ou de outra natureza, origem nacional ou social, situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, nascimento ou qualquer outra situa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <\/p>\n<p>Se est&aacute; expl&iacute;cito em nossa constitui&ccedil;&atilde;o que a lei deve proibir qualquer forma de discrimina&ccedil;&atilde;o em qualquer situa&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio retom&aacute;-la. Se a id&eacute;ia transmitida pela &ldquo;m&uacute;sica&rdquo; &ldquo;Bomba no Cabar&eacute;&rdquo; incita discrimina&ccedil;&atilde;o e faz apologia &agrave; viol&ecirc;ncia, ent&atilde;o, estranhamos que a can&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estimule nenhum tipo de apreens&atilde;o, proibi&ccedil;&atilde;o e\/ou qualquer san&ccedil;&atilde;o por parte dos &oacute;rg&atilde;os competentes. Seria muito bom pensar que isso n&atilde;o acontece porque o alvo da viol&ecirc;ncia &eacute; uma mulher, ou melhor, v&aacute;rias mulheres. E, para sermos mais espec&iacute;ficas, as mulheres que est&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o de prostitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Seria demais indagar qual a &ldquo;gra&ccedil;a&rdquo; dessa &ldquo;m&uacute;sica&rdquo;? Por que causa divers&atilde;o? Ser&aacute; que ela tem ades&atilde;o de uma parcela da popula&ccedil;&atilde;o (independente de sua classe social) porque diz que as &ldquo;putas est&atilde;o sendo explodidas&rdquo; ou simplesmente porque ataca as mulheres, independentemente de serem putas ou n&atilde;o? Nos dois casos, &eacute; importante destacar que a aus&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es efetivas contra esse tipo de abuso por parte do Estado colabora com a perpetua&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>As estat&iacute;sticas de viol&ecirc;ncia contra as mulheres falam bem do quanto estas t&ecirc;m estado neste lugar de vulnerabilidade, tanto porque sofrem a viol&ecirc;ncia s&oacute;cio-culturalmente institucionalizada, quanto porque o Estado tem caminhado com passos vagarosos quando se trata da ado&ccedil;&atilde;o de medidas efetivas para o enfrentamento a esse tipo de viola&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos. Uma das provas do que se acaba de dizer, foi a tardia, mas muito bem-vinda Lei Maria da Penha, que chegou para inserir as mulheres na Constitui&ccedil;&atilde;o, uma vez que, at&eacute; ent&atilde;o, eram tratadas como qualquer coisa, menos como cidad&atilde; para a qual o Estado tamb&eacute;m possu&iacute;a responsabilidades.<\/p>\n<p>Se as formas comuns de desrespeito aos direitos humanos como a apologia e a incita&ccedil;&atilde;o ao crime, inclusive &agrave; pr&aacute;tica da tortura, linchamento e outras formas de viol&ecirc;ncia, bem como a discrimina&ccedil;&atilde;o racial, de g&ecirc;nero, religi&atilde;o e orienta&ccedil;&atilde;o sexual, n&atilde;o t&ecirc;m sido reconhecidas pelo Estado, cabe a n&oacute;s, sociedade civil, embora n&atilde;o seja nossa obriga&ccedil;&atilde;o, lembrar da responsabilidade de quem a tem.<\/p>\n<p>O que se deseja &eacute; dignidade, reconhecimento e respeito. O que se deseja &eacute; a efetiva&ccedil;&atilde;o das leis por parte do Estado e, por assim dizer, puni&ccedil;&atilde;o de quem corrobora para a dissemina&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia. O que se deseja &eacute; um mundo sem viol&ecirc;ncias. Contudo, sabemos que esta s&oacute; se alcan&ccedil;ar&aacute; se tamb&eacute;m os s&iacute;mbolos dessa cultura forem postos em xeque.<\/p>\n<p>No mais, &eacute; importante enfatizar que aqui n&atilde;o se reivindica o tolhimento da liberdade, nem a volta &agrave; censura, mas sim a efetiva&ccedil;&atilde;o dos direitos das mulheres, que temporal e espacialmente, t&ecirc;m ficado &agrave; margem dos processos da vida p&uacute;blica e violentadas no mundo privado. Se com a sua emancipa&ccedil;&atilde;o, se deu e est&aacute; se dando cada vez mais tamb&eacute;m sua inser&ccedil;&atilde;o no mundo p&uacute;blico e por outro lado, tamb&eacute;m as viol&ecirc;ncias ficam mais vis&iacute;veis, &eacute; importante enfatizar a import&acirc;ncia e necessidade de medidas efetivas contra quem protagoniza tais agress&otilde;es, mesmo que, e inclusive, se estas venham em forma de cartazes de shows (por exemplo: &ldquo;&#8230;at&eacute; meia noite: MULHER GR&Aacute;TIS&rdquo;), propagandas de cerveja e\/ou de m&uacute;sicas como a que a foi citada acima e tantas incont&aacute;veis outras.<\/p>\n<p>Leis n&atilde;o faltam, press&atilde;o da sociedade civil tamb&eacute;m n&atilde;o. Se as leis existem para, por um lado, prever direitos e, por outro, instituir san&ccedil;&otilde;es a quem infringir os c&oacute;digos de conduta que possibilitam cidad&atilde;s e cidad&atilde;os ao usufruto de tais direitos, recorremos &agrave;s mesmas e aos &oacute;rg&atilde;os competentes para que tomem as atitudes cab&iacute;veis e efetivem assim a cidadania das mulheres, em qualquer situa&ccedil;&atilde;o, em qualquer espa&ccedil;o, mas n&atilde;o em qualquer tempo. O tempo para transforma&ccedil;&otilde;es &eacute; hoje, &eacute; agora. N&atilde;o d&aacute; para fingir que n&atilde;o ouvimos quando ouvimos, n&atilde;o d&aacute; para fechar os olhos quando vemos, n&atilde;o d&aacute; para calar quando sentimos. A vida &eacute; agora e a efetiva&ccedil;&atilde;o do direito das mulheres &eacute; para ontem.&nbsp;<\/p>\n<p><em><br \/>*Sheila Bezerra &eacute; mestra em Antropologia\/UFPE Pesquisadora do SOS CORPO &#8211; Inst. Feminista para Democracia e Integrante do F&oacute;rum de Mulheres de Pernambuco.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/em>permitida a reprodu&ccedil;&atilde;o, desde que citada a fonte original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos imersas\/os no tempo e no espa&ccedil;o e tem sido a partir dessas duas categorias que somos percebidas e percebemos o mundo em que vivemos. Nosso tempo &eacute; 2007, s&eacute;culo XXI, inclusive denominados p&oacute;s-modernos. 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