{"id":18536,"date":"2007-06-19T15:26:12","date_gmt":"2007-06-19T15:26:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18536"},"modified":"2007-06-19T15:26:12","modified_gmt":"2007-06-19T15:26:12","slug":"concessoes-de-tv-ou-capitanias-hereditarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18536","title":{"rendered":"Concess\u00f5es de TV ou capitanias heredit\u00e1rias?"},"content":{"rendered":"<p><span>A decis&atilde;o do presidente venezuelano Hugo Ch&aacute;vez de n&atilde;o autorizar a renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da RCTV teve repercuss&otilde;es negativas em v&aacute;rias partes do mundo, inclusive no &acirc;mbito do legislativo brasileiro. Como se sabe, o Senado aprovou uma mo&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria &agrave; atitude de Ch&aacute;vez e recebeu em resposta a alcunha de &quot;papagaio dos Estados Unidos&quot;, ocasionando grande mal-estar nas rela&ccedil;&otilde;es entre os dois pa&iacute;ses.<\/span><span><\/p>\n<p>Sem entrar no m&eacute;rito do acerto ou do erro da atitude do presidente venezuelano, a quest&atilde;o traz a oportunidade de discutir a situa&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV no Brasil. A nosso ver, &eacute; urgente a necessidade de aprova&ccedil;&atilde;o de emendas constitucionais com vistas &agrave; modifica&ccedil;&atilde;o do regime jur&iacute;dico de nossas concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o por som e por som e imagem (TV), por tratar-se de um modelo de apropria&ccedil;&atilde;o privada indevida e anti&eacute;tica de servi&ccedil;os p&uacute;blicos. Explico-me.<\/p>\n<p><\/span><span>As concess&otilde;es de servi&ccedil;o p&uacute;blico se caracterizam como contratos administrativos pelos quais o Estado transfere &agrave; iniciativa privada a execu&ccedil;&atilde;o dos referidos servi&ccedil;os, mantendo, contudo, sua titularidade. O concession&aacute;rio &eacute;, assim, mero executor de um servi&ccedil;o cujo &quot;dono&quot; permanece sendo o Estado. Em tais contratos vige regime jur&iacute;dico absolutamente diverso das condi&ccedil;&otilde;es usuais nos contratos privados, raz&atilde;o pela qual cl&aacute;usulas destes contratos s&atilde;o denominadas &quot;exorbitantes&quot;, por permitirem que o Estado, a qualquer tempo, possa romper o contrato por decis&atilde;o unilateral da administra&ccedil;&atilde;o, respeitando-se, por&eacute;m, o direito de o concession&aacute;rio ser indenizado pelos danos e perdas que sofrer.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Renova&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Isto ocorre porque o Estado-Administra&ccedil;&atilde;o representa o interesse coletivo, enquanto o particular (concession&aacute;rio) cuida apenas de seu interesse individual. Por raz&otilde;es &oacute;bvias, nossa Constitui&ccedil;&atilde;o privilegia o interesse coletivo, outorgando-lhe prerrogativas de autoridade no &acirc;mbito contratual, mas, em momento algum a ordem jur&iacute;dica confere ao Estado poder de confisco, de se apropriar compulsoriamente de direitos privados sem justa indeniza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Apenas um ambiente das atividades p&uacute;blicas p&otilde;e-se como exce&ccedil;&atilde;o a este regime jur&iacute;dico, em raz&atilde;o de dispositivos discretamente aprovados pela Constituinte de 1988: as concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV.<\/p>\n<p><\/span><span>Provavelmente por uma conjun&ccedil;&atilde;o de lobby de empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es agregado ao fato de que muitos constituintes eram propriet&aacute;rios diretos ou indiretos de empresas de r&aacute;dio e\/ou TV, o artigo 223 da Carta Magna estabelece regime de concess&atilde;o de servi&ccedil;o p&uacute;blico absolutamente diverso dos demais servi&ccedil;os p&uacute;blicos concedidos no que tange aos aludidos servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagens (r&aacute;dio e TV).<\/p>\n<p><\/span><span>Por esse artigo constitucional, as concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV s&oacute; podem ser extintas, antes de vencido seu prazo, por decis&atilde;o judicial, enquanto todas as demais concess&otilde;es p&uacute;blicas podem s&ecirc;-lo por decis&atilde;o administrativa. E mais: tais concess&otilde;es s&atilde;o quase de renova&ccedil;&atilde;o autom&aacute;tica, contratos eternos e intang&iacute;veis, pois s&oacute; com aprova&ccedil;&atilde;o de dois quintos do Congresso Nacional deixariam de ser renovadas.<\/span><span><br \/><strong><br \/>&quot;Macaco, olha o teu rabo&#8230;&quot;<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Se os ent&atilde;o constituintes &ndash; muitos ainda congressistas &ndash; tivessem observado valores democr&aacute;ticos em sua decis&atilde;o, haveriam de estipular para a renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o de r&aacute;dio ou TV o mesmo que para qualquer outro contrato p&uacute;blico com particular: a necessidade de faz&ecirc;-lo por licita&ccedil;&atilde;o aberta a todos os interessados.<\/p>\n<p><\/span><span>Estabeleceu-se a&iacute; ineg&aacute;vel imoralidade no &acirc;mbito de nossa Carta Magna, uma n&oacute;doa em nossa Constitui&ccedil;&atilde;o cidad&atilde;. Concess&otilde;es de servi&ccedil;o p&uacute;blico se transformaram em capitanias heredit&aacute;rias de fam&iacute;lias not&oacute;rias ou de pol&iacute;ticos. Tal situa&ccedil;&atilde;o nada tem de republicana, remetendo &agrave; forma como a aristocracia do Estado imperial se apropriava dos bens e servi&ccedil;os p&uacute;blicos.<\/p>\n<p><\/span><span>Assim, &eacute; de se estranhar que o Congresso Nacional aprove mo&ccedil;&atilde;o contra a n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o de concess&atilde;o de TV venezuelana e, ao mesmo tempo, deixe de adotar medidas que s&atilde;o de sua compet&ecirc;ncia com vistas &agrave; altera&ccedil;&atilde;o de nossa Constitui&ccedil;&atilde;o e ao restabelecimento em seus dispositivos relativos &agrave;s telecomunica&ccedil;&otilde;es dos valores republicanos e ison&ocirc;micos que deveriam norte&aacute;-los.<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; poss&iacute;vel que nossos congressistas n&atilde;o tenham disposi&ccedil;&atilde;o para tanto, pois muitos deles s&atilde;o donos diretos ou indiretos de empresas concession&aacute;rias dos referidos servi&ccedil;os. Legislar contra os pr&oacute;prios interesses econ&ocirc;micos e empresariais &eacute; algo inimagin&aacute;vel nesse reduto, mesmo que isso se fa&ccedil;a necess&aacute;rio para o restabelecimento de um m&iacute;nimo de &eacute;tica. Antes de apontar o dedo para a Venezuela, nossos congressistas deveriam agir como recomenda a sabedoria popular: &quot;Macaco, olha o teu rabo&#8230;&quot;<br \/><\/span><span><\/p>\n<p><em>* Pedro Estevam Serrano<\/em><\/span><span><em> &eacute; professor de Direito Constitucional da PUC-SP<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decis&atilde;o do presidente venezuelano Hugo Ch&aacute;vez de n&atilde;o autorizar a renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da RCTV teve repercuss&otilde;es negativas em v&aacute;rias partes do mundo, inclusive no &acirc;mbito do legislativo brasileiro. 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