{"id":18535,"date":"2007-06-19T15:18:04","date_gmt":"2007-06-19T15:18:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18535"},"modified":"2007-06-19T15:18:04","modified_gmt":"2007-06-19T15:18:04","slug":"ze-roberto-e-murilo-jornalismo-paixao-e-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18535","title":{"rendered":"Z\u00e9 Roberto e Murilo: jornalismo, paix\u00e3o e morte"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Morreu Jos&eacute; Roberto de Alencar. Azar de quem sobrou. O mundo sem ele ficou mais pobre, mais chato e burro. Dias antes havia morrido Murilo Felisberto. Dois grandes jornalistas. Com eles l&aacute; se foi mais um pouco do pouco que restava entre n&oacute;s do jornalismo como paix&atilde;o. Duvido que surjam no futuro pr&oacute;ximo pessoas t&atilde;o apaixonadas pelo jornalismo como eram Jos&eacute; Roberto de Alencar, o &quot;Z&eacute; Grand&atilde;o&quot;, e Murilo Felisberto. <\/p>\n<p><\/span><span>Ambos veneravam o jornalismo, os grandes jornais e os grandes jornalistas. Viviam a profiss&atilde;o &agrave; moda antiga, &quot;rom&acirc;ntica&quot;, como definem com desd&eacute;m os moderninhos, com muito papo de botequim depois do fechamento, e tamb&eacute;m engajada, n&atilde;o politicamente engajada, simplesmente engajada. O jornalismo como um engajamento em valores humanos e est&eacute;ticos, n&atilde;o meramente como uma forma de saber, ou um jeito de ganhar dinheiro.<\/p>\n<p><\/span><span>Ambos mineiros, como tantos outros jornalistas brasileiros de destaque, eram greg&aacute;rios, viviam com e para os amigos. E eram ambos perfeccionistas. Tamb&eacute;m morreram cedo demais, Murilo aos 67 anos e Alencar aos 62. Mas parece que a&iacute; param as semelhan&ccedil;as entre esses dois grandes jornalistas. &Eacute; sobre as diferen&ccedil;as entre os dois que quero escrever. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Vocabul&aacute;rio popular<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Murilo era o bem formado, o intelectual, estudou no col&eacute;gio americano Gamon. Alencar era o pr&aacute;tico. Um caminhoneiro que virou rep&oacute;rter, pelas m&atilde;os de Lu&iacute;s Nassif. Murilo era classe m&eacute;dia (suponho). Alencar era povo. Murilo provavelmente preferia whisky. Alencar decididamente tomava cacha&ccedil;a. Murilo era muito mais o editor, o condutor de reda&ccedil;&otilde;es, o inovador do departamento de arquivo do Jornal do Brasil e depois criador da linguagem dialogada e direta do Jornal da Tarde, que influenciou tantos outros jornais, inclusive o alternativo Amanh&atilde;. Tinha o faro do que &eacute; not&iacute;cia, segundo escreveram seus amigos, mas me parece que era basicamente um jornalista de reda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span>Alencar n&atilde;o conseguia esquentar cadeiras. Era o rep&oacute;rter de rua por excel&ecirc;ncia. De rua, e das quebradas pelo Brasil afora. Quando descobria que n&atilde;o queriam reportagem, n&atilde;o queriam que viajasse, demitia-se. Fan&aacute;tico por um furo na primeira p&aacute;gina. Deve ter colecionado o maior n&uacute;mero de furos em primeira p&aacute;gina da hist&oacute;ria do nosso jornalismo. Lembro o dia em que ele me procurou para receber os elogios pelo seu furo na Gazeta Mercantil, revelando os contratos de risco para explora&ccedil;&atilde;o de petr&oacute;leo que a Petrobras queria assinar com empresas estrangeiras. <\/p>\n<p><\/span><span>Mas os furos do jornalismo, como o pr&oacute;prio jornalismo, t&ecirc;m vida curta. &quot;Ef&ecirc;mera gl&oacute;ria matinal: ao meio-dia jornal j&aacute; &eacute; papel de embrulho&#8230;&quot;, diz o pr&oacute;prio Alencar em um de seus livros de causos. J&aacute; a linguagem jornal&iacute;stica do Alencar, seu estilo, seu modo de escrever, &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o que fica. Tenho a certeza de que ainda vai ser objeto de estudos acad&ecirc;micos. <\/p>\n<p><\/span><span>Se Murilo detestava o vulgar, como dizem os seus obitu&aacute;rios no Jornal da Tarde e no Estad&atilde;o, Alencar conseguia usar o vulgar para desconstruir o formalismo da narrativa padr&atilde;o do nosso jornalismo. Isso em textos bem estruturados, com a informa&ccedil;&atilde;o precisa, hierarquizada e contextualizada e nunca escondendo sua indigna&ccedil;&atilde;o pelos desastres sociais que encontrava. Era uma escrita ao mesmo tempo galhofeira, anarquista e bem humorada. Como ele conseguia isso?<\/p>\n<p><\/span><span>Nesta nota r&aacute;pida &eacute; poss&iacute;vel apenas levantar algumas pistas. Quando a escrita amea&ccedil;ava se tornar formal demais, ele a quebrava com express&otilde;es do vocabul&aacute;rio popular. Exemplo: o uso das palavras &quot;pirralhos&quot; e &quot;guria&quot;, nesta frase: &quot;&#8230;A hist&oacute;ria come&ccedil;a em 1995, ano da morte do construtor Walmir Costa. Vi&uacute;va, com quatro pirralhos e a guria, dona Vera arrumou emprego de vendedora&#8230;&quot;. Quando amea&ccedil;ava se tornar solene, ele a quebrava com express&otilde;es fortes do dia-a-dia: &quot;Morreu Darcy Ribeiro. Azar de quem sobrou: o mundo sem ele ficou mais pobre, mais chato e burro&#8230;.&quot; <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Espa&ccedil;o para o talento<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Conseguia sempre fugir do pomposo, do pern&oacute;stico. Tamb&eacute;m trazia para a narrativa jornal&iacute;stica algo do som dos sert&otilde;es: &quot;Not&iacute;cia ruim nunca faltou aos sete mil moradores de Puerto Casado, no Chaco Paraguaio&#8230; E a sina n&atilde;o ia mudar justo em dia agourento como aquele&#8230;&quot;. Criava, assim, efeitos de lugar e &eacute;poca. E gostava de brincar com os significados de palavras amb&iacute;guas, observou bem um dos poucos registros de sua morte nos jornais desta semana. <\/p>\n<p><\/span><span>Volto ao meu ponto de partida, do jornalismo como paix&atilde;o. &Eacute; uma paix&atilde;o que pode ser vivida de v&aacute;rios modos, o sofrido, o l&uacute;dico, o prazeroso. Fora ou dentro das reda&ccedil;&otilde;es. Mas &eacute; sempre uma rela&ccedil;&atilde;o intensa, uma entrega total. E passa sempre pelo manejo criativo e respeitoso da l&iacute;ngua. A l&iacute;ngua &eacute; o nosso registro do mundo e nosso elo com os leitores. N&atilde;o &eacute; algo que se aprende na escola. Alencar n&atilde;o aprendeu na escola. N&atilde;o vem no diploma de jornalismo. Est&aacute; no DNA. Nasce com a gente. &Eacute; parte do talento para o jornalismo. <\/p>\n<p><\/span><span>Mas &eacute; claro que os talentos s&oacute; v&atilde;o se mostrar se o jornalismo lhes der espa&ccedil;o. E a&iacute; est&aacute; o paradoxo: cada vez que morre um Alencar ou um Murilo, morre um pouco mais do pr&oacute;prio espa&ccedil;o do jornalismo como paix&atilde;o, e com isso a possibilidade de se revelarem novos apaixonados.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><br \/><\/span>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n<p><span><\/span>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu Jos&eacute; Roberto de Alencar. Azar de quem sobrou. O mundo sem ele ficou mais pobre, mais chato e burro. Dias antes havia morrido Murilo Felisberto. Dois grandes jornalistas. Com eles l&aacute; se foi mais um pouco do pouco que restava entre n&oacute;s do jornalismo como paix&atilde;o. 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