{"id":18510,"date":"2007-06-12T19:28:43","date_gmt":"2007-06-12T19:28:43","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18510"},"modified":"2007-06-12T19:28:43","modified_gmt":"2007-06-12T19:28:43","slug":"coronelismo-eletronico-na-radiodifusao-educativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18510","title":{"rendered":"Coronelismo eletr\u00f4nico na radiodifus\u00e3o educativa"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\"><span>Somente agora chegou ao conhecimento p&uacute;blico, por interm&eacute;dio de mat&eacute;ria da jornalista Elvira Lobato, na edi&ccedil;&atilde;o da Folha de S.Paulo de quinta-feira (7\/6) [&quot;Justi&ccedil;a veta concess&atilde;o de TV educativa sem licita&ccedil;&atilde;o&quot;, acesso restrito a assinantes do UOL e\/ou da Folha], uma decis&atilde;o de juiz da 2&ordf; Vara Federal de Goi&aacute;s, tomada em abril de 2006, que pode p&ocirc;r fim a uma &quot;brecha&quot; legal que &eacute; uma das portas abertas para a continuidade do que tem sido chamado de &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico&quot;. Na decis&atilde;o, provocada por a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal iniciada em 2003, e ampliada em 2005, o juiz considerou inconstitucional o decreto-lei 236, de 1967, que serve de base &agrave; n&atilde;o-exig&ecirc;ncia de licita&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica para as concess&otilde;es de televis&atilde;o educativa.<\/p>\n<p><\/span><span>Na verdade, o decreto-lei 236\/67 exclui as TVs educativas de exig&ecirc;ncia estabelecida pelo C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es de 1962. Diz o par&aacute;grafo 2&ordm; do Artigo 14 do decreto-lei:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;A outorga de canais para a televis&atilde;o educativa n&atilde;o depender&aacute; da publica&ccedil;&atilde;o do edital previsto do artigo 34 do C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es.&quot; <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O Artigo 34 do CBT, por sua vez, diz que:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;As novas concess&otilde;es ou autoriza&ccedil;&otilde;es para o servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o ser&atilde;o precedidas de edital, publicado com 60 (sessenta) dias de anteced&ecirc;ncia (&#8230;).&quot;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Essa norma, por incr&iacute;vel que pare&ccedil;a, conseguiu &quot;sobreviver&quot; &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, cujo artigo 175 exige licita&ccedil;&atilde;o para a concess&atilde;o de servi&ccedil;os p&uacute;blicos: <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;Incumbe ao Poder P&uacute;blico, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concess&atilde;o ou permiss&atilde;o, sempre atrav&eacute;s de licita&ccedil;&atilde;o, a presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os p&uacute;blicos.&quot;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Nova altera&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o decreto 1.720, de 28\/11\/1995, estendeu &agrave; radiodifus&atilde;o as exig&ecirc;ncias de licita&ccedil;&atilde;o regulamentadas pela lei 8.666\/1993, alterando o Regulamento dos Servi&ccedil;os de Radiodifus&atilde;o (decreto 52.795 de 31\/10\/1963). A partir de ent&atilde;o, as outorgas de radiodifus&atilde;o comercial s&oacute; poderiam ser feitas por meio de licita&ccedil;&atilde;o. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Passou despercebida, todavia, a reda&ccedil;&atilde;o do Par&aacute;grafo 2&ordm; do inciso XV do Artigo 13 do decreto 1720\/1995, que dizia:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;N&atilde;o depender&aacute; de edital a outorga para execu&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o por pessoas jur&iacute;dicas de direito p&uacute;blico interno e por entidades da administra&ccedil;&atilde;o indireta institu&iacute;das pelos Governos Estaduais e Municipais, nem a outorga para a execu&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o com fins exclusivamente educativos&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>As emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o educativas ficavam, portanto, dispensadas das licita&ccedil;&otilde;es e poderiam continuar autorizadas atrav&eacute;s de crit&eacute;rios estabelecidos diretamente pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, embora continuassem tendo que ser submetidas ao Congresso Nacional conforme manda a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Estava discretamente &quot;aberta a porta&quot; para a continuidade do uso das concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o como moeda de barganha pol&iacute;tica &ndash; s&oacute; que, agora, exclusivamente para as r&aacute;dios e televis&otilde;es educativas.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Cerca de um ano depois, o decreto 2.108 de 24\/12\/1996 promove nova altera&ccedil;&atilde;o que consagrada a &quot;brecha&quot;. Est&aacute; l&aacute; no Par&aacute;grafo 1&ordm; do inciso XV do Artigo 13:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;&Eacute; dispens&aacute;vel a licita&ccedil;&atilde;o para a outorga para a execu&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o com fins exclusivamente educativos.&quot;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Golpe importante<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Em agosto de 2002, uma seq&uuml;&ecirc;ncia de reportagens realizadas pela mesma rep&oacute;rter na Folha mostrava detalhadamente como o governo de Fernando Henrique Cardoso havia dado continuidade &agrave; pratica de distribui&ccedil;&atilde;o de TVs educativas a pol&iacute;ticos aliados. Na mat&eacute;ria inicial, sob o t&iacute;tulo &quot;FHC distribuiu r&aacute;dios e TVs educativas para pol&iacute;ticos&quot;, publicada em 25\/8\/2002, est&aacute; escrito:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;Em sete anos e meio de governo, al&eacute;m das 539 emissoras comerciais vendidas por licita&ccedil;&atilde;o, FHC autorizou 357 concess&otilde;es educativas sem licita&ccedil;&atilde;o. (&#8230;) A distribui&ccedil;&atilde;o foi concentrada nos tr&ecirc;s anos em que o deputado federal Pimenta da Veiga (PSDB-MG), coordenador da campanha de Jos&eacute; Serra, esteve &agrave; frente do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. Ele ocupou o cargo de janeiro de 99 a abril de 2002, quando, segundo seus pr&oacute;prios c&aacute;lculos, autorizou perto de cem TVs educativas. Pelo menos 23 foram para pol&iacute;ticos. A maioria dos casos detectados pela Folha &eacute; em Minas Gerais, base eleitoral de Pimenta da Veiga, mas h&aacute; em S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Esp&iacute;rito Santo, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Maranh&atilde;o, Roraima e Mato Grosso do Sul.&quot;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Da mesma forma, quatro anos depois, em junho de 2006, novamente Elvira Lobato publicou mat&eacute;ria na mesma Folha de S.Paulo, de 19\/6\/2006, sob o t&iacute;tulo &quot;Governo Lula distribui TVs e r&aacute;dios educativas a pol&iacute;ticos&quot;, na qual se afirmava: <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;O governo Lula reproduziu uma pr&aacute;tica dos que o antecederam e distribuiu pelo menos sete concess&otilde;es de TV e 27 r&aacute;dios educativas a funda&ccedil;&otilde;es ligadas a pol&iacute;ticos. (&#8230;) Entre pol&iacute;ticos contemplados est&atilde;o os senadores Magno Malta (PL-ES) e Leonel Pavan (PSDB-SC). A lista inclui ainda os deputados federais Jo&atilde;o Caldas (PL-AL), Wladimir Costa (PMDB-PA) e Silas C&acirc;mara (PTB-AM), al&eacute;m de deputados estaduais, ex-deputados, prefeitos e ex-prefeitos. Em tr&ecirc;s anos e meio de governo, Lula aprovou 110 emissoras educativas, sendo 29 televis&otilde;es e 81 r&aacute;dios. Levando em conta somente as concess&otilde;es a pol&iacute;ticos, significa que ao menos uma em cada tr&ecirc;s r&aacute;dios foi parar, diretamente ou indiretamente, nas m&atilde;os deles.&quot;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A decis&atilde;o do juiz goiano, at&eacute; agora desconhecida inclusive pelas dezenas de concession&aacute;rias de radiodifus&atilde;o educativa diretamente atingidas, poder&aacute; colocar um fim nessa &quot;brecha&quot; &ndash; que, ali&aacute;s, n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A pr&aacute;tica sofrer&aacute;, sem d&uacute;vida, um importante golpe. Existem, no entanto, outras &quot;brechas&quot; e, atrav&eacute;s delas, o &quot;coronelismo eletr&ocirc;nico&quot; continua se perpetuando travestido em diferentes disfarces.<br \/><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;permitida a reprodu&ccedil;&atilde;o, desde que citada a fonte original.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somente agora chegou ao conhecimento p&uacute;blico, por interm&eacute;dio de mat&eacute;ria da jornalista Elvira Lobato, na edi&ccedil;&atilde;o da Folha de S.Paulo de quinta-feira (7\/6) [&quot;Justi&ccedil;a veta concess&atilde;o de TV educativa sem licita&ccedil;&atilde;o&quot;, acesso restrito a assinantes do UOL e\/ou da Folha], uma decis&atilde;o de juiz da 2&ordf; Vara Federal de Goi&aacute;s, tomada em abril de 2006, &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18510\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Coronelismo eletr\u00f4nico na radiodifus\u00e3o educativa<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[207],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18510"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18510"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18510\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}