{"id":18509,"date":"2007-06-12T18:39:48","date_gmt":"2007-06-12T18:39:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18509"},"modified":"2007-06-12T18:39:48","modified_gmt":"2007-06-12T18:39:48","slug":"a-demonizacao-das-radios-comunitarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18509","title":{"rendered":"A demoniza\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios comunit\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p><span>Nas &uacute;ltimas semanas, houve um endurecimento da repress&atilde;o &agrave;s r&aacute;dios comunit&aacute;rias nas principais regi&otilde;es metropolitanas do pa&iacute;s. A senha para a nova ofensiva foi dada no 24&ordm; Congresso da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira das Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (Abert), que re&uacute;ne os &ldquo;donos de m&iacute;dia&rdquo;, no final de maio. Na ocasi&atilde;o, H&eacute;lio Costa, ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es e homem de confian&ccedil;a da Rede Globo, anunciou o refor&ccedil;o das medidas de criminaliza&ccedil;&atilde;o. Entre outras iniciativas, informou que solicitou ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico o uso de &ldquo;interdito proibit&oacute;rio&rdquo; para punir as r&aacute;dios, que intensificar&aacute; as campanhas publicit&aacute;rias para estigmatizar o setor e incentivar a dela&ccedil;&atilde;o e que o &ldquo;seu&rdquo; minist&eacute;rio exigir&aacute; total rigor na aplica&ccedil;&atilde;o das penas de pris&atilde;o.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;A partir de hoje estamos pedido &agrave; Justi&ccedil;a que penalize esta falta de respeito. A pena para quem infringe a lei &eacute; de at&eacute; dois anos de cadeia&rdquo;, esbravejou o rejeitado ministro do governo Lula no evento da Abert para o deleite da plat&eacute;ia de empres&aacute;rios. Ele tamb&eacute;m convocou as emissoras privadas, maiores interessadas na persegui&ccedil;&atilde;o &agrave;s r&aacute;dios comunit&aacute;rias, para que &ldquo;ajudem na conscientiza&ccedil;&atilde;o da sociedade&rdquo;, criando o clima de deduragem nas periferias da cidade. &ldquo;Fazemos um apelo para todos que possam nos ajudar. Isto porque n&oacute;s temos que ter o m&iacute;nimo de informa&ccedil;&atilde;o para identificar o local da r&aacute;dio pirata e efetuar as pris&otilde;es&rdquo;.&nbsp; <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>&ldquo;Pura tens&atilde;o&rdquo; nas periferias<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>At&eacute; a Folha de S.Paulo, com seu linguajar preconceituoso, constatou o avan&ccedil;o da repress&atilde;o. &ldquo;Os &uacute;ltimos dias foram de pura tens&atilde;o para os donos das r&aacute;dios clandestinas, livres, ilegais ou piratas, como costumam ser chamadas&rdquo;. O rep&oacute;rter Jo&atilde;o Wainer percorreu alguns bairros da periferia de S&atilde;o Paulo e sentiu o clima de persegui&ccedil;&atilde;o. Daniel, nome fict&iacute;cio de um dos entrevistados, protestou: &ldquo;Faz 12 anos que minha r&aacute;dio presta servi&ccedil;os &agrave; comunidade e agora eu tenho que ouvir um engravatado l&aacute; de Bras&iacute;lia vir dizer que eu sou criminoso&rdquo;. A r&aacute;dio de Daniel nasceu do movimento popular por moradia e hoje atua totalmente na clandestinidade, temendo a destrui&ccedil;&atilde;o dos equipamentos e a pris&atilde;o de seus colaboradores volunt&aacute;rios.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Outro entrevistado, de codinome Jos&eacute;, lembra que &ldquo;todo o boteco da regi&atilde;o sintonizava a nossa r&aacute;dio. De dois anos para c&aacute;, a pol&iacute;cia intensificou a repress&atilde;o e minha vida virou um inferno&rdquo;. J&aacute; Donato teve a sua r&aacute;dio fechada por policiais em junho de 2006. &ldquo;Eles arrombaram a porta e fecharam tudo. Cheguei aqui e o transmissor tinha sido levado. Desde ent&atilde;o, nunca mais pude transmitir&rdquo;. Outro entrevistado, batizado de Humberto, afirma que n&atilde;o desistir&aacute; de seu projeto. &ldquo;Sou um revolucion&aacute;rio e uso a r&aacute;dio para passar a minha mensagem&#8230; As r&aacute;dios oficiais pagam propina para que a pol&iacute;cia feche as piratas no bairro. Somos melhores que eles, estamos ganhando ouvintes e isso incomoda&rdquo;.&nbsp; <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Aeroportos e desculpa esfarrapada<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O pretexto usado agora para o aumento da repress&atilde;o &eacute; que as r&aacute;dios comunit&aacute;rias estariam interferindo na comunica&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea, causando atrasos e transtornos nos aeroportos. A desculpa &eacute; das mais esfarrapadas e deveria corar de vergonha o ministro H&eacute;lio Costa. Segundo v&aacute;rios especialistas, a pot&ecirc;ncia destas r&aacute;dios &eacute; baixa, sendo facilmente redirecionada pelas torres de comando das aeronaves. Na verdade, as emissoras privadas &eacute; que tem poder para interferir nas comunica&ccedil;&otilde;es aeron&aacute;uticas. O relat&oacute;rio do Grupo de Trabalho Interministerial do governo federal registrou, entre maio e outubro de 2003, v&aacute;rias interfer&ecirc;ncias causadas no aeroporto Santos Dummont, no Rio de Janeiro, por r&aacute;dios comerciais, entre elas a R&aacute;dio Globo. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Segundo um fiscal da Ag&ecirc;ncia Nacional de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (Anatel), que preferiu n&atilde;o se identificar numa entrevista ao Observat&oacute;rio da Imprensa, &ldquo;todo dia recebemos den&uacute;ncias de interfer&ecirc;ncia de r&aacute;dios outorgadas [as &ldquo;legais&rdquo;] na avia&ccedil;&atilde;o. Em menos de uma hora comunicamos para que resolvam. Agora, se &eacute; uma r&aacute;dio pirata, clandestina, n&oacute;s n&atilde;o sabemos o telefone, o endere&ccedil;o. Tem que chamar a pol&iacute;cia e ela j&aacute; vai armada, &eacute; crime&rdquo;. At&eacute; o presidente da empresa Gol, Constantino Oliveira Junior, disse aos deputados e senadores da CPI do Apag&atilde;o A&eacute;reo que &ldquo;a interfer&ecirc;ncia de r&aacute;dios ilegais na comunica&ccedil;&atilde;o do piloto com a torre n&atilde;o p&otilde;e em risco o v&ocirc;o, j&aacute; que o piloto troca de freq&uuml;&ecirc;ncia ou faze ponte com outras aeronaves&rdquo;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Segundo Marcus Manh&atilde;es, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunica&ccedil;&otilde;es, a tentativa de culpar as comunit&aacute;rias pelos atrasos e acidentes na avia&ccedil;&atilde;o &eacute; preconceituosa e n&atilde;o tem fundamento, j&aacute; que qualquer transmiss&atilde;o pode ser interferente, seja de r&aacute;dio comercial, comunit&aacute;ria ou ilegal. &ldquo;Utilizando a como&ccedil;&atilde;o dos acidentes a&eacute;reos fica f&aacute;cil atribuir responsabilidade para quem &eacute; mais fraco&rdquo;. Ele garante que uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria, com apenas 25 watts de pot&ecirc;ncia e uma dist&acirc;ncia m&iacute;nima de um quil&ocirc;metro e meio dos aeroportos, conforme o autorizado pela legisla&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tem como interferir na freq&uuml;&ecirc;ncia usada pela avia&ccedil;&atilde;o. &ldquo;As comunit&aacute;rias t&ecirc;m o menor potencial de ser interferente. J&aacute; as r&aacute;dios comerciais, por trabalharem com pot&ecirc;ncias muito superiores, s&atilde;o as potencialmente interferentes&rdquo;, afirma o especialista.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Os &ldquo;interesses&rdquo; de H&eacute;lio Costa<\/p>\n<p><\/strong><\/span><span>Comprovada a total &ldquo;ignor&acirc;ncia&rdquo; do ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, o que est&aacute; por tr&aacute;s da sua f&uacute;ria contra as r&aacute;dios comunit&aacute;rias? Na pr&aacute;tica, o &ldquo;homem da TV Globo&rdquo; sempre defendeu os interesses das corpora&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia &ndash; e at&eacute; advogou em causa pr&oacute;pria, j&aacute; que &eacute; dono de r&aacute;dios <\/span><span>em Minas Gerais. Na<\/span><span> sua triste gest&atilde;o, emissoras de comunidades e movimentos sociais comeram o p&atilde;o que o diabo amassou e n&atilde;o tiveram paz. Modestas salas de r&aacute;dios comunit&aacute;rias foram invadidas, transmissores foram apreendidos ou destru&iacute;dos e comunicadores populares foram presos e hoje vivem na &ldquo;clandestinidade&rdquo;. H&eacute;lio Costa &eacute; culpado por um dos recordes negativos do governo Lula na compara&ccedil;&atilde;o com FHC: o da repress&atilde;o de r&aacute;dios comunit&aacute;rias.<\/p>\n<p><\/span><span>Somente no ano passado foram fechadas 1.602 r&aacute;dios comunit&aacute;rias no Brasil. Segundo levantamento da Folha, nos primeiros cinco meses deste ano a Anatel fechou mais de 600 r&aacute;dios &ndash; 90 delas <\/span><span>em S&atilde;o Paulo.<\/span><span> Como<\/span><span> afirma Ven&iacute;cio de Lima, autor do indispens&aacute;vel livro &ldquo;M&iacute;dia: crise pol&iacute;tica e poder no Brasil&rdquo;, esta postura &eacute; inadmiss&iacute;vel num governo oriundo das lutas sociais e que &eacute; v&iacute;tima da manipula&ccedil;&atilde;o da ditadura midi&aacute;tica. &ldquo;A eventual interrup&ccedil;&atilde;o [nas conversas entre o piloto e as torres de comando dos aeroportos] provocada por uma ou duas r&aacute;dios n&atilde;o justifica o aumento da repress&atilde;o &agrave;s demais r&aacute;dios comunit&aacute;rias. Se existem r&aacute;dios ilegais, o minist&eacute;rio deveria apressar o processo de legaliza&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o reprimir&rdquo;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O padr&atilde;o estadunidense restritivo<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Al&eacute;m da criminaliza&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, o ministro H&eacute;lio Costa j&aacute; prepara outro golpe contra essa forma de democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia. No processo de digitaliza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s, prevista para come&ccedil;ar em dezembro, o governo estuda a ado&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o estadunidense de r&aacute;dio digital &ndash; In Band On Channel (Iboc). O sistema &eacute; altamente restritivo, com custos elevados e cobran&ccedil;a de royalties pela firma Ibiquity, dos EUA. Como explica Jonas Valente, do Coletivo Intervozes, o pa&iacute;s at&eacute; poderia adotar outros modelos, como o europeu e o japon&ecirc;s, ou investir em tecnologia nacional. Mas as r&aacute;dios privadas, como a Globo, for&ccedil;am a barra para impor o modelo ianque &ndash; e contam com a m&atilde;ozinha do ministro H&eacute;lio Costa.<\/span><span>&nbsp;<br \/><\/span><span><br \/>&ldquo;<\/span><span>Em S&atilde;o Paulo<\/span><span>, as radiodifusoras j&aacute; compraram mais de cem aparelhos no sistema norte-americano. Elas querem ganhar pela imposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;, alerta Jonas Valente. A pr&oacute;pria Anatel j&aacute; confessou que a introdu&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o estadunidense levar&aacute; a fal&ecirc;ncia centenas de pequenas r&aacute;dios comerciais, para n&atilde;o falar das r&aacute;dios comunit&aacute;rias. S&oacute; o transmissor do sistema Iboc custar&aacute; cerca de R$ 30 mil; j&aacute; o pagamento da licen&ccedil;a, do royaltie, custar&aacute; mais de US$ 5 mil. &ldquo;Esse custo inviabiliza o sistema. As r&aacute;dios comunit&aacute;rias, educativas e culturais ficar&atilde;o fora desse processo de transmiss&atilde;o digital&rdquo;, denuncia Orlando Guilhon, presidente da Associa&ccedil;&atilde;o das R&aacute;dios P&uacute;blicas Brasileiras e diretor da R&aacute;dio MEC.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><em>* Altamiro Borges &eacute; jornalista, membro do Comit&ecirc; Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro &ldquo;As encruzilhadas do sindicalismo&rdquo; (Editora Anita Garibaldi, 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/em>reprodu&ccedil;&atilde;o autorizada.<\/span><span>&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas &uacute;ltimas semanas, houve um endurecimento da repress&atilde;o &agrave;s r&aacute;dios comunit&aacute;rias nas principais regi&otilde;es metropolitanas do pa&iacute;s. A senha para a nova ofensiva foi dada no 24&ordm; Congresso da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira das Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (Abert), que re&uacute;ne os &ldquo;donos de m&iacute;dia&rdquo;, no final de maio. Na ocasi&atilde;o, H&eacute;lio Costa, ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18509\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A demoniza\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios comunit\u00e1rias<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18509"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18509"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18509\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}