{"id":18487,"date":"2007-06-05T17:39:39","date_gmt":"2007-06-05T17:39:39","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18487"},"modified":"2007-06-05T17:39:39","modified_gmt":"2007-06-05T17:39:39","slug":"a-representacao-do-negro-na-televisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18487","title":{"rendered":"A representa\u00e7\u00e3o do negro na televis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Em entrevista exclusiva ao Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o, o publicit&aacute;rio e diretor executivo do Instituto M&iacute;dia &Eacute;tnica diz que &eacute; preciso descolonizar os meios de comunica&ccedil;&atilde;o para resgatar conceitos e valores presentes na cultura negra. De acordo com ele, a estrutura dos meios e seu conte&uacute;do s&atilde;o extremamente nocivos &agrave; forma&ccedil;&atilde;o dos jovens e crian&ccedil;as afrodescendentes, pois exercem forte influ&ecirc;ncia na forma de viver e ver o mundo. &ldquo;A tend&ecirc;ncia &eacute; negar sua pr&oacute;pria identidade&rdquo;, afirma. Para o ativista, as reflex&otilde;es sobre racismo devem necessariamente pautar a concep&ccedil;&atilde;o de TV p&uacute;blica no pa&iacute;s: &ldquo;&Eacute; toler&aacute;vel que uma TV comercial n&atilde;o represente o negro, mas &eacute; inaceit&aacute;vel que uma TV p&uacute;blica, que se prop&otilde;e a dar voz aos diversos segmentos da sociedade, fa&ccedil;a a mesma coisa&rdquo;.<\/em> <\/p>\n<p><u>Confira os melhores momentos da entrevista:<\/u><\/p>\n<p><strong>Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; O Brasil &eacute; famoso por sua diversidade, inclusive racial. Essa diversidade tem vez na televis&atilde;o?<\/strong> <br \/>Paulo Rog&eacute;rio Nenes &#8211; Esta diversidade n&atilde;o &eacute; representada na televis&atilde;o porque ainda se valoriza na TV, como em v&aacute;rias esferas da sociedade brasileira, a matriz europ&eacute;ia de pensamento e comportamento. Negros e ind&iacute;genas n&atilde;o s&atilde;o representados de maneira digna na TV: ou s&atilde;o representados de maneira estereotipada ou n&atilde;o aparecem. Na verdade, o Brasil tem como uma de suas principais caracter&iacute;sticas a sua diversidade cultural e as diversas contribui&ccedil;&otilde;es dos povos, mas a TV n&atilde;o representa estes grupos. Isso parte da ideologia que fez com que pol&iacute;ticas p&uacute;blicas do Estado brasileiro e toda concep&ccedil;&atilde;o dentro da escola, das universidades e nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o valorizassem e privilegiassem esta matriz europ&eacute;ia. &Eacute; a matriz do colonizador. E o Brasil &eacute; quem perde com esta hist&oacute;ria toda porque n&atilde;o se conhece. Ao valorizar apenas uma vertente &eacute;tnica e racial nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e nas outras esferas da vida, perde a chance de entender as outras contribui&ccedil;&otilde;es trazidas pelos africanos e daqueles que j&aacute; estavam aqui, como os ind&iacute;genas. Isso &eacute; grave porque causa uma falsa imagem do pa&iacute;s. O professor H&eacute;lio Santos (economista da USP) sempre diz que a TV da Dinamarca e da Europa em geral t&ecirc;m mais negros que a do Brasil. Nosso pa&iacute;s n&atilde;o pratica a diversidade, e as institui&ccedil;&otilde;es, como a escola, a igreja ou os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, cometem este racismo institucionalizado por privilegiar um determinado tipo &eacute;tnico e um padr&atilde;o de beleza, de comportamento, de vida. <\/p>\n<p><strong>ODC &#8211; O racismo que ainda existe no Brasil tem sua face televisiva?<\/strong> <br \/>Claro. Pra fazer uma reflex&atilde;o, vamos lembrar quem era Mussum? Um homem negro &eacute;brio, estere&oacute;tipo do negro maltrapilho, vagabundo, sem perspectiva. Em v&aacute;rios momentos da teledramaturgia e em outras produ&ccedil;&otilde;es da TV brasileira, h&aacute; uma carga muito grande de estere&oacute;tipos e preconceitos. H&aacute; uma a&ccedil;&atilde;o deliberada para, al&eacute;m de sub-representar, colocar os negros e negras em patamar de desigualdade, de inferioridade. E isso &eacute; prejudicial para quem assiste. Para o jovem negro ou para a crian&ccedil;a que est&aacute; formando sua identidade isso &eacute; extremamente nocivo, pois exerce forte influ&ecirc;ncia na forma de viver e ver o mundo. Por isso, se n&atilde;o atacarmos o racismo nesta esfera da produ&ccedil;&atilde;o, ele vai continuar sendo reproduzido em larga escala. &Eacute; desproporcional termos tantas organiza&ccedil;&otilde;es e pessoas que falam em desigualdade racial pelo pa&iacute;s e a TV reafirmar valores racistas. <\/p>\n<p><strong>ODC &#8211; Onde ele (o racismo) se manifesta de forma mais evidente?<\/strong> <br \/>N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel qualificar onde acontece mais fortemente. H&aacute; uma quest&atilde;o institucionalizada de sub-representa&ccedil;&atilde;o da personagem negra. Pesquisas recentes mostram que as televis&otilde;es t&ecirc;m apenas 5,5% de apresentadores e profissionais que aparecem no v&iacute;deo que s&atilde;o negros. H&aacute; tamb&eacute;m a aus&ecirc;ncia da discuss&atilde;o sobre a cultura negra. Por muito tempo, aprendemos na escola que o negro foi passivo no processo de coloniza&ccedil;&atilde;o e escravid&atilde;o no pa&iacute;s, que a ci&ecirc;ncia e as artes, e tudo que o ser humano conseguiu produzir foi feito pelos europeus. Isso &eacute; uma mentira que o movimento negro e a sociedade v&ecirc;m denunciando nos &uacute;ltimos anos e que a TV tamb&eacute;m precisa denunciar. &Eacute; necess&aacute;rio contar as hist&oacute;rias dos grandes l&iacute;deres negros, dos cientistas negros, mostrar contribui&ccedil;&otilde;es que a m&iacute;dia por muito tempo negou. Deve haver um momento de pensarmos uma descoloniza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, a descoloniza&ccedil;&atilde;o do pensamento e da produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do para resgatar conceitos e valores trazidos da &Aacute;frica pra c&aacute;. <\/p>\n<p><strong>ODC &#8211; Que solu&ccedil;&otilde;es voc&ecirc; aponta para a invisibilidade, a distor&ccedil;&atilde;o, o espelho infiel que &eacute; a m&iacute;dia para esta popula&ccedil;&atilde;o?<\/strong> <br \/>Para al&eacute;m da discuss&atilde;o sobre a cultura negra, &eacute; importante que haja negros falando disso e de outros temas, que sejamos fontes, rep&oacute;rteres, apresentadores. Mesmo que estejamos falando sobre f&iacute;sica qu&acirc;ntica, &eacute; importante que haja um negro l&aacute;, exercendo seu direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o duas vertentes de solu&ccedil;&atilde;o. A primeira &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o feitos por negros, por afrodescendentes, que exista uma m&iacute;dia negra efetivamente no Brasil. Esta m&iacute;dia vai ter nosso ponto de vista sobre temas nacionais, n&atilde;o s&oacute; falar sobre racismo ou cultura negra. Ser&aacute; o nosso ponto de vista sobre educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, desenvolvimento. E a imprensa negra j&aacute; aconteceu no Brasil. Havia jornais feitos por afrobrasileiros que denunciavam o racismo, mas tamb&eacute;m pautavam a sociedade brasileira. O segundo ponto &eacute; o da representa&ccedil;&atilde;o nos ve&iacute;culos tradicionais. &Eacute; necess&aacute;rio termos negros nos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o tradicionais e grandes, porque a comunica&ccedil;&atilde;o que chega a todas as pessoas &eacute; fundamental e &eacute; central mud&aacute;-la a partir de suas estruturas. E isso tudo deve estar conectado com uma vis&atilde;o de futuro sobre converg&ecirc;ncia digital e novas ferramentas de comunica&ccedil;&atilde;o. Na ocupa&ccedil;&atilde;o destes novos espa&ccedil;os, devem ser priorizados os grupos historicamente exclu&iacute;dos, como negros e &iacute;ndios. <\/p>\n<p><strong>ODC &#8211; H&aacute; ind&iacute;cios de que estamos mudando para melhor? &Eacute; poss&iacute;vel citar exemplos positivos?<\/strong> <br \/>A&nbsp; publicidade, aqui na Bahia, por exemplo, mudou em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; inser&ccedil;&atilde;o dos negros. Isso n&atilde;o acontece por benevol&ecirc;ncia, mas pelo aspecto econ&ocirc;mico. N&atilde;o d&aacute; pra vender um produto para classes C e D e n&atilde;o colocar um negro dando um depoimento, por exemplo. Isso tem mudado e a publicidade j&aacute; reflete mais a popula&ccedil;&atilde;o negra, assim como alguns programas de televis&atilde;o e filmes que j&aacute; abordam a cultura negra. Na pol&iacute;tica em geral podemos ver algumas coisas avan&ccedil;ando, como a cria&ccedil;&atilde;o da secretaria (Especial de Pol&iacute;ticas de Promo&ccedil;&atilde;o da Igualdade Racial &#8211; SEPPIR), a&ccedil;&otilde;es do MEC na implanta&ccedil;&atilde;o da Lei 10639 (que institui o ensino sistem&aacute;tico de hist&oacute;ria e cultura afro-brasileira e africana na Educa&ccedil;&atilde;o B&aacute;sica). Estes avan&ccedil;os s&atilde;o prova de que o movimento negro conseguiu colocar uma agenda de reivindica&ccedil;&otilde;es e de transforma&ccedil;&atilde;o. Mas isso n&atilde;o est&aacute; refletido na m&iacute;dia. Pelo contr&aacute;rio. H&aacute;, na m&iacute;dia conservadora, um clima de fortalecimento do discurso contra as cotas, se articulando para deslegitimar as a&ccedil;&otilde;es afirmativas. &Eacute; natural, porque &eacute; uma disputa pol&iacute;tica colocada na sociedade brasileira hoje. Se houvesse uma proposta de a&ccedil;&atilde;o afirmativa nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, isso seria extremamente questionado e recha&ccedil;ado pela elite. Essa elite, no geral, reconhece que existe racismo, mas n&atilde;o reconhece a necessidade de medidas para solucionar este problema. <\/p>\n<p><strong>ODC &#8211; Como a comunica&ccedil;&atilde;o pode ajudar a superar a nossa hist&oacute;ria racista?<\/strong> <br \/>A comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; estrat&eacute;gica para o avan&ccedil;o da nossa luta, da luta contra o racismo e o desenvolvimento da comunidade negra em todo mundo. Pensando globalmente, na &Aacute;frica, no Caribe, em pa&iacute;ses onde h&aacute; negros, a comunica&ccedil;&atilde;o possibilita que grupos historicamente sem representa&ccedil;&atilde;o tenham voz. Sem a apropria&ccedil;&atilde;o dos meios n&atilde;o conseguiremos pautar nossa luta, nossos discursos. A comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s foi sempre uma comunica&ccedil;&atilde;o em que poucos falam e muitos ouvem. Precisamos construir no Brasil uma outra comunica&ccedil;&atilde;o, em que muitos falem e muitos ou&ccedil;am. &Eacute; imposs&iacute;vel democratizar a comunica&ccedil;&atilde;o e fazer valer o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o sem discutir a representa&ccedil;&atilde;o dos povos historicamente exclu&iacute;dos neste ambiente. Neste sentido, a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; a possibilidade de amplia&ccedil;&atilde;o de horizontes, a conex&atilde;o com outras comunidades, a articula&ccedil;&atilde;o e a amplia&ccedil;&atilde;o de vis&atilde;o de mundo. E as tecnologias s&atilde;o elementos importantes nesta luta. A inclus&atilde;o digital, por exemplo, &eacute; uma necessidade para o Brasil, mas o quadro de exclus&atilde;o, que &eacute; complicado para todos, &eacute; ainda pior para os negros. <\/p>\n<p><strong>ODC &#8211; Os recentes debates sobre a TV p&uacute;blica deveriam, j&aacute; na sua concep&ccedil;&atilde;o, fazer esta discuss&atilde;o? Qual o risco que corremos se n&atilde;o a fizermos?<\/strong> <br \/>O debate sobre a TV p&uacute;blica est&aacute; colocado na agenda nacional e &eacute; de extrema relev&acirc;ncia. Discutir TV p&uacute;blica &eacute; discutir uma comunica&ccedil;&atilde;o que possa dar voz &agrave; sociedade de fato, que n&atilde;o seja uma comunica&ccedil;&atilde;o apenas comercial ou estatal. Este &eacute; um elemento fundamental para a democracia. Para discutir TV p&uacute;blica na nossa realidade pol&iacute;tica, &eacute; necess&aacute;rio discutir a presen&ccedil;a dos negros nesta TV. Uma pesquisa recente feita pela Funda&ccedil;&atilde;o Palmares mostra que hoje apenas 0,9% do conte&uacute;do das televis&otilde;es do campo p&uacute;blico (TVE, Cultura e Radiobr&aacute;s) aborda a cultura negra. Ent&atilde;o, o espa&ccedil;o da TV p&uacute;blica deve necessariamente buscar acabar com a hegemonia dos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o e refletir a diversidade que temos. &Eacute; inaceit&aacute;vel que uma TV p&uacute;blica, que se prop&otilde;e a dar voz aos diversos segmentos da sociedade, apresente um quadro como o que vemos hoje. Para isso, &eacute; fundamental que haja articula&ccedil;&atilde;o entre sociedade civil e movimentos para fazermos press&atilde;o pelo envolvimento de pessoas negras neste debate, inclusive para a contrata&ccedil;&atilde;o, e para que o conte&uacute;do negro esteja representado nelas. Seria no m&iacute;nimo contradit&oacute;rio se as TVs p&uacute;blicas e educativas n&atilde;o refletissem sobre este assunto. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;permitida a publica&ccedil;&atilde;o, desde que citada a fonte original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;H\u00e1 uma carga muito grande de estere\u00f3tipos e preconceitos&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18487"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18487"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18487\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}