{"id":18484,"date":"2007-06-05T15:49:34","date_gmt":"2007-06-05T15:49:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18484"},"modified":"2007-06-05T15:49:34","modified_gmt":"2007-06-05T15:49:34","slug":"venezuela-por-que-tanta-raiva-tanta-furia-e-inverdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18484","title":{"rendered":"Venezuela: por que tanta raiva, tanta f\u00faria e inverdades?"},"content":{"rendered":"<p><span><em>Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique; tradu&ccedil;&atilde;o de Pablo Simpson.<\/em><br \/>&nbsp;<br \/><\/span><span>O caso s&oacute; poderia ter alcance planet&aacute;rio uma vez que deu lugar, nos &uacute;ltimos dias, a declara&ccedil;&otilde;es quase simult&acirc;neas do Senado norte-americano, do Parlamento Europeu e da presid&ecirc;ncia alem&atilde; da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, sem falar dos artigos intermin&aacute;veis e dos editoriais da maior parte dos canais de informa&ccedil;&atilde;o ocidentais. De que se trata? Do Ir&atilde;, do aquecimento global, da Palestina, do Darfur? Errado: o caso grav&iacute;ssimo em quest&atilde;o &eacute; a n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o, pelo governo venezuelano, da concess&atilde;o de 20 anos, que se esgotou no dia 27 de maio, de um canal de televis&atilde;o privado: a Radio Caracas Televis&atilde;o (RCTV), para instalar em sua freq&uuml;&ecirc;ncia hertz um canal de servi&ccedil;o p&uacute;blico. Isso quer dizer: exercer o direito soberano de cada Estado de dispor dos bens p&uacute;blicos raros que s&atilde;o as freq&uuml;&ecirc;ncias hertz.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Atentado aos direitos humanos, &agrave; liberdade de express&atilde;o, censura, deriva autorit&aacute;ria, totalit&aacute;ria &ndash; at&eacute; fascista &ndash; toda a pan&oacute;plia do vocabul&aacute;rio em uso h&aacute; v&aacute;rios anos contra o governo de Hugo Ch&aacute;vez foi utilizada novamente, de forma maci&ccedil;a, nessas circunst&acirc;ncias.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Do lado pol&iacute;tico, fiquemos inicialmente com a resolu&ccedil;&atilde;o un&acirc;nime, votada no dia 24 de maio pelo Senado norte-americano, em particular pelos aspirantes democratas &agrave; sucess&atilde;o de George Bush, contra o &quot;fechamento&quot; da RCTV. Votada pelos mesmos que, renegando suas promessas eleitorais, vieram, de forma tamb&eacute;m un&acirc;nime, conceder 100 milh&otilde;es de d&oacute;lares aos gastos militares da Casa Branca com o prosseguimento da ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque. Um belo exemplo de rigor democr&aacute;tico.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Pr&ecirc;mio de desinforma&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Atrav&eacute;s do porta-voz de Angela Merkel, presidente em exerc&iacute;cio do Conselho Europeu, a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia tamb&eacute;m foi longe em sua hipocrisia. Numa declara&ccedil;&atilde;o de 28 de maio, ela &quot;observou com inquieta&ccedil;&atilde;o a decis&atilde;o do governo da Rep&uacute;blica Bolivariana da Venezuela de deixar expirar a licen&ccedil;a de emiss&atilde;o da R&aacute;dio Caracas Televis&atilde;o (RCTV) no dia 27 de maio, sem abrir concorr&ecirc;ncia para a licen&ccedil;a seguinte&quot;. Desconhecemos, em meio a tantos outros &quot;esquecimentos&quot;, que a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia tenha feito semelhante declara&ccedil;&atilde;o e exigido a abertura de concorr&ecirc;ncia quando a licen&ccedil;a de transmiss&atilde;o da TF1, concedida em 1987 por 15 anos, foi reconduzida pelo governo franc&ecirc;s em 2002 &agrave; mais total opacidade. No entanto, a &quot;TV-lixo&quot; dos senhores Bouygues, Le Lay e Mougeotte desdenhou os compromissos que havia assumido em sua proposta inicial, invocando sua &quot;elite&quot;. Tudo indica que ela continuar&aacute; impunemente a faz&ecirc;-lo com seu novo patr&atilde;o, Nonce Paolini, protegido de Laurent Solly, transferido de uma hora para outra do staff de Nicolas Sarkozy para a sua filial midi&aacute;tica.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Com rela&ccedil;&atilde;o ao abundante notici&aacute;rio dos canais de informa&ccedil;&atilde;o franceses, antes e depois da n&atilde;o-renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da RCTV, o pr&ecirc;mio de desinforma&ccedil;&atilde;o &eacute;, incontestavelmente, dentre tantos artigos na mesma linha, do editorial de um jornal de refer&ecirc;ncia, publicado nos dias 27-28 de maio e intitulado &quot;Censura &agrave; Chavez&quot;. Vale a pena cit&aacute;-lo e comentar alguns de seus trechos.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Longe do monop&oacute;lio<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Logo de cara, o tom &eacute; dado: &quot;O presidente Hugo Ch&aacute;vez ordenou o desaparecimento da RCTV&quot;. N&atilde;o, a RCTV n&atilde;o &quot;desaparecer&aacute;&quot;: ela pode continuar a transmitir por cabo, pela internet e por sat&eacute;lite, e o far&aacute; sem d&uacute;vida alguma. Mas, como a lei prev&ecirc;, sua freq&uuml;&ecirc;ncia hertz e seu alcance nacional retornar&atilde;o ao servi&ccedil;o p&uacute;blico quando expirar a concess&atilde;o de que se beneficia. Ou ser&aacute; que essa concess&atilde;o de dura&ccedil;&atilde;o limitada da RCTV era, de fato, de dura&ccedil;&atilde;o ilimitada? E isso, fechando os olhos &agrave;s in&uacute;meras infra&ccedil;&otilde;es cometidas e que lhe valeram, por exemplo, o fechamento por um prazo de 24 horas a tr&ecirc;s dias, n&atilde;o pelo governo Ch&aacute;vez, mas em 1976, 1980, 1981, 1989 e 1991 &ndash; pelos predecessores social-democratas ou democrata-crist&atilde;os. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Desde sua primeira elei&ccedil;&atilde;o &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, em 1998, Ch&aacute;vez n&atilde;o fechou qualquer esta&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dio ou de televis&atilde;o, nem perseguiu jornalistas. Entretanto, isso &eacute; o que teria acontecido n&atilde;o importa em que outro pa&iacute;s democr&aacute;tico, diante do apoio apresentado abertamente pela maioria dos canais de informa&ccedil;&atilde;o &ndash; dentre eles, a RCTV &ndash; ao golpe de Estado abortado no dia 11 de abril de 2002, sen&atilde;o de sua organiza&ccedil;&atilde;o.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O editorial segue denunciando uma decis&atilde;o pol&iacute;tica &quot;que reduz o pluralismo e aumenta a concentra&ccedil;&atilde;o audiovisual nas m&atilde;os do governo&quot;. Que concentra&ccedil;&atilde;o &eacute; essa? Em 2006, havia na Venezuela 20 canais hertz VHF privados e um p&uacute;blico. Contavam-se, ali&aacute;s, 28 canais hertz UHF privados, 6 p&uacute;blicos e 44 comunit&aacute;rios. Atualmente, com a incorpora&ccedil;&atilde;o da RCTV, o servi&ccedil;o p&uacute;blico ter&aacute; dois canais hertz VHF, dois canais UHF e dois canais a cabo. Estamos muito longe do monop&oacute;lio&#8230;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>De 10 jornais, 9 s&atilde;o de oposi&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Sem qualquer sinal de humor, o editorial qualifica, em seguida, a RCTV de &quot;canal privado que dava voz &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o&quot;. A RCTV dava, de fato, voz &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o fazia sen&atilde;o isso! Estudos de conte&uacute;do realizados no m&ecirc;s de janeiro de 2007 mostram que, em seus programas, convidaram-se 21 personalidades hostis ao governo e nenhuma favor&aacute;vel. No mesmo m&ecirc;s, um dos quatro canais privados, Globovisi&oacute;n, convidou 59 opositores de Chavez e 7 partid&aacute;rios. S&oacute; a Televen respeitou a paridade: dois de cada lado.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; verdade que podemos lamentar que o &uacute;nico canal p&uacute;blico em hertz at&eacute; aqui controlado pelo governo, Venezolana de Televisi&oacute;n (ex-Canal 8) n&atilde;o seja um modelo de equil&iacute;brio. Mas como poderia ser diferente numa paisagem em que a maioria dos jornais, r&aacute;dios e canais de televis&atilde;o se comporta como partidos pol&iacute;ticos de oposi&ccedil;&atilde;o? &Eacute; preciso esperar que a TVES, o canal que retomar&aacute; o sinal de RCTV, mantenha suas promessas de pluralismo, mesmo nessas circunst&acirc;ncias adversas.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Do lado da imprensa escrita, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda mais apartada: em 10 jornais de difus&atilde;o nacional, nove s&atilde;o de oposi&ccedil;&atilde;o declarada ao governo. Se observarmos o conte&uacute;do dos artigos de opini&atilde;o publicados em quatro deles, em janeiro de 2007, veremos os seguintes resultados: para El Nacional, 112 hostis, 87 neutros e 6 favor&aacute;veis; para El Universal, os dados correspondem a 214, 89, 9; para Ultimas Noticias, 31, 59 e 18; para El Mundo, 49, 39 e 15, o que n&atilde;o os impede de receber a publicidade das empresas, ag&ecirc;ncias e servi&ccedil;os p&uacute;blicos.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Comportamento da imprensa<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Pretender que a liberdade de express&atilde;o esteja amea&ccedil;ada na Venezuela &eacute; sinal, portanto, da mais clara m&aacute;-f&eacute;. Basta parar numa banca de jornais ou passar uma hora diante de um aparelho de televis&atilde;o para sermos convencidos do contr&aacute;rio. &Eacute;, sem d&uacute;vida, o &uacute;nico pa&iacute;s do mundo onde, no passado, os pedidos p&uacute;blicos de assassinato do presidente n&atilde;o resultaram em processos judiciais.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Mas ent&atilde;o, como diria Sarkozy, por que tanta raiva, tanta f&uacute;ria e inverdades? Que Ch&aacute;vez irrite ao mais alto grau os Estados Unidos e seus aliados, por sua pol&iacute;tica de recupera&ccedil;&atilde;o das riquezas naturais nacionais e den&uacute;ncia das pol&iacute;ticas do Banco Mundial e do Fundo Monet&aacute;rio Internacional, pode-se perfeitamente compreender. Que canais de informa&ccedil;&atilde;o pertencentes a grandes grupos industriais e financeiros repercutam as orienta&ccedil;&otilde;es e interesses de seus donos, &eacute; de se esperar. Em contrapartida, ficamos perplexos diante do comportamento dos &oacute;rg&atilde;os de imprensa, nos quais o poder editorial est&aacute; oficialmente separado do poder dos acionistas&#8230;<br \/><\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;publica&ccedil;&atilde;o autorizada, desde que citada a fonte original.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique; tradu&ccedil;&atilde;o de Pablo Simpson.&nbsp;O caso s&oacute; poderia ter alcance planet&aacute;rio uma vez que deu lugar, nos &uacute;ltimos dias, a declara&ccedil;&otilde;es quase simult&acirc;neas do Senado norte-americano, do Parlamento Europeu e da presid&ecirc;ncia alem&atilde; da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia, sem falar dos artigos intermin&aacute;veis e dos editoriais da maior parte dos canais de &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18484\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Venezuela: por que tanta raiva, tanta f\u00faria e inverdades?<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18484"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18484"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18484\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}