{"id":18451,"date":"2007-05-30T18:12:14","date_gmt":"2007-05-30T18:12:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18451"},"modified":"2007-05-30T18:12:14","modified_gmt":"2007-05-30T18:12:14","slug":"o-caso-rctv-e-a-liberdade-de-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18451","title":{"rendered":"O caso RCTV e a liberdade de imprensa"},"content":{"rendered":"<p>Nos &uacute;ltimos dias, os grandes grupos midi&aacute;ticos brasileiros reproduziram &agrave; exaust&atilde;o textos, coment&aacute;rios, editoriais e mat&eacute;rias de r&aacute;dio e televis&atilde;o sobre o golpe que o presidente da Venezuela, Hugo Ch&aacute;vez, estaria desferindo na liberdade de imprensa ao n&atilde;o renovar a concess&atilde;o p&uacute;blica da RCTV, um dos grandes canais de TV privados daquele pa&iacute;s. Na verdade, nem se fala em &ldquo;n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o&rdquo;, mas sim em &ldquo;fechamento&rdquo; do canal. Outra sutileza ling&uuml;&iacute;stica ocorre quando esses grupos falam, sempre de modo lateral, sobre a &ldquo;suposta&rdquo; participa&ccedil;&atilde;o da RCTV na tentativa de golpe de Estado contra Ch&aacute;vez, em abril de 2002. O uso da palavra &ldquo;suposta&rdquo;, neste caso, pode significar duas coisas: desinforma&ccedil;&atilde;o ou m&aacute; f&eacute;. Considerando a quantidade de material dispon&iacute;vel sobre a participa&ccedil;&atilde;o da RCTV no golpe, a primeira alternativa deve ser logo descartada.&nbsp;<\/p>\n<p>O papel desempenhado por jornalistas e executivos da RCTV, e de outros grandes grupos midi&aacute;ticos venezuelanos foi admitido e aplaudido com orgulho pelos pr&oacute;prios protagonistas que hoje tentam se proteger atr&aacute;s do escudo da &ldquo;liberdade de imprensa&rdquo;. Os mesmos agentes que produziram um bloqueio de informa&ccedil;&otilde;es, que articularam junto com os militares e empres&aacute;rios golpistas a tentativa de golpe, que pisotearam a Constitui&ccedil;&atilde;o venezuelana, hoje elevam seus gritos contra a amea&ccedil;a &agrave; liberdade de express&atilde;o na Venezuela. S&atilde;o os mesmos tamb&eacute;m que apoiaram a retirada do ar da TV p&uacute;blica venezuelana, durante o golpe, para que a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o soubesse que Ch&aacute;vez n&atilde;o havia renunciado, mas sim preso pelos golpistas. S&atilde;o os mesmos que, no dia seguinte ao golpe, contavam na TV com orgulho como haviam ajudado a depor um presidente eleito pelo voto popular. Clique AQUI para ver um trecho do document&aacute;rio &ldquo;A Revolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; televisionada&rdquo; que mostra esse momento sublime da liberdade de imprensa. (Outros depoimentos similares podem ser vistos no site Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, que tamb&eacute;m publicou o artigo de Naomi Klein, citado a seguir).&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As mentiras da m&iacute;dia venezuelana<br \/><\/strong>Esses fatos n&atilde;o s&atilde;o mencionados pela m&iacute;dia brasileira. Muito pelo contr&aacute;rio. O telejornal Hoje, da Rede Globo, por exemplo, em sua edi&ccedil;&atilde;o de 28 de maio, afirma que Ch&aacute;vez acusou a RCTV de fazer oposi&ccedil;&atilde;o ao governo e, por isso, teria determinado o fechamento da mesma. Nenhuma refer&ecirc;ncia foi feita ao papel da emissora durante o golpe. Para contrapor esse tipo de deforma&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o custa lembrar o depoimento de um ex-diretor da pr&oacute;pria RCTV sobre a atua&ccedil;&atilde;o da emissora durante o golpe. Em um artigo escrito ainda em 2003, intitulado &ldquo;As (muitas) mentiras da m&iacute;dia venezuelana, Naomi Klein, conta a hist&oacute;ria de Andr&eacute;s Izarra, ex-jornalista da RCTV, que disse que a campanha que culminou com a tentativa de golpe contra Ch&aacute;vez em 2002 &ldquo;causou tanta viol&ecirc;ncia contra a informa&ccedil;&atilde;o verdadeira que as quatro redes de tev&ecirc; privadas deveriam perder o direito &agrave;s suas concess&otilde;es p&uacute;blicas&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>O curr&iacute;culo de Izarra n&atilde;o permite que ele seja &ldquo;acusado&rdquo; de chavismo. Ele foi ex-editor da CNN em espanhol para a Am&eacute;rica Latina at&eacute; ser contratado como gerente de produ&ccedil;&atilde;o do telejornal de maior audi&ecirc;ncia do pa&iacute;s, El Observador, da RCTV. No dia 13 de abril de 2002, escreve Naomi Klein, um dia depois que o l&iacute;der empresarial Pedro Carmona assumiu o poder, Izarra pediu demiss&atilde;o do emprego sob condi&ccedil;&otilde;es que descreveu como &ldquo;de extremo stress emocional&rdquo;. A partir da&iacute;, passou a denunciar a amea&ccedil;a &agrave; democracia que surge quando a m&iacute;dia decide abandonar o jornalismo e assumir uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica onde passa a usar seu poder de persuas&atilde;o &ldquo;para ganhar uma guerra causada pelo petr&oacute;leo&rdquo;. N&atilde;o custa lembrar tamb&eacute;m, neste mesmo contexto, o papel da imensa maioria da m&iacute;dia dos EUA que abra&ccedil;ou as mentiras do governo Bush no processo de invas&atilde;o do Iraque.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Com a palavra, um ex-gerente da RCTV<br \/><\/strong>Nos dias que precederam o golpe de abril, relembra ainda Naomi Klein, os maiores grupos midi&aacute;ticos privados da Venezuela (Venevision, RCTV, Globovision e Televen) &ldquo;trocaram a a programa&ccedil;&atilde;o regular por insistentes discursos anti-chavistas, interrompidos apenas por comerciais convocando os telespectadores a ocupar as ruas: Nenhum passo atr&aacute;s. Saia! Saia! Agora!. Os an&uacute;ncios eram patrocinados pela ind&uacute;stria do petr&oacute;leo, mas as emissoras colocavam no ar como se fossem de interesse p&uacute;blico&rdquo;. Enquanto essas emissoras celebravam abertamente a &ldquo;ren&uacute;ncia&rdquo; de Ch&aacute;vez&rdquo;, prossegue o artigo, for&ccedil;as pr&oacute;-Ch&aacute;vez tentavam reagir e comunicar &agrave; popula&ccedil;&atilde;o que havia sido presos e n&atilde;o havia renunciado. As emissoras sabiam disso mas n&atilde;o divulgavam. E n&atilde;o era por medo, como disse o produtor executivo da RCTV, David P&eacute;rez Hansen, ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre.&nbsp;<\/p>\n<p>Em entrevista publicada nesta segunda-feira (28), ao ser indagado sobre o sil&ecirc;ncio da RCTV e de outras emissoras sobre o golpe, Hansen diz que os jornalistas estavam com medo e sofrendo amea&ccedil;as de morte. N&atilde;o &eacute; o que relata o gerente de produ&ccedil;&atilde;o do principal telejornal da RCTV na &eacute;poca, segundo o artigo de Naomi Klein: &ldquo;Izarra diz que recebeu instru&ccedil;&otilde;es claras: nenhuma informa&ccedil;&atilde;o sobre Ch&aacute;vez, seus seguidores, seus ministros ou qualquer outra pessoa que de alguma forma possa ser relacionada a ele. O jornalista assistiu horrorizado enquanto seus chefes ativamente suprimiam as manchetes de &uacute;ltima hora. Izarra diz que no dia do golpe, a RCTV recebeu uma reportagem de uma afiliada dos EUA dizendo que Ch&aacute;vez n&atilde;o havia renunciado, mas tinha sido seq&uuml;estrado e preso. A reportagem n&atilde;o foi ao ar. O M&eacute;xico, a Argentina e a Fran&ccedil;a condenaram o golpe e se recusaram a reconhecer o novo governo. A RCTV sabia, mas n&atilde;o divulgou&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda segundo Izarra, a RCTV tinha um rep&oacute;rter no Pal&aacute;cio Miraflores, sede do governo venezuelano, e sabia que o mesmo havia sido retomado por tropas leais a Ch&aacute;vez. Enquanto isso, a emissora transmitia desenhos animados de Tom e Jerry e o filme &ldquo;Pretty Woman&rdquo;. &ldquo;Foi quando decidi dar um basta e fui embora&rdquo;, admitiu o jornalista. Nenhuma destas informa&ccedil;&otilde;es foi divulgada pela m&iacute;dia brasileira que segue tratando a participa&ccedil;&atilde;o da RCTV no golpe como &ldquo;suposta&rdquo; atua&ccedil;&atilde;o. Nem o depoimento dos jornalistas das grandes emissoras de TV, revelando que o depoimento de um dos generais golpistas foi gravado na casa de um deles, parece ser suficiente para transformar a suposi&ccedil;&atilde;o em fato. O que nos leva a seguinte pergunta: e se a atua&ccedil;&atilde;o golpista da RCTV foi um fato? A atua&ccedil;&atilde;o de um grupo midi&aacute;tico em um processo golpista para derrubar um presidente eleito pelo voto popular &eacute; motivo para a n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o de uma concess&atilde;o p&uacute;blica? Se n&atilde;o &eacute;, o que seria aceit&aacute;vel para n&atilde;o renovar uma concess&atilde;o?&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O assassinato de Danilo Anderson<br \/><\/strong><span>Em novembro de 2004, o procurador da Rep&uacute;blica Danilo Anderson, que investigava o golpe de Estado de 2002, foi assassinado em um atentado a bomba. A jornalista Patr&iacute;cia Poleo, o empres&aacute;rio Nelson Jos&eacute; Mezerhanne, o general Eugenio A&ntilde;ez e o advogado Salvador Roman&iacute; foram acusados como autores intelectuais do crime. Quanto &agrave; execu&ccedil;&atilde;o do atentado, as investiga&ccedil;&otilde;es da Justi&ccedil;a venezuelana apontaram fortes ind&iacute;cios de participa&ccedil;&atilde;o da Central de Intelig&ecirc;ncia Americana (CIA) e de grupos p&aacute;ra-militares colombianos. <\/span>Filha de Rafael Poleo, propriet&aacute;rio do jornal &ldquo;El Nuevo Pa&iacute;s&rdquo;, Patr&iacute;cia fugiu para Miami para evitar o julgamento. Acusada de assassinato e foragida da justi&ccedil;a, passou a ser tratada pela grande m&iacute;dia venezuelana como uma hero&iacute;na da oposi&ccedil;&atilde;o. A investiga&ccedil;&atilde;o sobre o atentado contra Danilo Anderson n&atilde;o mereceu destaque na m&iacute;dia venezuelana e tampouco na brasileira. Uma visita ao mais famoso site de buscas do mundo, o Google, revelar&aacute; quantas mat&eacute;rias sa&iacute;ram na imprensa brasileira sobre o assassinato de Danilo Anderson. O resultado &eacute; surpreendente.&nbsp; <\/p>\n<p>Al&eacute;m de ser refrat&aacute;ria ao contra-ponto, a grande m&iacute;dia brasileira (assim como a venezuelana) tamb&eacute;m o &eacute; em rela&ccedil;&atilde;o a qualquer debate sobre o tema &ldquo;concess&atilde;o p&uacute;blica&rdquo; na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o. As concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV, vale lembrar, n&atilde;o s&atilde;o definitivas, como ocorre com qualquer servi&ccedil;o p&uacute;blico. Elas t&ecirc;m um prazo e crit&eacute;rios para renova&ccedil;&atilde;o. Entre esses crit&eacute;rios, n&atilde;o figuram as pr&aacute;ticas descritas pelo ex-gerente de produ&ccedil;&atilde;o do principal telejornal da RCTV: a mentira, o boicote &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, a manipula&ccedil;&atilde;o e a participa&ccedil;&atilde;o ativa para depor um presidente eleito. A total aus&ecirc;ncia de contra-ponto no caso da n&atilde;o renova&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da RCTV &eacute; mais do que sintom&aacute;tica. Revela uma cumplicidade expl&iacute;cita e recheada de m&aacute;-f&eacute; em rela&ccedil;&atilde;o a uma elite que tem Miami como sua capital e inspira&ccedil;&atilde;o de vida. O recurso &agrave; bandeira da liberdade de imprensa para defender empres&aacute;rios midi&aacute;ticos golpistas &eacute; uma piada. Uma piada que tem antecedentes na hist&oacute;ria recente do Brasil. Talvez seja a hora de resgatar investiga&ccedil;&otilde;es sobre como grandes grupos midi&aacute;ticos brasileiros constru&iacute;ram seus imp&eacute;rios por meio de acordos e parcerias com a ditadura militar. Ou pedir isso tamb&eacute;m significa uma amea&ccedil;a a liberdade de imprensa?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos &uacute;ltimos dias, os grandes grupos midi&aacute;ticos brasileiros reproduziram &agrave; exaust&atilde;o textos, coment&aacute;rios, editoriais e mat&eacute;rias de r&aacute;dio e televis&atilde;o sobre o golpe que o presidente da Venezuela, Hugo Ch&aacute;vez, estaria desferindo na liberdade de imprensa ao n&atilde;o renovar a concess&atilde;o p&uacute;blica da RCTV, um dos grandes canais de TV privados daquele pa&iacute;s. 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