{"id":18437,"date":"2007-05-28T15:16:31","date_gmt":"2007-05-28T15:16:31","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18437"},"modified":"2007-05-28T15:16:31","modified_gmt":"2007-05-28T15:16:31","slug":"ode-a-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18437","title":{"rendered":"Ode \u00e0 Tortura"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">O sorriso perverso de Jack Bauer diante da prisioneira que reclama seu direito a um advogado n&atilde;o ser&aacute; suficiente para desencadear o rep&uacute;dio da plat&eacute;ia. Jack, interpretado por Kiefer Sutherland, &eacute; &quot;do bem&quot;. Seu personagem foi cuidadosamente constru&iacute;do pelo roteirista do seriado 24 Horas. Ele tem uma fam&iacute;lia, ama sua filha e amava sua esposa, at&eacute; ela ser assassinada pela agente Nina Myers, personagem-chave do seriado at&eacute; sua morte na terceira temporada. <\/p>\n<p>Assisti &agrave;s tr&ecirc;s primeiras temporadas. Foram 72 epis&oacute;dios de uma hora cada, divididos em 18 DVDs. O seriado &eacute; transmitido pela Fox, de Rupert Murdoch, e repetido no Brasil pela Rede Globo, que acaba de anunciar, n&atilde;o sem alegria, sua extens&atilde;o at&eacute; 2009. A ind&uacute;stria cultural est&aacute; satisfeita. Nos EUA, 24 Horas foi premiado com cinco Emmy (o Oscar da televis&atilde;o), incluindo melhor seriado dram&aacute;tico e melhor ator para Sutherland. <\/p>\n<p>Tudo gira em torno da UCT (Unidade Contra o Terrorismo), situada em Los Angeles. L&aacute; est&atilde;o os personagens principais: Jack Bauer, Nina Meyers, Tony Almeida, Ryan Chapelle, Michele Dessler, Kim Bauer (a filha de Jack, que em tr&ecirc;s temporadas passa de &quot;filha-arruma-problema&quot; a agente da UCT), entre outros. <\/p>\n<p>Na primeira temporada, o objetivo da UCT &eacute; impedir o assassinato do candidato negro &agrave; presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, David Palmer. Os &quot;terroristas&quot; v&ecirc;m dos B&aacute;lc&atilde;s. A esposa e a filha de Jack s&atilde;o seq&uuml;estradas e ele &eacute; manipulado para facilitar a miss&atilde;o. No final das contas, acaba conseguindo salvar a vida &#8211; n&atilde;o uma, mas duas vezes &#8211; do candidato Palmer. Os dois tornam-se amigos. <\/p>\n<p>Na segunda temporada, Jack e companhia precisam localizar uma bomba nuclear plantada em solo estadunidense por &quot;terroristas&quot; isl&acirc;micos. Depois de localiz&aacute;-la, o nobre her&oacute;i &eacute; volunt&aacute;rio para pilotar o avi&atilde;o que levaria a bomba para o deserto, onde seria detonada sem maiores riscos para o povo estadunidense. No final das contas, o diretor da UCT se oferece para trocar de posi&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que havia sido contaminado por plut&ocirc;nio e morreria de qualquer jeito. O her&oacute;i Jack reluta no in&iacute;cio: precisa ter certeza de que o enj&ocirc;o da radia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o poria tudo a perder. Mas acaba cedendo, depois que fica bem claro que ele estava mesmo disposto a morrer para salvar seu povo. <\/p>\n<p>Na terceira temporada, os &quot;terroristas&quot; s&atilde;o mexicanos. O problema come&ccedil;a com tr&aacute;fico de drogas e termina com os malvados irm&atilde;os Salazar tentando comprar um v&iacute;rus extremamente letal para revend&ecirc;-lo &agrave; Al-Qaeda que, naturalmente, atacaria os EUA com a nova arma. Claro que Jack resolve tudo no final. <\/p>\n<p>Nas tr&ecirc;s primeiras temporadas, fica evidente que o objetivo &eacute; construir no imagin&aacute;rio da plat&eacute;ia a id&eacute;ia de que os EUA vivem sob amea&ccedil;a. &Eacute; como se dissessem: &quot;Vejam, o mundo tem raiva de n&oacute;s. Eles nos odeiam sem nenhum motivo. Se h&aacute; um motivo, &eacute; porque somos livres e democr&aacute;ticos&quot;. O medo faz com que as pessoas aceitem tudo. Inclusive mentiras para levar seu pa&iacute;s a invadir outros pa&iacute;ses, a legaliza&ccedil;&atilde;o da tortura ou uma fraude eleitoral. E essa &eacute; a mensagem transmitida durante todos os cap&iacute;tulos do seriado: o pa&iacute;s est&aacute; sendo amea&ccedil;ado o tempo todo por todo o mundo. Ao inverter a realidade (na verdade os EUA &eacute; que amea&ccedil;am o mundo com suas ogivas nucleares, seu terrorismo de Estado e suas corpora&ccedil;&otilde;es que destroem o meio ambiente), o seriado alinha-se &agrave; propaganda pol&iacute;tica de Washington, que, adotando a t&aacute;tica da auto-vitimiza&ccedil;&atilde;o, exime-se de toda e qualquer responsabilidade pelo que h&aacute; de errado neste planeta. <\/p>\n<p>Jack &eacute; um fen&ocirc;meno. Sabe operar sistemas sofisticados de computa&ccedil;&atilde;o, atira como ningu&eacute;m, pilota avi&otilde;es e helic&oacute;pteros (a ponto de driblar dois helic&oacute;pteros militares num teco-teco civil) e tortura quem aparece pela frente sem que o p&uacute;blico o odeie por isso. Claro, para salvar milh&otilde;es de estadunidenses, vale torturar algu&eacute;m para obter informa&ccedil;&otilde;es (mesmo que j&aacute; tenha sido provada a inefici&ecirc;ncia desse m&eacute;todo). Perd&atilde;o. De acordo com a nova lei aprovada no ano passado nos EUA, o nome n&atilde;o &eacute; tortura. S&atilde;o &quot;m&eacute;todos duros de interrogat&oacute;rio&quot;.<\/p>\n<p>Como se n&atilde;o bastasse, Jack &eacute; um garanh&atilde;o. Al&eacute;m da esposa, pegou a agente Nina Meyers, a irm&atilde; de uma terrorista (que n&atilde;o sabia de nada, claro) e Cl&aacute;udia (esposa de Marcos Salazar). S&oacute; mulher&atilde;o! E o diretor ainda deu um jeito de fazer com que ele desse uns beijos na agente traidora, mesmo depois de ela ter matado sua esposa. Pelo script, o coitado foi obrigado a fazer isso para manter o disfarce. <\/p>\n<p>Mas h&aacute; algo mais nesse seriado. Al&eacute;m de grandes atores e de hist&oacute;rias muito bem montadas, a equipe de produ&ccedil;&atilde;o &eacute; quem faz a diferen&ccedil;a. Eles constroem os personagens de maneira que a plat&eacute;ia n&atilde;o tem escolha: h&aacute; os personagens que o espectador adorar&aacute; e outros que ele odiar&aacute;. Nina Myers, por exemplo, interpretada por Sarah Clarke. Uma pintura de atriz. Confesso que n&atilde;o consegui odi&aacute;-la nem quando ela trabalhava para a UCT e nem quando mudou de lado, passando a vender informa&ccedil;&otilde;es para qualquer &quot;terrorista&quot; que lhe pagasse uns milh&otilde;es de d&oacute;lares. <\/p>\n<p>H&aacute; outro detalhe digno de nota: at&eacute; a tortura &eacute; diferenciada. Quando s&atilde;o os &quot;terroristas&quot; que a praticam, as cenas s&atilde;o repletas de sangue, gritos, gemidos. H&aacute; uma cena em que o torturador lembrava um a&ccedil;ougueiro. Seus instrumentos de tortura pareciam sa&iacute;dos da Idade M&eacute;dia e sua roupa estava repleta de sangue. J&aacute; quando Jack tortura, ou a tortura &eacute; feita na UCT, a coisa &eacute; diferente. Muitas vezes, vem um sujeito de terno e gravata abre uma pequena maleta, retira uma seringa e injeta no sujeito algum l&iacute;quido que lhe causa uma dor extrema. Tudo limpo. <\/p>\n<p>Outro esfor&ccedil;o dos realizadores de 24 Horas &eacute; mostrar que o presidente David Palmer &eacute; um homem justo, honrado. O presidente dos EUA sempre apresenta semblante pesado quando precisa tomar uma decis&atilde;o que vai salvar a vida de milh&otilde;es de pessoas, se isso causar a morte de um &uacute;nico ser vivo. Na segunda temporada, ele faz de tudo para evitar uma guerra contra pa&iacute;ses isl&acirc;micos, mesmo depois que pessoas de dentro do seu pr&oacute;prio governo forjam provas para implicar aqueles pa&iacute;ses. Mas Jack consegue provar a fraude no &uacute;ltimo minuto. <\/p>\n<p>Ou seja, o seriado passa uma imagem irreal da figura do presidente dos EUA, como se ele n&atilde;o fosse o principal representante das corpora&ccedil;&otilde;es que lucram com a explora&ccedil;&atilde;o dos povos e o assassinato em massa. <\/p>\n<p>Segundo a revista The New Yorker, o ator Kiefer Sutherland disse que o seriado &quot;n&atilde;o passa de entretenimento&quot;. Mas quem sabe que a m&iacute;dia, hoje, &eacute; a institui&ccedil;&atilde;o com maior capacidade de produzir subjetividades (formas de sentir, pensar, agir e viver), percebe o efeito devastador dessa &quot;obra de fic&ccedil;&atilde;o&quot;. Cada vez que o torturador Jack Bauer entra em a&ccedil;&atilde;o, milh&otilde;es de pessoas s&atilde;o levadas a apoiar suas pr&aacute;ticas. E a humanidade torna-se menos humana. <\/p>\n<p>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;publica&ccedil;&atilde;o autorizada, desde que citada a fonte original.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sorriso perverso de Jack Bauer diante da prisioneira que reclama seu direito a um advogado n&atilde;o ser&aacute; suficiente para desencadear o rep&uacute;dio da plat&eacute;ia. Jack, interpretado por Kiefer Sutherland, &eacute; &quot;do bem&quot;. Seu personagem foi cuidadosamente constru&iacute;do pelo roteirista do seriado 24 Horas. Ele tem uma fam&iacute;lia, ama sua filha e amava sua esposa, &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18437\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Ode \u00e0 Tortura<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[260],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18437"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18437"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18437\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}