{"id":18431,"date":"2007-05-25T17:09:44","date_gmt":"2007-05-25T17:09:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18431"},"modified":"2007-05-25T17:09:44","modified_gmt":"2007-05-25T17:09:44","slug":"liberdade-de-imprensa-entre-chuvas-e-trovoadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18431","title":{"rendered":"Liberdade de imprensa: entre chuvas e trovoadas"},"content":{"rendered":"<p><span>No final de 2003, o jornalista Luiz Carlos Barbom Filho denunciou, num pequeno jornal que editava em Porto Ferreira, no interior de S&atilde;o Paulo, a exist&ecirc;ncia no munic&iacute;pio de uma rede de corrup&ccedil;&atilde;o de menores, favorecimento da prostitui&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o de quadrilha ou bando. Enquadrados nesses delitos, tr&ecirc;s empres&aacute;rios e um funcion&aacute;rio p&uacute;blico municipal foram processados e condenados a penas que variam entre 4 e 45 anos de reclus&atilde;o. Mas s&oacute; um gar&ccedil;om permaneceu preso. O jornal Realidade acabou sendo fechado e, tr&ecirc;s anos e meio depois, no dia 5, Barbom foi morto. Tinha 37 anos. Embora as circunst&acirc;ncias do atentado ainda n&atilde;o tenham sido elucidadas nem presos os seus autores (dois homens que se aproximaram do jornalista numa motocicleta, um dos quais fez os disparos com um rev&oacute;lver), a rela&ccedil;&atilde;o entre as den&uacute;ncias e o assassinato se imp&ocirc;s.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Apesar disso, a Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas e o sindicato de S&atilde;o Paulo imediatamente juntaram ao protesto pelo crime observa&ccedil;&otilde;es que provocaram nova pol&ecirc;mica. Na sua nota oficial, a Fenaj disse:<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&quot;Luiz Carlos Barbom Filho, apesar de se auto-intitular jornalista, n&atilde;o o era de fato e de direito. O jornal Realidade, de sua propriedade, foi fechado, pois nunca esteve regularizado e Barbom Filho n&atilde;o possu&iacute;a o registro de jornalista, tendo sido, inclusive, processado por exerc&iacute;cio ilegal da profiss&atilde;o&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A revista eletr&ocirc;nica Comunique-se repetiu informa&ccedil;&otilde;es semelhantes, desqualificando o jornalista. Mas a organiza&ccedil;&atilde;o Rep&oacute;rteres sem fronteira mostrou que, independentemente de sua condi&ccedil;&atilde;o formal e legal, Barbom era cronista do seman&aacute;rio Jornal do Porto e do di&aacute;rio JC Regional. Numerosas acusa&ccedil;&otilde;es que fez em suas mat&eacute;rias contra pol&iacute;ticos locais tornaram-no muito conhecido na regi&atilde;o e atra&iacute;ram contra ele muitos inimigos. Amea&ccedil;as de morte estavam sendo feitas contra ele, quando foi morto.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O epis&oacute;dio tem uma mensagem clara e direta: todos os jornalistas t&ecirc;m que repudiar &#8211; de pronto e por inteiro &#8211; as rea&ccedil;&otilde;es a mat&eacute;rias jornal&iacute;sticas que extrapolem o plano das id&eacute;ias, das informa&ccedil;&otilde;es e dos fatos.Tudo mais, mesmo quando relevante, deve ser considerado a partir dessa premissa. As pessoas t&ecirc;m que reagir exercendo o direito de resposta ou recorrendo &agrave; via judicial, quando se sentirem prejudicadas ou ofendidas por um texto que sai em publica&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>N&atilde;o importa, de imediato, quem escreveu o texto e onde ele foi publicado. Se o prejudicado ou ofendido recorrer &agrave; viol&ecirc;ncia ou a qualquer outra via marginal &agrave; da regra legal, ou contr&aacute;ria &agrave; norma civilizada, deve receber o rep&uacute;dio e a condena&ccedil;&atilde;o dos jornalistas, pela categoria em si e em nome da sociedade. Uma vez que a rea&ccedil;&atilde;o seja praticada legal e civilizadamente, discutamos honesta e sinceramente todas as suas circunst&acirc;ncias, sem corporativismo ou paix&atilde;o. Em qualquer outra circunst&acirc;ncia, &agrave; parte a imposi&ccedil;&atilde;o de fazer uma cobertura rigorosa dos fatos, denunciando o pr&oacute;prio jornalista, se comprovada sua m&aacute;-f&eacute; e tendenciosidade, &eacute; necess&aacute;rio combater a viola&ccedil;&atilde;o &agrave;s garantias constitucionais da livre express&atilde;o do pensamento e da liberdade de informa&ccedil;&atilde;o. Sem essas garantias, estaremos plantando, hoje, as sementes da nossa destrui&ccedil;&atilde;o, amanh&atilde;. E da democracia, cuja exist&ecirc;ncia &eacute; a&nbsp; maior raz&atilde;o de ser da imprensa.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Diante do assassinato de um colega, que tratava de perigosos temas do maior interesse coletivo, a dimens&atilde;o estritamente corporativa da Fenaj e do sindicato de S&atilde;o Paulo, como de v&aacute;rios outros, sufocou sua percep&ccedil;&atilde;o mais ampla da quest&atilde;o. Todos parecem esquecer que a estrutura jur&iacute;dica &eacute; uma moldura sufocante para o exerc&iacute;cio do jornalismo no Brasil. Ainda est&aacute; em vigor (ou serve de mal&eacute;fica inspira&ccedil;&atilde;o) a tr&iacute;ade de instrumentos de controle e manipula&ccedil;&atilde;o, representada pela lei 5.250, de fevereiro de 1967 (a impopular &#8211; mas muito viva &#8211; Lei de Imprensa); pelo AI-5, de dezembro de 1968 (s&oacute; formalmente revogado, mas cuja inspira&ccedil;&atilde;o continua a ser um fantasma ativo, a assombrar a liberdade); e pelo decreto-lei 972, de outubro de 1969, que regulamentou a profiss&atilde;o num dos per&iacute;odos mais negros da censura (da Junta Militar).<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Esses instrumentos &eacute; que s&atilde;o respons&aacute;veis por Barbom n&atilde;o poder ser considerado um jornalista profissional e sua empresa jornal&iacute;stica n&atilde;o ser legal. Estivesse em vigor a estrutura anterior &agrave; Lei de Imprensa, ele seria um jornalista (e ponto final) e sua empresa, mesmo que microsc&oacute;pica, estaria usufruindo as franquias legais.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Quem se deixa fascinar pelas outorgas de vantagens corporativas (cuja origem mais remota est&aacute; no fascismo) dessa legisla&ccedil;&atilde;o esquece o seu contexto hist&oacute;rico. As regras que continuam a se impor ao exerc&iacute;cio do jornalismo s&atilde;o as de um regime de exce&ccedil;&atilde;o. Uma delas, pouco citada, exige que as empresas jornal&iacute;sticas registrem o nome da gr&aacute;fica que utilizam. Por qu&ecirc;? Ora, para que as gr&aacute;ficas estejam ao alcance da press&atilde;o do poder caso estejam imprimindo publica&ccedil;&otilde;es indesej&aacute;veis. Tanto mais pass&iacute;veis de repres&aacute;lias e viol&ecirc;ncias quanto mais estejam distantes dos holofotes dominantes, isto &eacute;, do Sul Maravilha, da&nbsp; &quot;civiliza&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Sert&atilde;o &eacute; isso, alertou Guimar&atilde;es Rosa. Deus, se quiser ir l&aacute;, que se arme &#8211; completou. Quem, do sert&atilde;o, tem uma vis&atilde;o virtual, telesc&oacute;pica, n&atilde;o entende. Sequer v&ecirc;. Da&iacute;, provavelmente, essas senten&ccedil;as corporativas: m&iacute;opes, equivocadas, melanc&oacute;licas. E nocivas. Dadas exatamente quando, em plena democracia, nota-se um impulso cada vez mais forte de autocensura e de predomin&acirc;ncia dos interesses comerciais sobre os jornal&iacute;sticos. <\/span>&Eacute; um sinal ruim no horizonte. <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final de 2003, o jornalista Luiz Carlos Barbom Filho denunciou, num pequeno jornal que editava em Porto Ferreira, no interior de S&atilde;o Paulo, a exist&ecirc;ncia no munic&iacute;pio de uma rede de corrup&ccedil;&atilde;o de menores, favorecimento da prostitui&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o de quadrilha ou bando. 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