{"id":18364,"date":"2007-05-14T12:47:39","date_gmt":"2007-05-14T12:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18364"},"modified":"2007-05-14T12:47:39","modified_gmt":"2007-05-14T12:47:39","slug":"o-novo-papel-de-jo-soares-o-pitbull-da-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18364","title":{"rendered":"O novo papel de J\u00f4 Soares: o pitbull da Globo"},"content":{"rendered":"<p><span>H&aacute; cerca de 20 anos, J&ocirc; Soares inaugurou na TV aberta brasileira um g&ecirc;nero televisivo cl&aacute;ssico nos Estados Unidos: o programa de entrevista do entrevistador showman. Um cen&aacute;rio com fotos da cidade grande, uma mesa com canecas, um sof&aacute; descolado onde se acomodam celebridades, pol&iacute;ticos em ascens&atilde;o ou pessoas comuns al&ccedil;adas por alguma raz&atilde;o &agrave; categoria do curioso. Todas ali para, durante 10 ou 15 minutos, servirem de mote &agrave;s piadas preparadas do entrevistador. O g&ecirc;nero fez sucesso e, durante certo tempo, ser um entrevistado do J&ocirc; era sin&ocirc;nimo de status e &eacute; certo que houve momentos em que o comediante levou mais a s&eacute;rio a fun&ccedil;&atilde;o de entrevistador do que a de showman.<\/p>\n<p><\/span><span>Na &uacute;ltima quarta-feira, J&ocirc; Soares inaugurou um novo estilo de programa: o programa de entrevistas do entrevistador pitbull.<\/span><span>Pode-se dizer que, desde que voltou &agrave; sua velha casa, a Rede Globo, o c&ocirc;mico-intelectual exacerbou o lado entretenimento de seu programa. Seu espa&ccedil;o no in&iacute;cio da madrugada tornou-se mais uma pe&ccedil;a da esperta estrat&eacute;gia da emissora de usar mais da metade do seu tempo de programa&ccedil;&atilde;o para a meta-propaganda. <\/span><span><\/p>\n<p>O epis&oacute;dio da &uacute;ltima quarta, entretanto, foi al&eacute;m. Em estilo besta-fera (pincelado de estranho senso de humor), J&ocirc; Soares tornou-se porta-voz dos interesses das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo na disputa que esta trava com o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a pela modifica&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o que estabelece a Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa de Obras Audiovisuais.<\/span><span>Especificamente, dedicou dois blocos de seu programa a entrevistar o ator Guilherme Weber (contratado da casa) e o diretor Felipe Hirsch. <\/p>\n<p>O trabalho que ambos realizam no teatro, a pe&ccedil;a &ldquo;A Educa&ccedil;&atilde;o Sentimental do Vampiro&rdquo;, valeria o convite. Baseada na obra de Dalton Trevisan, est&aacute; sendo apresentada em um projeto de populariza&ccedil;&atilde;o do teatro, bancado pelo Sesi-SP. O tema da pe&ccedil;a (os personagens do sub-mundo urbano), a obra de Trevisan, as iniciativas de formar p&uacute;blico para teatro, tudo isso poderia pautar a conversa de J&ocirc; com Weber e Hirsch.<\/span><span><\/p>\n<p>Mas a escolha para come&ccedil;ar a conversa foi a adi&ccedil;&atilde;o da frase &ldquo;Esta pe&ccedil;a &eacute; recomendada para maiores de 16 anos por conter cenas de viol&ecirc;ncia e nudez total&rdquo; &agrave; grava&ccedil;&atilde;o que antecede o espet&aacute;culo &ndash; e que d&aacute; tamb&eacute;m as indica&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a. Esta &eacute; uma das maneiras previstas na regulamenta&ccedil;&atilde;o da classifica&ccedil;&atilde;o indicativa para explicitar a recomenda&ccedil;&atilde;o feita pelo grupo de classificadores.<\/span><span>A piada poderia ficar apenas no muxoxo de Weber sobre o &ldquo;clima&rdquo; quebrado pelas palmas e risos do p&uacute;blico diante do an&uacute;ncio de que algu&eacute;m tirar&aacute; a roupa no palco. E a quebra do clima seria uma piada-reclama&ccedil;&atilde;o que poderia ser estendida ao an&uacute;ncio de que os extintores est&atilde;o do lado de fora da sala.<\/span><span><\/p>\n<p>Por&eacute;m, para o novo maior pitbull da TV brasileira, esta passagem transformou-se em deixa para uma seq&uuml;&ecirc;ncia de coment&aacute;rios que, ora disfar&ccedil;ados por tentativas de ser gracioso, ora ditos em tom de reprova&ccedil;&atilde;o indignada, tornaram-se o mais direto, elaborado e vil ataque das Organiza&ccedil;&otilde;es Globo &agrave; nova regulamenta&ccedil;&atilde;o da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa. <\/span><span><\/p>\n<p>O argumento de que indicar a idade apropriada para uma crian&ccedil;a ou adolescente entrar em contato com determinados conte&uacute;dos (como sexo, viol&ecirc;ncia e uso de drogas) em obras art&iacute;sticas no teatro, cinema e TV, segundo crit&eacute;rios p&uacute;blicos, &eacute; o mesmo que censurar &ndash; ou seja, proibir arbitrariamente que determinado conte&uacute;do circule socialmente &ndash; &eacute; o mantra das emissoras de TV desde que a Portaria 264\/07 entrou em vigor. Na entrevista, foi tamb&eacute;m o mantra do pitbull. <\/span><span><\/p>\n<p>&ldquo;Isso se aproxima muito perigosamente da censura&rdquo;, repetiu algumas vezes, desde a abertura do programa, quando ele deveria apresentar os entrevistados, mas preferiu dar o nome do ator e do diretor, apenas, e dizer que bateria um papo com eles sobre a &ldquo;assustadora&rdquo; classifica&ccedil;&atilde;o indicativa. Tentando colocar a Constitui&ccedil;&atilde;o &ndash; &ldquo;que foi t&atilde;o mudada que a gente n&atilde;o entende mais nada&rdquo; &ndash; embaixo do seu bra&ccedil;o, disse que a medida vai contra a liberdade de express&atilde;o. E, no embalo, afirmou que o Estado n&atilde;o pode assumir a fun&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as, que cabe aos pais. <\/span><span><\/p>\n<p>&Eacute; preciso dizer ao grande c&ocirc;mico que a Constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o serve apenas aos interesses de poucos, mas equilibra os direitos de muitos. Por esta raz&atilde;o, ela prev&ecirc; tanto o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o quanto o das crian&ccedil;as e adolescentes crescerem e serem educados em ambientes prop&iacute;cios ao desenvolvimento s&oacute;cio-psicol&oacute;gico saud&aacute;vel. E que, por esta raz&atilde;o, &eacute; preciso legislar para que um direito n&atilde;o se sobreponha ao outro, e &eacute; esta a fun&ccedil;&atilde;o cumprida exemplarmente pela Portaria 264.<\/span><span><\/p>\n<p>&Eacute; preciso, ainda, lembrar que a Educa&ccedil;&atilde;o &eacute; tarefa compartilhada constitucionalmente pela fam&iacute;lia e pelo Estado. A a&ccedil;&atilde;o de um complementa a do outro, e este &eacute; um princ&iacute;pio respeitado na sua integridade pela Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa, que n&atilde;o pro&iacute;be a veicula&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos, mas se solidariza com os pais no trabalho de escolher o que seus filhos e filhas podem ou devem assistir.<\/span><span><\/p>\n<p>Mas a entrevista n&atilde;o se limitou &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o dos argumentos de sempre. Fazendo uso de suas habilidades de comediante, J&ocirc; Soares leu trechos da portaria. Com voz sat&iacute;rica, citou que alguns crit&eacute;rios usados na classifica&ccedil;&atilde;o referem-se &agrave; nudez (se parcial ou total), &agrave;s caracter&iacute;sticas das cenas de sexo e o tipo de arma usada nas cenas de viol&ecirc;ncia. Mais s&aacute;tiro ainda, perguntou: &ldquo;Se eu matar com um machado, n&atilde;o pode, mas se for com um martelinho, pode?&rdquo;.<\/span><span><\/p>\n<p>Provavelmente, tamb&eacute;m n&atilde;o. S&oacute; que a tentativa do representante do &ldquo;esquadr&atilde;o de elite pela liberdade das empresas de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo; de ridicularizar os crit&eacute;rios da classifica&ccedil;&atilde;o perde a gra&ccedil;a quando se lembra que o conte&uacute;do da nova regulamenta&ccedil;&atilde;o &eacute; de fato criterioso porque reflete uma discuss&atilde;o ampla e longa, cujo resultado foi democraticamente acertado, inclusive com os mandantes da grande m&iacute;dia. <\/p>\n<p>Ora, mas para qu&ecirc; perder a piada, n&atilde;o &eacute; mesmo? Para qu&ecirc; lembrar este detalhe s&eacute;rio quando o que vale &eacute; colocar todo o seu talento para ser engra&ccedil;adinho a servi&ccedil;o da defesa dos direitos daqueles que s&atilde;o, neste pa&iacute;s, os &uacute;nicos a terem seus direitos respeitados &ndash; ainda que na base da intimida&ccedil;&atilde;o feita durante 24 horas, em mensagens enviadas pelo espectro p&uacute;blico eletromagn&eacute;tico?<\/span><span><\/p>\n<p>O t&iacute;tulo de piada sem gra&ccedil;a, no entanto, fica para a compara&ccedil;&atilde;o da Classifica&ccedil;&atilde;o Indicativa ao nazismo. Segundo J&ocirc; Soares, a id&eacute;ia de que os selos de indica&ccedil;&atilde;o tenham cores diferentes para cada uma das faixas et&aacute;rias (10, 14, 16 e 18 anos) lembra a pr&aacute;tica nazista de estigmatizar os presos nos campos de concentra&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m por cores. &ldquo;N&atilde;o era l&aacute; nos campos de concentra&ccedil;&atilde;o que cada um tinha um emblema com cor diferente? Judeus, presos de guerra, presos pol&iacute;ticos&#8230;&rdquo;, comentou o jocoso senhor. <\/span><span><\/p>\n<p>Houve, ainda, uma piada grosseira sobre o fato de o selo da classifica&ccedil;&atilde;o &ldquo;apropriado para maiores de 18 anos&rdquo; ter de ser apresentado na cor preta. &ldquo;Quer dizer que quem tem menos de 18 anos n&atilde;o pode ter acesso a conte&uacute;dos pretos, negros? E al&eacute;m disso, parece at&eacute; racismo.&rdquo; Racismo de quem? A esta altura, j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel vislumbrar qualquer sentido no que falava o pitbull global, babando a sua raiva &ndash; ou a de seus chefes.<\/span><span><\/p>\n<p>Hirsch e Weber, por terem se prestado ao papel de coadjuvantes, ou co-ajudantes, na cena de viol&ecirc;ncia anti-democr&aacute;tica de J&ocirc; Soares, ganharam o privil&eacute;gio de um bloco a mais de entrevista. Desta vez, o tema foi &ndash; finalmente! &ndash; a bela pe&ccedil;a que encenam. A chamada para um pr&oacute;ximo bloco por tema t&atilde;o &ldquo;comum&rdquo; quanto uma pe&ccedil;a, por&eacute;m, s&oacute; ressalta o triste papel assumido pelos dois (se Weber ainda fosse o gal&atilde; da novela das oito, talvez, quem sabe, n&atilde;o seria t&atilde;o estranho&#8230;). Assim como marca, em definitivo, a estrat&eacute;gia deliberada &ndash; de J&ocirc;? de sua produ&ccedil;&atilde;o? daqueles que mandam em J&ocirc; e na sua produ&ccedil;&atilde;o? &ndash; em n&atilde;o abrir o espa&ccedil;o para o contradit&oacute;rio.<\/span><span><\/p>\n<p>Os outros 15 minutos com o ator e o diretor poderiam ser 15 minutos com algumas das pessoas-chave no processo de discuss&atilde;o da Portaria 264. Por&eacute;m, na no&ccedil;&atilde;o distorcida de democracia e liberdade que constr&oacute;i a Globo, minuto a minuto nos espa&ccedil;os jornal&iacute;sticos, nos de entretenimento ou quase-entretenimento e na propaganda corporativa, n&atilde;o cabe quem n&atilde;o defende o direito de a dona da m&iacute;dia fazer o que queira a despeito do direito alheio. A despeito do direito do povo brasileiro exercer o controle do que circula pelo ar dos brasileiros. A despeito do direito de crian&ccedil;as e adolescentes n&atilde;o serem violentados pelo desejo empresarial de vender quinquilharias. <\/span><span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">Por outro lado, h&aacute; espa&ccedil;o para todos que queiram ou sujeitem-se a vociferar as verdades globais. H&aacute; espa&ccedil;o, inclusive, para J&ocirc; Soares.<\/p>\n<p><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<em>publica&ccedil;&atilde;o autorizada, desde que citada a fonte original.<\/em><\/font><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; cerca de 20 anos, J&ocirc; Soares inaugurou na TV aberta brasileira um g&ecirc;nero televisivo cl&aacute;ssico nos Estados Unidos: o programa de entrevista do entrevistador showman. Um cen&aacute;rio com fotos da cidade grande, uma mesa com canecas, um sof&aacute; descolado onde se acomodam celebridades, pol&iacute;ticos em ascens&atilde;o ou pessoas comuns al&ccedil;adas por alguma raz&atilde;o &agrave; &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18364\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">O novo papel de J\u00f4 Soares: o pitbull da Globo<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[215],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18364"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18364\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}