{"id":18344,"date":"2007-05-09T19:14:40","date_gmt":"2007-05-09T19:14:40","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18344"},"modified":"2007-05-09T19:14:40","modified_gmt":"2007-05-09T19:14:40","slug":"fenaj-e-sindicato-de-sp-desqualificam-jornalista-assassinado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18344","title":{"rendered":"Fenaj e sindicato de SP desqualificam jornalista assassinado"},"content":{"rendered":"<p>N&atilde;o bastasse o fato de ter sido assassinado em circunst&acirc;ncias associadas &agrave;s suas reportagens contra abusos sexuais de pol&iacute;ticos de Porto Ferreira (SP), que culminaram na condena&ccedil;&atilde;o em primeira inst&acirc;ncia de 10 acusados em 2004, o jornalista Luiz Cesar Barbom Filho, agora, mesmo estando morto, est&aacute; sendo perseguido pela Fenaj e pelo Sindicato de Jornalistas de S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p>Justamente no momento em que jornalistas brasileiros e entidades como a Abraji unem seus esfor&ccedil;os para manter a aten&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica sobre o caso, conseguindo o apoio r&aacute;pido de outras entidades nacionais, como a OAB, e tamb&eacute;m internacionais, como a SIP e o CPJ, a Fenaj e o sindicato paulista preferiram desqualificar Barbom como jornalista em uma nota oficial conjunta divulgada ontem (segunda-feira, 07\/05). Vejam os termos dessa manifesta&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Luiz Carlos Barbom Filho, apesar de se auto-intitular jornalista, n&atilde;o o era de fato e de direito. O jornal Realidade , de sua propriedade, foi fechado pois nunca esteve regularizado e Barbom Filho n&atilde;o possu&iacute;a o registro de jornalista, tendo sido, inclusive, processado por exerc&iacute;cio ilegal da profiss&atilde;o. No entanto, esses fatos n&atilde;o justificam nenhum ato de viol&ecirc;ncia contra sua pessoa e tampouco desabonam as den&uacute;ncias que eventualmente tenha feito contra desmandos de autoridades ou grupos&rdquo;.&nbsp; Este deveria ser um momento de uni&atilde;o de esfor&ccedil;os. Mas, n&atilde;o. Essas duas entidades sindicais preferem erguer suas bandeiras sect&aacute;rias e propalar o ran&ccedil;o de sua vis&atilde;o cartorial do que &eacute; jornalismo exatamente no momento em que &eacute; necess&aacute;rio o apoio de jornalistas e de ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios pa&iacute;ses. <\/p>\n<p>N&atilde;o foi &agrave; toa que o documento &#39;Attacks on the Press &mdash; 2001&#39;, do CPJ, relacionou aabsurda forma de regulamenta&ccedil;&atilde;o profissional da profiss&atilde;o de jornalista vigente no Brasil ao lado dos processos, pris&otilde;es, assassinatos e outras agress&otilde;es &agrave; liberdade de imprensa.<\/p>\n<p>Ao ler a nota conjunta das duas entidades sindicais, a impress&atilde;o que d&aacute; &eacute; que seus autores devem ter cabulado aulas em seu curso de jornalismo. Parecem que n&atilde;o conseguiram at&eacute; hoje entender que a imprensa tem justamente a fun&ccedil;&atilde;o de &ldquo;watchdog&rdquo; diante da omiss&atilde;o do poder p&uacute;blico naquilo que &eacute; de sua compet&ecirc;ncia. Vejam outro trecho dessa manifesta&ccedil;&atilde;o infeliz: &ldquo;Para a realiza&ccedil;&atilde;o plena dessas condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas de liberdade, os jornalistas t&ecirc;m um papel fundamental a cumprir. Isso &eacute; &oacute;bvio. Mas &eacute; doentio pensar que todo cidad&atilde;o, para poder exercer esses direitos, deva se arvorar &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de jornalista&rdquo;. O que os autores dessa nota n&atilde;o conseguem entender&eacute; que &mdash; exceto no Brasil, na &Aacute;frica do Sul, Ar&aacute;bia Saudita, S&iacute;ria, Equador, Ucr&acirc;nia, Tun&iacute;sia, Congo, Cro&aacute;cia, costa do Marfim e outros poucos pa&iacute;ses &mdash; a liberdade de express&atilde;o entendida tamb&eacute;m como liberdade de informar, e n&atilde;o apenas a liberdade de opini&atilde;o, deve ser desembara&ccedil;ada de exig&ecirc;ncias que impe&ccedil;am qualquer cidad&atilde;o de exerc&ecirc;-la plenamente. <\/p>\n<p>Vale lembrar o que dizem Bill Kovach e Tom Rosenstiel em &ldquo;Os Elementos do Jornalismo&rdquo;: &ldquo;A pergunta que as pessoas deviam fazer n&atilde;o &eacute; por que algu&eacute;m se diz jornalista. O ponto importante &eacute; se esse algu&eacute;m est&aacute; defato fazendo jornalismo. Ser&aacute; o trabalho o respeito aos princ&iacute;pios da verdade, &agrave; lealdade aos cidad&atilde;os e &agrave; comunidade de modo geral, a informa&ccedil;&atilde;o no lugar da manipula&ccedil;&atilde;o &mdash; conceitos que fazem o jornalismo diferentes das outras formas de comunica&ccedil;&atilde;o? A implica&ccedil;&atilde;o importante disso tudo&eacute; esta: o significado de liberdade de express&atilde;o e de liberdade de imprensa &eacute; que eles pertencem a todos. Mas comunica&ccedil;&atilde;o e jornalismo n&atilde;o s&atilde;o termos mut&aacute;veis. Qualquer um pode ser jornalista, mas nem todos o s&atilde;o. O fator decisivo n&atilde;o &eacute; que tenham um passe para entrar e sair dos lugares; oimportante est&aacute; na natureza do trabalho&rdquo;. (Bill KOVACH &amp; Tom ROSENSTIEL &ndash; Os Elementos do Jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o que o p&uacute;blico deve exigir&rdquo; (Tradu&ccedil;&atilde;o de Wladir Dupont). S&atilde;o Paulo: Gera&ccedil;&atilde;o Editorial, 2003, p&aacute;gina 151. <\/p>\n<p>Nessa mesma linha, o professor do Instituto Franc&ecirc;s de Imprensa, da Universidade de Paris II, Claude-Jean Bertrand, em &#39;A Deontologia das M&iacute;dias&#39;, de 1997, afirma: &ldquo;A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas, consiste em que seu poder n&atilde;o repousa num contrato social, numa delega&ccedil;&atilde;o do povo por elei&ccedil;&atilde;o ou por nomea&ccedil;&atilde;o com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prest&iacute;gio, e sua independ&ecirc;ncia, a m&iacute;dia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem &agrave; popula&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [Claude-Jean BERTRAND &ndash; A Deontologia das M&iacute;dias (Tradu&ccedil;&atilde;o de Maria Leonor Loureiro). Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Cora&ccedil;&atilde;o, 1999, p&aacute;gs. 22-23.] . <\/p>\n<p>Daria para mostrar ao autores dessa esp&uacute;ria nota oficial dezenas de ensinamentos de consagrados pesquisadores e mestres do jornalismo, mas seria perda de tempo, pois a &eacute;tica deles em rela&ccedil;&atilde;o ao debate de id&eacute;ias &eacute; a da evas&atilde;o, sempre sob o argumento de que tudo isso s&oacute; serve para defender os &ldquo;interesses dos patr&otilde;es&rdquo;. <\/p>\n<p>Mas, para aqueles que v&ecirc;m claramente o desvio de finalidade que assola nosso sindicalismo, fica a pergunta: por que o jornal Realidade , de Luiz Carlos Barbom Filho, foi fechado justamente no final de 2004? Por que isso ocorreu nesse ano, em que, por causa de suas reportagens, foram condenados os seis vereadores, tr&ecirc;s empres&aacute;rios e um funcion&aacute;rio p&uacute;blico municipal a penas que variam entre 4 e 45 anos de reclus&atilde;o por corrup&ccedil;&atilde;o de menores, favorecimento da prostitui&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o de quadrilha ou bando? <\/p>\n<p>N&atilde;o foram acusa&ccedil;&otilde;es sem fundamento. Apenas dez dos oito condenados foram absolvidos em segunda inst&acirc;ncia, em outubro de 2005. Poucas das penas aplicadas foram reduzidas, e outras, de at&eacute; 45 anos de pris&atilde;o, foram mantidas. <\/p>\n<p>Por que, em vez de perseguirem jornalistas como Luiz Carlos Barbom Filho, essas duas entidades sindicais, que disp&otilde;em de departamento jur&iacute;dico e infra-estrutura administrativa, n&atilde;o denunciam a pr&aacute;tica descarada de publica&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;rias pagas por parte de centenas de jornalecos vagabundos que existem no Estado de S&atilde;o Paulo? S&oacute; porque quase todos eles t&ecirc;m a chancela de um &#39;jornalista respons&aacute;vel&#39; que aluga seu MTb? &ldquo;Doentio&rdquo;, em vez do que afirma essa nota oficial repugnante, &eacute; o corporativismo que pisa cegamentesobre o preceito &eacute;tico profissional de estar sempre ao lado do interesse p&uacute;blico. &ldquo;Doentio&rdquo;, na verdade, &eacute; o desrespeito ao preceito jornal&iacute;stico de jamais frustrar o debate de id&eacute;ias. &ldquo;Doentio&rdquo; &eacute; o limitado horizonte da vis&atilde;o de mundo predominante em nosso sindiclismo, que ignora o que &eacute;o jornalismo fora do rid&iacute;culo c&iacute;rculo das regulamenta&ccedil;&otilde;es profissionais nos pa&iacute;ses apontados acima. <\/p>\n<p>&ldquo;Doentio&rdquo;, portanto, &eacute; o desvio deontol&oacute;gico que revela outras prioridades neste momento em que deveria prevalecer a uni&atilde;o de esfor&ccedil;os para esclarecer o assassinato de Luiz Carlos Barbom Filho. A nota oficial da Fenaj e do sindicato de S&atilde;o Paulo merece rep&uacute;dio. <\/p>\n<p><em>* Texto originalmente publicado no blog Laudas Cr&iacute;ticas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o bastasse o fato de ter sido assassinado em circunst&acirc;ncias associadas &agrave;s suas reportagens contra abusos sexuais de pol&iacute;ticos de Porto Ferreira (SP), que culminaram na condena&ccedil;&atilde;o em primeira inst&acirc;ncia de 10 acusados em 2004, o jornalista Luiz Cesar Barbom Filho, agora, mesmo estando morto, est&aacute; sendo perseguido pela Fenaj e pelo Sindicato de Jornalistas &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18344\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Fenaj e sindicato de SP desqualificam jornalista assassinado<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18344"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18344"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18344\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}