{"id":18314,"date":"2007-05-07T11:48:06","date_gmt":"2007-05-07T11:48:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18314"},"modified":"2007-05-07T11:48:06","modified_gmt":"2007-05-07T11:48:06","slug":"tv-globo-ataca-direitos-trabalhistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18314","title":{"rendered":"TV Globo ataca direitos trabalhistas"},"content":{"rendered":"<p><span>N&atilde;o por mera coincid&ecirc;ncia, a poderosa TV Globo levou ao ar na semana da realiza&ccedil;&atilde;o dos protestos do Dia Internacional dos Trabalhadores uma s&eacute;rie de seis reportagens sobre as rela&ccedil;&otilde;es de trabalho no pa&iacute;s. Intitulada Brasil Informal e produzida com alto padr&atilde;o de qualidade e de manipula&ccedil;&atilde;o, a s&eacute;rie teve como objetivo expl&iacute;cito demonstrar que o alto &iacute;ndice de informalidade no pa&iacute;s decorre da legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista, adjetivada sempre como &ldquo;atrasada, obsoleta&rdquo; e outros palavr&otilde;es. O trabalhador com registro em carteira e com direitos b&aacute;sicos seria o culpado pelo desemprego e pelo infort&uacute;nio dos milh&otilde;es que vivem dos bicos. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>As reportagens do Jornal Nacional, al&eacute;m de afrontarem os trabalhadores na semana da comemora&ccedil;&atilde;o do 1&ordm; de Maio, tamb&eacute;m tiveram um alvo pol&iacute;tico mais direto. No momento em que se discute no parlamento o veto do presidencial &agrave; nefasta Emenda 3, que precariza ainda mais as rela&ccedil;&otilde;es trabalhistas e, inclusive, estimula o trabalho escravo, a poderosa emissora almejou manifestar sua oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; decis&atilde;o do governo Lula. O presidente tamb&eacute;m seria culpado pelo Brasil Informal, j&aacute; que veta uma medida &ldquo;modernizadora&rdquo; e n&atilde;o tem coragem para enterrar de vez a &ldquo;obsoleta&rdquo; CLT (Consolida&ccedil;&atilde;o das Leis do Trabalho).<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>&ldquo;Privil&eacute;gios&rdquo; dos registrados<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Na primeira reportagem da s&eacute;rie, o Jornal Nacional tratou do &ldquo;drama da informalidade no Brasil&rdquo;. Sem pestanejar, o rep&oacute;rter Tonico Ferreira, que h&aacute; muito renegou seus artigos no jornal Movimento durante a ditadura militar, afirmou que 46,6% dos trabalhadores usufruem de &ldquo;benef&iacute;cios&rdquo;, enquanto outros 53,4% &ldquo;pagam a conta&rdquo;, vivendo na informalidade. Os &ldquo;privil&eacute;gios&rdquo; citados seriam &ldquo;f&eacute;rias, gratifica&ccedil;&atilde;o de um ter&ccedil;o do sal&aacute;rio nas f&eacute;rias, descanso remunerado, d&eacute;cimo terceiro, pagamento de hora extra&rdquo;, entre outros. Para ser coerente, deveria abdicar de seu alto sal&aacute;rio e de seus excitantes finais de semana em alto-mar.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Sua reportagem &eacute; ardilosa, um primor de deturpa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica. Ao citar o caso da faxineira Lindinalva Silva, que n&atilde;o &eacute; registrada &ldquo;porque as patroas n&atilde;o podem arcar com os altos encargos&rdquo;, ela tenta jogar o trabalhador informal contra o registrado &ndash; numa manobra para dividir a classe. &Eacute; como se o registrado fosse o culpado pelas agruras da faxineira, que &ldquo;trabalha de manh&atilde; para comer &agrave; noite&rdquo;. A desonestidade chega ao ponto dele s&oacute; entrevistar not&oacute;rios partid&aacute;rios da flexibiliza&ccedil;&atilde;o e sem citar suas origens &ndash; como Edward Amadeo, ex-ministro de FHC, e Jos&eacute; Pastore, ex-coordenador de programa de Geraldo Alckmin.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>A falsidade dos encargos sociais<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; no segundo programa, &ldquo;os limites ao crescimento das micro e pequenas empresas&rdquo;, o Jornal Nacional tentou seduzir os pequenos propriet&aacute;rios ao insinuar que seus males decorrem da legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista. A reportagem chega a justificar as picaretagens de certos empres&aacute;rios que n&atilde;o registram os empregados para sonegar direitos. A mat&eacute;ria nada fala sobre o poder dos monop&oacute;lios, que estrangula os pequenos neg&oacute;cios, nem da pol&iacute;tica de juros elevados, que beneficia os banqueiros. Outro tucano ultraliberal serve como fonte do artigo, o economista Eduardo Giannetti, que condena a falta de &ldquo;ambiente para os neg&oacute;cios&rdquo; no pa&iacute;s.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Na terceira, a TV Globo comparou a legisla&ccedil;&atilde;o brasileira com a de outros pa&iacute;ses capitalistas. &ldquo;Nos EUA, a porcentagem que o empregador paga de encargos sobre a folha de pagamento &eacute; de 9,03%&#8230; J&aacute; na rica Alemanha, 60%. O Brasil &eacute; o campe&atilde;o mundial absoluto em encargos: 102,7%&rdquo;. Os n&uacute;meros, como j&aacute; demonstrou o economista Marcio Pochmann, s&atilde;o falsos porque misturam os impostos indiretos com os benef&iacute;cios sociais. Al&eacute;m disso, escondem os p&eacute;ssimos sal&aacute;rios pagos no Brasil. O &ldquo;jornalista&rdquo; s&oacute; faltou aconselhar aos empres&aacute;rios que n&atilde;o paguem os encargos e desrespeitem a CLT. &ldquo;No Brasil, o empres&aacute;rio que assina a carteira dos funcion&aacute;rios sofre uma concorr&ecirc;ncia brutal e desleal dos que n&atilde;o fazem isso&rdquo;. &nbsp;<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><strong><span>&ldquo;Bons exemplos&rdquo; da flexibiliza&ccedil;&atilde;o<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><\/strong><span>Na quarta reportagem, &ldquo;informalidade aumenta gastos do pa&iacute;s&rdquo;, a TV Globo esquece a criminosa taxa de juros que agrava o d&eacute;ficit fiscal e deixa impl&iacute;cito que a crise do Estado decorre, tamb&eacute;m, do rigor das leis trabalhistas. Novamente citando Eduardo Giannetti, insinua que a informalidade eleva os gastos p&uacute;blicos, o que, na l&oacute;gica deste rep&oacute;rter elitista, &eacute; um absurdo. &ldquo;Vai cair na conta do governo, ou seja, na conta de todos contribuintes, o custo da assistencial social &agrave;s pessoas que n&atilde;o pagam impostos ou n&atilde;o contribuem para a Previd&ecirc;ncia, mas que envelhecem e adoecem&rdquo;, lamenta, talvez pensando no seu consumo de luxo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Na pen&uacute;ltima mat&eacute;ria de s&eacute;rie, a poderosa TV Globo acionou seus rep&oacute;rteres no exterior para defender os &ldquo;bons exemplos&rdquo; dos EUA e da Espanha. Como que dando conselhos, o texto opina que para solucionar a informalidade nestes pa&iacute;ses &ldquo;foi preciso que cada um entrasse com sua parcela de sacrif&iacute;cios. Empresas e empregados abriram m&atilde;o de direitos e a legisla&ccedil;&atilde;o se tornou mais flex&iacute;vel&rdquo;. No caso dos EUA, n&atilde;o h&aacute; leis trabalhistas. Prevalecem &ldquo;os acordos assinados entre o pr&oacute;prio trabalhador e o empregador. Eles decidem sal&aacute;rio, carga hor&aacute;ria, pens&atilde;o, tempo de f&eacute;rias&rdquo;. O texto cita uma enfermeira que tem s&oacute; dez dias de f&eacute;rias e a liberdade do patr&atilde;o de &ldquo;demitir o empregado a qualquer momento, sem explica&ccedil;&atilde;o, nem indeniza&ccedil;&atilde;o&rdquo;.&nbsp; <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>J&aacute; a Espanha, que sofreu um brutal desmonte do trabalho na gest&atilde;o direitista de Jos&eacute; Aznar, seria o outro exemplo &ldquo;bem sucedido&rdquo; de combate &agrave; informalidade. &ldquo;Com as mudan&ccedil;as na legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista foram criados v&aacute;rios tipos de contratos de trabalho: de tempo parcial, de est&iacute;mulo &agrave; contrata&ccedil;&atilde;o de jovens, por obra ou projeto, entre outros. Al&eacute;m disso, a legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; uma das mais flex&iacute;veis da Europa e se limita a estabelecer principais gerais&#8230; As f&eacute;rias s&atilde;o de 20 dias &uacute;teis, sem abono. Os encargos sociais, incluindo a contribui&ccedil;&atilde;o para a Previd&ecirc;ncia, custam ao patr&atilde;o apenas 30% do valor do sal&aacute;rio. Muitos trabalhadores optam pela contrata&ccedil;&atilde;o por temporada&rdquo;. Um verdadeiro para&iacute;so, segundo a &oacute;tica neoliberal da TV Globo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>TV Globo, &ldquo;o partido do capital&rdquo;<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O Jornal Nacional da TV Globo encerrou sua s&eacute;rie apresentando, arrogantemente, &ldquo;as solu&ccedil;&otilde;es para o problema do trabalho informal no Brasil&rdquo;, o que confirma a sua pretens&atilde;o de ser o principal &ldquo;partido do capital&rdquo; no pa&iacute;s. Entre outras propostas, pregou a diminui&ccedil;&atilde;o da burocracia, no qual estaria inclu&iacute;da a da fiscaliza&ccedil;&atilde;o do trabalho &ndash; n&atilde;o &eacute; para menos que a regress&atilde;o discutida no parlamento tamb&eacute;m &eacute; chamada de &ldquo;Emenda da TV Globo&rdquo; &ndash; e a diminui&ccedil;&atilde;o dos tributos, uma antiga bandeira do patronato. &ldquo;A redu&ccedil;&atilde;o da carga tribut&aacute;ria ser&aacute; o maior combate &agrave; informalidade&rdquo;, afirma o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Talvez devido &agrave;s cr&iacute;ticas que a s&eacute;rie recebeu, na &uacute;ltima reportagem foram ouvidas vozes discordantes da dogm&aacute;tica neoliberal, como a do presidente da CUT, Artur Henrique, que recha&ccedil;ou qualquer proposta de flexibiliza&ccedil;&atilde;o trabalhista. &ldquo;A n&atilde;o ser que fosse para flexibilizar para cima. Ou seja, uma negocia&ccedil;&atilde;o no sentido de ampliar e melhorar cada vez mais esses direitos para o conjunto da classe trabalhadora&rdquo;. Mas, para se contrapor as &ldquo;ing&ecirc;nuas&rdquo; sugest&otilde;es do sindicalismo, o comportado Tonico Ferreira concluiu a s&eacute;rie entrevistando v&aacute;rios &ldquo;especialistas&rdquo; no assunto, fechando com perverso requinte a s&eacute;rie da TV Globo. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>&ldquo;Valores nacionais&rdquo; e escravid&atilde;o<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&ldquo;Muitos especialistas acham que a informalidade s&oacute; ir&aacute; diminuir se houver uma redu&ccedil;&atilde;o no custo das contrata&ccedil;&otilde;es formais. Edward Amadeo, que j&aacute; foi ministro do trabalho [o rep&oacute;rter n&atilde;o diz de quem], defende uma legisla&ccedil;&atilde;o mais flex&iacute;vel. &lsquo;Minha sugest&atilde;o &eacute; que voc&ecirc; fa&ccedil;a uma revis&atilde;o profunda da CLT&rsquo;. O professor Jos&eacute; Pastore, uma das maiores autoridades em rela&ccedil;&otilde;es do trabalho no Brasil [ele tamb&eacute;m n&atilde;o diz que o tal professor foi assessor do derrotado Geraldo Alckmin], prop&otilde;e uma esp&eacute;cie de Super-Simples para os contratos de trabalho&rdquo;. E outro &ldquo;especialista&rdquo;, F&aacute;bio Giambiagi, outro tucano de carteirinha, prega uma nova reforma da Previd&ecirc;ncia, com o aumento da idade de aposentadoria para &ldquo;70 anos e n&atilde;o de 65 e com um valor que acho que deveria ser inferior a um sal&aacute;rio m&iacute;nimo&rdquo;.<\/span><span>&nbsp;<br \/><\/span><span><br \/>Como se observa, a poderosa Rede Globo est&aacute; em plena campanha contra os direitos trabalhistas. Os seus presidentes, Collor de Mello e FHC, n&atilde;o conseguiram &ldquo;enterrar de vez&rdquo; a CLT e agora ela tenta emplacar o mesmo programa no governo do sindicalista Lula. Pouco antes desta s&eacute;rie, o Fant&aacute;stico havia pregado a urg&ecirc;ncia da reforma da Previd&ecirc;ncia. A proposta foi refor&ccedil;ada em abril num Globo Rep&oacute;rter especial e tem sido martelada, de maneira sorrateira, at&eacute; nas novelas da emissora. A ofensiva &eacute; violenta e revela o papel reacion&aacute;rio da emissora dos Marinhos, que se jacta de expressar os valores nacionais, mas s&oacute; se for de uma na&ccedil;&atilde;o com trabalhadores precarizados e sem direitos, quase escravos.<\/span><span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<br \/><\/span><\/p>\n<p><span><em>Altamiro Borges &eacute; jornalista, membro do Comit&ecirc; Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro &ldquo;As encruzilhadas do sindicalismo&rdquo; (Editora Anita Garibaldi, 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o por mera coincid&ecirc;ncia, a poderosa TV Globo levou ao ar na semana da realiza&ccedil;&atilde;o dos protestos do Dia Internacional dos Trabalhadores uma s&eacute;rie de seis reportagens sobre as rela&ccedil;&otilde;es de trabalho no pa&iacute;s. 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