{"id":18293,"date":"2007-05-03T17:40:35","date_gmt":"2007-05-03T17:40:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18293"},"modified":"2007-05-03T17:40:35","modified_gmt":"2007-05-03T17:40:35","slug":"as-ideias-organizadoras-do-jornalismo-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18293","title":{"rendered":"As id\u00e9ias-organizadoras do jornalismo pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p>A origem e a dissemina&ccedil;&atilde;o de determinadas catchwords &ndash; ou palavras-chave, ou id&eacute;ias-organizadoras &ndash; &eacute; um dos objetos de pesquisa mais fascinantes para os interessados nos meandros da comunica&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica. S&atilde;o palavras\/express&otilde;es que pretendem traduzir sinteticamente, de maneira simplificada, quest&otilde;es complexas, amb&iacute;guas e de interpreta&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla e pol&ecirc;mica. Elas buscam reduzir um variado leque de significados a apenas um &uacute;nico &quot;significado guarda-chuva&quot; facilmente assimil&aacute;vel. Uma esp&eacute;cie de r&oacute;tulo. &nbsp;<\/p>\n<p>Exaustivamente repetidas na m&iacute;dia, essas palavras\/express&otilde;es v&atilde;o perdendo sua ambig&uuml;idade original pela associa&ccedil;&atilde;o continuada a apenas um conjunto de significados e acabam sendo incorporadas ao vocabul&aacute;rio cotidiano do cidad&atilde;o comum.&nbsp;<\/p>\n<p>Na crise pol&iacute;tica de 2005 houve largo uso de um conjunto dessas catchwords pelos partidos de oposi&ccedil;&atilde;o ao governo Lula e pela m&iacute;dia: mensal&atilde;o, valerioduto, sil&ecirc;ncio dos intelectuais, conex&atilde;o cubana, opera&ccedil;&atilde;o Paraguai, conex&atilde;o Lisboa, rep&uacute;blica de Ribeir&atilde;o Preto, dan&ccedil;a da pizza, dentre outras.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Chegou para ficar<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>O que s&atilde;o exatamente essas id&eacute;ias-organizadoras? De onde e como elas surgem? Qual o processo que leva &agrave; sua consolida&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; na m&iacute;dia, como no vocabul&aacute;rio do cidad&atilde;o comum? Qual o papel que elas desempenham na constru&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica?&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Essas seriam algumas das quest&otilde;es a serem respondidas por um projeto de pesquisa sobre o tema. Aqui v&atilde;o apenas umas poucas considera&ccedil;&otilde;es sobre a presen&ccedil;a de catchwords na atual cobertura pol&iacute;tica.&nbsp;<\/p>\n<p>Creio que Gaye Tuchman, em seu cl&aacute;ssico Making News (1978), foi quem primeiro tratou da quest&atilde;o. Apoiada em Goffman e Schutz, ela mostra como as mat&eacute;rias jornal&iacute;sticas t&ecirc;m a capacidade de &quot;frame&quot; (enquadrar) um determinado tema dentro de um conjunto de refer&ecirc;ncias conhecidas e, portanto, situam o leitor\/ouvinte\/espectador num mapa cognitivo que faz sentido para ele. &nbsp;<\/p>\n<p>Os &quot;frames&quot; s&atilde;o id&eacute;ias-organizadoras para a representa&ccedil;&atilde;o seletiva de aspectos da realidade &ndash; e para a sali&ecirc;ncia de uns em detrimento ou omiss&atilde;o de outros. Eles formam o quadro de refer&ecirc;ncia b&aacute;sico &ndash; contexto e significado &ndash; na constru&ccedil;&atilde;o das not&iacute;cias e indicam os caminhos que conduzir&atilde;o a cobertura no desenvolvimento dos eventos. Consolidados, raramente se modificam.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>No momento em que outra CPI promete manter viva a oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, surge uma nova catchword que certamente veio para ficar: &quot;apag&atilde;o a&eacute;reo&quot;.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uso generalizado&nbsp;<br \/><\/strong><br \/>J&aacute; t&iacute;nhamos no vocabul&aacute;rio midi&aacute;tico o apag&atilde;o referido &agrave; energia el&eacute;trica. Esse, literalmente, significou a aus&ecirc;ncia de ilumina&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, uma escurid&atilde;o geral ocorrida em v&aacute;rios estados brasileiros ainda durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Agora, a CPI capitaneada pelos DEM &eacute; da &quot;crise no setor a&eacute;reo&quot;, que envolve, al&eacute;m dos &oacute;bvios interesses partid&aacute;rios, o governo, as empresas a&eacute;reas, as seguradoras nacionais e internacionais, a Infraero e, claro, os milh&otilde;es de usu&aacute;rios dos servi&ccedil;os de transporte a&eacute;reo.&nbsp;<\/p>\n<p>Faz alguma diferen&ccedil;a nomear o problema ou a CPI como &quot;apag&atilde;o a&eacute;reo&quot; ou &quot;crise no setor a&eacute;reo&quot;? Aparentemente, sim. O &quot;apag&atilde;o&quot; traria mais conota&ccedil;&otilde;es negativas de responsabiliza&ccedil;&atilde;o do governo pela crise e evocaria a poss&iacute;vel corrup&ccedil;&atilde;o existente em empresas como a Infraero. J&aacute; &quot;a crise no setor a&eacute;reo&quot; amplia para al&eacute;m do governo as raz&otilde;es que levaram &agrave; situa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica o transporte a&eacute;reo no pa&iacute;s.&nbsp;<\/p>\n<p>Um aspecto interessante neste momento &eacute; observar o uso praticamente generalizado que a grande m&iacute;dia j&aacute; faz da express&atilde;o &quot;apag&atilde;o a&eacute;reo&quot;. At&eacute; mesmo a cobertura da Ag&ecirc;ncia Brasil e do Jornal da C&acirc;mara se refere ao &quot;apag&atilde;o a&eacute;reo&quot;, e n&atilde;o &agrave; crise do setor a&eacute;reo. Mas h&aacute; exce&ccedil;&otilde;es.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Enquadramentos distintos<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>Veja o leitor as manchetes de abertura de dois telejornais de quarta-feira (25\/4), dia em que o Supremo Tribunal Federal determinou a instala&ccedil;&atilde;o da CPI na C&acirc;mara dos Deputados:&nbsp;<\/p>\n<p>** &quot;O Supremo autoriza a instala&ccedil;&atilde;o da CPI na C&acirc;mara sobre a crise do setor a&eacute;reo e o Senado decide abrir outra&quot;.&nbsp;<\/p>\n<p>** &quot;O Supremo Tribunal Federal &eacute; a mais alta inst&acirc;ncia de justi&ccedil;a no Brasil e imp&ocirc;s uma clara derrota ao governo. Obrigou a C&acirc;mara dos Deputados a instaurar uma CPI sobre o apag&atilde;o a&eacute;reo que o governo fizera de tudo para evitar. O medo do governo n&atilde;o &eacute; tanto que a CPI chegue a algum resultado. &Eacute; o circo pol&iacute;tico em torno dela, a distra&ccedil;&atilde;o do Congresso. O circo tornou-se inevit&aacute;vel em grande parte por culpa do pr&oacute;prio governo&quot;.&nbsp;<\/p>\n<p>Um observador desavisado poderia supor que se trata de manchetes de telejornais de diferentes emissoras de televis&atilde;o. Mas a primeira manchete &eacute; do Jornal Nacional e a segunda do Jornal da Globo, ambos da Rede Globo de Televis&atilde;o. &nbsp;<\/p>\n<p>Al&eacute;m das manchetes, o tratamento das respectivas reportagens tamb&eacute;m teve enquadramento distinto: no JN, a express&atilde;o &quot;CPI do setor a&eacute;reo&quot; foi repetida tr&ecirc;s vezes e no JG a express&atilde;o &quot;CPI do apag&atilde;o a&eacute;reo&quot;, duas. E mais: no Bom Dia Brasil do dia seguinte (26\/4) a mat&eacute;ria sobre o assunto usou a express&atilde;o &quot;apag&atilde;o a&eacute;reo&quot; e no Jornal Hoje (26), &quot;CPI do setor a&eacute;reo&quot;.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Oportunidade de estudo<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>Quais as raz&otilde;es para os diferentes enquadramentos da quest&atilde;o dentro de telejornais da mesma emissora?&nbsp;<\/p>\n<p>O que parece claro &eacute; que a utiliza&ccedil;&atilde;o &ndash; ou n&atilde;o &ndash; de determinadas catchwords representa uma escolha editorial e obedece ao tratamento da quest&atilde;o dentro de um determinado &quot;frame&quot; que passa, ent&atilde;o, a orientar a cobertura dos eventos subseq&uuml;entes. &nbsp;<\/p>\n<p>A cobertura que a grande m&iacute;dia far&aacute; da CPI da crise do setor a&eacute;reo &ndash; que deve ser instalada nesta semana na C&acirc;mara dos Deputados &ndash; oferece uma excelente oportunidade para se estudar a import&acirc;ncia e o papel das id&eacute;ias-organizadoras no jornalismo pol&iacute;tico brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A origem e a dissemina&ccedil;&atilde;o de determinadas catchwords &ndash; ou palavras-chave, ou id&eacute;ias-organizadoras &ndash; &eacute; um dos objetos de pesquisa mais fascinantes para os interessados nos meandros da comunica&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica. 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