{"id":18287,"date":"2007-05-02T18:52:36","date_gmt":"2007-05-02T18:52:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18287"},"modified":"2007-05-02T18:52:36","modified_gmt":"2007-05-02T18:52:36","slug":"coronelismo-eletronico-ainda-impera-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18287","title":{"rendered":"Coronelismo eletr\u00f4nico ainda impera no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Pelo menos 80 parlamentares, entre senadores e deputados, s&atilde;o donos de concess&otilde;es p&uacute;blicas de r&aacute;dio e TV, contrariando o que diz a pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o. Quem s&atilde;o eles e por que isso continua assim?<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Nas &uacute;ltimas semanas veio &agrave; tona um debate sobre a possibilidade de o governo criar uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o, com conte&uacute;do independente das influ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas do governo da vez. A discuss&atilde;o se d&aacute; tamb&eacute;m em torno da proposta de uma rede do Poder Executivo, algo que seria como uma Voz do Brasil 24 horas por dia no ar, n&atilde;o no r&aacute;dio, mas em um canal de TV. Nada se falou, no entanto, sobre uma outra rede de emissoras de r&aacute;dio e TV j&aacute; existente, presente praticamente em todo o pa&iacute;s, interligada por um fator comum: as emissoras s&atilde;o de propriedade de pol&iacute;ticos, muitos deles parlamentares da atual legislatura.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>De acordo com o mais recente levantamento, divulgado no final do ano passado, pelo menos um ter&ccedil;o dos 81 senadores e mais de 10% dos 513 deputados federais controlam canais de r&aacute;dio ou televis&atilde;o. Isso poderia ser apenas uma raz&atilde;o de desconfian&ccedil;a, pela possibilidade de uso pol&iacute;tico da comunica&ccedil;&atilde;o, se n&atilde;o estivesse escrito na Constitui&ccedil;&atilde;o que &eacute; proibido. O Artigo 54 afirma que deputados e senadores, a partir do momento em que tomam posse, n&atilde;o podem &quot;firmar ou manter contrato&quot; ou &quot;aceitar ou exercer cargo, fun&ccedil;&atilde;o ou emprego remunerado&quot; em empresa concession&aacute;ria de servi&ccedil;o p&uacute;blico. R&aacute;dios e televis&otilde;es s&atilde;o justamente isso: recebem a concess&atilde;o de uso de uma faixa do espectro eletromagn&eacute;tico por onde transmitem sua programa&ccedil;&atilde;o. Espectro esse que &eacute; p&uacute;blico, finito e, por isso, regulado pelo Estado. A primeira linha do artigo seguinte da Constitui&ccedil;&atilde;o, de n&uacute;mero 55, diz: &quot;Perder&aacute; o mandato o deputado ou senador que infringir qualquer das <\/span><span>proibi&ccedil;&otilde;es estabelecidas no artigo anterior&quot;.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>S&atilde;o 27 senadores e 53 deputados s&oacute;cios ou parentes de propriet&aacute;rios de empresas de comunica&ccedil;&atilde;o concession&aacute;rias de servi&ccedil;o p&uacute;blico. Esses parlamentares foram rastreados num cruzamento de dados realizado pela Ag&ecirc;ncia Rep&oacute;rter Social. As bases de dados foram as declara&ccedil;&otilde;es prestadas pelos pr&oacute;prios parlamentares aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), a pesquisa do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunica&ccedil;&atilde;o (Epcom), do Rio Grande do Sul, que divulgou uma lista de senadores com parentes donos de emissoras, e uma lista divulgada em 2005 pelo soci&oacute;logo e doutor em Comunica&ccedil;&otilde;es da Universidade de Bras&iacute;lia (Unb), Ven&iacute;cio de Lima, de deputados que t&ecirc;m os nomes entre os s&oacute;cios de concession&aacute;rias, numa listagem divulgada ent&atilde;o pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es &#8211; que n&atilde;o est&aacute; mais no site do governo.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Al&eacute;m desses 80 parlamentares, entretanto, muitos outros podem dirigir ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o sem que a sociedade saiba. A dificuldade para descobrir, com precis&atilde;o, quantos deles t&ecirc;m concess&otilde;es, &eacute; grande. N&atilde;o h&aacute; uma lista p&uacute;blica atualizada com os nomes dos s&oacute;cios propriet&aacute;rios de r&aacute;dios e televis&otilde;es. E, mesmo que houvesse, muitos parlamentares colocam as empresas em nome de laranjas, &agrave;s vezes sem parentesco algum.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Como &eacute; que pode?, perguntaria o leitor mais curioso. O uso pol&iacute;tico das concess&otilde;es n&atilde;o &eacute; recente. O livro Vozes da Democracia &ndash; Hist&oacute;rias da Comunica&ccedil;&atilde;o na Redemocratiza&ccedil;&atilde;o do Brasil, escrito por 32 jornalistas de v&aacute;rias parte do pa&iacute;s, conta que &quot;no final do governo Figueiredo (1979-1985) houve um n&uacute;mero excessivo de concess&otilde;es de canais de r&aacute;dio e TV num curto per&iacute;odo. Somente nos &uacute;ltimos dois meses e meio do governo do general Figueiredo houve 91 decretos de concess&otilde;es. Quase o mesmo n&uacute;mero de todo o ano anterior (99 decretos) e mais que o total de 1983 (80 decretos). Entre os privilegiados, as redes de televis&atilde;o Bandeirantes e SBT&quot;.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><br \/>Ven&iacute;cio de Lima diz que &quot;at&eacute; a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, o direito de outorga era exclusivo do Poder Executivo. O processo come&ccedil;ava no Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, que emitia um ato de outorga, que depois era enviado diretamente ao presidente da Rep&uacute;blica, que o assinava&quot;. Depois de 88, por uma reivindica&ccedil;&atilde;o liderada pela Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas, o poder de outorga passou a ser compartilhado entre a Uni&atilde;o e o Poder Legislativo. Ou seja, o processo de concess&atilde;o, hoje, &quot;come&ccedil;a no minist&eacute;rio, vai para a Secretaria de Rela&ccedil;&otilde;es Institucionais, depois vai para o Congresso. Na C&acirc;mara, entra na Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica (CCTCI), e de l&aacute; vai para a Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o e Justi&ccedil;a (CCJ), que tem poder terminal sobre a confirma&ccedil;&atilde;o da outorga. Por l&aacute; passam todos os processos&quot;. Depois da C&acirc;mara, o processo ainda segue para o Senado, <\/span><span>onde passa por comiss&otilde;es similares, para s&oacute; depois receber a autoriza&ccedil;&atilde;o de funcionamento. Isso, para r&aacute;dios comerciais; comunit&aacute;rias, educativas e TV a cabo seguem por outros caminhos. Uma r&aacute;dio recebe concess&atilde;o para atuar por dez anos; uma TV, por 15 anos.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Com todos esses processos e burocracia, algu&eacute;m poderia at&eacute; imaginar que cada concess&atilde;o &eacute; investigada a fundo. At&eacute; dezembro do ano passado, entretanto, jamais um pedido de renova&ccedil;&atilde;o de concess&atilde;o ou outorga havia sido sequer questionado. Pela primeira vez na hist&oacute;ria, ent&atilde;o, 83 foram rejeitadas. O que n&atilde;o quer dizer que os pedidos n&atilde;o ser&atilde;o aceitos &#8211; eles apenas foram rejeitados na CCTCI. Ainda precisam ser analisados pela CCJ da C&acirc;mara. Depois, seguir&atilde;o para vota&ccedil;&atilde;o em plen&aacute;rio. Para a rejei&ccedil;&atilde;o definitiva, ser&atilde;o necess&aacute;rios os votos de dois quintos dos 513 deputados &ndash; a aprova&ccedil;&atilde;o ocorre por maioria simples.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Os processos haviam chegado &agrave; Comiss&atilde;o com pareceres favor&aacute;veis dos respectivos relatores, mas foram rejeitados pelos deputados J&uacute;lio Semeghini (PSDB-SP), Ricardo Barros (PP-PR), Luiza Erundina (PSB-SP), Jorge Bittar (PT-RJ) e Vic Pires Franco (PFL-BA). Segundo o deputado Jorge Bittar, &quot;a Constitui&ccedil;&atilde;o quis dar ao Legislativo poderes de conhecer o setor e influir nas concess&otilde;es, de forma que esse processo seja transparente e democr&aacute;tico&quot;, mas, de acordo com ele, em muitos dos processos analisados faltava a documenta&ccedil;&atilde;o apropriada. &quot;N&atilde;o sabemos como os processos s&atilde;o formados, como s&atilde;o definidos, quais s&atilde;o as prioridades do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. Essa quest&atilde;o est&aacute; sendo tratada como uma verdadeira caixa fechada. Diante disso, resolvemos adotar uma medida en&eacute;rgica com a reprova&ccedil;&atilde;o de todos os processos. &Eacute; preciso abrir a caixa, em benef&iacute;cio da democracia e do cidad&atilde;o&quot;. N&atilde;o h&aacute;, no entanto, previs&atilde;o de data para a aprecia&ccedil;&atilde;o dos processos na CCJ.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>O que pareceu ter sido um avan&ccedil;o na Constitui&ccedil;&atilde;o de 88 &ndash; a transfer&ecirc;ncia do Executivo para o Legislativo do poder de outorga &ndash; ainda n&atilde;o se mostrou eficiente, quase 20 anos depois. Isso porque os pr&oacute;prios concession&aacute;rios est&atilde;o onde as concess&otilde;es s&atilde;o feitas ou renovadas: um de cada cinco membros da pr&oacute;pria CCTCI &eacute; s&oacute;cio de concess&otilde;es p&uacute;blicas de r&aacute;dio ou televis&atilde;o. E mesmo na subcomiss&atilde;o especial criada em fevereiro de 2007 para &quot;analisar as normas de outorga e renova&ccedil;&atilde;o de concess&atilde;o, permiss&atilde;o ou autoriza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o de radiodifus&atilde;o sonora e de sons e imagem&quot;, h&aacute; donos de emissoras. O deputado Jorginho Maluly (PFL-SP) &eacute; um deles.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Maluly &eacute; s&oacute;cio das r&aacute;dios Clube de Mirand&oacute;polis Ltda., Veneza Paulista Ltda. e Cidade Andradina Ltda., segundo o levantamento da pesquisa Rep&oacute;rter Social. Jorge Maluly Netto, pai de Jorginho e prefeito reeleito de Ara&ccedil;atuba (PFL) com mais de 35 mil votos, tem no nome as empresas R&aacute;dio Nova Bebedouro Ltda. e a TV Sistema Ara&ccedil;a de Comunica&ccedil;&atilde;o Ltda. &quot;Acho que a comiss&atilde;o est&aacute; avan&ccedil;ando, estamos num processo de moralidade cada vez maior, e estou disposto a contribuir para que a comiss&atilde;o tenha imparcialidade e possa cumprir com o seu papel&quot;, diz Jorginho. O deputado afirma que ser s&oacute;cio de r&aacute;dio n&atilde;o ir&aacute; interefir em seu trabalho na comiss&atilde;o. &quot;Eu mesmo tenho uma pequena <\/span><span>emissora de r&aacute;dio, mas se minha participa&ccedil;&atilde;o for ter alguma conota&ccedil;&atilde;o de parcialidade, eu abro m&atilde;o, para que outros colegas decidam se minha empresa est&aacute; dentro dos padr&otilde;es. A subcomiss&atilde;o tem feito uma s&eacute;rie de audi&ecirc;ncias para tocar nesse ponto: se h&aacute; um direcionamento ou n&atilde;o. Por exemplo, eu, que tenho uma empresa, se isso vier a interferir no meu trabalho na comiss&atilde;o, eu deixo a comiss&atilde;o, para que ela trabalhe da melhor maneira poss&iacute;vel&quot;. O deputado cita, inclusive, a exist&ecirc;ncia de uma proposta para que a lei volte a ser como era antes de 1988, no per&iacute;odo militar: &quot;Existe at&eacute; uma corrente, defendida pelo deputado Paulo Bornhausen (PFL-SC) de tirar do Congresso essa prerrogativa de conceder as outorgas, de deixar no pr&oacute;prio minist&eacute;rio, para n&atilde;o ter esse v&iacute;nculo do parlamentar interferir na concess&atilde;o de uma empresa do seu interesse&quot;.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Questionado sobre o Artigo 54 da Constitui&ccedil;&atilde;o, Maluly diz que conseguiu a r&aacute;dio antes de se eleger. &quot;Existe algo que se chama direito adquirido. Temos na Constitui&ccedil;&atilde;o um artigo que diz que promotor p&uacute;blico n&atilde;o pode participar do processo pol&iacute;tico, e temos deputados que s&atilde;o promotores. Por qu&ecirc;? Porque tinham o direito antes da Constitui&ccedil;&atilde;o. Me tornei parlamentar agora, mas jamais vou usar do <\/span><span>meu poder para me beneficiar pessoalmente. Quando houver algo do meu interesse, nem participarei de vota&ccedil;&otilde;es. A comiss&atilde;o &eacute; suprapartid&aacute;ria. Estamos avan&ccedil;ando para a democratiza&ccedil;&atilde;o ainda mais do setor das comunica&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o podemos misturar os interesses pessoais com os interesses da na&ccedil;&atilde;o&quot;, defende. Para o pesquisador Ven&iacute;cio de Lima n&atilde;o &eacute; bem assim. &quot;H&aacute; um impedimento legal. Isso &eacute; uma incoer&ecirc;ncia. Como o camarada que concede a concess&atilde;o pode tamb&eacute;m ser o mesmo que consegue a concess&atilde;o? H&aacute; uma flagrante obscenidade no ato. Isso existe por causa de uma interpreta&ccedil;&atilde;o equivocada da lei. E mesmo antes de 88 havia o c&oacute;digo das comunica&ccedil;&otilde;es, que tamb&eacute;m impedia isso&quot;.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Al&eacute;m de Jorginho Maluly, outro parlamentar membro da subcomiss&atilde;o especial da CCTCI que analisa as normas para concess&atilde;o &eacute; o deputado Frank Aguiar (PTB-SP). &quot;Estamos analisando as melhores formas de restringir isso, para que os parlamentares n&atilde;o possam usufruir de uma licen&ccedil;a que &eacute; p&uacute;blica&quot;, defende. Ele faz quest&atilde;o de destacar que nunca teve uma concess&atilde;o p&uacute;blica. Novato na vida pol&iacute;tica, mas rodado nos bailes de forr&oacute;, onde &eacute; conhecido como o &quot;C&atilde;ozinho dos Teclados&quot;, Aguiar analisa que estar em proje&ccedil;&atilde;o na m&iacute;dia faz, sim, diferen&ccedil;a na hora da elei&ccedil;&atilde;o. &quot;&Oacute;bvio que a arte possibilita meios de se comunicar com a popula&ccedil;&atilde;o muito mais diretamente. Na m&iacute;dia, como parlamentar, voc&ecirc; tem um espa&ccedil;o m&iacute;nimo, que tem de disputar com outros 512. Como artista, voc&ecirc; fala diretamente com a popula&ccedil;&atilde;o&quot;. Frank Aguiar &eacute; suplente de outro comunicador presente na comiss&atilde;o, o deputado Carlos Massa J&uacute;nior (PSC-PR), conhecido tamb&eacute;m como Ratinho J&uacute;nior.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>E assim como Aguiar, outro parlamentar que beneficiou-se dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o para alcan&ccedil;ar uma vaga na C&acirc;mara dos Deputados &eacute; Carlos Alberto Ler&eacute;ia (PSDB-GO). Radialista de origem, Ler&eacute;ia tinha programa, em sua cidade natal, Mina&ccedil;u, na divisa goiana com Tocantins. &quot;Abordava <\/span><span>jornalismo em geral, n&atilde;o s&oacute; de quest&atilde;o pol&iacute;tica como tamb&eacute;m pol&iacute;cia e esporte&quot;, conta. Admite que o &quot;r&aacute;dio tem uma intera&ccedil;&atilde;o imediata com o cidad&atilde;o, de divulgar id&eacute;ias&quot;. Mas n&atilde;o considera que foi favorecido politicamente pelo fato ser propriet&aacute;rio de uma r&aacute;dio, R&aacute;dio FM Serra da Mesa, em Mina&ccedil;u, em que tinha um programa. &quot;N&atilde;o atuo desde 1996&quot;, defende-se. Na &eacute;poca, j&aacute; havia exercido o mandato de deputado estadual em Goi&aacute;s e era suplente de sua segunda legislatura. Ler&eacute;ia tamb&eacute;m se defende dizendo que conseguiu a concess&atilde;o antes de se tornar pol&iacute;tico. Por &quot;direito adquirido&quot;, n&atilde;o poderia ter sua concess&atilde;o retirada. &quot;Eu sou profissional da &aacute;rea&quot;. Ler&eacute;ia transfere as den&uacute;ncias para outra faixa do dial. &quot;O que acontece muito hoje s&atilde;o r&aacute;dios comunit&aacute;rias que conseguem concess&atilde;o, mas que, na verdade, por tr&aacute;s das associa&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m pol&iacute;ticos que interferem e usam a r&aacute;dio&quot;, acusa.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Em seu livro M&iacute;dia, Teoria e Pol&iacute;tica, Ven&iacute;cio de Lima conta que &quot;express&otilde;es como &#39;coronelismo eletr&ocirc;nico&#39; ou &#39;cart&oacute;rios eletr&ocirc;nicos&#39; t&ecirc;m sido freq&uuml;entemente utilizadas para caracterizar a tentativa de pol&iacute;ticos de exercer, por meio da m&iacute;dia que possuem, o controle sobre parte do eleitorado. O resultado &eacute; que o v&iacute;nculo entre as comunica&ccedil;&otilde;es e as elites pol&iacute;ticas, sobretudo regionais e locais, deixou ra&iacute;zes profundas no pa&iacute;s &#8211; e esta &eacute; uma caracter&iacute;stica que certamente vai existir ainda por muitos anos&quot;. <\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Um levantamento de 1994, divulgado no ano seguinte, indicava que 31,12% de todas as emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o no Brasil eram controladas por pol&iacute;ticos. &quot;Existem estados onde &eacute; not&oacute;ria a presen&ccedil;a de pol&iacute;ticos no controle das comunica&ccedil;&otilde;es. S&atilde;o freq&uuml;entemente mencionados: nos estados da Bahia (grupo de Antonio Carlos Magalh&atilde;es); Maranh&atilde;o (Jos&eacute; Sarney); Rio Grande do Norte (Alu&iacute;zio Alves); Sergipe (Albano Franco e Jo&atilde;o Alves); Par&aacute; (Jader Barbalho); Roraima (Inoc&ecirc;ncio Oliveira); S&atilde;o Paulo (Orestes Qu&eacute;rcia) e Paran&aacute; (Paulo Pimentel e Jos&eacute; Carlos Martinez)&quot;, conta Ven&iacute;cio. &quot;Aqui em Bras&iacute;lia h&aacute; casos em que a m&atilde;e do deputado distrital &eacute; a dona da r&aacute;dio &ndash; o Brunelli. O senador brasiliense Paulo Octavio [que renunciou ao Congresso para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Turismo do Distrito Federal] &eacute; o latifundi&aacute;rio local de concess&atilde;o&quot;, diz.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Antonio Carlos Magalh&atilde;es, hoje senador (PFL-BA), era ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es do governo Sarney durante os debates da nova Constitui&ccedil;&atilde;o e um dos grandes interessados em manter o poder da comunica&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Representado na Constituinte pelo seu irm&atilde;o, deputado &Acirc;ngelo Magalh&atilde;es (PFL-BA), por seu filho, deputado Lu&iacute;s Eduardo Magalh&atilde;es (PFL-BA), e tamb&eacute;m pelo ent&atilde;o secret&aacute;rio-geral do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es, R&ocirc;mulo Vilar Furtado, que acompanhou a vota&ccedil;&atilde;o das novas leis ao lado de sua esposa, a ent&atilde;o deputada Rita Furtado, principal articuladora do chamado &#39;grupo das comunica&ccedil;&otilde;es&#39;&rdquo;, conforme lembra o livro Vozes da Democracia.<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Segundo o estudo A legisla&ccedil;&atilde;o sobre as concess&otilde;es na radiodifus&atilde;o, da pesquisadora Anita Simis, publicado em julho de 2006, &quot;n&atilde;o causou espanto, portanto, o fato de a comiss&atilde;o criada pelo Ministro Antonio Carlos Magalh&atilde;es, no in&iacute;cio de outubro de 1985, para examinar poss&iacute;veis irregularidades nas concess&otilde;es feitas no &uacute;ltimo per&iacute;odo do regime militar, ter conclu&iacute;do pela absoluta regularidade de todos os processos. Igualmente n&atilde;o causou surpresa a continua&ccedil;&atilde;o e mesmo o aumento do uso de crit&eacute;rios pol&iacute;ticos e pol&iacute;tico-eleitorais nas concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV. Por exemplo, em setembro de 1988, um m&ecirc;s antes da promulga&ccedil;&atilde;o da nova Constitui&ccedil;&atilde;o, embora um s&oacute; canal de TV tivesse sido anunciado para concess&atilde;o em determinada &aacute;rea geogr&aacute;fica, o presidente [Jos&eacute; Sarney] concedeu quatro canais. A raz&atilde;o foi que, ao inv&eacute;s de apenas um, quatro amigos do presidente estavam concorrendo pela concess&atilde;o. O assessor de imprensa do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es disse publicamente que, na opini&atilde;o do governo, aqueles que mereciam a confian&ccedil;a do ministro e do presidente deveriam ganhar a concorr&ecirc;ncia. O pr&oacute;prio presidente, quando interpelado por rep&oacute;rteres para explicar porque tinha autorizado quatro concess&otilde;es, ao inv&eacute;s de uma, como previsto, disse que tinha sido dif&iacute;cil para ele deixar de atender &agrave;s solicita&ccedil;&otilde;es dos amigos.&quot;<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Entre idas e vindas, desafinos e chiados, o fato &eacute; que at&eacute; hoje h&aacute; espa&ccedil;o para utilizar as concess&otilde;es como moeda pol&iacute;tica para a compra de apoios. Em 1995, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o mesmo decreto que extendeu a licita&ccedil;&atilde;o para concess&otilde;es de r&aacute;dios comerciais excluiu a necessidade de licita&ccedil;&otilde;es para concess&otilde;es de r&aacute;dios educativas. Ainda assim, s&atilde;o obrigadas a passar pelos processos do Congresso. &quot;Na melhor das hip&oacute;teses, o parlamento tem sido conivente&quot;, avalia Ven&iacute;cio de Lima. Na &eacute;poca, o deputado Walter Pinheiro (PT-BA), um dos mais atuantes nas quest&otilde;es de comunica&ccedil;&otilde;es no Congresso, afirmou: &quot;Esse decreto transforma novamente a concess&atilde;o de televis&atilde;o em balc&atilde;o de neg&oacute;cios pol&iacute;ticos, como foi praxe no governo Sarney. Essas concess&otilde;es ferem os princ&iacute;pios constitucionais&quot; .<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Em entrevista &agrave; Ag&ecirc;ncia Brasil, o presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira das Emissoras P&uacute;blicas Educativas e Culturais (Abepec), Jorge da Cunha Lima, considerou que a outorga e a renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es de emissoras p&uacute;blicas ainda s&atilde;o atos pol&iacute;ticos e &quot;de simpatia&quot;. N&atilde;o levam em considera&ccedil;&atilde;o par&acirc;metros cient&iacute;ficos e sociais que requerem uma &quot;observa&ccedil;&atilde;o profunda&quot; de elementos jur&iacute;dicos, pol&iacute;ticos, t&eacute;cnicos e de conte&uacute;do. Mesmo o Poder Executivo andou dando jeitinhos para conceder emissoras sem passar pelo Congresso. Um decreto de 1998 abriu a possibilidade de que retransmissoras virassem geradoras, por um processo interno do Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es. Ven&iacute;cio diz que &quot;s&oacute; agora saiu uma regula&ccedil;&atilde;o que impede isso. Antes, muitos se beneficiaram com isso: existem no Brasil mais de 10 mil retransmissoras&quot; .<\/span><\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>Presidente da subcomiss&atilde;o especial da CCTCI, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) defende a discuss&atilde;o aberta das concess&otilde;es, sob pena &quot;de a C&acirc;mara aprovar concess&otilde;es que ser&atilde;o posteriormente criticadas pela sociedade&quot;. Ela disse acreditar que uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica, criada em parceria com a popula&ccedil;&atilde;o e entidades do setor, dar&aacute; mais seguran&ccedil;a para os deputados aprovarem ou negarem a outorga e renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es &agrave;s emissoras educativas. Para Ven&iacute;cio, &eacute; um come&ccedil;o: &quot;Na subcomiss&atilde;o, de 14 membros, pelo menos a Erundina est&aacute; conseguindo levantar o problema. Esse &eacute; o primeiro passo.&quot;<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span> <\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><em>Andr&eacute; Deak e Daniel Merli s&atilde;o editores da Ag&ecirc;ncia Brasil, membros do Coletivo Intervozes de Comunica&ccedil;&atilde;o Social e dois dos autores do livro-reportagem Vozes da Democracia &#8211; A Hist&oacute;ria da Comunica&ccedil;&atilde;o na Redemocratiza&ccedil;&atilde;o do Brasil.<br \/><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_normal_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;publica&ccedil;&atilde;o autorizada pelos autores.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo menos 80 parlamentares, entre senadores e deputados, s&atilde;o donos de concess&otilde;es p&uacute;blicas de r&aacute;dio e TV, contrariando o que diz a pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o. Quem s&atilde;o eles e por que isso continua assim? &nbsp; Nas &uacute;ltimas semanas veio &agrave; tona um debate sobre a possibilidade de o governo criar uma rede p&uacute;blica de televis&atilde;o, com &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18287\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Coronelismo eletr\u00f4nico ainda impera no Brasil<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[206],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18287"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18287"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18287\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}