{"id":18264,"date":"2007-04-26T12:21:33","date_gmt":"2007-04-26T12:21:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18264"},"modified":"2007-04-26T12:21:33","modified_gmt":"2007-04-26T12:21:33","slug":"por-tras-das-telas-concentracao-em-mercados-rentaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18264","title":{"rendered":"Por tr\u00e1s das telas, concentra\u00e7\u00e3o em mercados rent\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<p>Dada a for&ccedil;a da propaganda dos grandes lan&ccedil;amentos e a import&acirc;ncia relativa que o setor cinematogr&aacute;fico recebe com leis pr&oacute;prias de incentivo, linhas de fomento e apoio de bancos p&uacute;blicos, seria de se esperar que o Brasil tivesse uma estrutura bem desenvolvida, em quantidade e distribui&ccedil;&atilde;o, de salas de cinema, respons&aacute;vel por impulsionar toda a cadeia de produ&ccedil;&atilde;o audiovisual nacional. Mas n&atilde;o &eacute; bem o que ocorre.&nbsp;<\/p>\n<p>No pa&iacute;s eram 2095 salas de cinema at&eacute; o final de 2006, de acordo com dados da Ancine, para aproximadamente 180 milh&otilde;es de brasileiros. Come&ccedil;amos a ter id&eacute;ia do que este n&uacute;mero significa quando, a partir da base do IBGE, descobrimos que menos de 10% dos munic&iacute;pios do pa&iacute;s tem salas, e que nos Estados Unidos, maior mercado, s&atilde;o algo em torno de 37 mil.&nbsp;<\/p>\n<p>A distribui&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o ajuda: 1016 salas, quase 48% do total, est&atilde;o somente nos estados do RJ e de SP. Outros 38% est&atilde;o espalhados entre MG, BA, PE, GO, DF e os estados da regi&atilde;o Sul. Sobram, para os outros 17 Estados do pa&iacute;s, 298 salas. Alguns, como o Amap&aacute;, contam com menos de dez salas, geralmente localizadas na capital e com estrutura muito aqu&eacute;m da dos multiplex ou das salas com som e imagem digitais do Sudeste. V&atilde;o para as telas, por&eacute;m, os mesmos filmes. E os filmes nacionais costumam n&atilde;o passar muito do m&iacute;nimo exigido pela cota de tela.&nbsp;<\/p>\n<p>A concentra&ccedil;&atilde;o de locais de exibi&ccedil;&atilde;o se reflete tamb&eacute;m na distribui&ccedil;&atilde;o das empresas que det&eacute;m as salas, com raras exce&ccedil;&otilde;es. Das onze maiores empresas, respons&aacute;veis por 1100 salas, quatro tem sede em S&atilde;o Paulo, tr&ecirc;s no Rio e uma em Minas Gerais. Aqui come&ccedil;am as exce&ccedil;&otilde;es, com a Arco-&iacute;ris, de Santa Catarina, quinta maior do pa&iacute;s, e a AFA (ES) e a Cinesystem (PR), empatadas em d&eacute;cimo lugar, com 35 salas.&nbsp;<\/p>\n<p>Entre as empresas ainda, a maioria avassaladora est&aacute; localizada nas regi&otilde;es sudeste, detendo 1233 salas, e sul, com 183 salas. As demais salas ou est&atilde;o ligadas a &ldquo;independentes&rdquo;, como salas alternativas e empresas pequenas, diversas ainda no Sudeste e Sul, ou &agrave;s empresas Majestic (GO), com sete salas, Orient (BA), com 19 salas, ou a j&aacute; citada AFA (ES).&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quem s&atilde;o as grandes distribuidoras<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>N&atilde;o bastasse a concentra&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica de salas e empresas, h&aacute; ainda algumas poucas &ldquo;gigantes&rdquo; do ramo no pa&iacute;s. 694 salas estavam nas m&atilde;os de apenas quatro empresas, respectivamente Cinemark, com sede em SP e 321 salas, Grupo Severiano Ribeiro (GSR), com sede no RJ e 164 salas, Grupo UCI, tamb&eacute;m do RJ e com 111 salas, e grupo Moviecom, com sede em SP e 98 salas.&nbsp;<\/p>\n<p>Neste pequeno grupo alguns fatos chamam a aten&ccedil;&atilde;o: UCI e Cinemark s&atilde;o empresas internacionais, a menos de 15 anos no mercado local; GSR e Moviecom tiveram origem em metr&oacute;poles regionais, respectivamente Fortaleza e Botucatu; Todas exibem predominantemente filmes dos grandes est&uacute;dios estadunidenses, investem na digitaliza&ccedil;&atilde;o das salas e em parcerias e outras formas de arrecadar mais capital, at&eacute; para completar o processo de digitaliza&ccedil;&atilde;o. &nbsp;<\/p>\n<p>O Cinemark, que no mundo tem um total de 4506 salas, na maioria no formato multiplex (complexos de salas, geralmente em shopping centers), atua no pa&iacute;s desde 1997, especialmente nas regi&otilde;es Sul e Sudeste e no Distrito Federal, com um total de 38 complexos, a maior parte na regi&atilde;o metropolitana de S&atilde;o Paulo. Tal hegemonia se reflete nos lucros: a empresa divulga ter obtido, em 2006, renda bruta de R$ 330 milh&otilde;es. O setor faturou, no ano passado, R$ 694,9, segundo estimativas do Filme B, entidade privada que recolhe dados e gera estat&iacute;sticas e estudos do setor, independente da Ancine. Para captar recursos o grupo procura este ano lan&ccedil;ar a&ccedil;&otilde;es no mercado, e a assessoria de imprensa do Cinemark alegou que por este motivo n&atilde;o poderia ceder mais detalhes sobre os planos de expans&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n<p>Maior grupo de capital nacional, o Severiano Ribeiro come&ccedil;ou em 1917, em Fortaleza, pra&ccedil;a que logo dominou, expandindo seus neg&oacute;cios para Recife. Com a chegada das distribuidoras americanas no pa&iacute;s, na d&eacute;cada de 1920, o grupo migrou para o Rio de Janeiro, onde se expandiu e come&ccedil;ou uma s&eacute;rie de parcerias, primeiramente com as americanas Metro e Fox Films, nas d&eacute;cadas de 20 e 50, respectivamente, e depois com a Paris Filmes (1987), com o Grupo Esta&ccedil;&atilde;o, com quem administra cinemas em pr&eacute;dios hist&oacute;ricos ou os chamados cinemas de rua, fora de shoppings, no Rio de Janeiro, e em 1997 firmou parceria com a americana UCI, com quem administrava at&eacute; 2006 30 salas. Investindo em sua vers&atilde;o das multiplex, com o selo Kinoplex, o GSR tem utilizado salas com tecnologia digital, uma delas no padr&atilde;o DCI, rec&eacute;m inaugurada em parceria com a UCI.&nbsp;<\/p>\n<p>A exemplo do GSR e do Kinoplex, os executivos da UCI n&atilde;o atenderam nossa reportagem. De capital estadunidense, a empresa opera principalmente atrav&eacute;s da parceria com o GSR, recentemente mobilizando recursos para viabilizar o empreendimento no Rio de Janeiro, onde somente no Norte Shopping ter&atilde;o 2.436 lugares. A empresa det&eacute;m ainda investimentos em outras capitais, como S&atilde;o Paulo, onde tem pouco mais de 20 salas em dois complexos.&nbsp;<\/p>\n<p>A quarta exibidora, a Moviecom, teve um come&ccedil;o um tanto familiar, em Botucatu, fato que seu supervisor, Gustavo Ballarin, coloca com um certo orgulho: at&eacute; o come&ccedil;o dos anos 90, ainda com o nome de Cinematogr&aacute;fica Passos, a empresa foi reestruturada, s&oacute; ent&atilde;o mudando sua estrutura empresarial. Com a mudan&ccedil;a, come&ccedil;aram os investimentos em pra&ccedil;as mais rent&aacute;veis, como S&atilde;o Paulo, mas sem abandonar o foco do grupo: o interior paulista e algumas capitais do Norte e Nordeste, como o complexo que inaugurar&aacute; em Bel&eacute;m este ano.&nbsp;<\/p>\n<p>De Ballarin vem uma constata&ccedil;&atilde;o: &eacute; dif&iacute;cil competir com os estrangeiros: &ldquo;o setor enfrenta uma grande crise desde 2004. Vem da&iacute; uma retra&ccedil;&atilde;o no mercado dos pequenos grupos e uma concentra&ccedil;&atilde;o das salas para os grandes estrangeiros, capazes de investir&rdquo;. Por esta e outras causas, a empresa estuda abrir participa&ccedil;&atilde;o em leis de incentivo fiscal para 2008. Atualmente o grupo investe apenas recursos pr&oacute;prios.&nbsp;<br \/><strong><br \/>Crise, acultura&ccedil;&atilde;o e lucros<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; fato que a &ldquo;crise&rdquo; atinge hoje o setor de forma desigual. De acordo com C&eacute;sar Silva, diretor geral da distribuidora Paramount Brasil, entre 1997 a 2004 o mercado nacional cresceu seguidamente, e o n&uacute;mero de salas mais que dobrou, resultado tamb&eacute;m dos investimentos dos est&uacute;dios estadunidenses, seguindo os lucros crescentes de seus filmes no per&iacute;odo. Em 2005 e 2006 ocorreu algo que para Silva &eacute; uma &ldquo;acomoda&ccedil;&atilde;o&rdquo;, apesar do crescimento de 3,2% do faturamento do setor. Salas foram abertas, mas em ritmo bem menor. Para o primeiro semestre de 2007, por&eacute;m, h&aacute; previs&atilde;o de constru&ccedil;&atilde;o de tantas salas quanto no ano de 2006, especialmente com capital internacional, no que talvez seja um &uacute;ltimo impulso antes dos investimentos na digitaliza&ccedil;&atilde;o dos projetores.&nbsp;<\/p>\n<p>Para o professor e pesquisador Andr&eacute; Piero Gatti, autor do livro A distribui&ccedil;&atilde;o e a exibi&ccedil;&atilde;o na ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica brasileira (1993-2003), de fato o momento &eacute; de crise e n&atilde;o se sabe a real dura&ccedil;&atilde;o da mesma, mas &eacute; natural que haja certa retra&ccedil;&atilde;o depois do investimento feito no setor [entre 1997 e 2004], pois p&uacute;blico n&atilde;o chegou aos patamares esperados pelos planejadores do mercado. &ldquo;Mas a inser&ccedil;&atilde;o [de empresas estrangeiras] no mercado nacional provocou um novo rearranjo do regime de desenvolvimento econ&ocirc;mico do setor. Esta nova realidade reagrupou interesses e modificou h&aacute;bitos anteriormente arraigados. Isto se deu tanto na recep&ccedil;&atilde;o dos filmes quanto nos aspectos de comercializa&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria ind&uacute;stria de produ&ccedil;&atilde;o de filmes&rdquo;, pontua o acad&ecirc;mico.&nbsp;<\/p>\n<p>E aqui a &ldquo;bagun&ccedil;a&rdquo; na legisla&ccedil;&atilde;o ajuda os investimentos, em especial dos produtores de filmes americanos, em distribui&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o. &ldquo;[o caso brasileiro] trata-se de um verdadeiro campo descampado para a inser&ccedil;&atilde;o indiscriminada dos produtos da ind&uacute;stria hegem&ocirc;nica do cinema contempor&acirc;neo. Sobre o fato de haver uma pol&iacute;tica casada entre estes interesses, ela me parece &oacute;bvia, mas n&atilde;o &eacute; alardeada para n&atilde;o provocar a&ccedil;&otilde;es das mais variadas contra estas empresas. Isto porque a lei anti-trust nos EUA n&atilde;o permite tal casamento e outros atos legais impedem que isto tamb&eacute;m seja feito no exterior&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p>Este monop&oacute;lio, pelos motivos j&aacute; colocados, n&atilde;o est&aacute; claro nos contratos, mas nas pr&aacute;ticas comerciais. &ldquo;Homem-Aranha I entrou em mais de 500 salas no Brasil, ocupando quase 1\/3 do total do circuito de exibi&ccedil;&atilde;o. Isto n&atilde;o aconteceria nos EUA, por exemplo. O cinema no Brasil historicamente sempre funcionou como moeda de troca nos acordos comerciais que o pa&iacute;s mantinha com os EUA&rdquo;, completa Gatti.&nbsp;Para a pesquisadora e doutoranda do Prolam\/USP Ignez Gurgel, esta amplia&ccedil;&atilde;o do parque exibidor, cont&iacute;nua desde 1997, exerce um impacto cultural importante, ao mesmo tempo em que representa um acesso maior &agrave;s linguagens audiovisuais.&nbsp; <\/p>\n<p>Para a pesquisadora, &ldquo;os impactos adv&ecirc;m da absor&ccedil;&atilde;o de outra(s) cultura(s), de ser educado por imagens visuais e verbais que narram hist&oacute;rias e que nos educam dentro de um processo de educa&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria e do olhar pela realidade em movimento, que &eacute; o cinema&rdquo;. E completa: &ldquo;o entendimento de um filme se d&aacute; atrav&eacute;s da hist&oacute;ria do filme e a hist&oacute;ria do espectador. &Eacute; nesse intervalo, nesse vazio, que &eacute; constru&iacute;do o significado do filme. A educa&ccedil;&atilde;o visual &eacute; constru&iacute;da em forma, t&eacute;cnica e ideologia, num processo de acultura&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><font size=\"3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/font>Autorizada a publica&ccedil;&atilde;o desde que citada a fonte original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dada a for&ccedil;a da propaganda dos grandes lan&ccedil;amentos e a import&acirc;ncia relativa que o setor cinematogr&aacute;fico recebe com leis pr&oacute;prias de incentivo, linhas de fomento e apoio de bancos p&uacute;blicos, seria de se esperar que o Brasil tivesse uma estrutura bem desenvolvida, em quantidade e distribui&ccedil;&atilde;o, de salas de cinema, respons&aacute;vel por impulsionar toda a &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18264\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Por tr\u00e1s das telas, concentra\u00e7\u00e3o em mercados rent\u00e1veis<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[84],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18264"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18264\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}