{"id":18258,"date":"2007-04-25T12:50:14","date_gmt":"2007-04-25T12:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18258"},"modified":"2007-04-25T12:50:14","modified_gmt":"2007-04-25T12:50:14","slug":"a-tecnologia-como-ferramenta-de-inclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18258","title":{"rendered":"A  tecnologia como ferramenta de inclus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Numa conversa elucidativa, Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia da Funda&ccedil;&atilde;o Get&uacute;lio Vargas e do Creative Commons no Brasil, al&eacute;m de s&oacute;cio-fundador do inovador portal Overmundo, faz uma radiografia completa da nova revolu&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e explica por que ela n&atilde;o ser&aacute; televisionada.<\/em>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por Daniel Benevides<\/em><br \/>&nbsp;<br \/>*&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que &eacute; o Creative Commons?<\/strong><br \/>O Creative Commons &eacute; um modelo de licenciamento, um jeito de um criador intelectual, na internet ou fora dela, de qualquer tipo de obra &ndash; filme, foto, v&iacute;deo &ndash; dizer para a sociedade que ele n&atilde;o se importa com alguns usos da obra. Cabe a cada um escolher quais s&atilde;o esses usos. Um aspecto importante do CC &eacute; ser volunt&aacute;rio, s&oacute; o utiliza quem v&ecirc; sentido nisso. Nesses quatro anos de projeto h&aacute; mais de 145 milh&otilde;es de obras licenciadas em CC. O site www.soundclick.com, por exemplo, tem 300 mil m&uacute;sicas licenciadas em CC. Podem distribu&iacute;-las &agrave; vontade, colocar em rede pier to pier, site, com graus de autoriza&ccedil;&atilde;o que permitem remixar, reconstruir, colocar num filme e at&eacute; vend&ecirc;-las. Um m&uacute;sico, para lan&ccedil;ar um disco, tem de ceder a m&uacute;sica a um intermedi&aacute;rio. Doar todos os seus direitos a uma gravadora. Em troca, ela paga um adiantamento e d&aacute; um percentual sobre a grava&ccedil;&atilde;o do CD. A empresa investe em marketing e vende o produto. Mas a propriedade intelectual fica na m&atilde;o do intermedi&aacute;rio. O CC elimina o intermedi&aacute;rio. &Eacute; err&ocirc;neo pensar que o direito autoral favorece o artista.&nbsp;<br \/><span style=\"font-size: 10pt; color: black; font-family: Arial\"><br \/><\/span><strong>Quando Surgiu o CC?<\/strong><br \/>A partir de 2001, nos EUA. No final da d&eacute;cada de 90, mudou-se a lei americana para proteger o Mickey Mouse. A lei do direito autoral protege qualquer obra por prazo limitado e depois cai em dom&iacute;nio p&uacute;blico. Mickey Mouse caiu em dom&iacute;nio p&uacute;blico em 1998. Por press&atilde;o da Disney e de outras empresas, a lei americana foi mudada, aumentando o prazo de prote&ccedil;&atilde;o de direito autoral por mais vinte anos.&nbsp;A lei foi ent&atilde;o questionada na Justi&ccedil;a dos EUA por Lawrence Lessing e um grupo de advogados como inconstitucional. Perderam, mas, diante da derrota, um n&uacute;mero expressivo de criadores passou a querer jogar com outras regras, e Lessing elaborou a id&eacute;ia do CC, que no in&iacute;cio era um projeto pequeno, apenas nos EUA. O Brasil foi o terceiro pa&iacute;s a aderir, depois do Jap&atilde;o e da Finl&acirc;ndia. Ao final do primeiro ano comemoramos 1 milh&atilde;o de obras licenciadas no CC. Atualmente, o CC est&aacute; em cinq&uuml;enta pa&iacute;ses e tem 145 milh&otilde;es de obras.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O site dominiopublico.gov.br tem a ver com esse movimento?<\/strong><br \/>Tem. O Dom&iacute;nio P&uacute;blico do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o e v&aacute;rios sites governamentais usam o CC. A Ag&ecirc;ncia Brasil, por exemplo, usa a licen&ccedil;a mais abrangente poss&iacute;vel. A &uacute;nica exig&ecirc;ncia &eacute; o cr&eacute;dito.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que ganha o autor que utiliza a licen&ccedil;a CC? Al&eacute;m da veicula&ccedil;&atilde;o, visibilidade, como ele pode viver da arte se n&atilde;o a vende?<\/strong><br \/>A transforma&ccedil;&atilde;o do modelo dos neg&oacute;cios que envolve a cultura passa pelo modelo CC. Fala-se em web colaborativa, Web 2.0, que &eacute; s&oacute; uma ponta do iceberg de uma transforma&ccedil;&atilde;o muito mais profunda, em que teremos novos modelos de neg&oacute;cio. Por exemplo, em m&uacute;sica est&aacute; cada vez mais claro que o artista n&atilde;o ganha dinheiro com a venda de CD. Seja Gilberto Gil, Caetano ou um artista independente. Os independentes gravam um CD, imprimem 5 mil c&oacute;pias e n&atilde;o vendem nada porque n&atilde;o conseguem distribuir. Marcelo Camelo (Los Hermanos) disse que o primeiro &aacute;lbum do grupo (Ana J&uacute;lia) vendeu 250 mil c&oacute;pias, quando a banda n&atilde;o era ningu&eacute;m, e o segundo vendeu absurdamente menos. Eles continuam com muito sucesso e a venda de CDs nunca foi t&atilde;o pequena. Um sintoma claro disso &eacute; o fechamento das lojas de CDs.&nbsp;Para sobreviver, qualquer artista precisa construir uma rela&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico. Para isso, tem de ser visto, ouvido, tem de divulgar seu trabalho. O americano Tim O&rsquo;Reilly (criador do conceito Web 2.0) diz que a pirataria &eacute; melhor que o anonimato. E ele tem raz&atilde;o. Uma vez que o modelo de neg&oacute;cios definitivo ainda n&atilde;o surgiu, fica a constata&ccedil;&atilde;o de que &eacute; preciso construir uma rela&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico para ser vi&aacute;vel &nbsp;economicamente. A verdadeira m&uacute;sica brasileira, que est&aacute; sendo ouvida no pa&iacute;s, n&atilde;o &eacute; mais distribu&iacute;da pela Sony, BMG, Warner e Universal, est&aacute; sendo distribu&iacute;da autonomamente. Como &eacute; o caso da Banda Calypso, que vende os CDs em camel&ocirc;s e, com isso, atinge o Brasil inteiro.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E qual &eacute; o retorno que eles t&ecirc;m?<\/strong><br \/>O camel&ocirc; &eacute; um meio de divulga&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o rende um tost&atilde;o, mas, em compensa&ccedil;&atilde;o, em qualquer lugar que fizerem show ganham dinheiro. Hoje acontece a multiplica&ccedil;&atilde;o de modelos de neg&oacute;cios, os ringtones de celular, os DVDs, licenciamentos, shows, DJ sets. A mistura desses modelos &eacute; o que d&aacute; sustentabilidade econ&ocirc;mica para os artistas. E o compartilhamento da obra n&atilde;o afeta praticamente nenhum desses novos modelos de neg&oacute;cios.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Isso em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&uacute;sica e em rela&ccedil;&atilde;o a outras m&iacute;dias?<\/strong><br \/>O mercado de audiovisual tem pluralidade de vis&otilde;es. Como competir com Hollywood, que det&eacute;m 85% do mercado mundial de cinema? Poucos pa&iacute;ses tem produ&ccedil;&atilde;o local para competir, China, Cor&eacute;ia, &Iacute;ndia e Nig&eacute;ria &ndash; maior produtor de filmes do mundo. O cinema nigeriano surgiu na periferia, &eacute; distribu&iacute;do pelo camel&ocirc; e produz 1.200 filmes por ano, enquanto os EUA produzem cerca de 600 e a &Iacute;ndia 900. S&atilde;o filmes de hist&oacute;rias e atores locais, vendidos em DVDs. N&atilde;o existe cinema na Nig&eacute;ria, mas as pessoas t&ecirc;m aparelhos de DVD como na periferia do Brasil &ndash; na Cidade de Deus, na Rocinha&#8230; No final da d&eacute;cada de 90, quando o mercado estava numa fase pr&eacute;-evolutiva, os filmes eram vendidos em cestos no sinal de tr&acirc;nsito. Eram de vinte a trinta lan&ccedil;amentos por semana. H&aacute; quatro feiras de audiovisual semanalmente na Nig&eacute;ria em que lan&ccedil;am os filmes novos.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica compete com a televis&atilde;o na Nig&eacute;ria?<br \/><\/strong>Compete. As pessoas perguntam como fazer isso no Brasil, se temos a Globo e seu padr&atilde;o de qualidade? A Nig&eacute;ria compra as novelas da Globo e tamb&eacute;m exibe no hor&aacute;rio nobre; e a qualidade t&eacute;cnica dos filmes nigerianos est&aacute; subindo de forma impressionante, porque a tecnologia se barateia, filmam em alta defini&ccedil;&atilde;o. Os nigerianos nos disseram que Hollywood usa uma tecnologia obsoleta, que &eacute; o celul&oacute;ide, e n&atilde;o consegue se livrar dele porque tem de obedecer &agrave;s regras dos lobbies. As telas do futuro ser&atilde;o cada vez menores, vamos assistir a filmes num dispositivo port&aacute;til; o cinema vai continuar existindo, mas ser&aacute; o lugar em que o menor n&uacute;mero de pessoas ver&aacute; filmes. E, quando sua tela &eacute; pequena, n&atilde;o interessa se seu filme foi filmado por uma Panavision 90mm ou c&acirc;mera de celular, a qualidade e a defini&ccedil;&atilde;o de imagem s&atilde;o as mesmas.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas continua sendo cinema?<\/strong><br \/>&Eacute; uma grande quest&atilde;o. Falei do cinema nigeriano para um conhecido documentarista brasileiro e ele me disse: &ldquo;N&atilde;o &eacute; cinema, &eacute; outra coisa&rdquo;. Em um texto de 1969, Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, escreve que o verdadeiro cinema s&oacute; vai surgir quando as periferias descobrirem o acesso t&eacute;cnico aos meios de produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fico e come&ccedil;arem a contar as pr&oacute;prias hist&oacute;rias. Ent&atilde;o, a defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; &nbsp;cinema &eacute; pol&iacute;tica. Quando se diz que o nigeriano n&atilde;o &eacute; cinema se est&aacute; favorecendo o modelo que precisa de US$ 7 milh&otilde;es para ser produzido, com celul&oacute;ide, com distribui&ccedil;&atilde;o em sala, DVD e televis&atilde;o, mantendo o estado de coisas da ind&uacute;stria do audiovisual.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Com as afirma&ccedil;&otilde;es de Langlois, o exemplo da Nig&eacute;ria e a for&ccedil;a da periferia no Brasil, &eacute; &nbsp;poss&iacute;vel uma mudan&ccedil;a?<\/strong><br \/>Esperamos. Estamos investigando modelos de produ&ccedil;&atilde;o nigeriano para trazer ao Brasil. O pessoal da Cidade de Deus produz audiovisual, tem seus filmes vistos por cem, duzentas pessoas, com tr&ecirc;s, quatro c&oacute;pias em DVD e apenas passavam em festivais. N&atilde;o tinham pensando em uma parceria com um pirateiro. Estavam fazendo filmes aos quais a pr&oacute;pria comunidade n&atilde;o tinha acesso porque passavam em Ipanema.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E o que tudo isso tem a ver com o CC?<br \/><\/strong>Cac&aacute; Diegues disse que &eacute; importante para qualquer pa&iacute;s possuir uma filmografia permanente, documentando espa&ccedil;os hist&oacute;ricos, geogr&aacute;ficos, arquitet&ocirc;nicos. Se a justificativa que legitima o sistema atual de cinema n&atilde;o &eacute; fomentar uma ind&uacute;stria, mas realizar uma filmografia permanente, ent&atilde;o a quest&atilde;o do acesso &eacute; fundamental. Se o filme j&aacute; nasce pago, com dinheiro p&uacute;blico, o que justifica ser restrito e explorado num regime comercial que pouqu&iacute;ssimas pessoas v&ecirc;em? Por que n&atilde;o criar um regime em que, por exemplo, o filme tenha um tempo de explora&ccedil;&atilde;o comercial e depois seja licenciado em CC, fique dispon&iacute;vel online, fomentando m&iacute;dias novas?&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como no Brasil pouca gente ainda tem acesso &agrave; internet, esse n&atilde;o &eacute; um trabalho que deveria ser feito junto com a inclus&atilde;o digital?<\/strong><br \/>Tem de cuidar da inclus&atilde;o digital e do acesso ao conte&uacute;do ao mesmo tempo. A inclus&atilde;o digital vai acabar acontecendo. No ano passado pela primeira vez se vendeu computador tanto quanto televis&atilde;o no Brasil, 10 milh&otilde;es. Tamb&eacute;m foi o primeiro na hist&oacute;ria do Brasil em que se venderam mais computadores legais do que ilegais, gra&ccedil;as ao programa PC Conectado. O grande risco &eacute; o regime de acesso ao conte&uacute;do n&atilde;o avan&ccedil;ar em nada. H&aacute; quatro requisitos para que a tecnologia seja efetivamente uma ferramenta de transforma&ccedil;&atilde;o social: conte&uacute;do livre, que &eacute; o objetivo do CC; o software livre; espectro livre, que &eacute; o espectro radioel&eacute;trico; e hardware livre que s&atilde;o aparelhos que obedecem &agrave;s ordens do usu&aacute;rio. Por exemplo: o projeto de TV digital do Brasil est&aacute; discutindo a implementa&ccedil;&atilde;o de um sistema autom&aacute;tico de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; c&oacute;pia do conte&uacute;do. Na pr&aacute;tica significa acabar com a tecla REC do videocassete. A TV digital vai criptografar o sinal de modo que quem quiser gravar a programa&ccedil;&atilde;o vai precisar pedir uma permiss&atilde;o especial e at&eacute; pagar.&nbsp;A experi&ecirc;ncia mais importante de inclus&atilde;o digital no Brasil n&atilde;o veio do Estado, mas da sociedade. O lugar onde as pessoas acessam computador &eacute; na lan house. Na Rocinha hoje h&aacute; pelo menos cinq&uuml;enta; na Cidade de Deus, vinte; em Copacabana, quarenta. &Eacute; um fen&ocirc;meno que nasce de baixo para cima gra&ccedil;as ao &nbsp;empreendedorismo isolado. Nelas, uma hora de acesso &agrave; internet ou a jogos custa de R$ 0,50 a R$ 1,50 e, mesmo pagas, s&atilde;o mais cheias do que os locais dos programas do governo de acesso &agrave; internet. Porque na lan house pode acessar Orkut, Flog&atilde;o, Fotolog, e no telecentro, n&atilde;o. A &uacute;ltima pesquisa do Ibope com a NetRatings constatou que dos 6 milh&otilde;es de pessoas que acessam a Internet de lugares p&uacute;blicos no Brasil, 1,6milh&atilde;o s&atilde;o de lugares governamentais, 4,4 milh&otilde;es s&atilde;o das lan houses.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A periferia est&aacute; on-line?<\/strong><br \/>No Orkut h&aacute; a comunidade do Complexo do Alem&atilde;o. O fotolog do pessoal pobre &eacute; o Flog&atilde;o. Eles t&ecirc;m email, MP3 player e carregam as m&uacute;sicas na lan house. Falta algu&eacute;m aproveitar o potencial que isso tem para a cidadania, servi&ccedil;os p&uacute;blicos&#8230;&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O governo?<\/strong><br \/>Governo, ONGs, de forma n&atilde;o &ldquo;intrusiva&rdquo;, &eacute; claro. Nas lan houses da Rocinha, por exemplo, muita gente da comunidade procura por curso para aprender a mexer em computador. Por que n&atilde;o aproveitar para a cidadania, curso, reuni&atilde;o de bairro etc?&nbsp;O Commons &eacute; a ferramenta jur&iacute;dica para reconstruir o que essas mudan&ccedil;as da propriedade intelectual nos &uacute;ltimos quinze anos desconstru&iacute;ram, o aspecto colaborativo da cultura. E h&aacute; esse outro tipo de Commons que j&aacute; existe na sociedade, pronto e operando em regime de compartilhamento, que s&atilde;o a m&uacute;sica que emerge das periferias, o cinema nigeriano, os fen&ocirc;menos de empreendedorismo solid&aacute;rio, como as lan houses. &Eacute; uma discuss&atilde;o &uacute;nica, em que o jur&iacute;dico e o social s&atilde;o indissoci&aacute;veis, com o objetivo de dar autonomia para a sociedade se tornar produtora de cultura, informa&ccedil;&atilde;o. Esse tipo de atividade abre um novo tipo de sociedade, na qual a barreira entre produ&ccedil;&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o de cultura foi por terra, e isso tem conseq&uuml;&ecirc;ncias brutais para a democracia, para a id&eacute;ia de governabilidade, de Estado. Tudo isso est&aacute; sendo posto em xeque e, do meu ponto de vista, de uma forma transformadora positiva. Meu discurso parece otimista, mas vejo toda essa &nbsp;possibilidade ser abortada, pois os interesses que ser&atilde;o abalados nesse processo est&atilde;o atacando com toda a for&ccedil;a.&nbsp;Tenho a impress&atilde;o de que a tecnologia vence quando d&aacute; lucro aos grandes meios de produ&ccedil;&atilde;o. At&eacute; os anos 80, a tecnologia vencia os detentores de conte&uacute;do, a partir da d&eacute;cada de 90 a situa&ccedil;&atilde;o se inverte. O caso Napster versus ind&uacute;stria musical &ndash; Napster perde. O caso dos DRMs da Apple &ndash; por enquanto a Apple est&aacute; ganhando. E por a&iacute; vai. &nbsp;Uma das formas de controlar o conte&uacute;do &eacute; usar tecnologia que diz &agrave;s pessoas o que elas podem ou n&atilde;o fazer. Um arquivo de m&uacute;sica comprado na loja da Apple s&oacute; toca no iPod, que &eacute; da Apple. Se o tocador for da Microsoft ou gen&eacute;rico, n&atilde;o toca. Ent&atilde;o existe um problema que chama interoperabilidade. Se comprar uma m&uacute;sica no UOL, n&atilde;o consegue ouvi-la no iPod, porque ela s&oacute; toca no player compat&iacute;vel com a Microsoft. &Eacute; uma compartimentaliza&ccedil;&atilde;o de mercados. Voc&ecirc; pode dizer: &ldquo;Quebro essa medida tecnol&oacute;gica, transformo a m&uacute;sica em MP3 e toco onde quiser&rdquo;. Em 1999 foi aprovada uma lei nos EUA que criminaliza a quebra dessa medida de prote&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. Mais uma derrota. A Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira da Propriedade Intelectual quer que o Brasil fa&ccedil;a o mesmo.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estar&iacute;amos vivendo sob uma esp&eacute;cie de tirania das grandes corpora&ccedil;&otilde;es?<\/strong><br \/>Trata-se de um lobby bem organizado e hist&oacute;rico. Hollywood e a ind&uacute;stria musical est&atilde;o entre os maiores lobbies americanos, provavelmente compar&aacute;veis aos das armas e do tabaco. E n&atilde;o h&aacute; institui&ccedil;&atilde;o organizada que represente os interesses coletivos.&nbsp;<br \/><strong><br \/>Voc&ecirc; n&atilde;o v&ecirc; esse movimento do CC ou similares quebrando essa barreira?<\/strong><br \/>N&atilde;o. O pr&oacute;prio movimento CC corre perigo. A Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Propriedade Intelectual est&aacute; &nbsp;discutindo o Tratado de Radiodifus&atilde;o, que cria um meta direito autoral, que &eacute; dado ao transmissor da informa&ccedil;&atilde;o. Isso &eacute; de interesse das cadeias de televis&atilde;o, por exemplo, e destr&oacute;i o CC. Imagine que lhe envio uma obra licenciada em CC. Se ela for transmitida, de alguma forma, o transmissor adquire o direito sobre ela, reprivatiza.&nbsp;Tudo isso sugere que a economia da cultura pol&iacute;tica tem um poder transformador&#8230;A dimens&atilde;o econ&ocirc;mica da cultura sempre foi menosprezada. H&aacute; quatro ou cinco anos a id&eacute;ia de economia da cultura come&ccedil;ou a se manifestar com mais for&ccedil;a e talvez seja a que tem maior potencial de transforma&ccedil;&atilde;o social.A cultura leva ao colaborativismo, fomenta outros tipos de rela&ccedil;&atilde;o social e econ&ocirc;mica e a educa&ccedil;&atilde;o. Ao fomentar atividades que envolvem economia da cultura, fomenta-se autonomia informacional, autodidatismo. Qualquer programa de inclus&atilde;o digital mostra que as crian&ccedil;as aprendem a usar o computador em menos de dez minutos. A liga&ccedil;&atilde;o entre a economia da cultura, colaborativismo, mais revolu&ccedil;&atilde;o educacional pela autonomia informacional &eacute; o coquetel transformador. Se fosse respons&aacute;vel por pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, faria uma revolu&ccedil;&atilde;o pela informa&ccedil;&atilde;o.&nbsp;A &uacute;nica possibilidade econ&ocirc;mica que o Brasil tem de se inserir no mercado global de forma competitiva &eacute; por meio da revolu&ccedil;&atilde;o informacional. O pa&iacute;s hoje tem condi&ccedil;&otilde;es de competir no mercado de novas m&iacute;dias.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E o programa de Pontos de Cultura?<\/strong><br \/>&Eacute; um dos poucos programas p&uacute;blicos no mundo que conjuga essa id&eacute;ia da tecnologia digital como forma de emancipa&ccedil;&atilde;o de comunidades locais. O CC est&aacute; dentro dos princ&iacute;pios que criaram o Ponto de Cultura. A maioria das pessoas nos Pontos de Cultura ouve falar no CC antes de ouvir falar em direito autoral. As produ&ccedil;&otilde;es dos Pontos de Cultura est&atilde;o sendo licenciadas em CC. Em Salvador eles gravam os jovens m&uacute;sicos locais, todos CC, e vendem o CD no sinal, igual na Nig&eacute;ria, &ldquo;Eletrocooperativa &ndash; CC&rdquo;. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>E a experi&ecirc;ncia de Olinda, que &eacute; tida como um exemplo?<\/strong><br \/>Olinda &eacute; um caso muito bacana, mas foi submetido a uma intemp&eacute;rie pol&iacute;tica, o secret&aacute;rio de Cultura saiu e o projeto morreu, embora a base social do projeto permane&ccedil;a. A id&eacute;ia era ressaltar cinco &aacute;reas de cultura &ndash; festas populares, teatro popular, m&uacute;sica, patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico e artes pl&aacute;sticas &ndash; e bombardear esse conte&uacute;do on-line a partir de licen&ccedil;as livres, criar lugares e produtos culturais que pudessem ser compartilhados, dando visibilidade para a cidade. Olinda e Recife ainda s&atilde;o os pontos mais fortes do pa&iacute;s em se tratando de colaborativismo. H&aacute; bandas licenciando m&uacute;sicas, pessoas criando conte&uacute;dos livres e colocando on-line.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como &eacute; o di&aacute;logo com o governo federal, com o ministro da Cultura?<\/strong><br \/>Com o Minist&eacute;rio da Cultura, o melhor dos di&aacute;logos. No New York Times saiu uma mat&eacute;ria em mar&ccedil;o com o t&iacute;tulo &ldquo;Gilberto Gil v&ecirc; o futuro e ele &eacute; CC&rdquo;. A reportagem mostra a alian&ccedil;a dele com o CC e como ele enxerga a ind&uacute;stria cultural e a propriedade intelectual. A rela&ccedil;&atilde;o com o minist&eacute;rio &eacute; a melhor poss&iacute;vel, mas ainda h&aacute; o que fazer. H&aacute; v&aacute;rias iniciativas e &aacute;reas em que o governo federal vem trabalhando que n&atilde;o s&atilde;o ligadas especificamente ao Minist&eacute;rio da Cultura e t&ecirc;m potencial de desenvolvimento de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que estimulam a autonomia cultural.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E em termos educacionais?<\/strong><br \/>Hoje a escola enfrenta o desafio de integrar o sistema educacional de origem greco-germ&acirc;nica &agrave;s tecnologias digitais novas, que p&otilde;em tudo &agrave; prova. &Eacute; fundamental, poss&iacute;vel e barato ligar a escola. &Eacute; s&oacute; querer.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Gostaria que voc&ecirc; explicasse o 2.0, que tem a ver com a Wikipedia, e apresentasse o projeto Overmundo.<\/strong><br \/>A Wikipedia &eacute; um exemplo de que &eacute; poss&iacute;vel milhares de pessoas descentralizadas, colaborando &nbsp;individualmente, conceberem um trabalho gigantesco. A Wikipedia empata com a Enciclop&eacute;dia Brit&acirc;nica em n&uacute;mero de erros. A vantagem da Wikipedia &eacute; que toda p&aacute;gina &eacute; atrelada a uma lista de discuss&atilde;o. A cr&iacute;tica vem do americano Jeroen Wijering, que diz que ela empobrece a informa&ccedil;&atilde;o na medida em que retira a autoria, pois &ldquo;a autoria &eacute; informa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Um artigo da Brit&acirc;nica assinado por um Pr&ecirc;mio Nobel d&aacute; uma respeitabilidade quanto &agrave; origem. Isso realmente &eacute; um problema.&nbsp;A Web 2.0, que &eacute; uma f&oacute;rmula inventada pelo americano Tim O&rsquo;Reilly, s&atilde;o ferramentas que possibilitam que o cidad&atilde;o se torne um rep&oacute;rter, o moleque se torne um fot&oacute;grafo, um m&uacute;sico se torne um jornalista musical, e por a&iacute; vai. O Overmundo &eacute; um projeto de Web 2.0 que tem a miss&atilde;o de funcionar como ferramenta para a emerg&ecirc;ncia da cultura brasileira em todos os seus aspectos geogr&aacute;ficos, em toda a sua complexidade e diversidade. &Eacute; uma miss&atilde;o ambiciosa, mas espec&iacute;fica.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E quem controla? Como funciona na pr&aacute;tica?<\/strong><br \/>&Eacute; a pr&oacute;pria comunidade do Overmundo quem decide o que &eacute; publicado ou n&atilde;o. Cem por cento do conte&uacute;do &eacute; gerado pelos usu&aacute;rios. Eles t&ecirc;m todos os recursos para publicar, por exemplo, um texto jornal&iacute;stico, podendo ilustr&aacute;-lo com m&uacute;sica, foto, &aacute;udio, filme&#8230; Criamos um sistema de vota&ccedil;&atilde;o em que a comunidade vota no que deve ser publicado. Todo conte&uacute;do que entra no Overmundo vai para a &ldquo;fila de edi&ccedil;&atilde;o&rdquo;, onde por 48 horas recebe sugest&otilde;es. Passadas as 48 horas, o conte&uacute;do vai para a &ldquo;fila de vota&ccedil;&atilde;o&rdquo; e, por mais 48 horas, fica &agrave; espera de receber votos de quem gostou.&nbsp;<br \/><span style=\"font-size: 10pt; color: black; font-family: Arial\"><br \/><\/span><strong>H&aacute; iniciativas semelhantes em outros pa&iacute;ses?<\/strong><br \/>N&atilde;o. O Overmundo tem um aspecto simb&oacute;lico muito importante e resolve o problema de a cultura brasileira estar muito centrada em Rio e S&atilde;o Paulo. Para esses estados a cultura do resto do Brasil n&atilde;o interessa. O que &eacute; de fora do eixo &eacute; ex&oacute;tico, diferente ou irrelevante. O Overmundo p&otilde;e em igualdade de condi&ccedil;&otilde;es quem est&aacute; publicando em S&atilde;o Paulo e no Acre. E o n&uacute;mero de colabora&ccedil;&otilde;es fora do eixo Rio&ndash;S&atilde;o Paulo &eacute; muito maior. Chego a suspeitar que a id&eacute;ia colaborativa funciona melhor nos lugares em que as circunst&acirc;ncias socioecon&ocirc;micas s&atilde;o mais dif&iacute;ceis. Hoje, com um ano de projeto, h&aacute; 12 mil usu&aacute;rios ativos, que contribuem com artigos. Os que l&ecirc;em o Overmundo chegam a 17 mil por dia e temos notado um crescimento consistente, desde o primeiro m&ecirc;s, de 20%. &Eacute; uma nova forma de se relacionar com a cultura jovem. O Overmundo faz o seu papel.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>publica&ccedil;&atilde;o autorizada <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_normal_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;\u00c9 um erro pensar que o direito autoral, como existe hoje, favorece o artista&#8221; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[176],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18258"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=18258"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/18258\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=18258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=18258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=18258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}