{"id":18246,"date":"2007-04-24T14:58:51","date_gmt":"2007-04-24T14:58:51","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=18246"},"modified":"2007-04-24T14:58:51","modified_gmt":"2007-04-24T14:58:51","slug":"o-efeito-domino-das-imagens-do-massacre-de-blackburg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=18246","title":{"rendered":"O efeito-domin\u00f3 das imagens do massacre de Blackburg"},"content":{"rendered":"<p><span>A imprensa noticiou &ndash; sem muita &ecirc;nfase, &eacute; verdade &ndash; que professores norte-americanos v&ecirc;m fazendo s&eacute;rias ressalvas &agrave; cobertura televisiva do massacre na universidade da V&iacute;rg&iacute;nia. Consideram que a dissemina&ccedil;&atilde;o livre ou &quot;descontrolada&quot; das imagens do acontecimento poderia suscitar novos comportamentos an&ocirc;micos dessa mesma natureza, uma esp&eacute;cie de efeito-domin&oacute; da cat&aacute;strofe.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; dif&iacute;cil estabelecer rela&ccedil;&otilde;es de causa e efeito quando se trata da coexist&ecirc;ncia do mundo virtual com a realidade s&oacute;cio-hist&oacute;rica, mas o fato &eacute; que a na&ccedil;&atilde;o norte-americana, ainda traumatizada pelo massacre na Virg&iacute;nia, assistiu quatro dias depois ao epis&oacute;dio do engenheiro espacial da Nasa que se entrincheirou num pr&eacute;dio, em Houston, para fazer dois ref&eacute;ns, matar um deles e se suicidar. Na verdade, segundo os jornais, este foi apenas o caso mais grave de um dia marcado por amea&ccedil;as de bombas e de ataques a tiros contra escolas em Nova York, Nova Jersey, Minnesota, Calif&oacute;rnia, Washington, Arizona e Texas.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>O temor quanto ao efeito-domin&oacute; parece, assim, ter alguma raz&atilde;o de ser. H&aacute; algum tempo, a pesquisadora francesa Marie-Jos&eacute; Mondzain, indagando-se sobre a possibilidade de que um crime tenha encontrado o seu modelo nas fic&ccedil;&otilde;es audiovisuais, dizia que, em sua realidade sens&iacute;vel e suas opera&ccedil;&otilde;es ficcionais, as imagens &quot;se colocam a meio-caminho das coisas e dos sonhos, num entre-mundo, um quase-mundo, onde se disp&otilde;em talvez as nossas servid&otilde;es e as nossas liberdades&quot;.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>&quot;Ponto de exist&ecirc;ncia&quot;<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Situar-se a meio caminho entre a representa&ccedil;&atilde;o e o real &eacute; propriamente a condi&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia contempor&acirc;nea, onde tudo &eacute; da ordem do quase: quase-presen&ccedil;a, quase-verdade, quase-real e, por que n&atilde;o, quase-mente. O conceito acad&ecirc;mico de quase-mente parece materializar-se na tecnologia avan&ccedil;ada da comunica&ccedil;&atilde;o, constitu&iacute;da por m&aacute;quinas de computar e de representar.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Uma hip&oacute;tese instigante para isso tudo &eacute; a do sistema nervoso central funcionando fora do corpo humano. Algo parece &quot;pensar&quot; fora da subjetividade cl&aacute;ssica (tanto a televis&atilde;o quanto a inform&aacute;tica operam processos din&acirc;micos, an&aacute;logos a opera&ccedil;&otilde;es mentais), ao mesmo tempo em que se organiza uma realidade feita de imagens t&aacute;teis, capazes de repetir com verossimilhan&ccedil;a as rotinas do cotidiano tradicional e, assim, produzir uma forte sensa&ccedil;&atilde;o de realidade.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Por esse caminho de uma humanidade artificial se orienta o padr&atilde;o comunicacional em que a imers&atilde;o &ndash; envolvimento dos sentidos na simula&ccedil;&atilde;o de um ambiente tridimensional &ndash; do indiv&iacute;duo &eacute; a regra principal. Trata-se de algo mais do que um mero tecnicismo do contato entre a m&iacute;dia e seu p&uacute;blico. &Eacute; uma absor&ccedil;&atilde;o que leva o indiv&iacute;duo a viver virtualmente no espa&ccedil;o imaterial das redes de informa&ccedil;&atilde;o, teleguiado pelo mercado. Mais do que simplesmente visual, o contato que se estabelece &eacute; t&aacute;til, entendido como intera&ccedil;&atilde;o dos sentidos a partir de imagens simuladoras do mundo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Vem da&iacute; a sensa&ccedil;&atilde;o de se ocupar um ponto qualquer numa ambi&ecirc;ncia ou numa &quot;paisagem&quot; feita de &quot;mat&eacute;ria&quot; audiovisual ou de compress&atilde;o num&eacute;rica em alt&iacute;ssima velocidade. Esta &eacute; a id&eacute;ia do &quot;ponto de exist&ecirc;ncia&quot; (em vez do &quot;ponto de vista&quot;), que permitiria ao indiv&iacute;duo encontrar uma posi&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica em meio aos sentidos tecnologicamente prolongados.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Efeito da falta de conviv&ecirc;ncia<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A sociedade norte-americana &eacute; aquela que, em nossa contemporaneidade, mais se aproxima dessa descri&ccedil;&atilde;o de uma realidade recoberta por m&iacute;dia e mercado. E tal modelagem tecnol&oacute;gica do mundo n&atilde;o &eacute; imperme&aacute;vel, muito pelo contr&aacute;rio, &agrave;s caracter&iacute;sticas hist&oacute;ricas e psicossociais de constitui&ccedil;&atilde;o do povo norte-americano &ndash; um povo de guerreiros e comerciantes, com aspira&ccedil;&otilde;es hegem&ocirc;nicas sobre o resto do mundo. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A instila&ccedil;&atilde;o coletiva do medo (tida por Hobbes como a emo&ccedil;&atilde;o fundamental) ao Outro (seja o estrangeiro ou o vizinho) faz parte de estrat&eacute;gias contempor&acirc;neas de controle de comportamentos que baseiam seus recursos ret&oacute;ricos na cultura da velha propaganda pol&iacute;tica. S&atilde;o claros exemplos disto os filmes de cat&aacute;strofe norte-americanos, assim como toda uma literatura de grande consumo voltada para a acentua&ccedil;&atilde;o parox&iacute;stica dos temores sociais e, ao mesmo tempo, o culto &agrave;s armas que, nos Estados Unidos, se associa &agrave; viol&ecirc;ncia f&iacute;sica e mental.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A ret&oacute;rica do bode expiat&oacute;rio (cuja fonte de conhecimento mais antiga &eacute; o Lev&iacute;tico, no Antigo Testamento), isto &eacute;, a inven&ccedil;&atilde;o de algu&eacute;m a quem se atribuam as culpas latentes e manifestas no grupo social, &eacute; atual&iacute;ssima para os grandes demagogos no mundo inteiro, mas &eacute; um mecanismo forte nos Estados Unidos, onde a extrema-direita elege como alvos os cidad&atilde;os n&atilde;o-brancos, em especial negros e hisp&acirc;nicos. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Nada impede, por&eacute;m, o reverso da moeda, ou seja, que a minoria constitua objetos idealizados (a plenitude da cidadania branca, o para&iacute;so artificial do campus escolar etc.) como objeto coletivo da expia&ccedil;&atilde;o. Este &uacute;ltimo &eacute; investido por emo&ccedil;&otilde;es negativas, de modo a que se configure como um &quot;Outro&quot; em que se cristaliza a incerteza ou o Mal. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>A viol&ecirc;ncia &eacute; o efeito natural da falta de conviv&ecirc;ncia (a democracia define-se a&iacute; como o respeito jur&iacute;dico &agrave;s diferen&ccedil;as, mas n&atilde;o como aproxima&ccedil;&atilde;o real entre elas) entre os numerosos grupos diferenciados, em geral conotados como guetos.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O cont&aacute;gio &quot;vir&oacute;tico&quot; das imagens<\/strong><\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>Cho Seung-Hui, o autor do massacre na Virg&iacute;nia, era filho de coreanos, logo, membro de um grupo existencialmente guetificado, embora juridicamente respeitado. A imprensa pode represent&aacute;-lo como psic&oacute;tico, mas tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel conceb&ecirc;-lo, al&eacute;m da hip&oacute;tese de psicopatia, como uma presa do sofrimento t&iacute;pico de algu&eacute;m cujas &uacute;nicas identifica&ccedil;&otilde;es reais se fazem com a m&iacute;dia. Seu &quot;ponto de exist&ecirc;ncia&quot; transportava-o da incomunica&ccedil;&atilde;o do gueto &agrave; comunicabilidade livre das imagens ficcionais dos videogames e da televis&atilde;o. <\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><span>&Eacute; poss&iacute;vel que se visse como um loser (perdedor), e nada pior do que isto numa sociedade em que m&iacute;dia e mercado divide o mundo entre perdedores e vencedores. A arma f&aacute;cil, ao alcance da m&atilde;o na esquina mais pr&oacute;xima, &eacute; o argumento extremo.<\/span><span>&nbsp;<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\"><span>&Eacute; certo que, como frisamos, tudo isso diz respeito aos tra&ccedil;os da sociedade norte-americana. Mas no tocante ao cont&aacute;gio &quot;vir&oacute;tico&quot; das imagens televisivas, ou mesmo &agrave; cobertura sensacionalista dos jornais, vale a pena come&ccedil;armos a botar as barbas de molho. J&aacute; se vem observando que comportamentos violentos ocorridos no Rio de Janeiro e transmitidos tais e quais pela m&iacute;dia instant&acirc;nea s&atilde;o replicados com a mesma crueza por parte de pequenos marginais em outras cidades do pa&iacute;s.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p><span>&nbsp;<\/span><span>&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/politica_publicacoes\/c_invertido_pq.png\" alt=\"Active Image\" width=\"15\" height=\"15\" \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imprensa noticiou &ndash; sem muita &ecirc;nfase, &eacute; verdade &ndash; que professores norte-americanos v&ecirc;m fazendo s&eacute;rias ressalvas &agrave; cobertura televisiva do massacre na universidade da V&iacute;rg&iacute;nia. 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